A agricultura está regredindo?

Luc Vankrunkelsven

“O fim dos camponeses”. Há 40 anos, este foi o título do livro escrito por Henri Mendras e que causou agitação (1). Depois dele, muitos repetiram a expressão, entre outros, Schultz e Gudeman.

Ironicamente, parece que, desde 1997, surge um novo som. Buckwell foi o primeiro a escrever sobre ‘o fim da agricultura industrial’.

E quem é que está com a verdade? Atualmente, o fluxo principal – que conta com o grande capital – ainda é o agronegócio, no Brasil, e a agricultura agroindustrial, na Europa. E, sim, as transnacionais agroindustriais prendem o mundo cada vez mais em suas garras.

Mesmo assim… 

Após a queda do muro de Berlim, em 1989, seguiram-se os anos silenciosos da década de 1990. A grande vitória de um modelo, o capitalismo, era um fato. Muitos chamaram o período de ‘a década perdida’, mas talvez possamos dizer também que, nesse silêncio, houve o deslocamento de algumas questões muito fundamentais. Desde 1995, a agricultura e os alimentos foram completamente inseridos na lógica neoliberal de globalização. O acordo agrícola da Rodada do Uruguai e a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) ainda eram fatos recentes e já se ouviam os primeiros protestos dos agricultores. Em 1996, a FAO realizou uma Cúpula Mundial sobre ‘Fome no mundo’. Para o movimento mundial de camponeses Via Campesina, esta reunião de cúpula era o momento ideal para lançar o novo conceito de ‘Soberania Alimentar’. Neste conceito, não são os conglomerados de indústrias químicas, nem os grandes atacadistas, processadores de matérias-primas e supermercados que comandam o espetáculo e, sim, a ‘agricultura familiar’. Alimentos e agricultura estão mais seguros nas mãos dos camponeses. Nas mãos dos povos e de seus governos.

O acordo Trade Related Intellectual Property Rights (TRIPs) [Direito da Propriedade Intelectual Relativo ao Comércio] envolvendo, inclusive, seres vivos – foi um dos principais tópicos de negociação da Rodada do Uruguai. Principalmente os milhões de agricultores – que, cuidadosamente, passam suas sementes de geração em geração – pressentiam que, com este acordo de ‘patenteamento de sementes’, está sendo cortada a veia vital da agricultura familiar. O ataque aos fundamentos da diversidade de culturas – agrícolas e alimentares – mobilizou cada vez mais massas populares. Centenas de milhares de agricultores da Índia se uniram para defender suas sementes. Durante a Cúpula da OMC de 1999, em Seattle, Estados Unidos da América, a crescente insatisfação culminou num enorme protesto de rua. Em 2001, observamos o nascimento do ‘Fórum Social Mundial’, em Porto Alegre, Brasil. É digno de nota que, nestes encontros, os representantes da agricultura familiar são os mais organizados mundialmente.

De pregadores no deserto a movimento de massa? 

Naquele período, surgiu um livro impressionante: Our stolen future [Nosso futuro roubado], de Theo Colborn, Dianne Dumanoski e John Peterson Myers. Na edição brasileira, de 1997, José A. Lutzenberger escreveu um prefácio tocante. No Brasil, Lutzenberger foi um pioneiro inspirador, um ponto de referência para o movimento ambiental que se iniciava. Ele foi funcionário da gigante química Bayer. Mais tarde, ele deixou a empresa e fez duras críticas à indústria química. De 1990 a 1992, foi secretário especial do Meio Ambiente, durante o governo do presidente Fernando Collor de Mello. A seguir, apresento várias citações dele para, na sua pessoa, homenagear os muitos pregadores no deserto, muito antes da onda do ‘aquecimento global’.

 

José A. Lutzenberger:

“Mas, em termos econômicos globais, o que é o agricultor moderno, aquele que constitui menos de dois por cento da população? Ele é uma peça minúscula numa imensa estrutura tecno-burocrático-financeiro-administrativa e legislativa que começa nos campos de petróleo e refinarias, atravessa a indústria química, indústria de máquinas, bancos, manipulação industrial de alimentos até os supermercados e centros comerciais, universidades, pesquisa, extensão agrícola e uma gigantesca movimentação de transportes, social e ecologicamente absurda, mais uma desenfreada indústria de embalagens que a cada dia torna mais intratável o problema do lixo e para cuja solução, além dos imensos lixões, já estão sendo construídos gigantescos incineradores. []

 

A conta completa nos mostra que não houve aumento de produtividade em termos de trabalho humano; houve, isso sim, remanejamento de tarefas. Nos raros casos em que houve real aumento de produtividade por hectare, medido apenas em quilos por unidade de superfície, não estão sendo contabilizados os custos sociais – marginalização de centenas de milhões de camponeses no mundo – e não são contabilizados os custos ecológicos: devastação de ecossistemas, perda de biodiversidade natural, perda de diversidade em nossos cultivares, desperdício maciço de recursos minerais não-renováveis. Ou seja, perda de sustentabilidade.

 

Alem disso, poucos se dão conta do destrutivo que são os modernos esquemas de produção de animais em confinamento. Ali se destrói muito mais alimento do que se produz, pois alimentamos gado, porcos, galinhas e outros com alimento subtraído ao consumo humano. Se apenas a China com seu 1,2 bilhão de habitantes conseguir passar a alimentar-se da maneira que hoje o fazem americanos, alemães ou japoneses, estaria logo programado o colapso da alimentação humana em termos globais. (2)

Em essência, o que aconteceu nestas últimas décadas e que passou a chamar-se de modernização da agricultura é que indústrias e comércio conseguiram açambarcar para si toda aquela parte da produção, manipulação e distribuição de alimentos que lhe garante negócio certo, deixando ao agricultor os riscos de más colheitas por questões climáticas e o risco de perdas financeiras pelo aumento crescente dos custos dos insumos e baixa constante nos preços que consegue cobrar por seus produtos.

 

Portanto, não é com apenas retoques no sistema existente que vamos garantir futuro para nossos filhos, netos e descendentes remotos. Temos que repensar o sistema todo e reformá-lo, passo a passo, para que volte a ser sustentável. Isto não significa retorno aos métodos primitivos, de trabalho manual, duro, do camponês de cem anos atrás. Nossos atuais conhecimentos científicos e novos avanços técnicos nos permitem fazer muito melhor e a vida no campo pode hoje ser muito mais sadia e confortável que a vida nas modernas megalópoles. []

 

Em 2007, graças inclusive ao painel sobre mudanças climáticas das Nações Unidas, os alertas de Lutzenberger e outros profetas são de conhecimento geral. Até mesmo o maior sojicultor do mundo, Blairo Maggi, parece ter sido tocado e começa a mostrar um discurso ‘verde’. Vamos aguardar para ver se a prática nos seus 150 mil hectares de monocultura de soja também vai mudar, bem como a política no Mato Grosso, estado do qual Maggi é governador.

 

Recampesinização

De origem espanhola, a palavra ‘campesino’ possui muitos significados. Qual seria a melhor tradução? Agricultor? Trabalhador rural? Lavrador? Agricultor familiar na polarização com a agricultura industrial? Sempre há uma carga ideológica por trás do uso da palavra e, às vezes, esta gera intensos debates. Por exemplo, ‘agricultura familiar’, no Brasil, deu a centenas de milhares de agricultores uma identidade bem diferente do que ‘pequeno agricultor’, campesino. Nos últimos dez anos, o Brasil tem refletido muito sobre a identidade e a força da agricultura familiar na sociedade. Assim surgiu em 2006, por exemplo, o livro A diversidade da agricultura familiar, coordenado por Sergio Schneider (3). São 14 contribuições – todas elas muito interessantes – que reproduzem a rica gama de variedades de agricultura familiar. Treze brasileiros e um holandês, o catedrático Jan-Douwe Van der Ploeg. Por si só, a realização deste colóquio e desta obra conjunta já é interessante. O Brasil pode ser um espelho para a Europa e a Europa para o Brasil. Em sua contribuição, Van der Ploeg defende uma renovação da realidade agrícola e lança mão do termo campesino. Ele fala de recampesinização, e não somente no assim chamado ‘Terceiro Mundo’, mas também – e principalmente – na Europa. E isto quando muitos acreditavam que já havia chegado a última hora dos campesinos, dos agricultores familiares. Com a sua recampesinização ele não quer retornar para a velha dicotomia leninista entre agricultores e capitalistas. Para ele – e para nós – trata-se da reconstrução de fundamentos naturais e sociais para a produção de alimentos nas sociedades modernas.

Aurora

‘Aurora no campo’ não tem, em absoluto, a pretensão de estar no mesmo nível do belo entrosamento de 14 professores e pesquisadores. O que segue é uma tentativa de – após ‘navios que se cruzam na calada da noite’ – mostrar um pouco da nova vida que está surgindo aqui e ali; na verdade, em todo o mundo. Multicolorida e diversa. Este livro é excessivamente restrito em vista do muito que há para contar, das centenas de outros exemplos. Cada região do Brasil possui produtos específicos. É só pensar em açaí, no Pará, e em buriti, no estado vizinho do Maranhão. Na Região Norte do Brasil, estas duas espécies de palmáceas formam a base da alimentação, construção de moradias e produtos artesanais regionais. Seria um pecado deixar que esta diversidade cultural fosse destruída pela monocultura de soja que avança do sul para o norte.

Nesta coletânea você encontrará, principalmente, histórias sobre como os agricultores no Sul do Brasil e na Europa reassumem o papel da expressão alemã “Bauer, bewaarder van de aarde [agricultor, guardião da terra]. As crônicas falam de sua criatividade e inventividade, sem serem românticos ou ingênuos. Há muitos sucessos e fracassos, muito cair e levantar-se. Individualmente e coletivamente. Localmente e globalmente. Mesmo contrariando o senso comum, acreditamos que após cada noite surge a aurora. Com nova vitalidade.

Soja diferente 

O livro se desenvolveu a partir de um intercâmbio entre a ONG belga Wervel – Werkgroep voor een rechtvaardige en verantwoorde landbouw [Grupo de trabalho por uma agricultura justa e responsável] e a organização sindical brasileira Fetraf-Sul/CUT.

No projeto, tanto Wervel e seus parceiros na Europa quanto Fetraf e seus parceiros no Brasil buscam caminhos para recuperação. Recuperação de ciclos ecológicos com menos transporte internacional de alimentos, recuperação da diversidade de culturas nas propriedades, em cooperação com colegas e dentro da própria biorregião. Recuperação da biodiversidade na natureza e da agrobiodiversidade na propriedade.

 

[Foto 1]

Soja diferente?

Desta dinâmica surgiu um site interativo para jovens: <http://www.sojaconnectie.be>. Este site foi desenvolvido especialmente para jovens em sala de aula, com uma versão mais especializada para escolas técnicas agrícolas. O projeto chama-se ‘Além da soja’, mas também envolve ‘Soja diferente’.

Com Além da soja queremos trilhar o caminho da recuperação. Na Europa, tanto as proteínas da ração animal quanto as dos alimentos podem vir de outras culturas da própria região, ao invés da soja importada, nem que fosse para reduzir a imensa quantidade de quilômetros que separam as áreas de produção dos alimentos de nosso prato. Com seu projeto, Wervel busca, junto com Fermlocal[1], culturas alternativas. No site <http://www.wervel.be> encontra-se uma lista crescente de pontos de venda de carne e de laticínios produzidos com ração isenta de soja.

A busca por alternativas à monotonia da soja fortalece ou recupera a autonomia dos agricultores, tanto na Europa quanto na América Latina. A paisagem em ambos os lados do oceano volta a ficar um pouco mais atraente. Enquanto isso, Wervel, Greenpeace e outras ONGs sentam-se em torno da mesa de negociação com importadores de matéria-prima, fabricantes de ração, atacadistas, a Cooperativa de Laticínios Belga, a federação de agricultores. Partindo das ações no passado, procuramos, agora, chegar a fluxos de ração animal mais socialmente responsáveis.

Soja diferente aponta não só para alternativas para a uniformidade de ‘somente soja’, mas também para a possibilidade de utilizar, de maneira diferente, a área hoje cultivada com soja no mundo.

 

Não há nada de errado em si com a soja. É um milagre. Há mais de 5 mil anos é uma planta sagrada para os chineses. O escândalo é que mais de 70% da soja em grão produzida mundialmente vá parar na ração que alimenta porcos, galinhas, perus, patos, vacas e peixes. Para farelo de soja, este porcentual sobe para 90%, sendo a mais alta fonte de proteína vegetal em nosso planeta. Além disso, o modo de cultivo e de comercialização de toda essa soja causa impactos negativos não só na natureza e na paisagem, mas também para os agricultores familiares. Enquanto grupo de trabalho por uma agricultura mais justa (socialmente) e responsável (ecologicamente), Wervel quer defender ambas as formas de ‘soja diferente’: com respeito pela diversidade da natureza e com autonomia para os agricultores familiares. Do lado dos consumidores, reivindicamos uma redução da soja na ração animal e utilização deste grão milagroso na alimentação humana.

Os chineses já nos mostraram o caminho há mais de 2 mil anos produzindo tofu, com base na soja. Cada região tem suas próprias tradições e seu próprio modo de preparar.

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[1] Agricultores belgas que buscam retomar o cultivo de espécies que produzam proteínas vegetais necessárias e voltar a fechar o ciclo ecológico na propriedade ou na região.

Carne diferente? 

Este livro não advoga que nós todos passemos a consumir somente soja. Mas queremos, sim, chamar a atenção para o problema de que a população mundial dobrou nos últimos 50 anos, enquanto o consumo de carne e peixe quintuplicou. A produção de ração animal e a conseqüente ocupação de terra, consumo de água, poluição do ar e o aquecimento global aumentaram assustadoramente. Se quisermos enfrentar uma série de problemas em nossa comunidade mundial, vamos chegar no nosso consumo elevado de proteínas de origem animal: carne, laticínios, ovos e peixes. Reduzir o consumo de carne é um largo caminho aberto diante de cada cidadão mundial. O caminho estreito do vegetarianismo, por enquanto, é um caminho trilhado por uma pequena minoria, que merece nossa atenção e respeito. O movimento cresce fortemente, tanto no Brasil quanto na Europa. Na busca por alternativas para o consumo de carne, a soja pode ser um elemento importante. Não é obrigatório, mas é possível. Vamos deixar que haja diversidade nas opções também. Não precisamos nos tornar todos chineses ou indonésios, mas podemos ouvir o que eles têm a ensinar. Pessoas como Noemi Weiss, de Foz do Iguaçu, também podem nos inspirar. Enquanto nutricionista, ela é responsável pelas refeições de 40 mil crianças das escolas e creches da cidade. Considerando-se que é na Região Sul do Brasil, ela percorre um caminho muito incomum de ‘redução de carne’. Já que a região está cercada de plantações de soja, ela e sua equipe trilham o caminho de produtos substitutivos com base em soja (iogurte, espaguete, leite, pão), destacando-se que não é utilizada a soja Roundup Ready, pois essa soja contém cem vezes mais resíduo de Roundup do que na soja convencional (4).

 

Se dermos um lugar diferente à soja em nossa alimentação, ela também pode ocupar um lugar diferente nas lavouras, beneficiando uma agricultura que é justa em relação aos agricultores e agricultoras que a cultivam e exportam, e em relação aos criadores de animais na Europa, que a substituem por fontes de proteínas da própria região. E beneficiando uma agricultura que é responsável em relação ao meio ambiente e o clima.

 

Paz no campo. Paz em ambos os lados do oceano.

É por isso que este livro é publicado, simultaneamente, em holandês e em português. Ele pretende ser uma modesta contribuição para o movimento internacional em prol da tão necessária recampesinização.

 

Luc Vankrunkelsven,

Belém, 22 de maio de 2007.

Dia Internacional da Biodiversidade.

 

(1)      Henri Mendras, La fin des Paysans [O fim dos camponeses], Actes Sud, Aix en Provence, 1967. Paris: Ed. Babel, 1992.

(2)      Esta profecia está, agora, se cumprindo. Lutzenberger escreveu seu texto em 1997. Em 2001, a China ingressou na Organização Mundial do Comércio (OMC) e começou a aumentar o fluxo de soja do Brasil e outros países em direção aos cochos dos animais. Nos últimos 20 anos, o consumo de carne aumentou de 15 quilos de carne/pessoa.ano para 38 quilos/pessoa.ano naquele país. Realmente um colapso.

(3)      Sergio Schneider (Org.). A Diversidade da Agricultura Familiar. Porto Alegre: UFRGS-Editora, 2006.

(4)      Sebastião Pinheiro escreve sobre o perigo do leite de soja para crianças, quando se trata de soja transgênica. Em seu livro ele disseca com precisão o poder de Monsanto, Cargill, Bunge, Nestlé e companhia: ‘A Máfia dos alimentos no Brasil’, Porto Alegre, 2005.

 

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