8 Macambira-Anicuns: o parque urbano mais longo do mundo

Uma das muitas atividades desta semana em Goiânia foi o lançamento do novo livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança, nesta manhã, na Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA). Para minha grande surpresa, não havia como chegar até a entrada: jornalistas se aglomeravam em torno de mim (incluindo o jornal do meio-dia, da TV Brasil Central), mais de 200 jovens de um curso técnico agrícola (IFET) lotaram o local, professores, funcionários da AMMA. Aparentemente, a internacionalização da (proteção) do Cerrado é valorizada.

Legal!

Os “culpados”? O fotógrafo João Caetano e Altamiro Fernandes, coordenador do Fórum Goiano em Defesa do Cerrado. Há quatro anos, eles me desafiaram a dar visibilidade ao Cerrado em Flandres/Bélgica/Europa. Enquanto isso, Altamiro trabalha para o Programa Urbano Ambiental Macambira-Anicuns (Puama). Goiânia, com seus 1,4 milhões de habitantes, conta com 30 parques urbanos, mas quer acrescentar um megaparque. A ideia é que Puama se torne um parque urbano de 24 quilômetros de comprimento, o mais longo do mundo. Ele está localizado em 120 bairros e irá melhorar significativamente a vida de 350 mil pessoas. Serão implantadas novas áreas do lazer, bem como seis centros de saúde e seis unidades de ensino. Haverá recuperação ambiental em uma faixa de 30 metros em ambos os lados dos cursos d’água, seguida de uma faixa de 15 metros para bicicletas e pedestres. No total, portanto, uma extensa faixa, com 90 metros de largura, sem contar os próprios cursos d’água. Além disso, serão criados mais dois parques urbanos: o Parque Macambira e o Parque da Pedreira.

Já em 2008, Goiânia era considerada a cidade mais “verde” do Brasil, com 94 m2 de área verde por habitante. Com a execução dessa obra, eles certamente chegarão a mais de 100 m2 por habitante. Quem conseguirá imitá-los? Bruxelas? Nova Iorque? Berlim? Paris? São Paulo? Pequim?

 

Uma das críticas que regularmente ouço, na qualidade de “gringo”, é: “Vocês desmataram a Europa inteira séculos atrás. O que o traz aqui agora para nos dizer que há um problema com o nosso desmatamento!?” É fato, essa história da destruição europeia que agora repetimos no exterior torna uma pessoa humilde no diálogo internacional sobre questões ambientais. E, no entanto, o professor Osmar Pires Martins Júnior, da PUC (Pontifícia Universidade Católica de Goiânia), consolou-me nesta semana com o pensamento: “É verdade e não é verdade. De fato, na Europa, grande parte da floresta original foi destruída há séculos. Porém, veja agora o exemplo da Alemanha. O território é tão grande quanto o estado brasileiro de Goiás. Enquanto, em Goiás, vivem 5 milhões de pessoas, na Alemanha residem 80 milhões. Cerca de 41% do território são áreas naturais, muitas das quais cobertas com florestas.” O professor Osmar Pires trabalha na interseção (inovadora) das ciências tecnológicas, jurídicas e biológicas (1). Ele me dá fôlego para entrar nos debates com menos complexos. Tomemos, por exemplo, o sul de Goiás: lá sobraram apenas 5% da vegetação original. O resto foi desmatado nas últimas décadas, para plantio de soja, eucalipto, milho, cana–de-açúcar e criação de gado. O norte e o nordeste de Goiás são abençoados com 70% da vegetação original, mas estão seriamente ameaçados pelos planos chineses para a soja (2). Os europeus podem ter cometido muito erros nos séculos passados, mas os seus descendentes no Brasil não precisam cometer exatamente os mesmos erros. Afinal, vivemos no século XXI e podemos tirar lições a partir dos erros que cometemos coletivamente no passado. De todo modo, Goiânia colabora na recuperação. Os moradores são incentivados a tratar o lixo de modo consciente, a economizar água e a plantar de árvores. No final da apresentação do livro, eu também já recebi a minha muda. Para plantar no futuro parque.

Ilegal!

Para que o parque quilométrico se torne realidade, ainda há muita expropriação e demolição a ser realizada com seriedade. É que há 804 moradias ilegais na área a ser recuperada. Uma das críticas dos fazendeiros no Brasil é que – dependendo da largura do rio – eles devem manter pelo menos 30 metros de ambos os lados nas condições originais, enquanto muitos moradores das cidades constroem suas casas encostadas nos rios e córregos. E passam a poluí-los despreocupadamente. Bem, para Goiânia e esses dois cursos d’água, isso já não será mais o caso.

Casa nova: legal!

Atualmente, 33 pessoas trabalham na expansão do Puama. E justamente Altamiro e sua equipe é que são os responsáveis pelo difícil trabalho de fazer com que as famílias deixem suas habitações ilegais. Um trabalho difícil, com muitos conflitos, embora a oferta da prefeitura seja particularmente atraente. Como se trata de áreas públicas invadidas, eles não serão indenizados pelos terrenos ocupados. Porém, a eles é oferecida uma bela casa nova, que geralmente contrasta fortemente com o “puxadinho” com ares de favela onde já moram há vários anos. Se recusarem a casa, eles podem ocupar um apartamento. Se também não aceitarem essa oferta, um funcionário virá avaliar o valor da construção e a família é indenizada.

 

Goiânia e outras cidades estão rapidamente sendo “assoreadas” com as dezenas de milhares de carros que aumentam a frota a cada ano. Estresse garantido, porém, depois da batalha exaustiva nas avenidas congestionadas, 350 mil pessoas na capital de Goiás podem, pelo menos, se recuperar um pouco praticando corrida e ciclismo. Goiânia quer ser incluída numa rede de “cidades sustentáveis no Cerrado” e fazê-lo no âmbito da Rio+20. A cidade abraça a “economia verde”. Resta saber se este “capitalismo verde” é mais do mesmo ou se ele poderá evoluir para uma verdadeira “economia ecológica” (3).

Próximo passo: reduzir os carros “legais”?

 

Goiânia, 20 de abril de 2012.

(1) Perícia ambiental e assistência técnica (Organizador: Osmar Pires Martins Júnior. PUC-GO, 2010).

(2) Veja o capítulo Goiás de joelhos perante a China, no livro: Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(3) No dia 2 de junho de 2012, Wervel organizou em De Kijfelaar (www.dekijfelaar.be), na localidade de Noorderwijk, Bélgica, um dia de formação sobre “economia ecológica”.


9 Fundação Conscienciarte

É tempo de festa em Brasília. Vários milhares de pessoas agarram a oportunidade do feriado do descobrimento do Brasil para fazer uma manifestação contra a corrupção entre os edifícios do governo. Além disso, há as apresentações habituais, mas – pela primeira vez – também ocorre uma grande feira literária, já que no dia 23 de abril se comemora o Dia Mundial do Livro. É interessante observar a grande quantidade de pessoas com sede de ler e de aprender aqui reunida. A presença de famílias com crianças se destaca. A venda de livros está em ascensão ao longo dos últimos anos. No Brasil foram vendidos, em 2011, 7,2% mais livros do que em 2010.
 
Há também muitos debates e sessões com autores. Nós participamos de um debate sobre a crise econômica mundial. Um bom aquecimento para, no dia seguinte, dialogar com a Embrapa, o centro nacional de pesquisa agrícola do governo, que lembra um pouco o ILVO [Instituut voor Landbouw- en Visserijonderzoek = Instituto de Pesquisa Agrícola e Pesca], na Bélgica. Será que a Embrapa também se dedica à agricultura familiar e, por exemplo, à comercialização da biodiversidade do Cerrado? Ou, depois de 40 anos, o fluxo principal ainda é “mais do mesmo”: soja, cana-de-açúcar e companhia? Existe uma “Embrapa Cerrado”, bem como existem a “Embrapa Suínos”, “Embrapa Floresta”, “Embrapa Soja”. E como está a correlação de forças? Em Flandres [Bélgica], por exemplo, o poder está claramente com o setor de carnes. Será que, em Brasília, a Embrapa Soja não tem mais poder do que a Embrapa Cerrado?
Conscientização, arte e cultura
Vamos, então, fazer um “bate e volta” para Paracatu, em Minas Gerais. “Bate e volta”? Sim, 240 km de ida e 240 km de volta. Pelos parâmetros brasileiros, são distâncias insignificantes. Para um belga, significa cruzar o país. Por que, mesmo assim, fazer a viagem? Peter De Lannoy e Isabel Duarte moraram durante cinco anos em Paracatu – “rio bom”, em tupi-guarani –, no meio do vasto Cerrado do Brasil Central. Nessa área, onde o uma vez exuberante Cerrado está há anos sob pressão da mineração (de ouro) artesanal e industrial e da agricultura de escala devastadora (soja, feijão, arroz, cana-de-açúcar, pecuária), também atua a Fundação Conscienciarte, onde Pedro e Isabel estimulavam o protagonismo juvenil e a cidadania ativa por meio de atividades socioculturais. Eles ainda são muito benquistos por lá. E o que isso tem a ver com Wervel? Em Bruxelas, Wervel trabalha atualmente com o coletivo de artistas brasileiros Arte N’ativa. Para, cada um à sua maneira, dar visibilidade ao Cerrado: Wervel com palestras, campanhas, textos e fotos de João Caetano; Arte N’ativa com artesanato e oficinas. “Biojoias” com sementes do Cerrado e da Amazônia, combinada com a corda de cânhamo por causa da Wervel. Isabel é a animadora o grupo.
Foi uma manhã emocionante em Paracatu, com o Movimento Verde e a Fundação Conscienciarte (1). Ambas as organizações estão, cada uma de sua própria maneira, trabalhando com educação e conscientização e unem esforços com foco renovado e luta contra a produção de soja e biodiesel que avança na região. O nome Conscienciarte contém a palavra arte, com base na crença de que a arte e a cultura são importantes para promover mudanças. A ONG defende a melhoria da qualidade de vida, os direitos elementares de crianças, jovens e adultos. Isso também inclui conscientização social e, nesse aspecto, as artes, cultura, esportes e o protagonismo social voluntário dos jovens muitas vezes desempenham um papel instrumental. Esse “protagonismo juvenil” se tornou uma característica da mudança social que as ONGs brasileiras querem promover. Jovens como protagonistas da mudança – não é maravilhoso? Jovens brasileiros, que simbolizam a esperança de um futuro melhor, efetivamente trabalham para construí-lo, arregaçando as mangas para realizar mudanças nas suas comunidades.
Nunca vi um escritório tão artisticamente decorado. Em um edifício tombado como patrimônio histórico, nesse bairro colonial também tombado. Isso também é uma “afirmação”. Cultura para lutar contra a corrente. Um dos projetos implementados visa fortalecer a identidade cultural dos quilombos e a cultura afro-brasileira, um cineclube está vinculado a um projeto audiovisual para promover a inclusão social, cultural e digital das comunidades – só para mencionar alguns dos projetos interessantes. Eles chegam a milhares de pessoas em toda a região e muito além. Por exemplo, na Caravana Cultural Conscienciarte, em 2010, foram envolvidas 10.200 pessoas e cinco comunidades. Objetivo: atividades de cultura, arte, lazer, esporte e cidadania, focadas principalmente em grupos populacionais menos favorecidos, para dar um impulso sociocultural. Jovens carentes na região do Cerrado brasileiro são conscientizados acerca do seu potencial e das oportunidades de se desenvolverem em seu próprio ambiente e fora da metrópole. Assim, a Fundação Conscienciarte contribui indiretamente para o combate do êxodo rural.
Simplesmente ignorar a cultura dos outros
À noite eu embarco no avião de Brasília para Curitiba. Sento-me entre duas mulheres, que representam – involuntariamente – um retrato do Brasil emergente. À minha direita, uma jovem lê a obra Capitalismo cognitivo. Um dos mantras entoados constantemente por nossos governos. Conhecimento como poder, com patentes para proteger esse conhecimento e, principalmente, ganhar muito dinheiro. Até que a bolha estoura. Será que a “economia verde” não poderia ser uma variante da mesma ideologia?
À minha esquerda, está uma fazendeira de Laranjeiras do Sul (Paraná), atualmente sojicultura. Há 30 anos, o pai se mudou – com sua serraria – dois mil quilômetros para o norte, no Pará, onde o governo estadual tem pouco controle sobre o desmatamento e outros fenômenos. Depois que a área estava desmatada, ele e um dos filhos passaram a criar gado – o curso normal dos negócios na “fronteira agrícola”. A filha se desloca duas vezes por ano para fazer a contabilidade. Seu marido também está no caminho de casa, mas a partir de outro estado, o Piauí, o estado mais pobre do Brasil. Os sulistas vêm trazer prosperidade para o Norte e Nordeste. Pelos menos, é nisso que eles acreditam. Eles não respeitam a maneira de viver e a experiência da população local, baseada na agricultura de subsistência, ainda que essa população já viva lá há muitas gerações. Do ponto de vista dos sulistas, essa cultura pode ser inescrupulosamente destruída com soja. Eles estão trazendo a agricultura em “grande escala”. Na verdade, não se trata da agricultura propriamente dita, e sim de máquinas. De contabilidade. De exportações e de ganhar muito dinheiro rapidamente. As pessoas lá no Norte e Nordeste, na ex-floresta do Pará e no Piauí, não conseguem compreender. “Lá, nada acontece como deveria”, diz a senhora fazendeira. Nunca ouviram falar de gestão. Isso me lembra da revista Agricultura e Tecnologia, que o Sindicato dos Agricultores Belgas rebatizou, no início de 2012, de Gestão e Tecnologia. De fato, trata-se cada vez menos da prática agrícola e menos ainda de agricultura. “Gestão e tecnologia”, é disso que se trata.
Como muitas das pessoas que vieram do Sul, o marido possui uma grande extensão de soja no Piauí. O revestimento dos apoios de cabeça dos assentos no avião também proporciona apoio à ideologia: “Melhor do que assistir ao crescimento do Brasil é crescer com ele”. Conte com a consultoria da PwC [PricewaterhouseCoopers] (www.pwc.com/br). Contudo, é essa mesma PwC que conclama os governos para que tomem medidas urgentes contra a continuidade do aquecimento global.
Então vamos praticar especialmente o crescimento “verde”. Afinal, a capacidade de suporte do planeta Terra é ilimitada!
Curitiba, 24 de abril de 2012.
P.S.: Hoje, a Câmara Federal do Brasil aprovou o Código Florestal, após 13 anos de debates. Um desastre para a natureza, “abençoado” para o agronegócio. Muitos dos que votaram “sim” para essa lei estão ligados a uma grande variedade de empresas financeiras. Agora que foi publicada a origem dos fundos de campanha para as eleições de 2010, parece não ser coincidência que aqueles que receberam dinheiro de serrarias ou das grandes potências do agronegócio servilmente votaram ”sim” para essa lei alucinante.
“O setor” vai bem: no primeiro trimestre de 2012, houve um aumento de 26,3% na venda de máquinas. Será que a presidente Dilma, conhecida como sendo economista, ousará emitir um veto a essa lei que perpetua a destruição? Ou será que, depois de 47 anos, o Código Florestal anterior será definitivamente enterrado, pouco antes da Rio+20?
(1) www.conscienciarte.org.br e www.movimentoverdedeparacatu.blogspot.com

10 Juçara, o açaí do sul

Matinhos: um lugar que certamente vale a pena conhecer. É nesta universidade federal, a 100 quilômetros de Curitiba, que são feitas as ilustrações dos livros de Wervel em português. No período da tarde, foi programada uma reunião com uma cooperativa que surgiu a partir da mobilização dos estudantes. O grupo quer aproximar produtores e consumidores. A iniciativa lembra as “Voedselteams”[1] em Flandres [Bélgica]. À noite, apresentação do livro e do filme À Sombra de um Delírio Verde, de An Baccaert. Sobre os guaranis do Mato Grosso do Sul e do avanço da cana-de-açúcar para o etanol. Os estudantes ficaram bastante emocionados com esse filme impactante. Ouve-se muito choro e também um sentimento generalizado de impotência. “Tamanhas atrocidades contra a população indígena são possíveis no nosso Brasil? E isso por causa do assim chamado ‘combustível verde’ do ‘rei carro’.”

Do palmito para o fruto da juçara

Na cooperativa, alguns estudantes trouxeram uma iniciativa interessante. O fruto do açaí, uma palmeira da região amazônica, é bem conhecido por suas qualidades para a saúde e tem intenso comércio. Atualmente, até na Europa é possível comprar açaí. Menos conhecida é a juçara, uma palmeira da Mata Atlântica (melhor dizendo, dos fragmentos que ainda restam dela). Essa espécie está ameaçada de extinção, entre outros motivos, por causa da colheita do palmito. Isso agora é ilegal, no que se refere às palmeiras na mata. Em plantios comerciais, a colheita de palmito é autorizada. Os jovens (2) têm agora uma alternativa sustentável, ou seja, não extrair o palmito (o que causaria a morte da palmeira) e, sim, colher seus frutos no topo. Em vez de derrubar a palmeira uma única vez, é possível se alimentar dela durante vários anos. A escalada requer muita habilidade, mas vale a pena. Comparado com o açaí, a juçara é até melhor para alguns nutrientes (3):

Espécie

P

(g/kg)

K

(g/kg)

Ca

(g/kg)

Mg

(g/kg)

Fe

(mg/kg)

Zn

(mg/kg)

Cu

(mg/kg)

Mn

(mg/kg)

Açaí

1,4

7,4

4,8

1,4

328,5

10,1

20,4

34,3

Juçara

0,8

12,1

4,3

1,5

559,6

12,2

14,0

43,4

Estão indicadas em negrito as diferenças estatisticamente significativas.

 

Em maio, eles organizaram o primeiro festival da juçara, com o objetivo de informar a população sobre as possibilidades de uso sustentável dessas espécies de palmeira, para o benefício de todos. Esse tipo de iniciativa está se espalhando. Por exemplo, os estudantes de agroecologia de Rio Pomba realizam festivais similares naquela região.

Duto de etanol

Às vésperas da Rio+20, sustentável é a palavra que está na boca do povo. Outro dia, houve uma audiência com uma representante do Partido Verde. Ela quer identificar quais são os problemas no litoral. E sim, os problemas realmente merecem atenção. Já existem dois portos (entre outros, o Porto de Paranaguá, para as exportações de soja), mas há planos para mais dois. Com isso, um trecho de costa com apenas 100 quilômetros terá quatro grandes portos. Como o Brasil não se sente chamado somente para alimentar a população mundial, mas também os motores de carros, está sendo construído um duto para transportar etanol do interior até o porto, rumo à frota de veículos europeia e americana.

 

A Mata Atlântica pode até ser a floresta mais protegida do Brasil, mas a zona costeira estará, de qualquer modo, sob forte pressão nos próximos anos. É bom que os jovens escaladores de palmeiras, com a juçara, tragam uma pequena contribuição para a proteção da região. Ainda que pareça insensatez...

 

Matinhos, 26 de abril de 2012.

(1) Veja: www.thedarksideofgreen-themovie.com

Trailer em inglês: vimeo.com/16868372

Trailer em português: vimeo.com/22134567

No Facebook: www.facebook.com/pages/THE-DARK-SIDE-OF-GREEN/132106013477766?sk=wall

Veja também: www.elocompany.com

(2) Informações: coletivoprojucara@yahoo.com

(3) Silva, M. G. C. P. C., Barretto, W. S.; Serôdio, M. H. Caracterização química da polpa dos frutos de juçara e de açaí. In: XVIII Congresso Brasileiro de Fruticultura. Florianópolis, Santa Catarina, 22 a 26 de novembro de 2004. Anais. CD-ROM, Florianópolis, 2004.


[1]

             Nota da tradutora: Voedselteams são grupos organizados, em Flandres, que buscam restabelecer o elo entre produtores e consumidores. Uma garantia de que os produtos vêm diretamente do produtor. Esses grupos, por sua vez, inspiraram-se nos clubes Seikatsu, do Japão, que surgiram com o mesmo objetivo, após o desastre de Minamata – envenenamento por mercúrio de habitantes daquela localidade devido ao consumo de peixe contaminado.


11 As borboletas se foram! Seremos os próximos?

O programa no sindicato Fetraf-Sul/Cut deste ano começa em um clima de reflexão. Hospedado numa propriedade em Paial, perto de Chapecó, vamos visitar o Museu Entomológico Fritz Plaumann, conhecido como “Museu das Borboletas”, no município de Seara (Santa Catarina).

80% extintos

Aos 22 anos, Fritz Plaumann emigrou com os pais da Prússia para Nova Teutônia, uma vila de Seara, fugindo das consequências da Primeira Guerra Mundial. Ele realizou a paixão de sua vida: o estudo de borboletas e outros insetos. Ele faleceu em 1994, aos 92 anos de idade, e deixou um legado impressionante: 80 mil exemplares, 17 mil espécies diferentes, das quais 1.500 eram desconhecidas. Por causa de seus méritos, 150 dessas espécies receberam uma nomenclatura científica a partir do seu nome: Antenisius plaumanni, Aleiphaquylon plaumanni, Ormeta plaumanni... Ao longo de 70 anos ele estudou borboletas e outros insetos em todo o Brasil. No final de sua vida, ele conviveu com o fato de que 80% das 17 mil espécies estavam extintas no país. Em 1982, a prefeitura de Seara recebeu toda a coleção e fez um museu moderno. O maior museu de insetos da América Latina (1). No jardim, próximo de seus insetos, Fritz foi enterrado. Extinto, como seus insetos. Sua paixão pela diversidade da natureza era a sua vida. Como sacerdote, ele permaneceu solteiro para se dedicar 100% a essa profunda pesquisa. Só com idade mais avançada é que ele adotou uma filha.

Romaria

Extinto, mas com um legado que atrai milhares de visitantes. Como se, a partir de uma profunda nostalgia pela riqueza que a natureza nos deu, esteja se formando uma romaria para esse museu. Infelizmente, desde os anos 1970, passamos a conhecer a ascensão mundial de agrotóxicos, consistentemente chamada pelo lobby do agronegócio de “defensivos agrícolas”. Em combinação com o desmatamento maciço, isso fez com que somente possamos admirar esses insetos e maravilhosas borboletas em tais museus.

 

O livro de visitas registra muitos aplausos. “Fantástico!” “Excelente!” Eu não consigo escrever isso... Meus comentários: “Fiquei mudo e triste”.

Um ecossistema que provoca a extinção da diversidade de borboletas está doente. Muito doente. Em Flandres, na Bélgica, restam apenas cerca de 24 espécies que não estão ameaçadas (2). Isso me lembra os mineiros belgas, que levavam um canário para o interior das minas. Se o canário morresse, eles sabiam que o grisu[1] estava se acumulando. Um aviso para saírem da mina imediatamente.

As borboletas têm a mesma função, mas nós não vemos quando elas morrem. Eles morrem silenciosamente.

Recuperação?

Em silêncio e tristes, retornamos para Paial. A maioria das propriedades está abandonada. Ou elas estão ocupadas com eucalipto ou pínus, ou a natureza está tendo uma chance para se recuperar. Nos reflorestamentos de eucalipto, os insetos têm pouca chance. Nos bosques naturais, que voltam a se formar sim, mas os insetos extintos não voltarão nunca mais. Um pouco semelhante com o que ocorre com os pássaros na paisagem belga, na qual algumas espécies da família do corvo predominam sobre as outras espécies.

 

Os insetos mais sensíveis já se foram há muito tempo. Quando será a vez dos humanos? Ou será que não somos mais “sensíveis”?

 

Paial, 28 de abril de 2012.

P.S.: Uma semana depois, inesperadamente, foi incluída na programação uma visita à maior coleção de placas de madeira do mundo (www.casadospratos.com.br), feita por outro valoroso descendente de alemães, Erich Apel. Dessa vez, em Marmeleiro (Paraná). Atualmente, o homem tem de 81 anos e há 65 anos ele faz pratos dos mais variados tipos de madeira. Já são, agora, 600 espécies diferentes. Também com o propósito de conscientizar a sociedade da diversidade original deste subcontinente. Interessante observar como esses idosos conseguem chamar a atenção para algo essencial de seu amado Brasil.

(1) Veja: www.fritzplaumann.com.br

(2) Veja: www.inbo.be/content/page.asp?pid=FAU_INS_VL_rodelijst. Até poucas décadas atrás, Flandres contava com 65 espécies de borboletas. Dessas, 16 estão extintas, oito estão ameaçadas, seis estão em risco, sete são vulneráveis, três são raras, uma é pouco conhecida e 24 não estão ameaçadas no momento. Para espécies da fauna brasileira, consulte: www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/55-especies-ameacadas-de-extincao.


[1]

             Nota da tradutora: Grisu é uma mistura do CH4 (metano – gás natural), que ocorre naturalmente nas minas de carvão, com o O2 (oxigênio) do ar, formando em ambientes fechados uma mistura explosiva que explode facilmente na presença de chamas ou centelhas, e constituía um grande perigo na mineração de carvão (Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Grisu; consultada em: 23/9/2013).


12 Rota da Agricultura Familiar

No Brasil residem cerca de 4,3 milhões de famílias agricultoras (Agricultura Familiar – AF), milhões de sem-terra nas cidades e 471.817 fazendeiros com grandes extensões de terras (1). Cerca de 44% das terras agrícolas estão nas mãos de 1% dos fazendeiros (aqueles que possuem estabelecimentos com mais de mil hectares). Algumas ocupam um território do tamanho da Suíça. Ou seja, um único “agricultor” para essa imensa área. Em vez de diminuir, a concentração de terras nas mãos de poucos ainda está aumentando... “graças” ao avanço da soja (ração animal/biodiesel), da cana-de-açúcar (etanol/açúcar) e do eucalipto (para produção de carvão, celulose e, em breve, para etanol). Além disso, há a luta global por biomassa e terras (2). Muito capital estrangeiro aterrissa aqui tomando terras, graças a uma lei do final da década de 1990, que facilitou a compra de terras por empresas estrangeiras. “Land grabbing[1] não é um fenômeno que ocorre apenas na África. Anteriormente, havia muitos meandros legais a serem seguidos para que os estrangeiros pudessem adquirir terras. Por meio de uma dessas estruturas, há décadas a Volkswagen possui vastas áreas na Amazônia, sob o nome de “Volkswagen Brasil”.

A desigualdade permanece

Os governos Lula e, agora, da presidenta Dilma tomaram várias medidas para apoiar a AF, mas a desigualdade fundamental permanece. Não apenas a distribuição de terras é desigual, o mesmo é válido para o dinheiro e o poder em Brasília. A “bancada ruralista” é quem dá as cartas no Congresso Nacional. Esse grupo de parlamentares, que defende os interesses do agronegócio, ocupa um terço das cadeiras, mas é capaz de mobilizar muito mais colegas (3). A bancada dita as leis, como pudemos testemunhar recentemente durante o “esvaziamento” do Código Florestal. No momento, o Greenpeace Internacional está, justificadamente, realizando uma campanha. Com este novo código florestal, novamente dezenas de milhões de hectares de floresta estão ameaçados de intenso desmatamento (4). Nos últimos anos, os fazendeiros se sentem superpoderosos. Isso é evidente não só pela manipulação do tão esperado Código Florestal. Alguns artigos da Constituição de 1988 também estão sendo questionados, especificamente aqueles que freiam a expansão do agronegócio – principalmente os termos que visam à preservação de terras e outros direitos dos povos indígenas são espinhos em seus olhos. Devido ao debate permanente, ao trabalho da imprensa e às invasões ilegais realizadas na prática, a delimitação de “terras indígenas” está sob forte pressão.

 

Há dois “Ministérios da Agricultura”: o ministério ordinário, servindo ao agronegócio e às exportações; o segundo é o “Ministério de Desenvolvimento Agrário” (reforma agrária, agricultura familiar, sem-terra). Apesar de todas as medidas adotadas ao longo dos últimos nove anos, o ministério para a agricultura de exportação dispõe de cinco vezes mais recursos para algumas centenas de milhares de fazendeiros em contraste com o “Ministério de Desenvolvimento Agrário” para os milhões de sem-terra e agricultores familiares.

Rota

Nesse contexto, é interessante observar como a AF consegue, de várias maneiras, encontrar novos caminhos de desenvolvimento – muitas vezes com pouco ou nenhum recurso. Tomemos, por exemplo, a Rota da Agricultura Familiar no município de Marcelino Ramos, no norte do Rio Grande do Sul, com o apoio do sindicato local (Sutraf) e com a federação sindical, Fetraf-Sul/Cut (5). Um intercâmbio entre jovens da Fetraf-Sul e da juventude agrária holandesa em 2004 proporcionou a faísca necessária para iniciar o trabalho. Trata-se de quatro propriedades localizadas nas proximidades de uma reserva natural municipal de 480 hectares. A localização de “Tia Lili” é estrategicamente interessante: fica ao lado da rodovia que liga a região ao Rio Grande do Sul. O restaurante serve principalmente os produtos da própria propriedade e de agricultores familiares da região. À tarde, eles oferecem um café colonial típico (6). Clientela garantida! No final da Rota está localizado o “Quinto Rancho” (7), uma empresa dedicada ao turismo rural. Entre essas duas propriedades, há uma propriedade rural na qual se produz cachaça e, noutra, são feitas linguiças. Obviamente, numa delas é possível degustar e comprar cachaça; na outra você conhece uma das muitas “agroindústrias familiares” no Sul do Brasil. Ari e sua esposa também construíram um verdadeiro museu sobre a vinda dos seus ancestrais para a região.

Quinto Rancho, ou progresso retornando ao passado

É interessante ver como a família Cassol trilhou seu caminho inovador com o “Quinto Rancho”. Na época, eles foram os primeiros da região a adquirir um trator e a pulverizar agrotóxicos generosamente. Em 1978, eles se colocaram nas mãos de um integrador e criavam suínos, a serviço de uma das poderosas indústrias de ração-carne, compartilhando o mesmo destino de muitos de seus colegas que ainda não faliram: criar suínos, frangos ou perus a serviço das multinacionais Aurora, Sadia ou Perdigão. A partir de 1995, a família se voltou para a sabedoria do passado. Ela se converteu para uma agricultura mais ecológica. A partir de 1997, a família passou a evitar qualquer veneno na propriedade. Um “progresso retornando ao passado”: o verdadeiro desenvolvimento sustentável, com base nas experiências dos antepassados e as percepções do momento atual.

Eles dispõem de 60 hectares, mas apenas 10 hectares podem ser mecanizados. O resto são morros e floresta. Aos poucos, jovens de uma universidade próxima vinham acampar e eles perceberam que uma combinação de agricultura agroecológica e turismo receptivo era uma das possibilidades. Passo a passo, eles construíram juntos o maravilhoso local que é hoje: Quinto Rancho, com capacidade de abrigar 43 pessoas para pernoite em apartamentos e cabanas. Aos domingos, servem almoço para cerca de 80 pessoas, em média.

A continuidade da expansão da reserva natural nas proximidades certamente reforçar essa tendência.

 

Com inserção nas comunidades, a agricultura sustentável é possível. Florestas, morros, nascentes e riachos nos ensinam o caminho de volta, para longe do veneno. Para longe da escravidão a serviço da agricultura de exportação e do grande capital (internacional).

 

Marcelino Ramos, 29 de abril de 2012.

(1) O último Censo Agropecuário é de 2006 e revela os seguintes números: no Brasil há cerca de 4,3 milhões propriedades com até 100 hectares (geralmente da Agricultura Familiar), em torno de 90% dos estabelecimentos agropecuários. A eles se contrapõem 471.817 estabelecimentos de médio ou grande porte (com mais de 100 hectares). Esses quase 10% ocupam 78% das terras. Esses números certamente se alteraram de 2006 para cá. Principalmente na Agricultura Familiar deve haver bem menos sítios, tendo em vista o grande êxodo rural.

(2) Veja o capítulo Neoquímica, compromisso com a vida, sobre “biologia sintética e nanotecnologia”, no livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(3) No Congresso brasileiro, há várias “Frentes”. A “Frente Parlamentar da Agoropecuária” conta com uns 268 membros dos 594 representantes federais (513 deputados federais e 81 senadores).

(4) Veja: www.avaaz.org/en/veto_dilma_global/?tta

(5) Veja: www.fetrafsul.org.br

(6) Atualmente, a palavra “colonial” tem, no Brasil, uma conotação bem diferente do que na Europa. Veja a crônica sobre o mesmo tema, Café colonial, no livro Aurora no campo. Soja Diferente (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2008).

(7) Para obter informações sobre a Rota da Agricultura Familiar e o Quinto Rancho, veja: www.quintorancho.com.br


[1]

             Nota da tradutora: Land grabbing é a questão controversa de aquisições de terras em larga escala: a compra ou arrendamento de grandes extensões de terra, principalmente nos países em desenvolvimento, por governos, empresas e indivíduos nacionais e transnacionais, visando assegurar meios de produção de alimentos. A atividade não leva em conta o impacto nas comunidades locais (Fonte: en.wikipedia.org/wiki/Land_grabbing; consultada em: 24/6/2013).


13 Biodiesel de soja?

A gente acredita na força do solo gaúcho”. Essa declaração de fé ornamenta os silos da Companhia Estadual de Silos e Armazéns (CESA), do Rio Grande do Sul. Como se protegessem a cidade de Erechim. Próximo da Sutraf (sindicato local, ligado à Fetraf-Sul/Cut), eu me deparo com um mural retratando um campo de soja, mãos cheias de soja e o sol nascente. A soja traria prosperidade para essa comunidade. Uma aurora, um amanhecer, como nunca antes visto. É irônico: Fetraf também utilizou o símbolo das mãos, porém cheias de solo fértil e uma frágil e incipiente muda de planta.

Biodiesel, a solução para os agricultores familiares que plantam soja?!

Eu nunca fui fã da ideia da utilização de biodiesel como solução para as nossas necessidades globais de energia. Veja o capítulo Biodiesel de soja (1), de 2004, uma “carta aberta” ao coordenador geral da Fetraf-Sul na época, Altemir Tortelli. Não é possível dizer que o biodiesel é socialmente, ambientalmente e economicamente sustentável, apesar de todo o discurso ecobranqueador [greenwashing]. Principalmente nestas semanas que antecedem a Rio+20, a roupagem de “sustentabilidade” é vestida alegremente. Na Europa, o vestido mais sexy agora se chama “economia verde”. Em português, soa mais claro: “capitalismo verde”.

Desde a referida carta já se passaram oito anos e podemos dizer que, no Rio Grande do Sul, a maior parte do óleo de soja é destinada ao biodiesel. Na verdade, é uma solução “de limpeza”, porque aqui o óleo de soja é, na verdade, apenas um subproduto. Cerca de 18% do grão é composto de óleo, ou seja, apenas 500 litros por hectare, podendo chegar, no máximo, a 570 litros. A soja aqui é plantada, principalmente, para obter farelo de soja, que é destinado à alimentação animal. Durante anos, nos debates com o setor agrícola na Bélgica/Europa, nos atiraram afirmativas como: “Vocês deviam ficar contentes por nossos porcos, galinhas e gado se alimentar de farelo de soja. Afinal, é apenas um produto residual.” Sempre, invariavelmente! Numa tentativa de calar a voz de Wervel. Por outro lado, aqui em Erechim, a resposta servida a mim numa bandeja é: “A soja é cultivada aqui para ração animal. O óleo e, consequentemente, o biodiesel, são apenas subprodutos. Além disso, o óleo de soja não é o melhor para o consumo humano.” Fiquei sem palavras, depois de 22 anos de luta contra a mentira descarada de que o farelo seria apenas “resíduo”.

 

A Fetraf-Sul/CUT, a federação de sindicatos de agricultores familiares com a qual Wervel já tem uma ligação há 10 anos, sempre se opôs ao avanço da soja (incluindo os OGM). Mas... desde a década de 1960, o grão milagroso (2) é simplesmente um legado da Revolução Verde, também para muitos agricultores familiares. Atualmente, são plantados cerca de 6 milhões de hectares com soja nesse estado, contra 32 mil hectares de colza. Desse volume, 95% é soja transgênica, o inverso do que ocorre em Rondônia – região amazônica desmatada –, onde apensa 5% é soja transgênica. O óleo de colza é de melhor qualidade e rende mais por hectare. Mesmo assim, a maioria dos agricultores se apega à soja, que lhes é familiar. Além disso, o cultivo de colza também está concentrado principalmente nas mãos de grandes proprietários.

Por dia, 2 mil toneladas soja, 600 mil litros de biodiesel

Nós visitamos Olfar (3), uma indústria de “Alimento e Energia”. Em 1988, a indústria começou com a produção de óleo para consumo humano e farelo para ração animal; porém, nos últimos cinco anos, ela mudou completamente a ênfase, para a produção de biodiesel, juntamente com farelo para ração animal. Olfar tem capacidade de processamento de 2 mil toneladas por dia, mas atualmente são processadas mil toneladas de soja por dia. Dentro em breve, passarão a trabalhar na capacidade plena. Já a unidade de produção de biodiesel tem capacidade de produção de 600 mil litros de biodiesel/dia. Para promover o programa de biodiesel e integrar a agricultura-familiar-com-soja nesse processo, o governo federal editou uma lei que determina que 30% da soja utilizada para produzir biodiesel deve vir da Agricultura Familiar (AF). Em média, os agricultores familiares possuem 12 hectares de soja, enquanto os grandes fazendeiros possuem centenas – talvez milhares – de hectares de soja em monocultura. Os fazendeiros plantam soja em grande escala em áreas que são facilmente mecanizáveis. Quando a mecanização não é possível, eles plantam eucaliptos.

Os agricultores da AF têm um contrato com um preço prefixado. Para 2012, esse valor é de R$ 54,50 por saca de 60 kg. Para tornar possível o envolvimento da Agricultura Familiar, o governo cobra menos imposto sobre o produto. Sendo assim, a usina pode pagar um real a mais por saca de soja produzida pela AF. Elas também prestam assistência técnica aos agricultores, sem falar nos fornecedores de sementes, agrotóxicos e fertilizantes...

300 m3 de eucalipto por dia

Em todo o país você vê silos imensos para grãos. Geralmente, a soja chega com umidade de 15% a 17%. Se a umidade for maior, a perda para o agricultor é grande, pois a soja é seca a 13% de umidade. A diferença é descontada do preço pago a ele. Na usina de biodiesel, a soja é novamente submetida a um processo de secagem, para chegar a 9% de umidade; em seguida, é feita a extração do óleo com auxílio de um solvente, o hexano. Em ambos os casos, a fonte de energia para a secagem é madeira de eucalipto. Para essa usina, parte dela é fornecida pela AF. Para a secagem de 2 mil toneladas de soja, serão utilizados diariamente 300 m3 de madeira de eucalipto, ou seja, cerca de um hectare de reflorestamento por dia. A produção de biodiesel em si é baseada no consumo de energia elétrica.

Quando vejo a chegada da madeira, não posso deixar de fazer algumas perguntas: “Eu compreendo que, para essa região e para a AF, há geração de valor agregado, mas quando se visualiza a questão energética globalmente, duvido que essa seja uma solução. Como fica o balanço energético? Ele é positivo ou negativo?”

Balanço energético?

Durante a conversa, reconhece-se que não existe uma solução global para a premente questão energética. Além disso, esse método de produção é fruto dos gêmeos siameses automóveis-carne. O produto principal é o farelo de soja; o biodiesel é um subproduto que, por si só, não é muito eficiente. Compare os 500 litros/hectare com um hectare de cana-de-açúcar, que pode produzir até 6 mil litros de etanol – em um deserto verde de cana, é bem verdade.

Não recebo uma resposta imediata sobre a questão do balanço energético negativo. Dizem, sim, que devemos considerar o tudo: óleo para biodiesel e farelo para ração animal. Porém, justamente essa “conversão em carne” é extremamente ineficiente do ponto de vista energético. Até chegar a essa conversão, passa-se por desmatamento com emissões de carbono, o cultivo com várias operações mecanizadas, fertilizantes e agrotóxicos (ambos grandes consumidores de energia), rochas calcárias trituradas espalhadas nas lavouras, três transportes de soja por caminhão, duas secagens dos grãos com madeira de eucalipto e por todo o processamento até chegar, finalmente, ao biodiesel “sustentável”. Exportar biodiesel para a Europa, por exemplo. Novamente, um grande consumo de energia.

 

E pouco se fala do consumo de água. Justamente nessa região ocorrem, ano após ano, grandes perdas por causa das longas estiagens. Alguns agricultores perderam, neste ano, até 80% de sua soja; outros perderam 50%. E além desse problema climático, o eucalipto não é considerado grande consumidor de água? (4) Em Erechim tem havido racionamento de água há um bom tempo...

Soja, a alternativa pelo menos interessante

A pedido do Greenpeace, recentemente foi realizado na Holanda um estudo (Onderzoeksbureau [empresa de pesquisa] CE Delft) sobre o ranking de combustíveis mais – ou menos – interessantes. Resultado: soja e colza estão no final do ranking (5). A utilização de colza para obtenção de óleo vegetal puro (PPO) não foi incluída nesse estudo, mas é, provavelmente, uma das mais ambientalmente sustentáveis.

 

Quanto maior a pontuação, mais ecológico é o combustível. (Pontuações ponderadas dos vários combustíveis alternativos. Foram levados em consideração: emissões de CO2, ocupação do solo e uso de fertilizantes; porém não o consumo de água ou as diversas consequências sociais) (6).

Combustível à base de:

 

Metanol de glicerina

240

Biometanol de resíduos de madeira

236

Energia elétrica sustentável

235

Biogás de resíduos (compostados)

213

Energia elétrica fóssil

212

Hidrogênio

203

Biodiesel à base de óleo de fritura reciclado

192

Gasolina/diesel de petróleo

166

Gás natural

165

Beterraba sacarina (etanol)

163

Cana-de-açúcar (etanol)

160

Milho (etanol)

120

Biogás de biomassa cultivada (milho para silagem)

109

Trigo (etanol)

97

Biodiesel à base de:

 

Palma

88

Girassol

80

Colza

73

Soja

18

 

No Brasil, todo o diesel vendido como combustível contém 5% de biodiesel, toda a gasolina contém 25% de etanol. Além disso, já há quase 40 anos, milhões de carros são movidos 100% à base de álcool/etanol. Motores “flex” funcionam tanto com gasolina quanto com etanol. A União Europeia firmou compromisso para que, até 2020, 10% da energia consumida deverá ser renovável.

O novo estudo joga uma bomba nessa política.

 

Erechim, 30 de abril de 2012.

(1) Veja: Biodiesel de soja, em Navios que se cruzam na calda da noite. Soja sobre o oceano (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2006). Na sequência, vários estudos foram publicados que confirmam meus temores. No caso de extração de óleo de colza a frio, nas propriedades dos agricultores, a situação é um pouco diferente. A ONG Wervel até é parceira em um projeto de colza em Westhoek. Veja: www.ppo.be e www.beauvent.be

(2) Veja: www.sojaconnectie.be e www.wervel.be/soja

(3) Veja: www.olfar.ind.br

(4) Veja: Você alguma vez alimentou seu filho com papel?, em Aurora no campo: soja diferente (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2008). Ou consulte este link: www.vegetarianismo.com.br/sitio/index.php?option=com_content&task=view&id=990&Itemid=145

(5) Veja: www.ce.nl/nieuws/213/Duurzaamheidsmeetlat_biobrandstoffen/?PHPSESSID=6abbc9b292aa0bafa1865470a9e55b7 [em holandês]

(6) O estudo de Delft reconhece que existem vários critérios que deveriam ser utilizados para avaliar os agrocombustíveis em termos de sustentabilidade. Em sua enumeração, foram listados somente os critérios ecológicos: emissões de gases causadores do efeito estufa; segurança de abastecimento energético; ocupação de terra por unidade de biocombustível, sem concorrência com a produção de alimentos; conservação de nutrientes; consumo de água por unidade de biocombustível; impacto sobre a biodiversidade; uso de culturas geneticamente modificadas. Dessa relação eles utilizaram apenas três critérios no estudo: emissões de gases causadores do efeito estufa, ocupação de terra e conservação de nutrientes (uso de fertilizantes químicos). A tabela mostrada deve ser lida com essas limitações em mente. Ou seja, as emissões de CO2 foram incluídas, mas é duvidoso que todos os elos possam ser quantificados. Por exemplo, todos os aspectos relacionados com os eucaliptos, descritos acima.

Em estudos relacionados com agrocombustíveis, os critérios sociais não são utilizados com frequência. Alguns aspectos que raramente foram estudados: o aumento da concentração de terras nas mãos de uma elite; êxodo rural; favelas nas cidades; o trabalho considerado análogo à escravidão pelo Ministério do Trabalho, especialmente nas plantações de cana-de-açúcar etc. Como, em muitos estudos, apenas uma parte dos critérios será estudada, nunca conseguimos ter um quadro completo e as conclusões são, às vezes, até mesmo diametralmente opostas.


14 Cooperativismo em 2012

14 – Cooperativismo em 2012

O ano de 2012 foi declarado como o “Ano Internacional das Cooperativas”. Tudo muito bem, mas o que será que se abriga nessa bela denominação, que sugere cooperação? Bancos, indústrias de ração, empresas de compra e venda de fertilizantes, sementes, grãos, carnes e laticínios: qualquer um deles pode ser uma cooperativa. A maioria começou com a intenção pura de trabalho cooperativo e de levar os cooperados a sério. Nas últimas décadas, muitas das chamadas cooperativas evoluíram para verdadeiras multinacionais, com grandes interesses em exportação. O novo conceito de “soberania alimentar” (1) não é para eles. Não, eles querem ocupar ao máximo o mercado doméstico e externo.

Economia solidária

No Brasil surgiu, nos últimos anos, um forte movimento de “Economia Solidária” (2). O coração da economia solidária é o verdadeiro trabalho cooperativo. Além disso, o amplo conceito de agroecologia abrange muito mais do que “não utilizar produtos químicos na agricultura”. É um modo de vida coletivo, no qual todos os tipos de colaboração são valorizados.

 

Estou hospedado na casa de Sandra e Alexandre Bergamin. Alexandre é o coordenador da Fetraf-Santa Catarina. Sandra coordena o movimento cooperativo dos agricultores na região de Chapecó. Ela me conta: “Aqui há uma grande diversidade de organizações de produção e cooperativas agrícolas: associações cooperativas, coletivos de produção, cooperativas de crédito solidário, cooperativas de construção de casas em áreas rurais, agroindústrias familiares e grupos de diversas formas de cooperação, que dinamizam a região, tornando-a o centro de origem de muitas organizações sociais.”

A criatividade daqueles que persistem numa zona rural que está encolhendo

De acordo com dados do IBGE de 2000, a zona rural do município de Chapecó contava com 1.837 propriedades, das quais 92% com um caráter familiar. Na década de 1960, a população rural do município representava por 68% da população total; em 2003, esta se reduziu a 8%. Vários fatores contribuíram para esse processo, como o surgimento dos grandes complexos agroindustriais, a reestruturação da produção e dos produtores.

Aqueles que persistem agora expandem suas atividades com turismo rural, produção de frutas, criação de peixes e, desde a década de 1990, com a agroindústria familiar em pequena escala. Geralmente, a produção de frutas, a instalação de apiários e outras iniciativas agroecológicas são realizadas de modo cooperativo. Os produtos são comercializados principalmente nas feiras de agricultores de Chapecó; às vezes, pelos supermercados.

Cooperfamiliar

Sandra trabalha para a Cooperfamiliar, que foi fundada em 1995. Desde então tem havido uma explosão de criatividade e sinergia. Quase ao mesmo tempo, surgiram a marca “Sabor colonial” e o Cresol, o fornecedor de crédito de e para a Agricultura Familiar. Também nessa época surgiu, nos três estados do Sul do Brasil, a Ecovida, uma rede de interação de consumidores e produtores. O fornecimento de alimentos da Agricultura Familiar para a merenda escolar teve início em 2002. Há também mais de 50 produtos entregues a instâncias públicas de Chapecó, no âmbito do Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA). Cerca de 214 famílias têm gado de leite e recebem assistência técnica da cooperativa.

 

De acordo com o censo agropecuário de 2010, a Cooperfamiliar possui uma base de 25.143 agricultores familiares, distribuídos em vários municípios.

Sandra fez uma pesquisa entre os membros. As entrevistas revelam que a maioria deles espera que a cooperativa desenvolva canais de comercialização alternativos a serem construídos, especialmente os de venda direta. Outros enfatizam a organização da produção em si mesmos e a assistência técnica. A expectativa é que ela seja uma verdadeira “Cooperativa Alternativa da Agricultura Familiar”.

Uma lei para todas as cooperativas

Os membros pedem que a Cooperfamiliar aborde as limitações no processo organizacional. É um problema comum a muitas cooperativas porque, no nível nacional, a lei geral do trabalho cooperativo “trata igualmente organizações muito desiguais”. Afinal, um grande banco “cooperativo” é muito diferente de uma pequena organização de fornecimento de crédito cooperativo para agricultores familiares. Para superar essas dificuldades, continua a luta para a criação de leis que estabeleçam uma distinção entre cooperativismo “solidário” e cooperativismo “comercial”.

E qual é a situação na Bélgica?

Desde o final do século XIX, há muitas cooperativas. Originalmente elas estavam nas mãos dos agricultores... Atualmente, formalmente, ainda é assim, mas a realidade é – não raramente – de alienação e de concentração de poder pelos representantes das assim chamadas “companhias pioneiras”. Enquanto as velhas cooperativas estão frequentemente interligadas com o agronegócio voltado para exportação, surgem novas alianças de cooperação. Por exemplo, dez anos atrás surgiu um problema para os 16 produtores de leite orgânico existentes naquela época, na região de Flandres (Bélgica). Como, de uma hora para outra, eles não puderam mais contar com a coleta de leite pela transportadora habitual, eles fundaram a cooperativa “Biomelk Vlaanderen” [Laticínio Orgânico de Flandres]. “Estamos trabalhando com uma transportadora independente e nós mesmos organizamos a coleta”, explica o presidente da cooperativa, Johan Broekx. “Nós temos um regimento interno que especifica a quais requisitos o fornecimento de leite deve atender. Acrescentamos alguns parâmetros relacionados a requisitos gerais de qualidade.”

 

Biomelk Vlaanderen” iniciou suas atividades na região de Flandres; porém, há seis anos, também começou a trabalhar com um grupo de pecuaristas de leite de Vielsalm. Os pecuaristas fundadores e os agricultores de Vielsalm são os associados da cooperativa. No total, os 25 pecuaristas produzem 7 milhões de litros de leite por ano. “Nós nos fortalecemos mutuamente”, diz Johan Broekx. “Sendo um pecuarista individual que produz 200 mil litros de leite por ano, você não consegue entregar seu leite em qualquer lugar. Também é um problema logístico. O leite pode ter sido ordenhado há, no máximo, três dias. Ele deve ser recolhido e processado dentro de 72 horas. Além disso, nossa localização é bem dispersa. Por isso é realmente importante ter várias pessoas para arcar com o elevado custo da logística.”

Ter o controle nas próprias mãos

“Em relação às cooperativas de consumidores, existe um claro processo de reavivamento”, diz Hilde Coucke, da ONG Wassende Maan [Lua Crescente] (3). “Isso está relacionado com uma espécie de sentimento de autonomia. As pessoas percebem que o setor bancário não vai bem, não confiam mais no governo e decidem assumir o controle das próprias vidas. Especialmente no tocante à alimentação, eu acredito que há um futuro reservado para as cooperativas. No momento, estamos lidando com a questão energética e de crescimento populacional. Portanto, o abastecimento local de alimentos voltará a ser muito importante.”

 

A terra é extremamente cara em Flandres. Para os jovens que não herdaram a terra de seus pais agricultores, é quase impossível de se estabelecer. Felizmente, a Bélgica ainda conta com uma boa Lei de Arrendamento, que protege o arrendatário juridicamente. Por causa da existência de uma nova tendência de jovens das cidades que querem se tornar agricultores, surgiu – a partir da sinergia entre Landwijzer vzw [Centro de Formação em Agricultura e Alimentação Orgânica e Biodinâmica; organização sem fins lucrativos] (4) e outras organizações – a idéia de criar um fundo de aquisição de terras para produção orgânica. Nos moldes do exemplo inspirador de Terre de Liens [Terra de Ligações] (5), na França, a iniciativa de produtores e consumidores quer adquirir terras livres de ônus para a agricultura orgânica. É uma ampliação da atividade iniciada pela ONG Land-In-Zicht [Terra à Vista] (6). Enquanto isso, a ONG Landwijzer continua a formar jovens para iniciar a prática da agricultura biodinâmica.

 

A terra, base de toda a agricultura, torna-se assim o foco de novas cooperativas. Em tempos de “land grabbing” globalizada, este é um dos sinais de esperança.

 

Chapecó, 1º de maio de 2012.

(1) Em relação a soberania alimentar, veja: Aurora no campo: soja diferente (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2008).

(2) Veja Economia solidária, no livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(3) Veja: www.dewassendemaan.be [somente em neerlandês]

(4) Veja: www.landwijzer.be [somente em neerlandês]

(5) Veja: www.terredeliens.org [somente em francês]. Terre de Liens também coordena um estudo europeu para mapear as diversas iniciativas na Europa relacionadas com o gerenciamento coletivo de terras para agricultura orgânica.

(6) Land-In-Zicht: www.kollebloem.be/land-in-zicht [somente em neerlandês]


15 Frango halal[1] para a Arábia Saudita

Isso nunca me aconteceu antes: estou sendo entrevistado por uma muçulmana, em Francisco Beltrão, para a rádio católica Anawim. A jornalista é uma brasileira que, desde criança, queria ser uma religiosa católica envolta em véus, mas a família dela não o permitiu. Mais tarde, ela se converteu ao islamismo e hoje, coberta por véus, ela adentra o sindicato de Fetraf.

OMC e sobrecoxas de frango

Fiquei surpreso. Estamos fazendo a entrevista para a rádio, mas, em seguida, começamos a conversar. Tal como Chapecó, Francisco Beltrão é uma cidade e uma região com grande concentração de avicultores, integrados (= sob o domínio de) ao sistema de produção da Sadia. Eu conto a ela sobre a exportação de frangos para a África, como isso destrói a economia local em muitos países africanos e como a posição das mulheres é prejudicada. Em muitas culturas, são as mulheres que criam os frangos. Quando há festas, o cardápio é frango; porém, desde 1995, as mulheres não conseguem competir com as sobrecoxas de frango congelado do exterior. 1995: o início da Organização Mundial do Comércio, pela qual esses países tiveram de abrir suas fronteiras para as sobrecoxas de frango congelado da Europa e do Brasil. Eu conto sobre o interessante DVD, Anomalia aviária, que expõem essa situação perversa (1).

Também conversamos um pouco sobre as recentes mudanças no mercado russo. Até poucos anos atrás, as empresas europeias e brasileiras competiam umas com as outras para ocupar o mercado da Rússia com sua carne de frango. Recentemente, a própria Rússia está com um excedente de carne de frango e, em vão, bate à porta da União Europeia. Agora que a Rússia aderiu à OMC, ela busca no Brasil um aliado para abrir o portão do frango para a Europa.

Halal brasileiro

A jornalista, por sua vez, conta a sua história. Por que ela se tornou muçulmana, mas especialmente como toneladas de frango halal de Francisco Beltrão e Chapecó são exportadas para os países árabes e do Oriente Médio: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Egito, Paquistão etc. Como esses frangos são tão “puros”, os japoneses também estão interessados neles. Em ambos os casos, trata-se de frangos inteiros, ainda que os japoneses deem preferência aos frangos menores. Para a Rússia também ocorrem muitas exportações halal, mas nesse caso se trata de partes do frango: sobrecoxas, coxas... O frango como um símbolo da globalização.

Muitos muçulmanos trabalham aqui nos abatedouros da Sadia. Regularmente também chegam equipes rigorosas de vistoria da Arábia Saudita, Egito e outros países.

Eu a questiono sobre a assim chamada “pureza”: “Eles podem ter sido abatidos de acordo com os princípios halal, mas e quanto à grande quantidade de hormônios e antibióticos na avicultura brasileira? Isso não é contra a halal?”

Ela acena com a cabeça em concordância: “Complicado, mas não há muito a fazer. Os frangos simplesmente têm de crescer rapidamente.”

 

Francisco Beltrão, 2 de maio de 2012.

(1) Uma publicação de Mídia da União Européia (2006): www.eu-media.info, com o apoio de várias ONGs europeias, ligadas a igrejas evangélicas. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=XOO0KoCsdf0


[1]  Nota da tradutora: halal é o termo habitualmente usado nos países não islâmicos para se referir aos alimentos autorizados de acordo com a Xariá, ou lei islâmica (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Halal; consultada em: 14/7/2013).


16 CO2 do Brasil às vésperas da Rio+20

Na viagem anual, eu sempre passo no campus Rio Pomba, do IFET. Ao longo desses anos, essa instituição se juntou aos campi de Barbacena, Muriaé e outros que eu não costumo visitar, por não estarem envolvidos com o tema agricultura.

O governo Lula investiu pesadamente em 13 novas universidades, com 102 campi (1). Ele também elevou os Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET) ao mesmo nível das universidades e os rebatizou de IFET: “Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia”. A presidente Dilma Rousseff deu continuidade a essa política. Atualmente, já existem 208 IFETs com vários campi. Até o final de seu mandato, devem ser mais do que 400 IFETs, com uma prioridade para o Nordeste, onde, até então, havia menos oportunidades de formação.

O avanço do eucalipto para o nosso consumo excessivo de papel

As boas-vindas em Rio Pomba são sempre bem calorosas. Professor Eli de Jesus e seus colegas conseguem mobilizar uma plateia entusiasmada e curiosa. Uma noite nos dirigimos ao campus de Barbacena, para a abertura da Primeira Feira de Ciência e Tecnologia. Mais de 200 alunos de diferentes escolas de Barbacena se reúnem numa das mais antigas escolas agrícolas do Brasil: durante dois dias, eles compartilharão suas experiências sobre ciência e tecnologia. Na abertura, uma apresentação musical (incluindo um saxofone; um “gancho” oportuno, pois esse instrumento foi inventado pelo belga Sax, de Dinant). O gringo da Bélgica fará o discurso de abertura. Usamos o DVD Sustentável no papel, da ONG Climaxi (2), para falar sobre o caráter não sustentável dos reflorestamentos de eucalipto com selo FSC na Bahia. Para essa ocasião, algo diferente da crônica abominação da soja. O público está genuinamente indignado com tanto “capitalismo verde” (greenwashing) em seu país. Os estudantes também estão insatisfeitos com o novo Código Florestal. Uma delas fez um gancho inteligente com o slogan do atual governo, “País rico é país sem pobreza”, e elaborou um belo cartaz com os dizeres: “País rico = país verde de florestas. Veta Dilma!”.

Rio de Janeiro e Rio+20

No dia seguinte, reapresentamos esse filme novamente no campus Muriaé do IFET, a 140 quilômetros de Rio Pomba – distância considerada pequena por brasileiros!

No edifício principal, há uma grande faixa de boas-vindas:

“Educando para um mundo melhor: mais justo e igualitário, onde as gerações presentes satisfaçam suas necessidades sem comprometer as gerações futuras!

Sustentabilidade.”

 

Seria difícil encontrar um ponto de partida melhor para tratar da Rio+20. Há 20 anos, para a alegria de todos, foi lançada a palavra “sustentabilidade”, que foi incluída em numerosos textos e declarações. Posteriormente, a comemoração virou frustração quando a indústria passou a utilizar essa palavra em campanhas de greenwashing. A “economia verde” que, particularmente, não quer avançar para a verdadeira “economia ecológica” ameaça agora ocupar as sessões oficiais no Rio. No contexto da REDD+ (3), o setor industrial não quer somente arrecadar dinheiro com “créditos de carbono” pelos reflorestamentos de eucalipto, mas também pelos milhões de hectares de monocultura de soja. A lógica por trás disso? “Nossas lavouras de soja captam CO2. Portanto, nós, fazendeiros, que primeiro derrubamos a floresta e lançamos milhões de toneladas de CO2 no ar, agora queremos dinheiro pela captação de CO2 dos nossos paraísos de soja.” Quem vai ajudá-los a parar com essa loucura?

Felizmente, existe o programa paralelo com o encontro dos povos tradicionais e movimentos sociais.

17,2 bilhões de toneladas de CO2

Exatamente no momento em que o Brasil ameaça esvaziar o Código Florestal de 47 anos de idade, surge um estudo sobre as emissões históricas de CO2 geradas pelo desmatamento para agricultura e pecuária no Brasil. Nunca antes esses valores foram calculados de forma tão precisa. E o que esse estudo revelou? Entre 1940 e 1995, essa conversão de vegetação nativa em terras agrícolas provocou a emissão de 17,2 bilhões de toneladas de CO2. Nesse período, a área agrícola brasileira foi ampliada de 106,4 milhões de hectares para 219,5 milhões de hectares.

Agora eu dou palestras nos campi do IFET no sudeste de Minas Gerais, no meio da Mata Atlântica – ou melhor: nas montanhas, onde até um século atrás havia Mata Atlântica. Como assim? Segundo o estudo, as maiores emissões foram provocadas justamente pela derrubada dessa Mata Atlântica, especificamente 43%, seguidas pelo Cerrado, com 29%. A Floresta Amazônica representa “apenas” 25%. A explicação para isso? O desmatamento na Amazônia só começou na década de 1970, impulsionada pela ditadura militar da época. A infame “Rodovia Transamazônica” foi, então, construída do leste para o oeste, para atrair os nordestinos para a floresta quando o Nordeste estivesse novamente afetado por uma seca extrema. Garantia de mão de obra barata para o desmatamento! Como a destruição por lá aconteceu mais recentemente, o imenso desmatamento gravado em nossa retina coletiva não supera o desmatamento menos notado da Mata Atlântica. É que a colonização começou de leste para oeste e, durante séculos, permaneceu principalmente na costa leste. No século XX ocorreu uma mudança drástica, com suas bem conhecidas consequências.

Olivier De Schutter e o gado Belgian Blue

Agora junte esse fato à campanha de difamação que está atualmente se formando em Flandres (Bélgica). No canal de televisão e rádio VRT foram feitos alguns questionamentos críticos sobre o gado Belgian Blue – carne produzida localmente – e, veja, imediatamente o Sindicato Rural Belga (BB) processou a rede de TV flamenga. Por danos à imagem! Mas o que eles mantêm fora das vistas, fora da “imagem”, há mais de 50 anos? Exatamente! Esse musculoso gado belga somente consegue ter traseiros tão terrivelmente grandes devido ao elevado consumo de soja vinda do outro lado do oceano. Gado tão musculoso que nem consegue nascer naturalmente. Meu pai era médico veterinário. Por definição, os bezerros eram trazidos ao mundo por cesariana. Para realizá-las, ele foi tirado várias vezes da cama à noite. Quer apostar que, dentro de dez anos, a “nosso” gado Belgian Blue será proibido na União Europeia? Os países escandinavos não conseguem apreciar a nossa “carne mais saborosa do mundo”. Se eles encontrarem uma maioria na UE, eles vão tentar proibir essa carne produzida em condições que não garantem o bem-estar animal.

 

Quase ao mesmo tempo em que ocorria o embate TV-BB, Olivier De Schutter, “relator especial da ONU sobre o Direito à Alimentação”, desvelou um pouco a questão. Ele considerou o imenso fluxo de soja transgênica da América Latina para a Europa como um “subsídio para a nossa pecuária intensiva”.

Ele apresentou alguns números chocantes: “A Europa necessita de uma área do tamanho da Alemanha fora do seu território para cultivar a ração animal que alimenta nosso gado. Além do milho onipresente em Flandres, esse gado também consome anualmente 40 milhões de toneladas de concentrados de proteínas, principalmente soja transgênica.” De Schutter explicou que as plantações de soja em escala só conseguem produzir de modo tão barato porque os impactos negativos no entorno não são incluídos no preço de custo. Ninguém é indenizado pelo desmatamento, pelo êxodo rural e pela pobreza provocada pela grilagem de terras para o plantio de soja. Pois bem, agora vocês estão ouvindo isso de outra pessoa. O que De Schutter esqueceu de contar é que, desde 1996 (Lei Kandir), a soja brasileira é a mais barata porque não paga imposto ao ser exportada. Ao entrar na União Européia, há 50 anos não se paga imposto de importação (Rodada Dillon do GATT, de 1960-61, e início da Política Agrícola Comum, em 1962) (4).

 

Flandres espera exportar carne do gado Belgian Blue para a China. O governo flamengo está numa alegre expectativa. Após importar peras dessa mesma Flandres, os chineses estão de olho em “nossa” carne. “Carne produzida localmente”, alimentada com soja do Brasil. Já com a carne de porco, a situação é mais difícil. Metade da população mundial de suínos já está na China e, para ela, são importadas 55 milhões de toneladas de soja produzida no outro lado do mundo.

 

Rio Pomba, 6 de maio de 2012.

(1) Veja Universidade dos e com os movimentos sociais, em: Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(2) Sustentável no papel, um filme de Leo Broers e An-Katrien Lecluyse (versões em neerlandês, inglês e português). Veja: www.climaxi.be

(3) REDD: Sigla em inglês para Redução de Emissões Decorrentes de Desmatamento e Degradação Florestal. REDD+: quando são acrescentadas atividades à REDD. “Mesas-redondas” relacionadas a soja, óleo de palma, carne “sustentável” etc. adoram se aprofundar nesse tema. Veja: www.nature.com/news/farm-focus-for-saving-trees-1.10339; ht.ly/adaom; www.fastcoexist.com/1679655/can-we-make-enough-food-to-eat-without-cutting-down-all-the-trees

A soja RTRS (soja produzida de acordo com critérios da “Mesa-Redonda sobre Soja Responsável”) poderia, injustamente, qualificar-se para receber recursos REDD: por causa do assim chamado desmatamento evitado (ou melhor, principalmente pela observância da legislação nacional, o que é algo bem diferente); por causa do teor de carbono medido no solo e que talvez aumente; de um plano de ação para reduzir o uso de combustível (relacionado com o assim chamado plantio direto que, nesse caso, não significa “não arar”, mas com o uso abundante de Roundup e soja Roundup Ready); alguma recuperação de vegetação nativa e “expansão responsável” de lavouras de soja segundo um sistema de “mapeamento” e “zoneamento”, aprovado pela RTRS.

(4) Veja Ração animal, uma história de interdependência, capítulo final do livro Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

 

 


17 Dia das Mães

O Dia das Mães é o segundo feriado mais importante no Brasil. Pelo menos, para o comércio. A Associação Brasileira de Shopping Centers estima que, nesse período, as vendas serão 8% superiores às do ano passado. O Brasil é um país emergente e, principalmente, a classe média tem cada vez mais renda para gastar. Um fato deve ser registrado: nesse dia, a maioria das pessoas se reúne com a família. As ruas estão desagradavelmente desertas. Muitos restaurantes estão fechados. Até os donos dos restaurantes querem namorar. Ocasionalmente você vê alguém vendendo flores, ou se depara com um taxista tocando a campainha para entregar um presente. No período da tarde, há um grande número de famílias passeando no Parque Ibirapuera.

O campo versus a cidade

Eu estou em São Paulo, cercado por arranha-céus. Um contexto completamente diferente do campo. Na política, a cidade sempre foi privilegiada – e, no campo, a agricultura de exportação em larga escala é favorecida desde os tempos coloniais. Sob um governo mais progressista, os movimentos sociais possuem, claramente, uma força de mobilização menor do que, por exemplo, no final da década de 1990. Isso requer reorientação.

Na Agricultura Familiar, a família agricultora é valorizada de acordo. Ou seja, o Dia das Mães é um dia em que todos retornam ao “ninho”, porque – sim – muitos jovens emigraram para a cidade. Ainda que a agricultura de exportação, mesmo com um presidente progressista, receba mais atenção do que a AF, os agricultores familiares não permitem que passem por cima deles.

Fetraf-Sul/Cut (1)

Tomemos, por exemplo, a Fetraf-Sul/CUT. A conjuntura é mais difícil do que há 15 anos. Também nesse sindicato há menos poder de mobilização em uma sociedade focada cada vez mais no indivíduo. Como na Europa, ainda não se encontrou um novo equilíbrio entre os direitos e as necessidades de cada pessoa, da família ou do grupo mais amplo e a sociedade em geral. Muitos jovens, principalmente as moças, partiram para as cidades (2). Muitos líderes rurais foram formados nas décadas de 1970 e 1980, dentro da dinâmica das comunidades eclesiais de base e da Teologia da Libertação. Nos anos da ditadura militar, a igreja era o único lugar onde as pessoas podiam se organizar. Agora há liberdade e democracia, pelo menos formalmente. Há menos necessidade de fazer oposição a uma política que proporciona bastante oportunidade para o desenvolvimento. O presidente Lula e, agora, a presidenta Dilma tomaram muitas iniciativas de apoio à AF, mas a agricultura de exportação em larga escala continua recebendo cinco vezes mais apoio financeiro. Enquanto isso, os líderes rurais que estão envelhecendo buscam seus sucessores, mas nem sempre os encontram. Há décadas, a vida na cidade é apresentada como muito mais atraente. O onipresente deus “TV” desempenha um papel inegável nisso.

Seguridade social

E, no entanto, apesar de todos esses obstáculos, as campanhas continuam, tanto com mobilizações nas ruas quanto com o trabalho de lobby de apoio, chegando até Brasília. Os principais eixos permanecem: 1. organização da produção; 2. organização sindical; e 3. “políticas públicas”. Neste terceiro eixo, trabalha-se principalmente na seguridade social, habitação em áreas rurais, agricultura ecológica e preservação ambiental, além da ampliação da nova Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), que foi criada a partir do impulso dos movimentos sociais (3).

 

É Dia das Mães. Bem, no terceiro eixo, neste ano a Fetraf-Sul quer investir pesadamente sobre a posição das mulheres na agricultura. Desde 1923 existe seguridade social no Brasil, mas os agricultores e as agricultoras só foram incluídos aqui a partir de 1971. O benefício de licença-maternidade só passou a ser pago às agricultoras a partir de 1994. Apesar de muita luta e mobilização, ainda há muita diferença entre o tratamento dado às mulheres e aos homens na zona rural e na cidade. Por exemplo, na cidade, as mulheres já têm a possibilidade de tirar seis meses de licença-maternidade, enquanto as mulheres da AF têm apenas quatro meses. Neste ano, Fetraf quer abordar as muitas desigualdades que ainda existem com campanhas. O ponto focal é reivindicar que as mulheres da zona rural tenham o mesmo direito a seis meses de licença-maternidade que as mães nas cidades.

Para fortalecer a mobilização, será organizado o “Primeiro Encontro das Mulheres Agricultoras no Sul do Brasil”, no dia 23 de novembro de 2012.

Mãe negra

Hoje também faz 124 anos que foi abolida a escravidão no Brasil. Uma coincidência que nos faz refletir sobre a profunda diferença entre a vida de uma mulher branca, descendente de imigrantes italianos, em uma cidade como, por exemplo, São Paulo, e a vida de uma mãe negra, descendente de escravos africanos, na zona rural. Ou a vida de uma cabocla numa comunidade de ribeirinhos às margens do Rio Amazonas. O que elas têm em comum? Todas elas, brancas-negras-pardas, podem ser vítimas da violência. A cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil.

 

Chama minha atenção que, no site Facebook, eu só encontro mensagens de brasileiros sobre o dia das mães. Para encerrar, a mensagem postada por Rosinalda da Silva Simoni em homenagem à Ilê Axé Iya Oloxum (Casa de Benção Mãe Oloxum [Deusa de fertilidade e riqueza]).

Mãe!

“Ser mãe é assumir de Deus o dom da criação, da doação e do amor incondicional. Ser mãe é encarnar a divindade na Terra.”

 

O sobrenome da Silva geralmente indica ascendência de escravos. Quando, no século XIX, começaram a registrar as pessoas e não se sabia de onde vinham, os ex-escravos frequentemente recebiam o sobrenome da Silva: “(nascido em) a mata, originário da floresta”.

 

São Paulo, 13 de maio de 2012.

(1) Fetraf-Sul/CUT: CUT é a central sindical cofundada pelo líder sindical Lula (que mais tarde se tornou presidente da República). Ela tem uma ala operária e uma ala camponesa. A Fetraf-Sul é a ala camponesa dos três estados do Sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná). A Fetraf-Brasil está presente nacionalmente em 20 estados.

(2) Veja: Desequilíbrio no “mercado amoroso”, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(3) Veja: Universidade dos e com os movimentos sociais, em Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).