Obituário 

H.P. Blavatsky

[Lúcifer, Vol. II, no 7, março, 1888, pp. 78-79]

É com o mais profundo pesar que anunciamos neste mês a passagem deste mundo físico de alguém que, mais do que qualquer outro, foi instrumental em demonstrar a seus semelhantes o grande fato da existência consciente e, portanto, da imortalidade, do Ego interior. 

Referimos-nos ao falecimento da Sra. Anna Kingsford, médica, ocorrido nesta terça-feira, 28 de fevereiro, após enfermidade dolorosa e prolongada. Poucas mulheres trabalharam com mais afinco que ela, ou em causas mais nobres; nenhuma teve mais sucesso na causa do humanitarismo. Sua vida foi curta, porém muito útil. Sua luta intelectual contra os vivisseccionistas da Europa, numa época em que o mundo culto e científico estava mais fortemente fixado em compreender o materialismo do que em qualquer outro período da história da civilização, por si só a proclama como um daqueles que, a despeito do pensamento convencional, colocam-se no próprio foco da controvérsia, preparados para desafiar e enfrentar com bravura todas as conseqüências de sua audácia. Piedade e justiça para com os animais estavam entre os temas favoritos da Sra. Kingsford quando lidava com esta parte da obra de sua vida; e, em virtude de sua cultura geral, seu treinamento especial nas ciências da medicina e seu magnífico poder intelectual, ela foi capaz de influenciar e trabalhar da maneira que desejou com um grande contingente de pessoas que ouviram suas palavras ou leram seus escritos. Poucas mulheres escreveram de forma mais gráfica e contagiante, ou possuíram um estilo mais fascinante.

O campo de atividade da Sra. Kingsford, contudo, não se limitou ao plano da vida puramente físico e mundano. Ela foi uma Teosofista e uma verdadeira Teosofista no íntimo; uma líder do pensamento espiritual e filosófico, dotada dos mais excepcionais atributos psíquicos. Em conjunto com o Sr. Edward Maitland, seu leal amigo — alguém cujos cuidados incessantes indubitavelmente prolongaram sua delicada e sempre ameaçada vida por vários anos, e que recebeu seu último suspiro — ela escreveu vários livros que tratam de temas metafísicos e místicos. O primeiro e mais importante foi The Perfect Way, or the Finding of Christ (O Caminho Perfeito, ou a Descoberta de Cristo), que apresenta o sentido esotérico do cristianismo. Ele esclarece muitas das dificuldades que leitores sérios da Bíblia enfrentam em seu esforço de compreender ou aceitar literalmente a história de Jesus Cristo conforme é apresentada nos Evangelhos.

Ela foi durante algum tempo Presidente da "Loja de Londres" da Sociedade Teosófica, e, após renunciar ao cargo, fundou a " Sociedade Hermética" para o estudo especial do misticismo cristão. Embora suas idéias religiosas tenham diferido amplamente sobre alguns pontos da filosofia Oriental, ela permaneceu uma leal associada da Sociedade Teosófica e fiel amiga de seus líderes.1 Ela foi uma pessoa cujas aspirações de toda a vida sempre estavam voltadas para o eterno e o verdadeiro. Mística por natureza — a mais ardente para aqueles que a conheceram bem — ainda assim ela era uma mulher extraordinária mesmo na opinião de materialistas e céticos. Pois, além de sua figura extraordinariamente fina e intelectualizada, havia nela aquilo que chama a atenção do menos observador e alheio a qualquer especulação metafísica. Pois, como escreveu a Sra. F. Fenwick Miller, embora o misticismo da Sra. Kingsford fosse "simplesmente ininteligível" para ela, achamos que isso não impediu a autora de perceber a verdade. Como ela descreve sua falecida amiga, "Jamais conheci uma mulher tão extraordinariamente bela como ela, que cultivasse seu cérebro de forma tão aplicada… Nunca conheci uma mulher em quem a natureza dual mais ou menos perceptível em todo ser humano tenha sido tão fortemente marcada2 — tão sensual, tão feminina de um lado, tão espiritualizada, tão imaginativa de outro".3

A natureza espiritual e psíquica sempre predominou sobre a sensual e feminina; e o círculo de seus amigos com inclinação para o místico sentirá muito sua falta, pois mulheres como ela não são numerosas no mesmo século. O mundo em geral perdeu na Sra. Kingsford alguém que não se encontra facilmente nessa era de materialismo. Toda a sua vida adulta ela passou trabalhando altruisticamente para os outros, pela elevação do lado espiritual da humanidade. Podemos, contudo, ao lamentar sua morte, nos confortar com o pensamento de que o bom trabalho não pode ser perdido nem morrer, ainda que o trabalhador não esteja mais entre nós para ver os frutos. E o trabalho de Anna Kingsford ainda estará dando frutos mesmo quando sua memória tiver sido obliterada com as gerações dos que a conheceram bem, e novas gerações terão se aproximado mais dos mistérios psíquicos.   

Tradução: Marly Winckler

_________ 
Notas:
1. Tanto o Sr. Maitland quanto a Sra. Kingsford desligaram-se da Loja de Londres da Sociedade Teosófica", mas não da Sociedade-Mãe.
volta ao texto
2.  A afirmação feita por alguns jornais de que a Sra. Kingsford não encontrou descanso na força psíquica, pois "morreu Católica Romana", é totalmente falsa. A observação orgulhosa feita por R.C. no Weekly Register (3 e 10 de março de 1888) no sentido de que ela morreu no seio da igreja, tendo abjurado seus pontos de vista, o psiquismo, a teosofia, e até seu livro Perfect Way, e escritos em geral, foi vigorosamente refutada no mesmo jornal por seu marido, o Rev. A. Kingsford e pelo Sr. Maitland. Lamentamos ter de ouvir que seus últimos dias foram amargurados por agonia mental infligida sobre ela por uma freira inescrupulosa, que, conforme nos declarou o Sr. Maitland, se infiltrou como uma freira e nada mais fazia senão encher sua paciência, "importuná-la e rezar". Que a Sra. Kingsford era totalmente contra a teologia da igreja de Roma, apesar de acreditar nas doutrinas Católicas, pode ser provado por uma de suas últimas cartas para nós, sobre o "pobre caluniado São Satã", com relação a certos ataques ao título de nossa revista, Lúcifer. Preservamos esta e várias outras cartas, uma vez que foram todas escritas entre setembro de 1887 e janeiro de 1888. Elas são assim testemunhos eloqüentes contra as pretensões do Weekly Register. Pois provam que a Sra. Kingsford não abjurou seus pontos de vista nem morreu "na fidelidade da Igreja Católica".
volta ao texto
3. ["Woman: Her Position and Her Prospects, Her Duties and Her Doings", Lady's Pictorial, Londres, 3 de março de 1888.— Compilador].
volta ao texto