Por questões bem particulares deixei de consumir carnes há oito anos.

Não sou um sujeito radical a ponto de condenar quem ainda as consomem. Há quem conviva comigo que, mesmo dividindo a mesa comigo, sequer percebe essa minha particularidade, tamanha minha discrição a esse respeito.

Só converso sobre o assunto com quem civilizadamente tem dúvidas sobre o tema e me pergunta. Discutir não discuto pois – sobretudo sobre alimentos, religião e política, – acredito que só se deve debater com quem se está absolutamente de acordo.

Mas achei bem interessante certo trecho que encontrei em Moby Dick, de Herman Melville. Note que o narrador está em uma caçada a baleias entusiamadamente. Ele vê a cena em que um dos imediatos come um filé do peixe – na época, eles ainda não estavam bem certos do que era uma baleia. A cena é iluminada por lampiões alimentados por óleo de baleia e há outros elementos provindos do animal. Ainda assim:

"Talvez não seja de todo por causa da excessiva gordura da baleia que os homens de terra encaram com aversão a possibilidade de comê-la; de certa forma isso parece resultar da ponderação já mencionada, isto é, não tanto do fato de alguém ter de comer um animal marinho recém-morto, mas de tê-lo de comer à sua própria luz. Sem dúvida o homem que matou pela primeira vez um boi foi tido como um assassino; talvez tenha sido enforcado; se houvesse sido julgado por bois, sem dúvida teria sofrido essa pena, por certo merecida, se qualquer assassino a merece. Ide ao mercado de carne num sábado à noite e vede as chusmas de bípedes vivos olhando as longas fileiras de quadrúpedes mortos. Tal espetáculo não acorda o canibal? Canibal? Quem não é canibal? Digo que será mais tolerável o Dia do Juízo para o ffidjiano que salgou um missionário magro na despensa, para prevenir-se contra uma fome à vista, do que para ti, meu civilizado e esclarecido guloso, que prende os gansos ao chão e regalas-te com seus fígados inchados em
teu pâté de foie gras."

Não creio que seja uma questão de juízos-finais. Para mim, simplesmente deixou de fazer sentido comer nacos de cadáveres e os açougues passaram a ser muito semelhantes a necrotérios. Apenas mais fragmentados, com mais vitrines e menos formalidades.

Fonte: http://www.alessandromartins. com/2008/ 09/09/moby-dick-sobre- o-consumo- de-carnes/