A alma inquieta do Pretenders

Líder da banda inglesa que toca em festival de Brasília, Chrissie Hynde diz que as mulheres estão decepcionando

João Bernardo Caldeira

Chrissie Hynde

Chrissie Hynde no show gravado  para o DVD: 'Quem quiser agressividade, deve procurar uma banda de garotos de 20 anos'

Aos 52 anos, a temperamental diva do rock Chrissie Hynde carrega nas costas os 25 anos de seu grupo, The Pretenders, com a consciência tranqüila de quem está lançando um oitavo disco do qual pouquíssimos grupos com tamanha estrada poderiam se vangloriar. Loose screw (Sum Records) traz músicas deliciosamente suaves, como exige o pop, com leves tintas do reggae. Traz também uma ponta do saudoso indie sujo do punk, que a infectou quando ela trocou a pacata cidade de Akron, em Ohio (EUA), por Londres e se empregou como balconista da butique de Malcolm McLaren, o empresário por trás dos Sex Pistols.

Despojada na conversa, Chrissie em cena é uma entertainer de primeira, cantando novas composições ou hits como Don't get me wrong e I'll stand by you. É o que mostra o novo DVD dos Pretenders, Loose in L.A (ST2 Vídeo). Gravado num show em Los Angeles, dá uma idéia do que os fãs poderão esperar da turnê que chega amanhã a Brasília, a segunda passagem do conjunto pelo Brasil. A banda vai se apresentar no que promete ser o maior festival de música da história da cidade, o Brasília Music Festival.

O que as imagens não mostram, e que ela contou em entrevista ao JB, é que a apimentada Chrissie luta para conquistar a serenidade.

– Tento me tornar uma pessoa melhor, sem a agressividade – diz, por telefone.

Depois de tantos anos, os Pretenders estão em um selo pequeno. Muda muito?

– A vantagem é que a relação é mais íntima e você sabe com quem está trabalhando. Mas o som da banda não mudou.

Como você compara Loose screw e seus álbuns anteriores?

– Este traz mais presente o groove do reggae, é mais dançante. Não sei se é positivo, mas creio que se trata de um álbum de easy listening, suave. Não gosto de entediar as pessoas e não fico falando de meus problemas. Mas nosso próximo CD deverá ter mais energia.

Você prefere não expor sua tristeza?

– Claro que tudo o que acontece em minha vida acaba aparecendo na música, mas é difícil falar sobre isso. A música é uma combinação de beleza, melodia, instrumentação, letra e emoção. Se tivesse algo triste para dizer, tentaria extravasar numa canção que soasse feliz. Não quero depressão.

Você concorda que o Pretenders foi perdendo a agressividade do começo?

– Tento justamente não ser agressiva. Quem quiser isso, que procure uma banda de garotos de 20 anos. É só mais um estágio da vida e temos que passar por todos eles! Acho que um dos objetivos das pessoas deve ser a ausência de agressividade, mas não é fácil! [risos].

A agressividade não está na essência do rock?

– Sim, mas gosto de pensar que tento me tornar uma pessoa melhor sem ela. Também tento não fumar, o que não quer dizer que não fume.

Há algo que tenha modificado em você que a agrade?

– Não consigo pensar em nada. Não me orgulho de muitas coisas.

E não gostou do DVD?

– Não gosto de ver minha imagem. Mas hoje as pessoas gostam de DVD, fazer o quê?

No show do DVD você dedica a música Kid ao guitarrista James Honeyman-Scott e ao baixista Pete Farndon, ex-integrantes que morreram por overdose no início dos anos 80. É um momento triste?

– Sempre dedicamos uma música a eles. Mas já faz cerca de 20 anos que eles se foram, a vida anda, sabe? Mas, não importa o que cante, sempre haverá muita dor em minha voz, mesmo que esteja feliz.

Você foi uma das primeiras mulheres do rock. Como vê a cena hoje?

– Não vejo a coisa como gênero, mas no geral. Na música pop, acho as mulheres decepcionantes. Há algumas que parecem atuar para ganhar publicidade. Isso não é rock'n roll.

Nomes como Jennifer Lopez, Britney Spears, Christina Aguilera?

– Não ouço essas coisas porque isso não é rock, então não posso falar.

E o rock em geral, como vai?

– Esteve mal há alguns anos, mas começou a melhorar. Isso é periódico. Há algumas bandas muito boas hoje em dia, como o Kings of Leon.

Você tem atuado na defesa dos direitos dos animais, já foi até presa. Planeja fazer alguma ação do gênero no Brasil?

– Foi bom ser presa, porque conseguimos mais publicidade para a causa. Mas não tenho nada planejado para o Brasil.

Você também é vegetariana.

– Desde 1969. Não acho correto matar animais simplesmente para comê-los.

O que os brasileiros podem esperar do seu show?

– [Longa pausa]Não sei! Espero que seja bom… Se eles gostam do Pretenders, será excelente. Caso contrário, provavelmente acharão uma droga.

[25/SET/2003]

 

Fonte: Jornal do Brasil   Home > Caderno B

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