Módulo – Produção Animal – II

Elementos para uma Ética Global; ‘benefício’ humano, sofrimento animal e devastação dos recursos naturais; uma abordagem crítica da produção industrial de animais, sob a perspectiva ética de Peter Singer e Tom Regan. 

 23/05/2003 Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas/UFSC

Silvio Luiz Negrão (Méd. Veterinário, Mestre em Zootecnia) 

2. PRODUÇÃO INDUSTRIAL DE SUÍNOS E DE FRANGOS DE CORTE PARA O ABATE: MANEJO PRATICADO NO SISTEMA DE CONFINAMENTO COMPLETO.

 

2.1 MANEJO PRATICADO NA SUINOCULTURA INDUSTRIAL.

 

O sistema de produção de suínos em confinamento completo é o modelo de manejo mais praticado na suinocultura brasileira. Neste capítulo serão descritos de forma simplificada os principais procedimentos adotados pelas agroindústrias de suínos, traduzindo determinados jargões técnicos que expressam o real pensamento da “industria animal”.

Os animais que alimentam esse sistema, os reprodutores machos e fêmeas, são oriundos de empresas especializadas em genética animal. Essas empresas desenvolvem linhagens de animais com características produtivas bem definidas que são cruzadas entre si ou usadas em combinações com outras linhagens já existentes. As empresas de genética dominam o mercado de reprodutores, tanto machos como fêmeas, uma vez que as características que o produto final (carcaça do suíno) deve ter são tão específicas que um produtor independente não teria, absolutamente, nenhuma condição de produzir (percentagem de gordura, cor da carne, textura, sabor, odor, rendimento, dentre outros). Tudo isso para oferecer um produto (presunto, copa, bacon, salame, costelinha ou lombinho) de acordo com o gosto do consumidor. Assim, as agroindústrias que não possuem suas linhagens próprias, adquirem linhagens dessas empresas de genética para formarem e manterem seus plantéis.

Para se entender melhor as inter-relações das diversas fases de produção do suíno, é necessário conhecer os objetivos e os manejos praticados que apresentam relações diretas com a reprodução animal. Partindo do pensamento que o objetivo de uma granja comercial de suínos é repassar o máximo de leitões para os terminadores logo após o desmame (Granja PL ou Unidade Produtora de Leitão3) ou entregar o máximo de animais ao frigorífico (Granja de terminação4 ou Granjas de ciclo completo5), ou ainda vender reprodutores, matrizes e cachaços, para alimentar o sistema produtivo, desta forma, a eficiência do manejo reprodutivo está intimamente relacionada com a eficiência econômica da granja.

Basicamente são praticados dois métodos de reprodução entre os suínos, a monta natural e a inseminação artificial. (a) A monta natural ocorre conforme a disponibilidade de cachaços existente na granja, sendo que neste modelo é permitida a cópula entre o indivíduo macho e a fêmea. Nesta situação a fêmea é levada à baia do cachaço para o ato sexual. Uma vez concretizada a cópula a fêmea volta para sua baia onde aguardará a confirmação da prenhez. (b) O emprego da inseminação artificial na suinocultura é uma realidade comprovada, na prática, pelo aumento do seu uso, o que demonstra a habilidade econômica e técnica deste procedimento. Esta técnica é realizada, normalmente por um funcionário da granja, com o auxílio de sondas (pipetas) de inseminação artificial que depositam o sêmen do macho no útero da fêmea. Apesar desta técnica ser indolor quando bem praticada, ela não permite o contato físico do macho com a fêmea, prática esta que compromete o desempenho reprodutivo da porca. Para amenizar essa situação é permitido que a fêmea tenha contato visual, auditivo e olfativo com o macho, mas não físico, numa tentativa de induzir melhor a manifestação do estro (cio).

            Dois terços da vida útil de uma matriz são passados em períodos de gestação, isso demonstra a importância do manejo nesta fase. A gestação dura em média de 112 a 116 dias, sendo que é mais comum um período de 114 dias, não apresentando diferença se a porca está em baia coletiva ou em gaiolas individuais. Normalmente, uma porca gera em torno de 14 leitões/gestação, sendo que a meta é uma gestação maior ou igual a 12 leitões/porca/parto, 2,5 partos/porca/ano e no mínimo 24 leitões desmamados/porca/ano.  Nas gestações em gaiolas individuais ou em baias coletivas (máximo de 6 porcas), as matrizes devem ser agrupadas de acordo com a data de cobertura, visando empregar o sistema "todos dentro – todos fora" das instalações, também conhecido como "all in – all out". Esta prática facilita a limpeza e desinfecção das instalações uma vez que todos animais entram, e depois, saem ao mesmo tempo.

            Particularmente, o parto, é um momento crítico da produção de suínos, tanto pelo bem estar da porca como dos leitões. O acompanhamento do parto esta diretamente relacionado com o percentual de perda de leitões, sendo que, quanto menor for o acompanhamento do parto maior será o percentual de perda ao nascimento.

A fase que segue ao parto é tão importante quanto o próprio parto, pois os leitões necessitam de cuidados especiais para permanecerem vivos. A maior parte de perdas nesta fase de pós-parto se devem a problemas como a falta de leite ou o impedimento do leitão em alcançar o teto da porca, esmagamentos, morte por frio, enfraquecimento e diarréias. Nesta fase são praticados os seguintes manejos:

–          Limpeza e secagem dos leitões: promove uma massagem que estimula a respiração;

–          Aquecimento dos leitões: logo após o parto os leitões não possuem um sistema eficiente para regular a temperatura corporal, por isso um ambiente aquecido é extremamente importante;

–          Corte e desinfecção do umbigo;

–          Corte dos dentes caninos (normalmente na primeira semana de idade): os leitões nascem com oito dentes (quatro caninos e quatro pré-molares). O corte dos dentes tem como objetivo evitar ferimentos na glândula mamária da porca quando os leitões estiverem mamando e também minimizar os ferimentos por brigas;

–          Pesagem: esta prática ajuda o manejo de transferência e homogeneização de leitegadas. Homogeneização significa formar uma leitegada a partir da transferência de indivíduos procedentes de mães diferentes, mas com o mesmo porte físico ou tamanho. O objetivo é diminuir a competição entre os leitões e diminuir a supremacia dos indivíduos mais forte, evitando a presença de indivíduos pouco desenvolvidos chamados de “refugos”;

–          Corte de cauda: é uma medida preventiva contra o canibalismo, normalmente praticada nos primeiros três dias de idade e realizado sem anestesia;

–          Castração: a prática da castração é realizada com maior freqüência em torno do 7ºº dia de idade, também realizado sem anestesia. O objetivo da castração é evitar o odor sexual dos machos dessa espécie, bem como o aparecimento de lesões decorrentes de brigas na fase de terminação o que acarretará em prejuízos para o frigorífico. ao 15

Existem vários esquemas para a prática do desmame, sendo que o mais usado a campo é o desmame de leitões entre 21 a 30 dias de idade (no mínimo entre 6,0 e 9,5 kg peso corporal, respectivamente). Deve-se ter em mente que o desmame aconteceria naturalmente, em média, aos 56 a 60 dias de idade (GORDON, 1997) e quando os leitões são desmamados numa idade inferior, eles não possuem o sistema digestivo inteiramente desenvolvido para digerir uma alimentação sólida à base de grãos. Paralelamente, para se estabelecer o período mais apropriado para o desmame, deve-se levar em consideração o período de lactação praticado. Esse período deve ser suficiente para promover uma involução uterina completa, e desta forma no momento do desmame a porca deve estar em condições fisiológicas para desempenhar novamente a função reprodutiva (FOXCROFT et al., 1996). Assim, uma vez desmamada a leitegada a porca retorna para uma baia aonde se vai esperar o início das manifestações de cio para reiniciar o manejo de cobertura (monta natural ou inseminação artificial). Quando esta transferência ocorre em baias coletivas, se estabelece uma disputa de dominância territorial entre essas matrizes, fato este que além de muito estresse também provoca lesões corporais diversas. Para que a gestação seja realizada em baias coletivas é necessária uma adaptação do manejo da granja desde a maternidade, de forma a proceder uma socialização gradativa diminuindo a disputa entre as porcas e melhorando sua qualidade de vida, fato este que não acontece nas granjas tradicionais. 

O setor que receberá os leitões após o desmame é chamado de unidade de crescimento inicial ou creche. Geralmente se localizam ao lado da maternidade, visando facilitar o manejo. Sua utilização, via de regra, vai do desmame até 65 a 70 dias de idade dos leitões, ou quando estes atingirem um peso médio de 25-30 kg. Nesta fase os animais são alojados em baias coletivas.

Após a fase de crescimento inicial os animais são transferidos para o galpão terminação nas baias de crescimento e acabamento, onde permanecem até o dia do abate. Estas fases são realizadas em instalações coletivas relativamente simples. Contudo, os cuidados com higiene e desinfecção devem ser mantidos, além de uma correta distribuição do número de comedouros e bebedouros, proporcionais ao número de animais por baias. De acordo com os padrões zootécnicos, recomenda-se:

–          comedouros: 1 para cada 4 animais;

–          bebedouro: 1 para cada 10 animais;

–          lotação na terminação: 1 animal/m2.

Normalmente, quando os animais alcançam em torno de 100 kg de peso corporal, em média aos 140 dias de idade, são encaminhados ao abate.

 

2.2 Manejo praticado na avicultura industrial.

 

Na avicultura o processo de produção de pintainhos (também chamado de pintinho) de um dia que irão para os aviários para serem criados até o abate, é uma especialidade de empresas de genética que cedem suas aves reprodutoras (machos e fêmeas) para as empresas conveniadas chamadas de incubatórios. Assim, as empresas responsáveis pela multiplicação dessas aves, os incubatórios, fornecem os pintainhos de um dia para os avicultores. Normalmente as grandes agroindústrias possuem seu incubatório próprio, contudo, os segredos das combinações genéticas praticadas por essas agroindústrias estão na mão de grandes grupos multinacionais. A diferença básica entre a suinocultura e a avicultura é que enquanto na suinocultura o próprio produtor multiplica os animais que serão criados (uma vez que já comprou os reprodutores – machos e fêmeas de uma empresa multinacional de genética), na avicultura o avicultor tem que comprar os pintainhos de um dia a cada ciclo de produção de um incubatório que por sua vez comprou o direito de multiplicar a genética desenvolvida por uma empresa multinacional. Essas empresas multinacionais de genética possuem o que nós chamamos de “avós”, ou seja, o banco genético da criação de aves e suínos.

A criação moderna de frangos de corte é uma atividade que envolve níveis elevados de investimentos, portanto alguns critérios quanto ao planejamento da granja devem ser considerados. A construção dos aviários evoluiu conjuntamente com a avicultura moderna e devia ter sido orientada no sentido de proporcionar uma maior durabilidade, facilidade operacional e biossegurança. Assim seria proporcionado melhor conforto para a criação das aves. Esse é a imagem vendida para o produtor quando ele vai iniciar a atividade, entretanto, devido à rápida evolução do sistema de criação principalmente com a necessidade de automatização do aviário, pouco tempo após o produtor ter construído um aviário conforme as recomendações da empresa integradora, ou seja, da agroindústria para quem ele cria os animais para o abate e que comanda todo o processo, ele é forçado a modificar sua estrutura para continuar na atividade. Quando o avicultor não possui capital suficiente para realizar tal mudança ele vai buscar financiamento junto à agroindústria a qual está ligado. Esse financiamento gera um novo contrato de trabalho e assim sucessivamente, até o ponto onde o avicultor não tem mais condições de deixar a atividade pois também não possui condições de livrar-se de sua dívida referente aos empréstimos.

No início da década de oitenta, era comum criar frangos em aviários de 125 m2. Depois essa dimensão não cumpria a necessidade de produção e os aviários considerados ideais passaram para 250 a 500 m2. Hoje, quase que na sua totalidade, encontram-se aviários de 1.000 e 1.200 m2 automatizados e semi-automatizados. Particularmente, Santa Catarina ainda possui aviários de 500 m2.

Normalmente os frangos são criados no mesmo local desde a idade de três dias até a época do abate, entre 40 e 45 dias na maioria das situações. A área de piso recomendada para aviários com ventilação natural em climas quentes é de 10 a 12 aves/m2, sendo que nos meses mais frios é aconselhável de 12 a 14 aves/m2. No caso de aves criadas em galpões semiclimatizados ou climatizados, onde a temperatura e umidade relativa do ar são controladas, pode-se chegar até 20 aves/m2 . O período de vida das aves é dividido em quatro fases, são elas: pré-inicial (1 a 14 dias), inicial (15 a 28 dias), crescimento (29 a 35 dias) e final (35 até a saída do lote). Essas divisões de fases de criação têm o objetivo de orientar os produtores quanto ao manejo alimentar das aves.

As aves são criadas sobre a cama, um material que recobre o piso do aviário, cuja necessidade é imprescindível para manter a umidade do piso em níveis ideais para o bom manejo e desenvolvimento dos animais. Dentre os materiais utilizados para cama do aviário, os principais são: maravalha, serragem, sabugo de milho triturado, casca de arroz, casca de amendoim, casca de café e palhadas de culturas em geral.

O controle da temperatura durante a fase inicial é de grande importância, pois nesta fase os pintainhos ainda não possuem um sistema termorregulador desenvolvido, o que significa que há necessidade de se fornecer uma temperatura que proporcione as aves o máximo conforto. Um dos grandes desafios na área de ambiência na avicultura é o conforto térmico das aves, visto que esses animais são muito sensíveis as variações bruscas de temperatura.

Um recurso utilizado para melhorar o desempenho das aves é a iluminação artificial. O programa de luz, utilizado na criação de frangos de corte, tem a finalidade de estimular o consumo de ração, em especial nas épocas quentes do ano, melhorar o crescimento e adaptar as aves ao ambiente nos primeiros dias de vida. Um programa bastante eficiente do ponto de vista zootécnico é o de iluminação intermitente (1 hora de luz artificial e 3 horas de escuro). Em muitos casos a opção escolhida é acender as luzes em torno das 23:00 horas e deixar a noite inteira ligada. No inverno para promover um maior período de iluminação e conseqüentemente de alimentação e no verão para completar a ingestão de ração no período noturno visto que, durante o dia, devido às altas temperaturas as aves não ingerem a quantidade de ração desejada.

Apesar da atividade aparentemente ser simples é necessária dedicação exclusiva do responsável dos aviários. Uma vez concluídas todas as fases de produção as aves com 40-45 dias de idade alcançam o peso desejado e são encaminhadas ao frigorífico para o abate.

__________ 

3 Granja PL ou Unidade Produtora de Leitão: granja que mantém em seu plantel apenas reprodutores (machos e fêmeas) e os leitões são vendidos no momento de desmame para granjas de terminação.

4 Granja Terminação: granjas que não possuem reprodutores, apenas recebem os leitões desmamados e criam até o momento do abate.

5 Granja Ciclo Completo: granja que possuem em seu plantel reprodutores (machos e fêmeas) e criam os leitões até o momento do abate, ou seja, fazem o ciclo completo de produção.