IMPLICAÇÕES MORAIS DO SOFRIMENTO ANIMAL E DA DEVASTAÇÃO AMBIENTAL; A DESMORALIZAÇÃO HUMANA NA PRODUÇÃO E CONSUMO DE CARNE

 

(Trabalho apresentado na Plenária Pelos Animais. Implicações globais da produção de animais para o abate. 36° Congresso Vegetariano Mundial, Florianópolis, SC, Brasil, 13 de novembro de 2004, das 16:30-18:00 hs)

Objetificação, fragmentação e consumo constituem três etapas do processo, no qual um ser vivo animal consciente é transformado, pela ação humana, em algo destituído de vida, em matéria inerte e sem consciência, condenada a desaparecer da face da terra.

O processo de objetificação dos animais, considerados “propriedade” do “produtor” e do empresário de açougues, sua vida miserável e morte em agonia, e a fragmentação de seus corpos para torná-los “carne”, matéria orgânica morta comestível, está impresso, em cada uma de suas etapas, pela marca indelével da violência. Toda “carne” consumida resulta do processo de transformação do animal vivo, sensível e consciente, numa massa enrijecida, a ser cortada, recortada, cozida, mastigada e engolida. Carol J. Adams, em seu livro, The Political Significance of Meat Eating,1 aponta a institucionalização da brutalidade praticada contra os animais como eixo ou matriz cognitiva e moral de toda espécie de violência, especialmente daquela explicitamente vinculada ao conceito de “carne”, a sexual.

Não há bondade nem inocência, no hábito humano de ingerir a carne animal, ou seus derivados. Apenas violência, ainda que os consumidores ignorem o processo de produção de frangos, suínos, vitela, leite, ovos. Comer carne, no entender de Adams, é um ato de violência. A indústria da carne só faz confirmar essa suspeita. Esforços incontáveis são empregues para escamotear a realidade, tanto do confinamento forçado e intensivo de aves, suínos e bovinos produzidos aos milhões, em escala industrial, para o abate ou exploração de seus corpos, quanto dos abatedouros, denominados “frigoríficos”, câmaras da morte cruel, agoniada. O esforço dos donos de “frigoríficos” tem por finalidade fazer desaparecer das vistas do consumidor os diferentes estágios do processo de aniquilamento da vida pelo qual passam os animais, do dia de seu nascimento até o da sua morte.

O nascimento de um animal destinado ao abate, avino, bovino ou suíno, não guarda qualquer semelhança com o dos que vivem em liberdade. Os filhos são arrancados das mães tão logo isso se mostre lucrativo para os “produtores”. A “ração”, nome que substitui o que bem sabemos ser alimentação, preparada, balanceada, regulamentada, a qual os milhões de animais condenados ao confinamento intensivo são forçados a consumir várias vezes ao dia, em nada se parece com aquela buscada e escolhida pelo animal na natureza. O movimento dos animais mantidos em cativeiro perpétuo, em nada se parece com o movimento peculiar a cada uma das espécies.

A interação social de animais confinados em nada se parece com aquela que esses mesmos animais seriam capazes de realizar, caso fossem deixados em seu ambiente natural. Sua saúde, mantida através de tratamento veterinário, não visa seu bem-estar específico, a não ser na exata medida em que seu bem-estar “agrega valor”, representado nos dividendos obtidos pelo “produtor” em decorrência da “qualidade” do “produto” final, seja esse a carne, o couro, o leite ou os ovos.

A morte em série, hemorrágica, produzida por instrumentos perfuro-cortantes e por lâminas de degola, não tem nada a ver com a morte natural por senilidade, ou mesmo no embate pela própria sobrevivência. A idade na qual aves, suínos e vitelas sofrem a pena de morte, equivale à infantil, nos humanos. Não há gozo dos diferentes estágios do desenvolvimento biológico, social e emocional, constitutivos do bem-estar próprio a cada uma das espécies vivas sencientes, dorentes e dotadas de autonomia prática.

Destruído o sopro vital, o que resta, pendurado nos ganchos de ferro da esteira rolante de um frigorífico, são milhares de unidades de matéria inerte, morta. O gosto pelo consumo de carne animal expressa um gosto não revelado, o de mastigar, engolir e digerir pedaços da matéria morta de alguém que antes não apenas vivia, mas que se movia com autonomia para prover-se. Destituir o ser vivo dotado de sensibilidade e consciência de sua característica principal, a de ser vivo com noção do próprio ser, e transformá-lo em uma pasta inerte, destituída do movimento e da cadeia vital que agrega seus tecidos, faz parte do ato de servir-se de carne.

Mas, o consumidor não se pergunta sobre a origem daquilo que ali está, em seu prato. Os diversos momentos do processo de destruição do ser vivo em pedaços de matéria inerte não estão estampados nas paredes do restaurante no qual se serve, nem nos azulejos de sua cozinha, muito menos no rótulo da embalagem na qual esse naco de matéria morta é vendido ao consumidor.

Na indústria de matéria animal, tudo é velado. Desse modo, os movimentos humanos de servir-se da carne morta, cortá-la, levá-la à boca, mastigá-la e engoli-la não evocam nem referem a penosa experiência do percurso atravessado pelo animal, do nascer ao morrer, nas jaulas, esteiras e caldeirões da indústria frigorífica. Num açougue industrial, entram, aos milhares, indivíduos vivos em pânico pelos sinais da destruição em massa que vêem diante de si, que suas narinas aguçadas inalam, que seus ouvidos refinados ouvem. O “frigorífico”, esse palco da matança impiedosa é mantido fechado. Os animais, enjaulados em contêineres, despejados nas rampas que dão acesso ao box de sangria, são acorrentados e pendurados pelos membros, de cabeça para baixo, penúltimo gesto humano de destituição de sua liberdade e autonomia física.

Os animais são mortos aprisionados, acorrentados e aterrorizados, portanto, na condição de reféns. Sem chance de fuga, nem liberdade alguma para lutar e defender-se. Mas, tudo isso é maquiado para disfarçar qualquer evidência de que naquela matéria agora inerte reinava antes o movimento, a vida, uma consciência e emoções próprias àquela espécie animal, analogamente ao que ocorre ao ser humano. Para garantir o embuste, há que lhes arrancar as penas, os pêlos, o couro. Há que destituí-los do invólucro específico, no qual nasceram em seu formato animal e sobreviveram. Há que destituí-los da evidência mais particular de que pertenciam a uma determinada espécie, e de que eram, de acordo com a mesma, constituídos para empreender determinadas formas de movimento, prover-se, interagir, reproduzir-se e defender-se da hostilidade ambiental natural e social. Depenados, despelados e escalpelados, parecem ser finalmente aquilo que os consumidores tanto apreciam, matéria inerte.

Muitos atos são necessários para destruir a face de um animal, até que esse se torne mera “carne”. Após a morte violenta, segue-se a próxima etapa, a do corte. Esse visa um fim ainda mais particular, o de fazer o corpo do animal morto parecer com algo que o animal vivo não parece, algo que o consumidor quer encontrar nas gôndolas do supermercado, nas prateleiras dos açougues, algo que agora leva outro nome: carne.

Aos pedaços, a carne vendida já em nada faz lembrar ao comprador o que antes ali estava, algo antes agregado àquele pedaço, algo que formava parte de um corpo em movimento. Quem sabe, o pedaço faltante compunha uma perna. Com as pernas o animal movia-se em busca do alimento quando tinha fome, ou quando aborrecia-se, pela absoluta falta de atividade, típica do confinamento intensivo ao qual são condenados. Quem sabe, agregado àquela parte ora adquirida no caixa do supermercado, estava um outro pedaço, e juntos, esses dois ou mais pedaços constituíam um peito, abrigo de um órgão, o coração, pulsando sem parar, para bombear o sangue aos canais de oxigenação dos tecidos, mantendo, assim, sua unidade vital. Mas, numa embalagem plastificada, agora, para o consumidor, há apenas um pedaço de carne.

O mascaramento da natureza daquilo que ora se encontra confinado num invólucro rotulado de uma grife qualquer de “carne” ainda não findou. Há que voltar a cortar, levar ao fogo, acrescentar outros ingredientes, deixar amolecer, antes de poder ser servido num prato. Nesse momento, a cor, a textura, o sabor mascarado pelos temperos, e a consistência, em nada farão lembrar ao comensal que isso não é uma coisa, que carne não é um nome qualquer, mas o nome que designa matéria morta, inerte, um nome para designar uma obra humana, a que tira a vida da matéria de um corpo animado, e compraz-se em o fatiar, mastigar e engolir, desprezando absolutamente na condição do outro animal aquilo mesmo que considera ser o valor mais alto de sua própria condição, o fato de estar vivo e de gozar de liberdade para mover-se e prover-se.

O ato de matar os animais para os transformar em carne destinada a alimentar humanos esconde uma sucessão de etapas da mais pura violência, contra sua natureza, contra a natureza do ambiente natural nas regiões onde se instalam os grandes “frigoríficos”, e contra a saúde física e moral dos seres humanos.

Se a ética está destinada a buscar um princípio moral universal, capaz de imperar sobre interesses particulares e levar o sujeito moral a agir de acordo com um princípio que ele mesmo aceita ser válido para nortear as ações alheias quando são os seus interesses que estão em jogo, então há que revisar a ética “humanista” tradicional, para adequá-la àquela exigência. Já não há como sustentar uma ética para defender exclusivamente os interesses humanos, enquanto outra ética procura a defesa dos animais, e ainda uma terceira a defesa da vida ambiental. A ética deve ser uma única, e o princípio que a rege, o mesmo para definir o que é bom para os seres humanos, para os animais e para as demais formas de vida.

Nota:

1. Cf. um resumo de sua argumentação, em ADAMS, Carol J. “The Rape of Animals, the Butchering of Women”. In: ARMSTRONG, Susan J. & BOTZLER, Richard G. The Animal Ethics Reader. London and New York: Routledge, 2003, p. 209-215. Da mesma autora, veja também, The Sexual Politics of Meat. A Feminist-Vegetarian Critical Theory. New York: Continuum, 1990; Neither Man nor Beast. Feminism and the Defense of Animals. New York: Continuum, 1994; e, em co-autoria com Josephine Donovan (Eds.), Beyond Animal Rights. A Feminist Caring Ethic for the Treatment of Animals. New York: Continuum, 1996.

Florianópolis, Costão do Santinho, 13 de novembro de 2004