18 Agora o Brasil vai importar soja?

Embora, pelo contrato, os agricultores familiares tenham direito a R$ 54,50 por saca de 60 kg da usina de biodiesel, nas últimas semanas o preço de mercado está mais próximo de R$ 60,00 por saca. Será eles vão se beneficiar desse aumento ou vai valer o contrato?

Diminuição no crescimento

Enquanto a crise mundial tem implicações para as exportações de commodities brasileiras, a soja parece ser uma exceção. Das 23 principais “matérias-primas”, 16 apresentam declínio no volume exportado, enquanto 18 tiveram redução no preço. A perspectiva do governo é que as exportações crescerão “apenas” 3,1% neste ano, enquanto o crescimento em 2001 ainda foi de 27%. Sim, o Brasil é um “país emergente” e deseja, principalmente, crescer – não obstante todos os discursos sobre o “verde”, o “sustentável”, o “socialmente responsável” ou o Rio+20. Crescer até que não reste árvore alguma e até que todos nós pereçamos.

Explosão na demanda por soja

A Europa e os Estados Unidos estão em crise. Assim, a fábrica do mundo – a China – exporta menos e o fornecedor de matéria-prima – Brasil – vende menos minério de ferro e outras commodities para essa mesma China. Para a soja, não é esse o caso. Acredita-se que a China vai importar 57 milhões de toneladas de soja neste ano, enquanto em 2010 a importação foi de “apenas” 50 milhões de toneladas. Compare isso com os 39 milhões de toneladas das importações da União Europeia. A demanda global por soja está aumentando, principalmente na Ásia, enquanto – devido à severa estiagem – vários países sul-americanos estão sofrendo perdas significativas. No ano passado, o Brasil colheu 75 milhões de toneladas de soja; neste ano, a safra seria de menos de 69 milhões de toneladas. Como o preço está muito interessante, as exportações do país triplicaram ainda durante a época da colheita. O resultado disso é que, no final de abril, o Brasil já havia vendido 69% de sua soja e o Paraná, 75% do total. O Paraná é o segundo maior produtor, depois do Mato Grosso. Esse rápido desenvolvimento está fazendo tocar o sinal de alerta na indústria de processamento. Nesse ritmo, o maior produtor de soja – Brasil – terá de importar soja (!) para manter sua própria indústria funcionando. Mas de onde? A Argentina e o Paraguai também foram atingidos pela estiagem e, pela forte demanda da China, os estoques mundiais de soja encolheram, inclusive os norte-americanos. Agora todos estão de olho nos agricultores norte-americanos. Eles ainda podem, rapidamente, plantar mais soja e, em setembro, obter uma safra maior do que a prevista. Mas a estiagem também foi detectada nos Estados Unidos (1). Mais uma vez, os gêmeos siameses soja-milho dão as caras. Quando aumenta o preço da soja, planta-se menos milho na safra seguinte e mais soja (2).

Suinocultura em crise na Europa

Enquanto isso, aqui, na Bélgica e em praticamente toda a Europa, estamos enfrentando uma prolongada crise na suinocultura. Já há quatro anos os suinocultores estão sendo esmagados, de um lado, pelo aumento dos preços da ração e, do outro, pelos baixos preços da carne. No final deste ano, os preços da ração teriam subido novamente cerca de 40% em relação aos do mesmo período do ano anterior. Uma situação insustentável. Os 50 anos de subsídio sutil, com os preços baixos da soja do exterior para a pecuária intensiva, parece não funcionar mais. O “subsídio invisível que não deveria, de modo algum, ser chamado de subsídio” colocou, agora, os suinocultores contra a parede. O sistema travou, porque a Ásia está atraindo massivamente a soja para si.

A crise, um momento de reflexão e julgamento (do verbo grego krinein: julgar, decidir), tem certamente uma vantagem. Os agricultores e os seus sindicatos estão, finalmente, começando a mostrar interesse por aquilo que propusemos ao longo de décadas, ou seja, voltar a produzir proteínas vegetais na Europa: tremoços, ervilhas e feijões, grama e trevo de modo associado, soja...

 

De qualquer modo, os brasileiros já estão trabalhando fortemente na safra do próximo ano. No mercado de sementes, há uma escassez aguda, porque todos querem ganhar dinheiro imediatamente. A soja tem uma dinâmica semelhante à do garimpo. Quando é encontrado ouro em algum lugar, todos vão para lá. Legalmente e ilegalmente.

A colheita de 2013 promete bater todos os recordes. O ouro está à flor da terra. O Cerrado e a Amazônia vão sofrer uma pressão enorme. Nesse contexto, a batalha pelo Código Florestal adquire um sabor muito amargo.

 

São Paulo, Caravanserai, 12 de maio de 2012.

(1) Efeitos do aquecimento global (dezembro de 2012). Nos EUA, 2012 foi o ano mais quente já registrado. O primeiro semestre do ano foi tão quente que, no início de agosto, os EUA já haviam tido mais dias com recordes de temperatura do que em todo o ano de 2011. Nesse período, a temperatura média para o período de janeiro a agosto se elevou para a maior já registrada. Uma estiagem severa atingiu, portanto, 48 estados. Em quase todos os 2.300 counties foi decretada “calamidade agrícola”. Houve um número extraordinário de incêndios e os fazendeiros tiveram de vender seus animais porque suas terras se transformam em uma espécie de tapete de pó. O nível de água no Rio Mississipi atingiu um nível mínimo histórico, causando problemas de transporte.

De acordo com alguns economistas, o prejuízo pode ser ainda maior do que aquele causado pelo furacão Sandy. As perdas no setor agrícola foram estimadas em U$ 100 bilhões. Na Região Centro-Oeste, o verão quente e seco consumiu quase três quartos da safra de milho e de soja.

(2) Veja: Ração animal, uma história de interdependência, em: Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).


19 Quem ainda acredita nessas pessoas?

Era uma expressão comumente utilizada por Yves Leterme, durante os longos anos de oposição do partido CD&V [Partido Democrático Cristão Flamengo]. Mais tarde, ele próprio se tornou primeiro-ministro da Bélgica e sua lendária frase se voltou contra ele regularmente, como bumerangue: “Quem ainda acredita nessas pessoas?”

Políticos, não dá para confiar neles!

Quando converso com os brasileiros, sempre chama minha atenção a falta de confiança deles nos políticos. Uma pesquisa recente confirmou o que há muito tempo já é sabido: somente 22% da população ainda confiam no Congresso Nacional e apenas 5% nos partidos políticos. As notícias de fraudes amplamente difundidas pela imprensa quase diariamente devem ter tudo a ver com isso. Qual seria o resultado dessa pesquisa entre nós, em Flandres, Bélgica, Europa?

 

E quem se destaca no Brasil? O exército, com 73% de confiança, a Igreja Católica, com 56%, o Ministério Público, com 55%, grandes empresas, com 45%, e a imprensa escrita, com 44%. Entre nós, na Bélgica, esse quadro pode ser bem diferente.

A coordenadora da pesquisa, Luciana Gross Cunha, afirma que pesquisas internacionais mostram que o Brasil é um dos países da América Latina em que as pessoas têm menos confiança na democracia como sistema político: “Não existe uma relação clara entre a área pública e a privada. A privatização daquilo que é público ainda impera. Essas instituições são sempre vistas como o outro, algo ‘do qual eu nada tenho a esperar’.”

Às vezes eu me pergunto se a “negação” de mais de três séculos de escravidão e de duas ditaduras desempenha algum papel na desconfiança de tudo aquilo que está relacionado com o governo. Somente agora, 27 anos após o fim da última ditadura, o Brasil instituiu uma “comissão da verdade”, um dos últimos países da América Latina a fazer isso. Para, finalmente, encarar a verdade daquele horror.

 

A mesma pesquisa também mostra que três em cada cinco pessoas não confiam na polícia. O maior grau de desconfiança é encontrado entre os jovens e os pobres. Com relação à faixa etária, a sensação de confiança é maior em pessoas com mais de 60 anos, apesar de, nessa faixa da população, apenas 50% terem uma boa opinião sobre a instituição “polícia”.

É normal que a população mais pobre tenha menos confiança na integridade da polícia, pois na luta contra o crime várias corporações são empregadas contra ela. Os ricos acionam a polícia para defender suas propriedades bem protegidas. Muitos vivem em ilhas de luxo na cidade, com segurança privada. Em São Paulo, os mais ricos se deslocam de helicóptero. Para não ter de enfrentar o engarrafamento, mas também para não serem confrontados com a pobreza.

A crescente consciência ambiental

Com a perspectiva do Rio+20, também são publicadas pesquisas sobre a crescente conscientização ambiental do brasileiro médio.

Uma pesquisa do Ibope de 2011 revelou que 94% da população está preocupada com o meio ambiente. Em 2010, esse percentual era de 80%. Dos entrevistados, 44% acham que a proteção ambiental deve ter mais prioridade do que crescimento econômico. O desmatamento é o que mais preocupa os brasileiros, cerca de 53% deles. Em segundo lugar vem a poluição da água, com 44%, e o aquecimento global, com 30%. O estranho é que 38% dos entrevistados acreditam que a indústria é o principal responsável pelo aquecimento global, enquanto, na realidade, o responsável é o desmatamento – pelo menos no caso do Brasil. Aparentemente eles não enxergam as relações. Por exemplo, como o Cerrado está sendo rapidamente ocupado com eucalipto-cana-de-açúcar-soja, é a posição secular do gado naquela região está sob pressão. Por isso os pecuaristas estão se deslocando para a Amazônia. O setor sucroalcooleiro sempre insistiu que eles plantam cana apenas em “terras já desmatadas ou degradadas”. Eles também não enxergam a conexão entre a sua ocupação “verde” e o desmatamento mais ao norte no país. Ou melhor, eles negam isso.

 

A atual discussão do Novo Código Florestal, os subornos e as chantagens em torno dele não têm elementos para fazer aumentar a confiança nos políticos.

 

 

São Paulo, 16 de maio de 2012.

Sinais de esperança, a outra notícia

Através da história da soja, Luc já esboça há anos a interdependência entre Brasil e Europa/Bélgica. Conhecer e compreender melhor as transformações no Brasil é, por vários motivos, crucial neste período de profunda transição no mundo. Transição na qual precisamos evoluir da atual relação desequilibrada de dependência para uma verdadeira relação de igualdade. Todavia, enquanto nós comprarmos ar limpo no Brasil para cumprir nossas próprias obrigações, enquanto nós incentivarmos a produção de etanol fazendo com que o cultivo de cana-de-açúcar empurre a produção de alimentos para regiões onde isso, por sua vez, provoca desmatamento, enquanto a soja brasileira servir de alimento para os suínos europeus, ainda não chegaremos a lugar algum.

O livro não traz uma análise distanciada das transformações no Brasil. A partir de uma grande vivência e um grande envolvimento pessoal, torna-se visível uma subcorrente de esperança: as pessoas e iniciativas que protestam contra a loucura neoliberal por meio de seu compromisso com a justiça social, não só no Brasil, mas também na Bélgica (1). A justiça social exige uma atitude de vida ética, uma economia ecológica e, para agricultura e alimentos, isso se encontra na opção por agricultura e alimentação em sistemas agroecológicos.

Uma atitude de vida ética

Luc mostra mais de uma vez como ele estabelece a discussão com os brasileiros, numa abordagem cautelosa e com humildade, sem se esquecer da dívida histórica que nós ainda não pagamos. Enquanto isso, o Brasil – sendo um dos cinco países que formam os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) – representa uma nova potência econômica e, assim, nos oferece uma oportunidade de evoluir para uma relação de igualdade. Mas, então, nós, europeus, precisamos deixar de lado nossa atitude superior e buscar meios para lidar de outro modo com as pessoas (2). Uma série de exemplos neste livro/diário nos dá a oportunidade de ampliar efetivamente os nossos horizontes e assim, lentamente, de perceber que é um processo irreversível. Para mim, isso é essencialmente uma busca por uma atitude de vida mais ética, baseada na justiça social. Gerbert Bakx[1] chama uma vida ética de “uma vida de responsabilidade”, não apenas pelos próprios pensamentos, emoções e ações, mas também pelo impacto desses sobre outras pessoas e sobre todas as outras formas de vida e o meio ambiente, tanto na nossa vizinhança próxima quanto no contexto mais amplo de toda a terra.

Temos consciência de que podemos viver uma vida mais feliz também como indivíduos, pois vivemos conscientes de que nós estamos fazendo uma contribuição valiosa, longe da vida ditada pela sociedade de consumo. Talvez o sucesso de fenômenos como crowdfunding [financiamento coletivo], hortas comunitárias, permacultura, clubes de trocas[2] e a produção de produtos reciclados é um sinal de que estamos lentamente começando a olhar para o valor real das coisas.

Economia verde ou justiça social?

Brasil, o país onde, em 1992, foi realizada a promissora Cúpula da Terra da UNCED [Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento], onde foi firmado, entre outros, o Acordo sobre o Clima. O que resultou disso? Nada, ainda estamos na mesma situação – ou pior, nós até regredimos. Na 19ª (!) COP (Conferência das Partes), em Varsóvia (novembro de 2013), a representação global da sociedade civil abandonou antecipadamente a conferência como um protesto contra os resultados lamentavelmente fracos da reunião. Mais uma vez, constatou-se que a conferência depositava sua esperança na “economia verde”, que leva a falsas soluções para a crise climática, como agrocombustíveis, transgênicos, e a mecanismos de mercado de carbono, como o REDD (Reducing emissions from deforestation and forest degradation [Redução de emissões por desmatamento e degradação florestal]). Em países como o Brasil, eles atraem as pessoas pobres para a armadilha com falsas promessas de progresso, enquanto as florestas e os territórios onde essas pessoas já vivem há milhares de anos são privatizados e comercializados. Em países como a Bélgica, os cidadãos, principalmente a classe média com curso superior, gostam de acreditar na solução por meio da economia verde: aparentemente o problema não é tão grave, existem soluções que colocam seriamente em cheque o nosso modo de vida e, acima de tudo, os políticos e as empresas já estão trabalhando nisso. Um mito que Matthias Lievens e Anneleen Kenes desmantelaram claramente e com detalhes em De mythe van de groene economie [O mito da economia verde] (3). Não, as mudanças virão da base, das pessoas que se organizam em movimentos ambientalistas, sindicatos, movimentos como “Indignados” e “Occupy Wallstreet” e que põem um freio no mercado e na lógica de crescimento, que lutam por uma verdadeira democracia e denunciam o “um por cento da elite no poder”, que só trabalha em benefício próprio, ou seja, embolsa os lucros arrecadados dos demais 99 por cento. Elas irão aumentar a pressão sobre os políticos em todo o mundo, porque muitas das causas da injustiça têm origem nessa lógica de crescimento. Não importa se você parte da perspectiva da crise climática, da crise alimentar ou da crise financeira, a luta contra a injustiça é a mesma: a luta por social justiça e redistribuição. A história de crescimento se tornou ecologicamente insustentável. Nós nos deparamos com inúmeros limites, a redistribuição deve voltar a ser o foco central, inclusive na agenda política.

Embora não exclusivamente, o foco deste livro é alimentação e agricultura. É nesses temas que eu acredito que se encontram os desafios também para nós na Bélgica, distanciando-nos da economia verde, com suas iniciativas como soja responsável que Wervel desmascarou corretamente, e caminhando para a verdadeira economia ecológica, para as alternativas a partir da base.

Agroecologia

O Brasil, conhecido por sua problemática em torno da soja e do desmatamento, também é o país onde se localizava o berço da agroecologia. É um sistema de pensar sobre agricultura e alimentação e que aponta para uma direção construtiva para o futuro de nosso sistema agrícola e alimentar, pois leva em conta tanto a ecologia quanto a economia, a realidade social e a resiliência. A perda da (agro)biodiversidade, as problemáticas do clima e a energética, a escassez de água, a erosão e a degradação do solo, a dependência dos gigantes de sementes e do setor de biotecnologia, as monoculturas... mostram que a abordagem descendente (principalmente técnica) do modelo agroindustrial não produziu o resultado desejado de segurança alimentar. É necessária uma mudança de paradigma, para longe da agricultura industrial produtivista.

Essa mudança deverá ser exigida – portanto, vamos realizar globalmente um verdadeiro debate público sobre agroecologia, como a “nova agronomia” na qual os recursos naturais são gerenciados coletivamente por meio de ação social. Esse debate envolve produtores, agricultores, pesquisadores e consumidores.

O próprio Brasil lida com isso de um modo um tanto esquizofrênico, pois possui dois ministérios da agricultura, a partir do quais continua apoiando dois modelos agrícolas opostos: um ministério para a agricultura agroindustrial convencional e outro para a Agricultura Familiar, mas que é responsável por 70% dos alimentos produzidos. A agricultura convencional está voltada principalmente para a exportação e ainda tem uma clara superioridade em termos de importância e apoio por meio de legislação e de financiamento da pesquisa. É nela que também se situa a problemática do desmatamento na Amazônia, que – entre agosto de 2012 e julho de 2013 – aumentou 28% em relação ao ano anterior. A ministra brasileira do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, declarou que isso é “inaceitável” e prometeu para enfrentar esse “crime”. As causas para esse aumento podem estar no esvaziamento do novo Código Florestal, mas especialmente no apoio ao modelo agroindustrial que, por sua vez, está intimamente ligado ao modelo agroindustrial nos EUA e na UE, ou seja, também conosco.

Em nossa pequena região de Flandres [na Bélgica] não há dois ministros da agricultura, mas o governa opta, hoje, predominantemente pelo modelo de crescimento da agricultura industrial. Cabe a nós, à sociedade – a base –, fortalecer as alternativas, dando mais visibilidade àquilo que ora ainda ocorre principalmente à margem. É graças a iniciativas e movimentos locais que a importância da agroecologia evolui lentamente para o debate público e, assim, pode e deve redirecionar a imagem de mundo dominante. Cursos de permacultura e agroflorestais estão em alta no Brasil e em Flandres. Luc descreve belamente essas pessoas, esses movimentos como “aqueles que abrem o futuro”.

O relatório IAASTD (4) já reivindicava, em 2008, mais ecologia na agricultura (ciências agrárias), distanciando-se do pensamento de curto prazo, das grandes empresas que direcionam/financiam a grande maioria das pesquisas agrícolas. A forma como a pesquisa é feita agora exige, no mínimo, uma reflexão crítica e convida para alternativas radicais. Esmeralda Borgo escreveu um artigo muito interessante no jornal de Wervel (5), no qual ela afirma que produção é mais do que a quantidade de toneladas de produto comercializável produzida em um hectare. Avaliar um sistema de produção meramente com base na perspectiva econômico-financeira é sinônimo de prática de pilhagem sobre o futuro. Quem quiser produzir de forma sustentável deverá levar em conta o valor – que não é passível de ser expressado em termos monetários – da acumulação de húmus necessário e a restrição à produção que é necessária para manter um ecossistema equilibrado. Isso significa, entre outros, que você sacrifica uma parte da produção para manter o equilíbrio do sistema ecológico.

Plataformas de conhecimento

Essas alternativas devem ter muito mais visibilidade e as universidades devem abrir sua exclusividade em torno da gestão do conhecimento. Sobre isso, a professora de filosofia da ciência Isabelle Stengers escreve que ciência não a “monocultura” de uma verdade, mas uma prática social cheia de controvérsias. Os pesquisadores e outros interessados realizam experimentos com as múltiplas relações entre ciência e sociedade. Assim, as plataformas de conhecimento (6) estão surgindo como um modelo refrescante, no qual agricultores, ativistas e pesquisadores de diferentes disciplinas trabalham em conjunto no desenvolvimento e na produção de conhecimento sobre regimes alimentares alternativos em fazendas experimentais ou em outros projetos de pesquisa. Eles compartilham a observação de que a crescente industrialização e o financiamento agrícolas atrapalham as possibilidades de agricultura e de regimes alimentares saudáveis. Eles também compartilham a observação de que grande parte da pesquisa que está sendo realizada hoje em faculdades de agronomia está direcionada para a manutenção dessa situação, devido aos paradigmas em que se baseiam. Tais plataformas de conhecimento estão ativamente empenhadas em desafiar e rejeitar os paradigmas existentes. A pesquisa está sendo radicalmente reorganizada.

Diferentes experiências, valores e interesses garantem que as pessoas vejam alguns fragmentos de uma problemática, que os ampliem e repercutam. Elas contam sua história pelos óculos que possuem, com as técnicas e ações que são parte delas. Afinal, tudo o que sabemos sobre um pedaço do mundo é proveniente da interação que temos com ele. Por exemplo, os pesquisadores podem considerar as pragas em lavouras como um problema técnico, buscando a solução na modificação do código genético do organismo, ou a utilização de pesticidas. O aparecimento de pragas pode, também, estar ligado ao cultivo de uma diversidade limitada de culturas em grandes áreas e à eliminação dos predadores naturais. A partir desta última perspectiva, a pesquisa vai se concentrar em aumentar a resistência, estimulando a biodiversidade em sistemas agrícolas.

Uma plataforma de conhecimento agroecológico como uma plataforma de aprendizagem também é enfaticamente defendida por Olivier de Schutter (7), o internacionalmente respeitado “relator especial da ONU sobre o direito à alimentação”. Ele coloca uma ênfase crescente no necessário desenvolvimento de um sistema de agricultura agroecológica global, que possa tornar nossa agricultura mais eficiente, mais barata e mais acessível, sem que precisemos da engenharia genética. Vamos dar continuidade a essa história e, em 2014, desenvolver uma plataforma de conhecimento europeia sobre agroecologia na Europa e, a partir daí, fortalecer o movimento global junto com outros continentes.

Para encerrar, as palavras de Stephane Hessel e Pierre Rabhi: “Não aceite, faça algo! Acorde!”

 

LeenLaenens

O autor foi deputado federal e diretor da Bioforum Vlaanderen (www.bioforumvlaanderen.be) e, atualmente, é presidente da Velt [Vereniging Ecologisch Leven en Tuinieren = Associação para uma Vida e Horticultura Ecológicas] (velt.be).

(1) Este já é o quinto livro de Luc Vankrunkelsven que é publicado simultaneamente em neerlandês e em português.

(2) PINXTEN, Rik. Kleine revoluties [Pequenas Revoluções]. Berchem, Bélgica: EPO, 2013.

(3) KENIS, Anneleen; LIEVENS, Mathias. De mythe van de groene economie, valstrik, verzet, alternatieven [O mito da economina verde, armadilha, resistência, alternativas]. Berchem, Bélgica: EPO, 2012, em coedição com Jan van Arkel.

(4) http://www.unep.org/dewa/agassessment/reports/IAASTD/EN/Agriculture%20at%20a%20Crossroads_Synthesis%20Report%20(English).pdf

(5) Kan je met agro-ecologische productietechnieken de wereld voeden? [É possível alimentar o mundo com técnicas agroecológicas?] http://www.wervel.be/publicaties

(6) Fondation sciences citoyennes é um exemplo disso: sciencescitoyennes.org/recherche-participative-ou-en-est-on/

(7) SCHUTTER, Olivier de. The Right to Eat. Disponível em: <www.project-syndicate.org/commentary/on-how-the-right-to-food-movement-is-combating-hunger-by-olivier-de-schutter#WlvpFLUqQ6eRCXm7.99>. Acesso em: 15 jan. 2014.


[1] Nota da tradutora: Gerbert Bakx é autor do livro De strategie van het geluk [A estratégia da felicidade] (Schoten, Bélgica: Witsand uitgevers, 2011), e mantém um site com o título Academie van de Levenskunst [Academia da Arte de Viver]: gerbert.webplus.net

[2] Nota da tradutora: Os clubes de trocas reúnem moradores de uma comunidade para o intercâmbio de produtos, serviços ou saberes entre si. Cada grupo estabelece sua metodologia e os períodos de reuniões, que podem ser semanais, quinzenais ou mensais (Fonte: www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2012/04/clubes-de-troca-negociam-produtos-e-servicos; consultada em: 15 jan. 2014).


20 Herman Verbeek, o novo Marx do Extremo Norte?

No dia 1º de fevereiro de 2013 faleceu Herman Verbeek, o padre holandês e ex-deputado do partido GroenLinks [Esquerda Verde] no Parlamento Europeu.

Poucas semanas antes de sua morte, uma pessoa – muito envolvida com Wervel nos seus anos iniciais – escreveu uma carta de despedida para a longínqua Groningen. Groningen, a cidade mais ao norte da Holanda, onde Herman viveu e trabalhou durante 76 anos.

Chamar o capitalismo pelo nome

Na sua carta, essa pessoa relembra a nossa visita conjunta a Sicco Mansholt[1], em 1990. Ela também discorreu sobre as manifestações contra o baixo preço do leite, em novembro de 2012, e a crise do capitalismo.

Em sua resposta (carta de 5/12/12), Verbeek escreveu, entre outros assuntos, que “deve ser dada continuidade à análise do capitalismo, ora globalmente dominante, com toda clareza”. “Mais do que nunca, deve ser chamado de ‘capitalismo’”. [...] “Ganhar dinheiro é o primeiro e primordial objetivo. Utilidades, produtos, serviços para as pessoas, para as suas necessidades, por outro lado, foram reduzidos a meros meios para obtê-lo. Três vítimas são conhecidas: o trabalho, os pobres e a terra”. Ele também trata de seu livro A economia como Guerra Mundial, que ele escreveu em 1990, e a sua repercussão na época, como no jornal NRC Handelsblad, sob a manchete: “O novo Marx, um agitador no Extremo Norte”.

Não é possível definir Herman Verbeek com uma única palavra. Ele era um sacerdote católico, mas afiadíssimo para com a instituição chamada “igreja”. Ele realizava a análise marxista de modo crítico, mas entrou em sério conflito com aqueles que defendiam/defendem um marxismo dogmático. Para muitos agricultores da Holanda e da Bélgica, ele era “o pastor dos agricultores”, mas isso fez com que lançasse ataques frontais ao setor agroindustrial. Em sua análise, ele era implacável com os sindicatos agrícolas convencionais desse mundo, pelo modo como eles estão presos ao modelo agrícola agroindustrial globalizado e capitalista.

Antes de tudo, um monge

A vocação de Verbeek era, antes de tudo, ser monge com uma caneta afiada e um talento para um discurso convincente. Os agricultores belgas que abandonaram esse modelo deram testemunho sobre isso depois de sua morte. O criador de cabras R. diz: “Herman é uma pessoa que inspirou muito o meu modo de pensar e agir. Um homem muito especial. Cada palestra dele causava grande impacto em mim.”

Eu mesmo conheci Herman Verbeek, em junho de 1984, logo após a sua eleição para o Parlamento Europeu. Ele ocuparia uma cadeira durante dez anos e se debruçaria sobre as questões agrícolas, mas ele também mantinha muitos contatos, principalmente com a base camponesa, com o movimento ambiental, com as organizações Norte-Sul etc.

Naquela época, em junho de 1984, ele ainda conduzia com pouca ousadia seu workshop sobre o Evangelho de Marcos: uma mensagem libertadora para os pobres e oprimidos. Pouco ousado, em que isso vai dar no Parlamento?

Naquela época eu era colaborador do centro de reflexão e formação na Abadia de Averbode e o convidei para um fim de semana sobre o tema São Marcos. Foi um fim de semana a partir de seus “cantos”, no outono de 1987. Desde então, seus textos extremamente poéticos, que possuem uma forte dimensão contemplativa e, geralmente, também uma dimensão político-econômica, inspiram muitos belgas engajados.

Wervel

Em 1989, ele desafiou a mim, na qualidade de responsável do centro, para organizar fins de semana não só de canto e debate, mas também fins de semana com agricultores e agricultoras, consumidores, participantes do movimento ambientalista, do movimento em favor de países em desenvolvimento e do movimento da paz. Eu posso ser o filho de um veterinário, mas isso jamais havia passado pela minha cabeça: “Um fim de semana crítico dedicado à agricultura em uma abadia, o que resultaria disso?!”

Foi um intenso encontro de dois dias, no qual conseguirmos reunir esses diferentes grupos de interesse. Naqueles dias, eu estava morrendo de medo que essa abadia medieval se tornasse um refúgio para “belos oradores”. Assim, invariavelmente, encerrávamos os dias de reflexão e formação dizendo: “Amanhã é segunda-feira. O que vamos fazer a respeito?” Foi a partir dessa pergunta que nasceu Wervel: “Grupo de trabalho por uma agricultura justa e responsável”. A sigla Wervel foi inspirada no subtítulo de seu livro Nas mãos de agricultores: Por uma agricultura justa e responsável. Um título que já é um programa.

Nos primeiros anos de Wervel, organizamos várias turnês visitando agricultores em Flandres [Bélgica]. O fenômeno “Verbeek” atraía salas cheias, com centenas de homens e mulheres agricultores, de Limburg até Flandres Ocidental. Enquanto, na Holanda, ele era o deputado mais entrevistado, na Bélgica esse emissor de “interferência agrícola” também foi abordado com frequência, tanto pelo rádio quanto por emissoras de TV e imprensa escrita.

Ao longo dos anos surgiram mais alguns livros escritos por ele, obras de engajamento tanto espiritual quanto político[2]: Marx é obrigatório?, Interesse dos agricultores, A economia como Guerra Mundial, Diário de bordo verde, Contra o espírito do tempo, O homem na estrela, Cantos camponeses, Marés, Cancioneiro da alma, Cancioneiro da terra etc. Nas últimas semanas de sua vida, enquanto o câncer o agredia, ele finalmente escreveu sua autobiografia: E, então, a pomba desceu. Memórias. O livro foi distribuído no funeral.

O agricultor e a agricultora inspiram

O papel desse orador e escritor talentoso no debate agrícola nas décadas de 1980 e 1990 é difícil de avaliar. Ele estava entre os que criaram o “Conselho Agrícola Crítico”, da Holanda (que, infelizmente, não existe mais), e ele foi determinante para a fundação de Wervel. Ao mesmo tempo, há sua grande obra político-estrutural invisível. Por exemplo, no início da década de 1990, ele e a Bancada Verde no Parlamento Europeu conseguiram a implementação de um regulamento em nível europeu sobre agricultura orgânica. Ao mesmo tempo, durante as várias noites de debates, ele soube inspirar centenas de agricultores e consumidores em favor de uma nova política agrícola e de outras práticas agrícolas.

Wervel não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para uma transição muito necessária no mundo agrícola. É uma pequena engrenagem de um movimento global pela soberania alimentar. Nesses meios, Herman Verbeek continuará a ser uma inspiração, ainda que agora tenhamos chegado a outro momento. As muitas crises que se encadeiam talvez possam acelerar a tão necessária transformação.

Para encerrar, mais um comentário desse colaborador de Wervel, sobre a última carta: “Por fim, ele escreve que ele ainda pode concluir sua biografia: ‘E, então, a pomba desceu’”. Com esse título, ele quer dizer que, em sua vida, ele desceu cada vez mais, do céu para a terra, para a matéria, de toda a superestrutura para a subestrutura... "

Herman, seus pensamentos em livros e poemas e permanecem em nós e nos movem.

Obrigado.

 

Bruxelas, 5 de março de 2013.

Herman Verbeek há três anos: http://www.youtube.com/watch?v=sFisfjKmEac&feature=youtu.be


[1]
             Nota da tradutora: Sicco Mansholt, primeiro Comissário Europeu para a Agricultura.

[2]           Nota da tradutora: Os títulos foram traduzidos, mas as obras estão disponíveis apenas em neerlandês.


21 Uso indireto da terra

Todos os anos eu me vejo com o mesmo dilema de consciência. O que fazer a respeito do combustível fóssil finito que consumimos e a respeito das emissões da aeronave que me leva para o Brasil? O que fazer a respeito do enorme volume de lixo – em plástico e alumínio – que tal viagem produz? Eu já faço esse alerta sobre o abuso do “metal verde” (1) desde 1997. A sopa de plástico nos oceanos e o caldo de plástico no Mar do Norte começaram a nos preocupar (2) nos últimos anos.

Dia Internacional da Luta Camponesa

Pergunto à aeromoça se algo será reciclado? “Não, não temos espaço para isso.” Isso corta meu coração. A clareza da destruição sempre me transporta mentalmente para a região de Carajás (Pará), uma das áreas de mineração do Brasil. Além do minério de ferro, também se converte muita bauxita em alumínio, um processo muito poluente e com grande consumo de energia. As muitas barragens expulsaram os povos indígenas e os pequenos agricultores para tornar possível a exploração do metal “verde” – já que ele poderia ser 100% reciclado. A mesma Carajás onde 19 agricultores sem-terra foram assassinados. Desde essa carnificina, o dia “17 de abril” foi declarado o “Dia Internacional da Luta Camponesa” (3).

 

Mesmo assim, somente com internet, Skype, Twitter e Facebook a gente não chega lá. Se quisermos estabelecer um diálogo internacional para a conscientização, se quisermos criar vínculos e se esperamos nos organizar, as pessoas e os grupos também precisam se reunir pessoalmente. Razão para fazer, sim, essa turnê a cada ano – enquanto minha idade e minha saúde me permitirem. Para debater, dialogar, articular e para inspirar resistência internacional.

Friends of the Earth Europe [Amigos da Terra Europa]

“Mundo B”, o edifício no qual Wervel está sediado, é um lugar de estudo, diálogo, resistência e construção de alternativas. Fica a poucos passos do bairro “europeu”, em Bruxelas, com sua “trindade” da Comissão Europeia – Conselho Ministerial Europeu – Parlamento Europeu. Com 400 pessoas, trabalhamos em torno de temas como ecologia e justiça social; são 40 organizações, principalmente europeias. Por exemplo, “Amigos da Terra – Europa” (4). Eles trabalham muito, em numerosos temas. Assim, existem suas interessantes publicações sobre “Culturas para biocombustíveis, mudança indireta no uso da terra e emissões” (5). É minha literatura de bordo durante a viagem de avião, não tão recente, mas ainda muito atual.

 

A União Europeia decidiu que, até 2020, 20% do fornecimento de energia na UE devem ser provenientes de fontes renováveis. O setor de transportes deve ser abastecido por, pelo menos, 10% de “bio”combustíveis. Na aparência, propostas bem “ecológicas”, mas houve pouca reflexão sobre os efeitos perversos dessas metas políticas. As consequências geralmente estão ocultas, bem distantes: na Argentina, no Brasil, na Colômbia, na Malásia, na Indonésia, na Somália...

“Amigos da Terra – Europa” publicou três estudos de caso sobre os temas “cana-de-açúcar no Brasil”, “óleo de soja” e “óleo de palma ‘sustentável’ para o biodiesel”. Vou me limitar aos efeitos de deslocamento provocados pela cana-de-açúcar para etanol (6). Sobre biodiesel a partir de óleo de soja, você pode ler os meus livros anteriores.

“Não, nós não desmatamos!”

Tanto o setor sucroalcooleiro quanto a cadeia produtiva da soja sempre juraram, para todos aqueles que quiserem ouvir, que eles não se envolvem em desmatamento. A “Mesa Redonda sobre Soja Responsável” (RTRS) estabeleceu, por analogia com a – um pouco menos recente – “Mesa Redonda sobre Óleo de Palma Sustentável” (RSPO), uma série de critérios para declarar esses produtos obtidos por monocultura “sustentáveis”. Ser isento de OGMs [organismos geneticamente modificados], por exemplo, não faz parte dos critérios. E nada se encontra sobre os direitos dos povos indígenas. No entanto, eles são cercados, expulsos e lentamente envenenados pelo herbicida Roundup e por outros agrotóxicos (muitas vezes proibidos), que geralmente são chamados pelos fabricantes de “defensivos agrícolas”.

Além disso, os critérios levam em conta apenas o que acontece na própria fazenda. O trabalho da “Amigos da Terra Europa” coloca o dedo em uma das muitas feridas fétidas: a soja para ração animal/biodiesel e a cana-de-açúcar para etanol (e para outras aplicações) tomam terras em que, até pouco tempo atrás, ainda havia produção de alimentos ou criação de gado. A pecuária está se deslocando em direção à Amazônia e ao Cerrado. Nos últimos 15 anos houve uma verdadeira explosão na “produção” de carne por lá. Na Amazônia, de 1997 a 2007, o gado aumentou 78%. Em 2007, havia 69.575.000 cabeças de gado na região, cerca de 35% do total nacional.

São Paulo: agricultura para a produção de alimentos diminui

A maior expansão da cana ocorre no Centro-Oeste e no Sul do Brasil, próxima de usinas de etanol, portos e mercados para o etanol. Cerca de 60% das plantações de cana-de-açúcar estão localizadas no Estado de São Paulo. Em Goiás, a produção aumentou em 55%; no Mato Grosso do Sul, em 30% (7).

 

O epicentro da cana-de-açúcar ainda é São Paulo. A recente expansão desloca a pecuária para regiões mais ao norte (que são, então, desmatadas) e expulsa outras culturas. Entre 2005 e 2008, a área plantada de cana aumentou em 1,8 milhão de hectares. Anteriormente, metade era pasto e 44% eram de outras culturas. Por enquanto, São Paulo ainda é uma importante fonte de alimentos para a Região Sudeste, mas os números mostram claramente que o cultivo de milho, soja, trigo e feijão está diminuindo...

Aumento nos gases responsáveis pelo aquecimento global provocado por agrocombustíveis

Conclusão da “Amigos da Terra”: “O uso de etanol em vez de petróleo leva claramente a problemas econômicos, sociais e ecológicos. Esses problemas minam os supostos benefícios de cana. O uso indireto da terra como um resultado da expansão da cana conduz a um aumento substancial na produção de gases que provocam o aquecimento da Terra. Talvez eles gerem até mesmo mais emissões do que os combustíveis fósseis.”

“Amigos da Terra” reivindica:

·                     fatores fortes para ILUC (ILUC: mudança indireta no uso da terra), a serem incluídos na análise do ciclo de vida de agrocombustíveis;

·                     uma revisão urgente das metas da UE envolvendo biocombustíveis, porque as emissões ILUC são desproporcionalmente elevadas em comparação com os objetivos acordados (8).

A “banalidade do mal”

Ao ler essas publicações, não consigo deixar de pensar na filósofa judia-americana nascida na Alemanha Hannah Arendt. Em 1962, ela se tornou conhecida da noite para o dia com seu livro Eichmann em Jerusalém. Um relatório do julgamento do nazista Adolf Eichmann. O subtítulo do controverso livro é: Um relato da banalidade do mal. Ela descreve a “subserviência” desse inexpressivo burguês comum, que organizou a logística para a destruição de milhões de judeus, ciganos, homossexuais, comunistas... Para ela, não é o mal que é banal, e sim o homenzinho subserviente, que tornou o mal possível. Nos julgamentos pós-guerra, o refrão era: “Nós éramos apenas uma pequena engrenagem da grande máquina. Nós tivemos que obedecer.” Arendt contrapõe que sempre se pode cobrar de um ser humano, de uma pessoa, a sua responsabilidade.

Posso estender cuidadosamente essa “banalidade do mal” da política destrutiva para a economia destrutiva? Será que também não se aplica a nós, consumidores “subservientes” e ignorantes produtores-presos-no-sistema-de-produção-internacional, que “nós não sabíamos”? É tão distante! (Mantido) Tão oculto.

 

Ainda bem que existem organizações e movimentos, como a “Amigos da Terra”. Aqueles que tentam revelar o oculto, para que pudéssemos saber e não mais fazer parte da banalidade. Talvez essa viagem anual de Wervel e essa troca também possam contribuir com isso.

 

São Paulo, 14 de março de 2013.

(1) A espiritualidade da lancheira[1], na Tijdschrift voor Geestelijk Leven [Revista para a Vida Espiritual] – TGL, de 1997, incluída no Jornal de Wervel Da Guerra Mundial por Alimentos para Movimento Mundial por Alimentação, de 1998.

(2) Caldo de plástico ou roupas de cânhamo?, no Jornal de Wervel, setembro de 2012.

(3) Wervel e Associations 21 organizam, no dia 17 de abril de 2013, em “Mundo B” (www.mundo-b.org), uma tarde de debates sobre “comércio justo local”. Ao mesmo tempo, é possível visitar a renovada exposição sobre o Cerrado brasileiro. No sábado, 23 de março, Wervel organiza uma tarde de formação sobre “o papel dos bancos na agricultura & alternativas financeiras”.

(4) Veja: www.foeeurope.org

(5) Três publicações: Soy oil and indirect land use change [Óleo de soja e mudança indireta no uso da terra], Sugar cane and land use change in Brazil [Cana-de-açúcar e mudança no uso da terra no Brasil] e ‘Sustainable’ palm oil driving deforestation [Óleo de palma ‘sustentável’ promove desmatamento], cada uma delas com o mesmo subtítulo: Culturas de biocombustíveis, mudança indireta no uso da terra e emissões (FOE, 2010).

(6) Globalmente, o fenômeno do “landgrabbing” está aumentando, não só por causa da cana-de-açúcar para o etanol, mas também por causa da biomassa cana: como um substituto para tudo o que, agora, ainda é fabricado a partir do petróleo (plásticos etc.) Veja Neoquímica, compromisso com a vida, em Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(7) Veja o comovente filme de An Baccaert, À sombra de um delírio verde, sobre o avanço da cana no Mato Grosso do Sul e a situação dos guaranis: www.thedarksideofgreen-themovie.com

(8) Devido às constantes críticas, a Comissão Europeia começa a mudar um pouco sua política. Agora está sendo proposto um teto de 5% de etanol a partir de culturas agrícolas e 5% de “biocombustíveis avançados” (por exemplo, combustível de algas): www.vilt.be/Ethanolindustrie_vindt_EU_bijmengdoelen_onrealistisch


[1]
             Nota da tradutora: Os trabalhadores europeus têm costume de levar seu almoço – geralmente composto de sanduíches preparados em casa e frutas – para o trabalho numa lancheira.


22 A pegada ecológica do gato

Não importa se você entra em um supermercado em Curitiba, em Seul ou em Bruxelas: em qualquer lugar você vê vários metros com opções de ração para gatos e para cachorros. A ração enlatada é um dos bem-vindos polos de crescimento para as multinacionais de alimentos. A indústria de alimentos não pode continuar a se expandir se não houver consumidores com poder de compra. É que um ser humano não recebe alimento porque ele é humano, mas porque ele pode pagar. Os 1 bilhão de famintos podem confirmar esse fato.

Gatos e migração

Com os gatos, é diferente. Eles não são consumidores abastados, mas a nossa relação emocional com cães e gatos já tem mais de cem anos. Nós os humanizamos e vamos continuar a fazê-lo. Eles não podem nos insultar – então, eles são amigos ideais. De modo geral, os cães são encontrados com mais frequência com pessoas mais pobres; os gatos, na classe média e com os ricos. De modo geral, porque há muitos ricos com cães de raça caros ou gatos de raças raras.

 

Há milhares de anos, o gato ocupa um espaço em muitas culturas. É só pensar no status desse animal no tempo dos faraós egípcios. Humanizar animais de estimação é algo mais recente e se disseminou aproximadamente junto com a enorme emigração da Europa. Por causa da pobreza e da fome extremas (em consequência, entre outros, da doença de batata), entre os anos de 1846 e 1924, 55 (!) milhões de europeus se mudaram para as Américas, para a Austrália, a Nova Zelândia, a África do Sul e a Sibéria. A companhia de navegação Red Star Line, da Antuérpia, entre 1873 e 1935 transportou dois milhões de emigrantes europeus para os Estados Unidos e para o Canadá. Em 1930, constatou-se que, em um século, a parte branca da população mundial aumentou para 35%. Com esse êxodo, o gato foi espalhado por todo o mundo. Como, por exemplo, aqui no Sul do Brasil, onde desembarcaram muitos italianos, alemães, ucranianos e poloneses.

Gatos fora

Vamos, agora, nos focar em Dorien Knockaert, na Nova Zelândia. Essa ilha é um país de aves, com espécies endêmicas famosas, como o quivi, um pássaro que não pode voar porque, durante milhares de anos, não havia razão para fugir. Somente com a chegada dos europeus (os primeiros foram holandeses; da província de “Zeeland” para a “Nieuw Zeeland” [Nova Zelândia]) é que também vieram os predadores para a ilha: ratos, urubus, gatos. Agora, o quivi é uma das muitas espécies ameaçadas de extinção. Mas os gatos estão passando bem: quase uma em cada duas famílias tem um gato. O fato de ninguém levar a sério a relação entre as duas evoluções incomoda o economista neozelandês Gareth Morgan. Por isso, ele começou uma campanha antigatos: “Gatos fora”.

 

“O problema é que o seu amigo fofinho, na verdade, é o assassino serial do bairro”, escreve ele em seu site (1). “Nas cidades, os gatos matam os pássaros mais rápido do que eles conseguem se reproduzir. Eles são cúmplices no extermínio de nove espécies de aves nativas e afetam as chances de outras 33 espécies de aves ameaçadas de extinção.” Em seguida, ele faz um apelo: “Faça com que seu gato atual também seja o último. Mime-o, cuide bem dele, mas quando ele morrer, não adote outro em seu lugar.”

Esse apelo circulou ao redor do mundo e desencadeou muitos debates, principalmente entre amantes de felinos e aqueles que odeiam gatos. No entanto, em um ponto, o homem tem razão. Os gatos se multiplicam muito mais rápido do que suas presas. O período de gestação de um gato é de 60-65 dias. Uma gata tem, em média, três ninhadas (= 12 filhotes) por ano. Um ano = 12 gatinhos; 2 anos = 144 gatos, 3 anos = 1.728 gatos, 4 anos = 20.736 gatos (2). Esse cálculo, de um grupo de Diest que adotou a campanha, certamente é um pouco exagerado – até porque gatos do sexo masculino não têm filhotes –, mas os números dão uma ideia de como a população de gatos pode crescer exponencialmente.

O que o gato caça?

Na Bélgica, uma nova campanha da ONG ambientalista Natuurpunt [Ponto da Natureza] pergunta: “O que o gato caça?” (3). Eles não entram na discussão sobre os gatos serem animais de estimação recomendáveis, mas querem fazer com que olhemos para as suas presas, principalmente os camundongos. “Nós suspeitamos que deverão ocorrer grandes mudanças nas populações de camundongos nativos de nosso país”, diz Yuri Cortens, da Natuurpunt. “Para mapear essa mudança, pedimos que as pessoas tirem uma foto de qualquer rato ou camundongo que seu gato cace e faça o upload da imagem em nosso site. Pode-se dizer que fazemos da necessidade uma virtude: esses gatos já estão aqui mesmo. Eles podem nos ajudar em nossa pesquisa.”

 

É claro que não é uma pesquisa muito precisa. Para Natuurpunt, a questão principal é conscientizar. “Os gatos têm um impacto ambiental muito maior do que estamos inclinados a imaginar. Quando, por exemplo, o rato-dos-pomares é ameaçado, você vai ouvir as pessoas sugerirem que isso se deve à coruja. Mas os gatos são muito mais numerosos e influentes.” Eles caçam mais e em locais muito mais distantes do que seus donos geralmente pensam. Eles se afastam facilmente até 8 quilômetros de sua casa, de acordo com um estudo holandês com radiotransmissores. “Na Bélgica há cerca de 2 milhões de gatos e estima-se que um gato mata, em média, 20 animais por ano. Isso representa cerca de 40 milhões de presas por ano.” E qual seria a situação no Brasil? O Brasil, um vasto país, com uma ainda imensa biodiversidade, mas também com muitos colonizadores. Portanto, com muitos animais de estimação.

Equilíbrios

A maioria dos leitores certamente acha ótimo que esses ratos e camundongos sejam capturados. É verdade, às vezes existe superpopulação de camundongos, porque o equilíbrio ecológico está perturbado. Por outro lado, existe uma grande diversidade de ratos e camundongos, e cada um deles tem a sua função no ecossistema. Por exemplo, os voles, os lemingues e os ratos-almiscaradeiros são herbívoros. Eles mantêm o crescimento da vegetação em equilíbrio, garantem que o solo permaneça aerado e, assim, contribuem para a fertilidade.

 

O que nós subestimamos o efeito “espantalho” de um gato. Quando há gatos vivendo em determinado lugar, haverá menos pássaros fazendo ninhos por lá. Assim, mesmo quando não estão caçando, os gatos provocam impacto. Dar mais comida aos gatos para que cacem menos não faz diferença, pois, mesmo sem fome, eles gostam de caçar. Por isso, Morgan recomenda que os neozelandeses mantenham os gatos dentro de casa. E, se o gato vai lá fora, um sininho pode ajudar.

Comer os cães e os cavalos?

Mesmo se um gato passar o dia inteiro dentro de casa, ele tem um grande impacto ambiental. Cortens: “Por causa das enormes quantidades de carne e peixe que eles comem.” Um estudo realizado pela revista The New Scientist, de 2009, revelou que um gato tem o mesmo tamanho de pegada ecológica que um Volkswagen Golf que percorre 10 mil quilômetros por ano (a pegada ecológica de um cão de porte médio se equipara à de um Toyota Land Cruiser). E a ainda resta a questão sobre devermos ou não considerar a embalagem de alumínio de muitas das rações (úmidas) de gatos.

Os resultados do estudo acima estão de acordo com os cálculos que os arquitetos neozelandeses Robert e Brenda Vale fizeram em muito comentado livro, Time to eat the dog: The real guide to sustainable living [É hora de comer o cachorro: o verdadeiro guia para uma vida sustentável]. Eles concluíram que as galinhas são animais de estimação muito mais ecológicos. Os coelhos também têm menor impacto ambiental, especialmente se você comê-los depois de algum tempo. Essa provocação não deixou de atingir o alvo. Um eco distante é a indignação geral no recente escândalo da carne de cavalo na Europa. Os consumidores não aceitam – e com razão – que em muitos países europeus se encontre carne de cavalo na lasanha, enquanto o rótulo diga carne de gado. O que também desempenha um papel importante é que, aparentemente, nós não temos sentimentos quando consumimos a carne de um boi, mas sentimos ao pensar em consumir um cavalo. Especialmente na Grã-Bretanha, onde consumir a carne do nobre animal cavalo é algo que não se faz. A ONG Eva (Etisch Vegetarisch Alternatief [Alternativa Vegetariana Ética]) (4) se pergunta, com razão: “Por que o boi sim e o cavalo não?” É realmente uma questão interessante, em Flandres também, onde continua a aumentar a quantidade de cavalos na paisagem. As vacas estão diminuindo, mas cavalos estão em ascensão, graças ao hobby e com o apoio do ministro-presidente Peeters. Cavalos como um símbolo de status de uma classe média que está enriquecendo.

Emissões de gases de efeito estufa

A ONG Eva, em um cálculo aproximado, afirma que somente pelo consumo de carne a população de gatos belga já produz emissões de gases de efeito estufa equivalentes a um carro de passeio que circula 25 mil vezes em torno da Terra.

 

Em vários pontos, resta a adivinhação. Precisamos de mais pesquisas, mas está claro que a humanização dos animais de estimação e, ao mesmo tempo, a instrumentalização de “animais comestíveis” (vacas, porcos, galinhas) na pecuária intensiva tem impactos planetários.

 

Curitiba, 18 de março de 2013.

(1) Veja: garethsworld.com/catstogo/

(2) Dados do “Projeto Gatos de Rua de Diest”. Diest é uma cidade na Bélgica. “Castrar ou esterilizar” é a mensagem deles.

(3) Veja: www.natuurpunt.be/nl/vereniging/actua/katten-helpen-muizen-tellen_911.aspx [Gatos ajudam a contar camundongos]

(4) No Brasil, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) provavelmente faz a mesma pergunta. Veja: www.vegetarianismo.com.br


23 A Agricultura Familiar ainda pode ser salva?

Notícias do congresso trienal da Fetraf-Sul

Pieter-Jan Lemmens está viajando comigo por alguns dias, no sul do Brasil. Eu aceitei o seu pedido de sugestões de viagem pelo país. Sim, às vezes eu me sinto como dono de uma agência de viagens, para o Brasil. São incontáveis os e-mails e telefonemas de pessoas que querem passear neste país. Por isso, sou obrigar a implementar um filtro: “O que você deseja alcançar com a sua viagem? E você também pode contribuir com Wervel?” Com Pieter-Jan funcionou muito bem. Agora ele trabalha com a equipe do Cerrado e, durante seus seis meses no Brasil e no Peru, ele mantém um blog.

Nós somos um país emergente, mas...

Ou será que devo adotar a atitude do agricultor canadense Robert Thomas? Ele colaborava, pela ONG Share [Compartilhar], com inúmeros projetos no Brasil e recebia as mesmas perguntas de potenciais turistas canadenses. Robert se entusiasmou, passou a organizar viagens para grupos regularmente e, assim, conseguia financiar suas próprias viagens e seu trabalho no Brasil.

De 2003 a 2008, eu morava e trabalhava metade do ano no Brasil, financiado por um projeto da Holanda. A partir de 2009, eu viajo uma vez por ano pelo vasto país chamado Brasil, tendo em mãos a versão em português de meus livros: ferramentas para debater sobre o modelo agrícola que queremos e fazendo esse debate em ambos os lados do Atlântico. Diálogo e debates em universidades, escolas agrícolas, ONGs, diversos movimentos, em jornais e revistas, em vários programas de TV e de rádio. Mas não, não tenho financiamento. Sim, muitas instituições brasileiras querem ouvir aquele “gringo” estranho, mas, geralmente, a resposta é: “Desculpe, não há dinheiro para pagar seu ônibus, seu avião ou o seu trabalho.” Estranho, porque o Brasil é um dos BRICS (1), um país emergente com um otimismo (econômico) sem limites. E não, os governos de países e as ONGs da Europa não vão mais apoiar este trabalho, porque o Brasil é uma economia em crescimento. Com ele, não precisamos mais nos preocupar. É isso mesmo? Esta é uma viagem de anual de lazer de um fanático pelo Brasil?

Congresso Fetraf-Sul

Nas versões brasileiras dos livros anteriores sempre havia um prefácio do coordenador da Fetraf-Sul (2). Por isso, eu sempre incluo esse sindicato inovador, ligado à Agricultura Familiar (AF) nas palestras durante a turnê. Do mesmo modo que os livros e turnês são instrumentos para o debate e a reflexão, o modelo Fetraf também é um instrumento para defender a verdadeira Agricultura Familiar. Para renovar sempre a compreensão da dinâmica temporal e para, juntos, reavaliar como a Fetraf pode/deve se posicionar, os agricultores realizam um congresso a cada três anos. Nesses dias em que estou aqui, está ocorrendo o quarto congresso, em São Lourenço do Oeste (Santa Catarina). Há muito em jogo. A globalização está aumentando, o êxodo rural atingiu um estágio mortal no sul do Brasil e, diariamente, é repetido o mantra da exportação-e-agricultura-empresarial-de-grande-capital dos fazendeiros nas emissoras de TV, as deusas em que muitos brasileiros acreditam cegamente. Ainda existe algum futuro para a Agricultura Familiar? Durante três dias, os 800 delegados de sindicatos locais do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul se debruçam sobre essas e muitas outras questões.

Temos muito a comemorar

Seguindo a boa tradição de “ver-julgar-agir”, na primeira tarde eles analisam a conjuntura atual. Introdução do texto para discussão: “O Brasil mudou muito nos últimos anos. Há uma década, éramos a nação mais desigual do mundo, mas, agora, todos os indicadores sociais apontam melhorias na vida da população brasileira. O país diminuiu a mortalidade infantil, aumentou a presença das crianças na escola, aumentou a expectativa de vida da população. A pobreza caiu 58% de 2003 a 2011, fazendo o Brasil superar as metas do objetivo do milênio e ter o reconhecimento da ONU como um país de referência em políticas de inclusão social. Como brasileiros, temos muito a comemorar: o Brasil mudou para melhor!”

Agricultura camponesa extraditada

E mais adiante: [...] “A produção agrícola, cada vez mais, é pensada, organizada e conduzida pelas grandes empresas transnacionais a partir dos interesses comerciais do mercado. Esse mercado internacional vive de crises com oscilações de preços permanentes, nas quais o produtor não tem controle sobre seu produto, muito menos sobre seu futuro, pois é o elo mais fraco da cadeia, que está sujeito às decisões das empresas e a circunstâncias que não estão ao seu alcance. A certeza da rentabilidade e a concentração do lucro está na outra ponta da cadeia produtiva, no processamento, atacado, indústria e varejo.”

Desafios

No texto também são discutidos os desafios estratégicos para a AF, os desafios para organizar melhor o trabalho sindical e os eixos em torno dos quais se trabalhará nos próximos anos:

·                     mulheres: novas relações de gênero e da igualdade de oportunidades;

·                     juventude: promover condições para permanecer nas zonas rurais;

·                     organização da produção e cooperativismo: garantia de uma renda decente;

·                     ambiente, sustentabilidade e agroecologia: o nosso compromisso;

·                     Ater (Assistência Técnica e Extensão Rural) e ciência a serviço da AF;

·                     questão agrária e acesso à terra: para criar raízes;

·                     moradia em áreas rurais: uma boa moradia é parte da dignidade humana;

·                     formação e qualificação profissionais: valorização de AF;

·                     os agricultores nas mãos dos integradores: valorizar o trabalho do agricultor (3).

Comemorar, mas permanecer crítico. Portanto, um debate acirrado...

O texto apresentado não deve ser simplesmente aceito ou rejeitado. No segundo dia, há um debate em plenário com os coordenadores anteriores e atuais da Fetraf-Sul/CUT. Na sequência, um debate por estado, culminando na formação de 20 grupos por tema.

Os debates podem ser muito críticos e duros. Posso dar a palavra a Altemir Tortelli (4) por um momento? Ele foi o coordenador anterior de Fetraf-Sul e, atualmente, é deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul:

“Nos últimos 20 anos, avançamos bastante em termos de opções políticas. Mesmo assim, não é a AF, mas a agroindústria que ocupa o debate. Sadia, Monsanto e companhia. O controle e a hegemonia do capitalismo prevalecem, mas nunca vimos tantas crises ao mesmo tempo: crise na alimentação e na agricultura; 2 bilhões de pessoas sem água potável ou com água de má qualidade; a crise ambiental com, entre outros, o aquecimento global; a crise energética em nível planetário; a crise da saúde (câncer, obesidade, depressão...); o coração da crise econômica está nos Estados Unidos e na Europa; a FAO, a Organização das Nações Unidas e outras instituições não têm mais poder.

Uma grande preocupação é a juventude que está abandonando as áreas rurais. Talvez seja tarde demais. Comunidades rurais inteiras estão sendo desmanteladas por falta de jovens e de sucessão. A cidade atrai, mas 90% dos empregos para jovens nas cidades visam mão de obra barata.

E também há os grandes momentos que perdemos:

·                     reforma agrária;

·                     os organismos geneticamente modificados (OGMs);

·                     os agrocombustíveis, com a intensificação da monocultura.

A Embrapa (5) é um instrumento do agronegócio. O Pronaf (6) se refletiu principalmente na compra de máquinas.

Nós estamos com nossos produtos no PAA (7), mas Aurora (8) também conseguiu entrar no PAA e fornece o que ela diz serem produtos da AF. Os programas do Pronaf para os jovens são particularmente fracos. Cresol (9) ainda está a serviço do nosso projeto ou está a serviço do agronegócio dominante? Será que a CUT (10) sabe o que ela quer das zonas rurais?”

Definir claramente o que queremos

Tortelli: “Precisamos refletir sobre como queremos nos posicionar nessa conjuntura mudada.

·                     Será que não temos de construir novas frentes? Inclusive com os moradores das cidades?

·                     Devemos colaborar criticamente com os parlamentos e as diversas instâncias governamentais.

·                     Precisamos radicalizar as ‘políticas públicas’. Investir no ensino adaptado em áreas rurais e financiamento justo da AF. Será que não devemos criar um novo banco cooperativo? (11)

·                     De 10 a 20 milhões de reais são destinados para o ‘Bolsa Família’ (12). Não devemos lutar para que os alimentos desse programa também venham da AF e não das multinacionais, como é agora?

·                     A Embrapa está, principalmente, a serviço ao agronegócio. Como podemos redirecionar essa empresa de pesquisa para que ele também apoie a Agricultura Familiar?”

 

No salão, segue-se um debate acirrado. O interessante é que se trata de um sindicato socialista de agricultores, um sindicato que precisa se reinventar sempre. Refundar, como qualquer movimento que gradualmente se transforma em uma instituição: sindicatos, igrejas, ONGs, organizações de todos os tipos. Sim, até mesmo Wervel (13), depois de 23 anos, está estabelecido e sendo reconhecido. Isso é perigoso porque, antes de se dar conta, você é neutralizado. Isso exige refundação e adaptação permanentes.

Cooperhaf

É evidente que há um desequilíbrio de poder entre a agricultura de exportação do agronegócio e a AF. Um detalhe: a agricultura de exportação de larga escala e elevada tecnologia, com grande investimento de capital e pouca ocupação de mão de obra de algumas centenas de milhares de fazendeiros, ainda recebe do governo cinco vezes mais recursos do que os 4 milhões de agricultores familiares e os milhões de agricultores sem-terra. No entanto, este é um “governo popular”...

Apesar desse subfinanciamento da AF, a Fetraf consegue criar projetos de sucesso. Por exemplo, a construção de moradias de Cooperhaf (14). Durante o congresso, a organização realiza a sua assembleia geral anual.

Em 2001, ela começou como uma ferramenta para fixar as famílias de agricultores em áreas rurais; agora, já desde 2009, a cooperativa trabalha com projetos na cidade. A Cooperhaf começou atuando nos três estados do Sul, mas se expandiu para outras Cooperhafs em estados mais ao norte. Ao longo dos anos, já foram construídas 40 mil moradias – e a linha ainda é ascendente.

 

Para finalizar, a última citação do texto para discussão do congresso: “[...] Temos a força social e a eficiência para, com menos terra e menos financiamento, produzir mais por área e criar mais emprego. Em comparação com as grandes empresas, nós somos mais produtivos. Temos a característica da diversidade. Temos identidades culturais de grande significado e importância para o nosso país [...].”

 

São Lourenço do Oeste, 21 de março de 2013.

(1) Países emergentes denominados BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

(2) Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar: www.fetrafsul.org.br (três estados do Sul do país); www.fetraf.org.br (Fetraf-Brasil).

(3) Integradores: empresas de ração e produção de carne e derivados, que mantêm contratos com os criadores – muitas vezes, em más condições sociais. Veja Frango psicótico. Avicultor deprimido? em Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(4) Veja: www.deputadotortelli.com.br

(5) Embrapa (www.embrapa.br): Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, comparável ao Ilvo [Instituut voor Landbouw- en Visserijonderzoek = Instituto de Pesquisa Agrícola e Pesca] (www.ilvo.vlaanderen.be), em Flandres, Bélgica.

(6) Pronaf: Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (http://portal.mda.gov.br/portal/saf/programas/pronaf).

(7) PAA: Programa de Aquisição de Alimentos. É um programa do Ministério do Desenvolvimento Social e do Ministério do Desenvolvimento Agrário para compras institucionais de produtos da Agricultura Familiar (http://www.mds.gov.br/segurancaalimentar/decom/paa e http://portal.mda.gov.br/portal/saf/programas/paa).

(8) “Aurora” ainda é uma cooperativa no nome (semelhante ao Aveve, na Bélgica; www.aveve.be), mas se tornou uma verdadeira multinacional (www.auroraalimentos.com.br)

(9) Cresol (www.cresol.com.br): um sistema de banco cooperativo, originalmente a serviço da Agricultura Familiar (comparável com o antigo Raiffeisen e Cera: atualmente, Banco KBC, na Bélgica).

(10) CUT (www.cut.org.br), o sindicato cofundado em 1983 por Lula (também cofundador do Partido dos Trabalhadores – PT – e, mais tarde, presidente do Brasil, de 2003 a 2011). Desde seu início, a CUT tem uma ala de trabalhadores e uma de agricultores.

(11) Tortelli manifestou esse desabafo alguns dias antes do Dia de Formação de Wervel sobre “O papel dos bancos na agricultura & alternativas financeiras” e a criação de um novo banco cooperativo na Bélgica: www.newb.coop

(12) Bolsa Família (www.mds.gov.br/bolsafamilia), originalmente parte do programa “Fome Zero”, do governo Lula; posteriormente incorporada ao programa mais abrangente.

(13) Veja: www.wervel.be, www.sojaconnectie.be, www.kannabis.be

(14) Veja: www.cooperhaf.org.br. Veja também: Casa nova, vida nova, em Aurora no campo: Soja diferente (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2007); e Um teto sobre a cabeça, um direito humano, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).


24 Cooperafloresta, uma lição para a União Europeia

Na União Europeia, já há dois anos, existem conflitos e discussões sobre a assim chamada “ecologização da agricultura”, prevista para 2014-2020. Especialmente a proposta dos “7% de área de interesse ecológico”[1] está tendo dificuldades de aceitação entre os agricultores belgas. As organizações agrícolas e a maioria de seus membros defendem, principalmente, a “separação”, enquanto Wervel e muitas outras organizações querem que o “entrelaçamento” da natureza com a agricultura seja o mais amplo possível.

Os 7% que dividem a natureza e a agricultura

Quando eu dialogo com grupos no Brasil, modéstia é uma necessidade. Na condição de “gringo”, eu não posso ir chegando com “vocês, brasileiros, estão derrubando a Floresta Amazônica e destruindo o Cerrado” sem apontar a responsabilidade dos europeus, japoneses e chineses (carne, ração, etanol, biodiesel e polpa de celulose sobre o oceano). Eles também sabem que, séculos atrás, nós desmatamos a Europa. Desde a Idade Média que Flandres já é uma das regiões mais densamente povoadas do mundo. Ou seja, ainda no século XIII já havíamos desmatado quase tudo. “Por que, então, precisamos ceder agora 7% da nossa boa terra para dar lugar à ‘agricultura verde’?!”

Dá para ser diferente

Vamos agora para Cooperafloresta (1), um projeto agrícola situado entre Curitiba e São Paulo. Um sistema agroflorestal que evoluiu ao longo dos anos para ser uma referência internacional. Eu visitei a região em 2003 e vi como a Mata Atlântica, a floresta remanescente neste lado do oceano, foi transformada em um deserto, com pouca força vital. Com o apoio de, entre outros, Eliziana Vieira de Araújo, no local onde estou hospedado agora, eles conseguiram converteram esse “sistema mortal” em um sistema cheio de vida: “Sistemas Agroflorestais”. Será que existe algo como “a sedução do bem”, em oposição à “banalidade do mal”? Atualmente, são 112 famílias no Vale do Ribeira, que possuem em conjunto 250 hectares de agroflorestas intensamente manejadas e mais 750 hectares em processo de regeneração natural. No total, eles já transformaram mil hectares em sistemas agroflorestais nos municípios de Barra do Turvo, Adrianópolis e Bocaiúva do Sul, no sul do Brasil. Eles estruturaram uma agroindústria, estão incluídos no processo de certificação participativa da Rede Ecovida (2) e comercializam os seus produtos coletivamente em diversos canais de mercado. A Escola Agroflorestal envolve, anualmente, 800 pessoas.

Mais renda com menos terra

O interessante é que os agricultores e as agricultoras estão produzindo cada vez mais em lotes cada vez menores, e as “capoeiras” (digamos, os 7% de área de interesse ecológico/reserva legal, muito discutida aqui na Europa) são quatro vezes maiores do que o próprio sistema agroflorestal. Além disso, a renda dessas pessoas está aumentando significativamente. Na região, a renda média mensal é de R$ 450,00/mês. Na Cooperafloresta, 40% das famílias recebem entre R$ 551,00 e R$ 1.110,00/mês. Aqueles que possuem áreas maiores no sistema agroflorestal têm uma renda de mais de R$ 1.600,00/mês (3).

Como isso é possível? Afinal, sua “área de interesse ambiental/reserva legal” é quatro vezes maior do que a área cultivada? Apesar das agroflorestas se constituírem na base da produção, da segurança alimentar e da renda das famílias agricultoras, a cobertura mais comum do solo das propriedades é formada por capoeiras (florestas secundárias em estágio inicial e médio de regeneração), de diferentes tamanhos e idades. Em média, as capoeiras ocupam praticamente a metade da área das propriedades (45,5% da área).

É interessante observar, entretanto, que a rotação entre agroflorestas e capoeiras, desenvolvida há quase duas décadas pelos agricultores associados à Cooperafloresta, gera uma relação entre estes dois tipos de áreas de praticamente dois hectares de capoeiras para um hectare de agrofloresta (45,5% da área com capoeiras e 19,5% da área com agroflorestas, no total de áreas avaliadas).

Os agricultores argumentam que é importante fazer um bom trabalho em lotes menores e, assim, aumentar a quantidade de hectares. Não se trata do tamanho de cada lote em sistema agroflorestal. Na maioria dos lotes agroflorestais, encontram-se mais espécies e a densidade está ficando cada vez maior. Nos novos lotes com menos de um hectare, é comum encontrar 50 espécies de arbustos ou árvores, com uma densidade de mais de 7 mil plantas por hectare.

A fertilidade do solo e o sequestro de CO2

À primeira vista, essas capoeiras não têm utilidade. No entanto, uma grande quantidade de raízes aumenta a fertilidade do solo. Em primeiro lugar, há uma grande quantidade de matéria orgânica, como um resultado do material podado das plantas, que é colocado sobre o solo com cuidado. Ele garante uma intensa fertilização.

Estudos mostram que há uma diferença significativa no sequestro de CO2 entre os sistemas agroflorestais em campos e os mesmos sistemas no assim chamado “mato”. Por outro lado, os agricultores identificam em capoeiras as sementes que seriam perdidas no sistema agroflorestal. Além disso, eles encontram muita vida na forma de pássaros e abelhas, que trazem sementes e garantem a polinização. Essas características são importantes para o aumento da diversidade e da produção.

Cooperafloresta: “Na agricultura convencional, não há uma transição gradual entre a área cultivada e a floresta. Eles querem fazer o máximo de monocultura possível.” Por exemplo, em Flandres, até a margem de um córrego...

Será que é necessária uma mudança de paradigma para começar a pensar em “área de interesse ecológico”? Que dirá tentar implantá-la nas próprias terras!? Os agricultores com uma boa renda de antigas áreas erodidas, no Brasil, podem ensinar muito aos moradores da Bélgica. Com certeza. Talvez a Federação Europeia de Sistemas Agroflorestais (4) devesse fazer uma visita à Cooperfloresta.

 

Florianópolis, 23 de março de 2013.

(1) Veja: www.cooperfloresta.com e www.agroflorestar.org.br. Veja também o capítulo: Sistemas agroflorestais e recuperação.

(2) Veja: www.ecovida.org.br

(3) Veja também Mato Grosso: do desmatamento para a recuperação?, com o quadro sobre o rendimento dos diferentes sistemas agrícolas, em: Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, Curitiba, 2010).

(4) Veja: www.agroforestry.eu e www.agroforestry.be


[1]
             Nota da tradutora: Semelhante à “Reserva Legal”, prevista no Código Florestal Brasileiro.


25 Índios no Rio? O lado sombrio de “verde”

Um apelo à imaginação: índios que são expulsos por causa da ampliação do estádio de futebol Maracanã, no Rio de Janeiro. “Índios”. Desde a época de Colombo, a palavra nunca foi corrigida; o bom homem acreditou que ele chegara à Índia. Desde a “descoberta” do continente americano, os nativos, tanto da América do Norte quanto da Central e da do Sul, foram massacrados. Em 2013, eles ainda são fortemente marginalizados. Sim, regularmente há vítimas fatais – especialmente na zona rural.

 

O fato gerou um forte artigo no jornal belga De Standaard, de 26 de março. É significativo que o fato seja pouco noticiado pela imprensa brasileira. A situação dos “índios” lembra um pouco a dos “ciganos” na Europa. Também é melhor não noticiar muito sobre eles... Na nossa memória coletiva europeia, o Brasil é lembrado como sinônimo de “futebol e carnaval no Rio de Janeiro”. De vez em quando, ficamos emocionados ou indignados com o que está sendo feito com os índios. De vez em quando...

 

Estou viajando pelo Brasil para lançar o novo livro de Wervel, em português: Legal! Realidade – Otimismo – Esperança. Na obra eu tento explicar a diferença fundamental entre o otimismo superficial (por exemplo, tecnológico) e a esperança. Esperança que vai mais fundo, à la Vaclav Havel. O título é meio estranho porque, a cada ano, eu retorno mais pessimista desse subcontinente.

País emergente, país da carne

Como isso é possível? O Brasil não é um “país emergente”, um dos BRICS? É justamente isso que torna o diálogo tão interessante. Os brasileiros vivem não só na euforia do carnaval e do futebol, mas também na dinâmica de uma prosperidade crescente, apesar da crise global. Para apontar para o fato de que, em muitas áreas, esse crescimento não é sustentável, os movimentos sociais e as universidades recepcionam um “gringo”: para ajudar a revelar o lado sombrio dos desenvolvimentos atuais.

 

Neste ano, no Rio de Janeiro, o agronegócio, o carnaval, os índios e o futebol estão estranhamente entrelaçados. O agronegócio, a reboque da expansão da soja, há anos financia grupos que desfilam no carnaval. A Vila Isabel venceu o Carnaval 2013. Essa escola de samba foi financiada pela BASF.

 

Atualmente restam 180 povos indígenas no Brasil. Há 500 anos, estima-se que havia cerca de 500. Às vezes, você realmente pode encontrá-los nas cidades: São Paulo abriga uma grande favela, na qual guaranis sobrevivem em condições desumanas; no Rio de Janeiro havia, até agora, aquele prédio ocupado [Museu do Índio]; nas rodoviárias, eles tentam vender cestos de fibras vegetais. Eles podem expor seu artesanato próximo às cataratas de Foz do Iguaçu, mas estão proibidos de entrar no Parque Nacional do Iguaçu, onde estão as mundialmente famosas cataratas. No entanto, é terra sagrada para eles. Seus antepassados foram enterrados ali.

Isso acontece em nosso país?

Oficialmente, os brasileiros não são racistas. Na prática, é diferente, especialmente em relação a índios e negros. Frequentemente, o desconhecimento também contribui para isso. Por exemplo, durante a viagem, levo comigo o documentário da An Baccaert, ex-jornalista da [Difusora de Rádio e Televisão Flamenga (Bélgica)] VRT: À sombra de um delírio verde. Quando exibimos esse filme em universidades, os estudantes ficam chocados: “Isso acontece em nosso país? Nós nunca vemos essas imagens na TV!”

 

O filme mostra de forma clara como os guaranis e outros povos são expulsos pela aliança dos fazendeiros com a polícia; como eles são empregados para trabalhar em condições análogas à escravidão nos canaviais que ocupam suas terras ancestrais. Cana-de-açúcar, especialmente para o etanol, a assim chamada “gasolina verde” para os carros brasileiros e europeus. Além da cana-de-açúcar, a soja, os reflorestamentos de eucalipto e o gado avançam cada vez mais. Em quase todos os estados, eles cercam as reservas indígenas. Em muitos casos, também provocam o desmatamento nessas áreas – para o plantio de soja, o “ouro verde”.

 

A soja é destinada, principalmente, para produção de ração para suínos, aves, gado e peixes europeus e chineses. Do óleo é feito o “bio”diesel. Novamente “verde”.

O eucalipto representa a celulose para a Europa. Especula-se muito sobre o cenário futuro: etanol a partir de eucalipto geneticamente modificado. Combustível agrícola, que teria menos impacto ambiental do que o etanol de cana-de-açúcar...

Há séculos, o gado reina na zona rural. Agora ele está sendo levado para a Amazônia e para o Cerrado, justamente pelo avanço da soja, da cana-de-açúcar e do eucalipto.

 

Os povos indígenas que foram violentamente expulsos por causa do estádio de futebol Maracanã têm valor de notícia – pelo menos na Europa. Soja, cana-de-açúcar e eucalipto para os consumidores europeus chamam muito menos a nossa atenção. No entanto, são justamente os dois ícones de nossa sociedade ocidental que tomam suas terras e água limpa: “O Rei Carro e Imperador Presunto”. Ração animal, carne e etanol não são tão inocentes quanto parecem ser.

 

Chapecó, 26 de março de 2013.

Esse texto foi publicado na Bélgica, no jornal “De Standaard”, como “Opinião”, na Sexta-Feira Santa, 29 de março de 2013.


26 Jovens semeiam Terra Solidária

Alguns anos antes da fundação da Fetraf-Sul/CUT, no final da década de 1990, já havia iniciado o programa de formação Terra Solidária. O nome é um achado: “Terra Solidária”! Poderia ser um sinônimo para Wervel: grupo de trabalho por uma agricultura justa e responsável. Solidariedade e ecologia, o que também é defendido por “Mundo B”, em Bruxelas (1).

Sinergia

Em linha com essa tradição de Terra Solidária, agora está sendo criado um conjunto multiplicador interessante, com 5 mil jovens dos três estados da Região Sul.

Bem no dia em que cheguei a Chapecó, ocorria um encontro animado dos organizadores e professores do novo projeto. Trata-se de uma sinergia entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário, a Fetraf-Sul/CUT, a recentemente criada Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS) e o Sebrae (2): Curso Juventude Semeando Terra Solidária.

 

Além do rico conteúdo dos 12 módulos, o principal item inovador é o acionamento dos jovens. Eles são capacitados para multiplicar o conhecimento adquiridos para suas bases. O curso terá início em abril de 2013, com duração de um ano e meio. Foram encontrados 120 jovens – 40 de cada estado – dispostos a percorrer esse trajeto e a incluir outras pessoas na formação. Nos intervalos entre os dias de curso, eles mesmos repassarão o conhecimento adquirido nos municípios de suas regiões. Para frequentar o curso e auxiliar na capacitação, os 120 jovens recebem dos sindicatos locais um salário mínimo.

Os objetivos desse empreendimento?

Durante o último congresso, ouvimos muitas vezes que uma das grandes preocupações atualmente é o êxodo rural, no qual especialmente os jovens partem para as cidades. Resultado: intensa falta de sucessores e a anteriormente dinâmica vida rural que ameaça deixar de existir.

 

O curso gira em torno de três eixos:

·                     agricultura familiar e campesinato;

·                     organização social – associações e trabalho sindical;

·                     sociedade e Estado.

 

Objetivo geral: ampliação dos locais de capacitação e organização dos jovens da Agricultura Familiar, com base na afirmação e na valorização da vida rural, com a intenção de garantir a permanência no campo por meio de renda, educação e qualidade de vida.

 

Mais especificamente:

·                     incentivar a permanência de jovens no campo, envolvendo-os nas “políticas públicas”;

·                     formar novas lideranças nos sindicatos e para as organizações econômicas da Agricultura Familiar;

·                     estimular a inclusão dos jovens no mundo digital, para que possam ajustar melhor seu empreendimento às possibilidades digitais;

·                     criar oportunidades para conduzir seu próprio empreendimento por meio de um método de gerenciamento de unidades de produção familiar, que vise à sustentabilidade, à diversificação e à adoção de tecnologia apropriada;

·                     promover espaços de geração de renda, explorando diversas alternativas.

Universidade e campo se encontram

Um parceiro importante em todo o processo é a nova universidade UFFS. Ela é o resultado de uma longa luta das organizações populares para a implantação de uma universidade no Sul do Brasil, onde até alguns anos atrás não havia oportunidade de educação (3).

 

Em ambos os lados do oceano, o solo foi compactado por máquinas pesadas. A agricultura de exportação baseada em agroquímica empobreceu ainda mais o solo.

Deixem esses jovens revirar a terra petrificada e trabalhá-la com as mãos. Aos poucos, eles serão capazes de recriar uma Terra Solidária. Muitas vezes, onde parece impossível. Mas essa perseverança eles aprenderam de seus pais.

Ou será que eles vão esperar inutilmente por um sucessor?

 

Chapecó, 27 de março de 2013.

(1) “Mundo B” (www.mundo-b.org): um escritório internacional em Bruxelas, com uma sinergia de 40 organizações (principalmente) europeias, com 400 colaboradores. Wervel (www.wervel.be) está sediada neste edifício.

(2) Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA (www.mda.gov.br), Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS (www.uffs.edu.br), Fetraf-Sul/CUT (www.fetrafsul.org.br) e Serviço de apoio às micro e pequenas empresas – Sebrae (www.sebrae.com.br).

(3) Veja: Uma universidade de e para os movimentos sociais, em Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).


27 Syngenta e Bayer em defesa das abelhas?

Ou: Quando a esmola é demais... o santo desconfia

Estou visitando a diocese de Ruy Barbosa, interior da Bahia. O bispo é o padre-agrônomo André De Witte, da Bélgica. É uma diocese na qual ainda se trabalha muita a partir da realidade social. A Teologia da Libertação, que surgiu na década de 1970, continua a inspirar. Aliás, um dos pais dessa teologia faleceu em 2010. José Comblin, nativo de Bruxelas, teria completado agora 90 anos de idade. Na Bélgica, ele é um nobre e desconhecido sacerdote. Entretanto, não é possível imaginar o movimento de libertação dos últimos 50 anos na América Latina sem Comblin. Por isso, neste outono, nós e um grupo de simpatizantes vamos editar uma obra (em francês e em holandês) na Bélgica, em memória de José e o que ele representava/representa[1].

O silêncio ensurdecedor sobre a terrível seca

Atualmente, a realidade no interior baiano é dominada principalmente pela seca persistente. Havia 50 anos que eles não vivenciavam por aqui uma seca tão prolongada. No entanto, a imprensa dedica pouca atenção ao assunto. Essa realidade de crescente desespero e êxodo rural não se encaixa exatamente do espetáculo permanente de boas notícias: “O Brasil é um país emergente. Dentro de alguns anos, vamos erradicar a pobreza.”

Insurreição e ressurreição

Ontem à tarde tivemos uma palestra e um encontro com centenas de jovens da escola agrícola local. Outros interessados da cidade também participaram de debate. Em seguida, uma entrevista na “Rádio Esperança”. O que podemos esperar nessa triste realidade? A introdução do último livro de Wervel, Legal!, vem a calhar. O subtítulo é Otimismo – Realidade – Esperança. A realidade está no centro. Toda vez, é novamente dali que partimos. Aquele mundo real muitas vezes não é uma fonte de otimismo. Mas a sinergia de grupos, indivíduos e organizações podem fazer brotar a esperança. Será que a Páscoa – insurreição e ressurreição – é possível em uma paisagem árida, na qual as pessoas fazem as malas e partem para a cidade? Em êxodo, mas nem sempre para uma vida nova e melhor.

Debate sobre neonicotinoides

Um dos participantes é Alex Lima Fábio de Melo. Ele é o coordenador de um promissor projeto de abelhas: Coopaerb (Cooperativa dos pequenos produtores agroecológicos do entorno de Ruy Barbosa). Num momento em que a União Europeia não consegue se decidir se vão ou não proibir neonicotinoides (1), essa visita tem um efeito revigorante. À primeira vista, aqui no interior da Bahia, estamos longe das atividades de lobby promovidas por Syngenta e Bayer, em Bruxelas – muito embora, desde 2009, o Brasil seja o campeão mundial do uso de agrotóxicos. Sim, aqui realmente se usa a palavra “veneno”. Isso desperta uma imagem muito diferente do que as revistas agrícolas “van bij ons” [locais] (2), invariavelmente, chamam de “defensivos agrícolas”. Defensivos? De quem? De quais interesses? “Newspeak” [Novilíngua] para qual modelo agrícola dominante? Desde a batalha entre von Liebig e Hensel, final do século XIX, ainda não houve grandes mudanças. Infelizmente, a proposta agroecológica de Hensel levou a pior (3). As substâncias químicas destinadas à guerra continuam a ser empregadas na guerra global nas lavouras (4).

Syngenta, defensor da vida?

No momento em que escrevo esta crônica, vem aí outra ofensiva “charmosa” de dois gigantes da indústria química: “Plano de Syngenta e Bayer para salvar as abelhas” (5). Eles argumentam que a proibição não salvará as colmeias. É verdade, ainda há debate sobre as verdadeiras causas da morte maciça de abelhas na Europa e em todo o mundo (por exemplo, no Sul do Brasil). Que as sementes embebidas em veneno desempenham um papel central nisso está claramente provado, mas há mais acontecendo. O enfraquecimento generalizado das abelhas, por causa do veneno e por outros fatores ambientais, tornam elas mais sensíveis ao ácaro Varroa.

Semeando o veneno da confusão

Syngenta e Bayer, obviamente, querem a todo custo continuar vendendo o seu veneno – mas, ao mesmo tempo, eles fazem um apelo “forte” por margens floridas de lavouras. Para as abelhas, que ainda não morreram. Ou cujos cérebros ainda não foram afetados, de modo que elas ainda encontrem as margens floridas (6). Os gigantes se defendem como demônios em uma pia de água benta. Para Syngenta, essa eventual proibição coloca em jogo cerca de 1 bilhão de euros. Portanto, vale a pena semear alguma confusão semeada! Há menos de um mês, a mesma multinacional organizou um dia de lobby no local conhecido por Kunstberg [Montanha da Arte], no centro de Bruxelas. Lá fora – no meio de inverno – havia uma plantação de milho e de outras culturas, com propaganda informando que a empresa de produtos químicos defendia a vida, a segurança alimentar e as abelhas. Entre o público, estavam o ministro-presidente da região de Flandres (Bélgica) e o ministro da Agricultura, Kris Peeters, membros da Comissão Europeia, e outras pessoas do alto escalão. Enfim, todas as pessoas que têm boas intenções para com as abelhas e a agricultura. Porque, sim, não vamos nos esquecer: sem as abelhas, grande parte da produção mundial (e dos nossos alimentos) está ameaçada.

Normas sob medida para a grande indústria

Voltando para Alex, em Ruy Barbosa (Bahia). Ele trabalha para Coopaerb, um projeto que é cofinanciado pela ONG belga Disop (7). Cinco anos atrás, com o apoio deles, foi construído um local de processamento e armazenamento. Não é fácil obter a aprovação do Ministério da Agricultura porque as normas estão estreitamente alinhadas com a grande indústria, e não com a Agricultura Familiar. É semelhante à situação na União Europeia, onde as normas de higiene também são fixadas sob medida para a indústria de alimentos que faz lobby e que, em Bruxelas, inclusive se senta à mesa para ajudar a escrevê-las... Entretanto, o excesso de higiene poderia diminuir nossas defesas naturais: o consumidor, reduzido a uma planta de estufa, que adoece ao menor espirro da pessoa que está ao seu lado. Por exemplo, se a norma estipular que o mel exótico a ser importado precisa ser aquecido a 70ºC, esse processo também destrói as enzimas benéficas. Resíduos de veneno em alimentos são, naturalmente, outra questão. Estes sempre devem ser evitados.

 

Recentemente, a cooperativa obteve a aprovação, o selo, e agora eles podem comercializar o mel oficialmente. Entre outros, pelo programa de compras para a merenda escolar eles conseguem, facilmente, vender seu mel. A famosa lei que prevê que, a partir de 1º de janeiro de 2010, 30% de todas as compras para as escolas devem vir da Agricultura Familiar, cria novas oportunidades em todo o Brasil. Ou seja, esperança.

As espécies exóticas, às vezes, podem ajudar

Atualmente, devido à seca extrema, a produção está muito baixa, mas a apicultura tem um enorme potencial por aqui. Em 2011, os cooperados produziram, em conjunto, 57,2 toneladas de mel. Como o inverno não é rigoroso, é possível coletar o mel até cinco vezes por ano. Não são exceção os 50 quilos de mel por colmeia/ano. Durante alguns meses, de agosto a novembro, há poucas plantas e árvores floridas. Por isso, Alex estimula os agricultores a plantar algaroba. Essa espécie floresce justamente nesses meses, de modo que pode haver produção ao longo de todo o ano. Mas é necessário ter cuidado, porque é uma espécie exótica, que ameaça suprimir espécies nativas. A intenção não pode ser a de reflorestar o Brasil com eucalipto ou com o homogeneizador pínus e a algaroba.

 

O que é interessante é que a algaroba também produz frutos alongados, muito ricos em proteína. Eles podem ser usados localmente, como ração animal. Já existe uma empresa que transforma os frutos em ração, mas os agricultores podem, tranquilamente, manter isso nas próprias mãos. Pode ser extremamente importante em épocas de seca.

Alex não ensina apenas criação de abelhas aos agricultores, mas também a como fazer húmus. Em um viveiro, ele produz mudas de espécies arbóreas nativas e, é claro, da exótica algaroba. Alunos do colégio agrícola fazem estágio lá. Os agricultores também vêm dar uma espiada, pois fazer húmus com resíduos orgânicos, esterco e minhocas é novidade para eles. E as mudas são muito bem-vindas, pois o desmatamento está tão acelerado que as abelhas têm dificuldade de sobreviver e de se alimentar. Ou seja, uma abordagem abrangente.

 

A algaroba me lembra o espinheiro-da-virgínia, que está produzindo proteínas em muitas avenidas de Bruxelas. Ninguém sabe disso. Por isso, quando Wervel, no ano passado, entregou ao Parlamento Europeu nossa petição internacional sobre proteínas, ela foi acompanhada pelas vagens compridas colhidas nas avenidas de Bruxelas. Para indicar que a União Europeia não pode continuar sendo dependente de uma única fonte de proteína: a soja importada. Não é um sonho falso, e sim uma verdade óbvia. Nós temos muitas fontes “locais” de proteína (2).

As abelhas europeias africanizadas expulsam as nativas

Exatamente essa expulsão por espécies exóticas também está acontecendo aqui com as abelhas. Os missionários trouxeram consigo abelhas europeias e, em 1956, abelhas africanas escaparam de um laboratório. Esses insetos são particularmente agressivos e cruzaram com as europeias. Resultado: todas as abelhas se tornaram agressivas, o que resultou até em morte durante suas buscas por alimentos. As espécies de abelhas nativas foram marginalizadas. É uma pena; talvez elas produzam menos mel, mas o mel é melhor e os insetos não têm ferrão. Ou seja, são muito pacíficas.

Superando o medo

Por enquanto, o projeto ainda está trabalhando com abelhas africanizadas, mas nos últimos anos eles estão tentando incentivar os agricultores a redescobrir o valor das espécies nativas. Alex dá um exemplo inspirador. Passamos por sua casa na cidade e vimos caixas penduradas com umas sete espécies diferentes de abelhas. Os vizinhos, inicialmente, ficaram com medo, por causa do trauma das abelhas africanas, mas agora percebem que os insetos são amigáveis e produzem um mel excelente. É outro exemplo de como a agricultura urbana é possível. Nos últimos anos, também há criação de abelhas em Bruxelas. Como na cidade não é permitido aplicar agrotóxicos, o mel seria até mais puro do que o do campo. Alex tem ainda uma cabra que fornece o leite diário. Ela recebe resíduos vegetais e folhas de “catinga-de-porco”, uma árvore com folhas ricas em proteína. Novamente, proteína sem de soja... Sim, é possível!

 

Eu sei pouco sobre abelhas, mas, de repente, eu me sinto conectado com o padre Modest Haerens, um confrade da Abadia de Averbode. Ele faleceu no ano em que as abelhas africanas escaparam no Brasil, em 1956, e, até a sua morte, foi um internacionalmente cobiçado “palestrante sobre abelhas”. Em parte graças a ele, na primeira metade do século XX, a apicultura se tornou um verdadeiro movimento social.

Será que isso poderia acontecer novamente aqui? A cooperativa já tem cem apicultores registrados, e estão mantendo contato com 300 agricultores em 35 municípios. É possível.

 

Ruy Barbosa (Bahia), 2 de abril de 2013.

(1) Veja: www.vilt.be/Lidstaten_aarzelen_over_verbod_op_neonicotinoiden [Estados-Membros hesitam sobre a proibição de neonicotinoides] (veneno em que sementes são imersas, especialmente milho, colza, girassol e algodão). Além dos três neonicotinoides que estão em debate, Greenpeace exige a proibição de outros quatro agrotóxicos: www.greenpeace.org/international/en/publications/Campaign-reports/Agriculture/Bees-in-Decline

Enquanto isso, Bayer não quer divulgar seus estudos secretos..

(2) O termo “local” utilizado nesta crônica é uma resposta à campanha mentirosa do lobby agrícola de Flandres. A campanha divulga, entre outros produtos, a “carne produzida localmente”, mas deixa de informar que, para isso, é necessária uma grande quantidade de rações para animais, além de solo e água do outro lado do oceano. Para desmascarar a mentira, Wervel editou um cartaz, “Carne produzida localmente? Desmatamento ao longe!”, com imagens de satélite do desmatamento no Cerrado brasileiro. Durante a viagem pelo Brasil, eu distribuo os cartazes como um “jogo americano”. Os brasileiros apreciam o fato de que os europeus se preocupam com a riqueza do Cerrado e enxergam sua própria responsabilidade no desmatamento do outro lado do oceano.

(3) Veja: Nosso futuro roubado, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(4) Veja: Ração animal, um história de interdependência, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(5) Veja: www.vilt.be/Reddingsplan_van_Syngenta_en_Bayer_voor_de_bijen [Plano de Syngenta e Bayer para salvar as abelhas]. Veja também: www.vilt.be/Nieuwe_bijenhotels_in_Brussel_en_Antwerpen [Novos hotéis para abelhas em Bruxelas e Antuérpia].

(6) Veja: www.vilt.be/Neonicotinoiden_tasten_hersenen_van_bijen_aan [Neonicotinoides afetam o cérebro das abelhas]

(7) Veja: www.disop.be/es


[1]
             Nota da tradutora: HOORNAERT, E. (Org.). Novos desafios para o cristianismo: a contribuição de José Comblin. São Paulo: Paulus, 2010.