Sumário

 Publicado no ano 2014,

“Ano Internacional da Agricultura Familiar”.

 

Espera-se que seja um instrumento para fortalecer a recampesinização

no Brasil, na Europa, em todo o mundo.

Prefácio e agradecimentos

Introdução. Soja: tesouro ou tesoura?

 

1. Europa exporta seus problemas

2. Instituto para a vida?

3. Saúde nas próprias mãos

4. Elefante branco?

 

Agronomia: paradigmas em conflito. Prof. Fábio Nolasco, Cuiabá

 

5. Sistemas agroflestais e recuperação

6. A bicicleta toma a cidade

7. Frutos do Cerrado

8. Macambira-Anicuns: o parque urbano mais longo no mundo

9. Fundação Conscienciarte

10. Juçara, o açaí do Sul

11. As borboletas se foram! Seremos os próximos?

12. Rota da Agricultura Familiar

13. Biodiesel da soja

14. Cooperativismo em 2012

15. Frango Halal para a Arábia Saudita

16.CO2 do Brasil às vesperas da Rio +20

 

Ética Ambiental, Revolução Verde e Agroecologia. Prof. Eli de Jesus, Rio Pomba.

 

17. Dias das mães

18. Agora o Brasil vai importar soja?

19. Quem ainda acredita nesses pessoas?

20. Herman Verbeek, o novo Marx do Extremo Norte?

21. Uso indireto da terra

 

Sinais de esperança, a outra notícia. Leen Laenens, Bélgica.

 

22. A pegada ecológica do gato

23. A Agricultura Familiar anda pode ser salva? (Notícias do congresso trienal da Fetraf-Sul)

24. Cooperafloresta, uma lição para a União Européia

25. Índios no Rio? O lado sómbrio de “verde”

26. Jovens semeiam Terra Solidária

27. Syngenta e Bayer em defesa das abelhas? (Ou: quando a esmola é demais..., o santo desconfia)

28. Escolas Família Agrícola

29. Fora Babaçu! Bem vinda a soja?

30. O Evangelho do Eucalipto

31. AEFAPI: Associação Regional das Escolas Família Agrícola do Piauí

32. Fuligem “do mal”

33. Landgrabbing ou roubo de terras

34. Ciência a serviço da sociedade?

35. “Rei Carro”, o caçador de recursos naturais

36. Química e obesidade?

37. O círculo está completo: manteiga francesa no Rio

 

Cânhamo – Uruguai  

 

Epílogo. Uma visão holística de uma realidade repicada. Vera Dua, Bélgica.

 

 

Wervel


Prefácio e agradecimentos

Este é o quinto livro sobre a interdependência do modelo europeu de consumo e agrícola com as profundas mudanças do outro lado do oceano, mostradas como uma imagem no espelho. As monoculturas da soja, da cana-de-açúcar e de outras commodities para os mercados internacionais colocam – inclusive no Brasil – as relações sociais sob pressão, expulsam os povos indígenas, destroem ecossistemas. Além disso, esse rolo compressor se deslocou agora para a África, o paraíso emergente do agronegócio. A serviço da Europa e da Ásia. A serviço do capital financeiro internacional.

Os livros são sempre uma coletânea de crônicas que emergem durante as visitas de intercâmbio ao Brasil. Os textos foram primeiramente divulgados em blogs, sites e boletins eletrônicos. Mesmo assim, já pela quinta vez, a ONG Wervel é da opinião de que vale a pena também editar os textos reunidos, na forma de livro, tanto em holandês quanto em português.

Estas crônicas de fácil leitura têm suas qualidades, mas também suas limitações. Estamos bem conscientes disso. Cada texto é uma história completa, com um começo e um fim. A leitura pode ser feita aleatoriamente. Você lê o que lhe interessa. Se a leitura for cativante, todo o conteúdo do livro poderá ser lido. Cada leitor deve buscar o tom e suas nuances, a linha e a estrutura do livro. A introdução que se segue é uma ajuda para entender as sutilezas do livro. Não se engane: é um texto atípico; não é uma crônica, mas sim um texto de natureza filosófica.

A novidade neste trabalho é que dois brasileiros e dois flamengos dialogam com os textos. Obrigado por suas contribuições! Após a publicação do livro no Brasil, será dado início a um blog no site www.motiro.org, para que possam participar das discussões todos aqueles que desejarem. Na Bélgica (Flandres) e na Holanda será uma página no Facebook.

Só me resta agradecer a algumas entidades.

A abadia de Averbode, que há muitos anos me dá a liberdade para dar continuidade a este trabalho de Wervel e este diálogo internacional.

A Wervel, que todo ano permite que eu parta para o Brasil, bem como o grupo de Bruxelas Hooikaai, onde eu posso morar.

A Cimic.be, que me fez imergir na “filosofia de encontro e diálogo” durante um curso sobre interculturalidade. Especialmente a Hannah Arendt, que cruzou o meu caminho, como você poderá perceber imediatamente na introdução.

Agradeço, por fim, aos Amigos de Thomas Merton (www.thomasmerton.nl). Eles me ensinaram a ler os textos dessa figura inspiradora, relê-los e vivenciá-los.

Luc Vankrunkelsven


Soja: tesouro ou tesoura?

Os sete pecados sociais são: política sem princípios, riqueza sem trabalho, prazer sem consciência, conhecimento sem caráter, economia sem moralidade, ciência sem humanidade e culto sem devoção.” (Mahatma Gandhi)

Depois da Segunda Guerra Mundial, a industrialização e a internacionalização da agricultura ocorreram à velocidade da luz. Ciclos naturais foram rompidos. A partir dessa época, tornou-se possível “praticar a agricultura” com pouquíssima terra (visível). Desde então, suínos e frangos são engordados na Europa Ocidental, principalmente “sem ocupação de terra”. A terra, a água e o petróleo vêm do exterior – na forma de soja para ração animal. Ração que se torna alimento da destruição. Tudo é desvinculado: o consumo crescente e os elementos da produção. O que é causa? O que é efeito? É como se uma tesoura fosse utilizada para retalhar a trama da realidade, tornando-a irreconhecível.

Neste processo, 1962 é um ano divisor de águas

1962? Rachel Carson lançou seu polêmico livro Silent Spring (1). “Primavera silenciosa”, devido ao avanço desenfreado da agricultura química. Sua obra foi praticamente o começo do movimento ambientalista na América do Norte. No mesmo ano, o julgamento do nazista Adolf Eichmann abriu os olhos do mundo para um fator do Holocausto que ainda não havia chamado muita atenção. Hannah Arendt esteve presente durante o julgamento e inquietou a opinião mundial com seu controverso livro Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal (2). Duas mulheres no lado americano do Atlântico levantam suas vozes. Debate garantido! Até hoje.

Do lado europeu, a agricultura se desvincula da terra, devido à Rodada de Dillon (3), do GATT (atualmente OMC – Organização Mundial do Comércio): um acordo no âmbito do comércio mundial, que coincide com o início da Política Agrícola Comum Europeia. Mais uma vez, no ano de 1962.

Os acordos firmados em Dillon deram início ao fluxo destrutivo da soja: primeiro, a partir dos Estados Unidos; depois, com a “Revolução Verde”, a partir do Brasil, da Argentina, do Paraguai, da Bolívia.

Obediência cega, irrefletida – a banalidade do mal

E o que essas duas senhoras têm a ver com esses acontecimentos?

Com relação a Rachel Carson, a conexão é clara. Ela disparou o alarme com razão. Apesar do “Ano Internacional da Biodiversidade” (2010) – 50 anos mais tarde –, a diversidade da vida está se reduzindo numa velocidade assustadora.

E quanto a Hannah Arendt e a agricultura? Arendt fala do “subordinado” Eichmann. No julgamento em Jerusalém, ele simplesmente repetia que “apenas cumpria ordens superiores”. O refrão nos julgamentos do pós-guerra é: “Nós éramos apenas uma pequena engrenagem da grande máquina.” Eichmann não tinha visão da conexão das coisas. Ele tinha apenas um retalho da realidade, mas, mesmo assim, conseguiu organizar a logística para o massacre de milhões de judeus, homossexuais, ciganos, comunistas. Eichmann, o provedor de soluções.

Para Arendt, não é “o mal” que é banal, e sim o inexpressivo burguês comum que cumpria o seu “dever”. Poderia ser nós mesmos. Obedecer sem refletir...

Será que podemos estender a “banalidade do mal” da política para a economia? Para a indústria internacional de ração, carnes e alimentos? Ou corremos o risco de ficarmos presos na armadilha do nosso típico dualismo ocidental do “bem” e do “mal”. Afinal, o que é que o consumidor médio sabe sobre a “engrenagemzinha” que ele mantém em movimento ao comprar um quilo de carne de panela no supermercado? Utilizando ou não a desculpa da “engrenagem”, Arendt argumenta que uma pessoa continua sendo responsável, é capaz de pensar e, em seguida, julgar, independentemente do sistema em que ele/ela se encontra. Cabe a nós fazer o misto do bem e do mal pender para a direção que favorece a vida. Há alternativas de sobra!

Thomas Merton e The Unspeakable [O Indizível]

Hannah Arendt e Rachel Carson são duas mulheres fortes que romperam o silêncio. No mesmo período, também se erguiam as vozes de advertência de alguns homens. Por exemplo, Thomas Merton (1915-1968), o famoso monge trapista americano e líder espiritual de várias gerações após a Segunda Guerra Mundial. Em Raids on the Unspeakable (4) ele fala sobre as lacunas do discurso público: “São as lacunas que contradizem tudo o que é falado antes mesmo de as palavras serem ditas; lacunas que permeiam a linguagem dos discursos públicos e oficiais no exato momento em que eles são proferidos, fazendo com que soem sem vida, vazios como um abismo. É dessas omissões que Eichmann extrai a meticulosa exatidão de sua obediência.”

O perigo dos “mentalmente sãos”

Na década de 1960, Merton fala explicitamente sobre Eichman em três ocasiões. Enquanto Arendt fala mais sobre a banalidade do “solucionador de problemas”, Merton acha perturbadora a assim chamada sanidade mental de Eichmann. Ele fala sobre o “homem tecnológico”, a “linguagem tecnológica” e o possível Eichmann em cada um de nós. “Nós equiparamos sanidade mental com um senso de justiça, com amor pela humanidade, com cautela, com a capacidade de compreender e amar o próximo. Nós confiamos que as pessoas mentalmente sãs protegerão o mundo da barbárie, da loucura, da destruição. E agora começamos a perceber que são exatamente as pessoas mentalmente sãs que são as mais perigosas.” [...] “São as pessoas mentalmente sãs, as bem ajustadas, que – sem consciência e sem ficarem enojadas – apontam os foguetes e apertam os botões que darão início à grande festa da destruição; uma ‘festa’ que elas – as pessoas mentalmente sãs – também já haviam bem preparado previamente [...] Ninguém suspeita de pessoas mentalmente sãs e as mentalmente sãs provavelmente têm razões perfeitamente aceitáveis, razões lógicas e adequadas para puxar o gatilho. Elas obedecerão as ordens razoáveis que chegam as elas corretamente pela cadeia de comando [...].” (5)

Linguagem tecnológica em “Tecnópolis” ($)

Se Eichmann fosse uma aberração, nós poderíamos respirar mais aliviados. Mas, infelizmente, atualmente ele ainda está presente de muitas maneiras. Sua linguagem tecnológica prevalece. No ensaio Auschwitz: um campo familiar, Merton escreve ironicamente: “A linguagem burocrática tem um talento para argumentar sobre a realidade e, ao mesmo tempo, negá-la [...]” (6). A “Tecnópolis” utiliza a linguagem dos computadores e da matemática. A “Tecnópolis”, quer seja na Alemanha nazista, na Rússia dominada pela máfia, na Coreia do Norte stalinista ou na América corporativa, prefere sempre a linguagem da segurança e da abstração. Ela sempre utiliza a linguagem dos números, tabelas e mapas. A “Tecnópolis” eleva e promove o tipo de caráter eichmanniano e a sua linguagem, o executor obediente que é eficiente na organização, que reduz a diversidade humana, que utiliza recursos tecnológicos para resolver os problemas humanos e ecológicos que o atrapalham. A força da discordância de Merton do monopólio tecnológico – e sua crítica a ele – está em enxergar como a “Tecnópolis” está encarnada na pessoa e na linguagem de Adolf Eichmann.

Eu estou em todos os lugares

A força de sua oposição e crítica também está também no fato de que, para ele, “Eichmann” não é apenas uma determinada pessoa que nasceu em um momento específico e viveu em um determinado lugar. Para Merton, Eichmann é atemporal e apátrida, até mesmo “apessoal”. Ele vive em qualquer lugar, em qualquer momento. Ele mora sempre e em qualquer lugar quando e onde as instituições e a burocracia, onde a nação e a nacionalidade, onde o poder e a riqueza são colocados antes da liberdade individual e das necessidades humanas. Merton se manifesta sempre que fatos e números são colocados antes de sentimentos humanos, sempre que teorias abstratas são consideradas mais importantes do que a vida. Em Conjectures of a guilty bystander [Conjecturas de um espectador culpado], ele faz Eichmann dizer: “Seu mundo está repleto de mim. Eu estou em todos os lugares, meu nome é legião...” (7)

Cabe a nós traduzir as críticas de Merton, Arendt e Carson para o século XXI. Nós poderíamos, com cautela, aplicar suas ideias à atual realidade retalhada (chamada de sustentável) da política agrícola internacional, ao cinismo das multinacionais de sementes e produtos químicos, ao transporte a granel – mantido oculto – nas mãos de quatro empresas de tecnologia, às multinacionais de alimentos que fazem lobby, às vítimas mantidas invisíveis (os povos indígenas, a Agricultura Familiar, os ecossistemas destruídos, o crescimento das epidemias de câncer e obesidade...).

Luc Vankrunkelsven, Bruxelas, 20 de fevereiro de 2014.

Dia Mundial da Justiça Social.

(1) Publicado no Brasil: CARSON, Rachel. Primavera silenciosa. São Paulo: Gaia, 2011.

(2) Publicado no Brasil: ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

(3) A “Rodada de Dillon do GATT”, em 1962: o início das importações de soja da Europa, sem taxas e sem cota. Para um histórico dos fatos correlatos e mais informações sobre a Rodada de Dillon, veja: Ração animal, uma história de interdependência, no livro Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(4) MERTON, Thomas. Raids on the Unspeakable, Nova Iorque: New Directions, 1966 [em espanhol: Incursiones en lo indecible, Santander, Espanha: Sal Terrae, 2005]. Traduzido literalmente: incursões no indizível. “The unspeakable” é difícil de traduzir. Pode ser o “Indizível”, “Deus”, mas o termo também é fundamental na crítica social de Merton. “O indizível” também pode se referir, por exemplo, à reunião de forças do complexo militar-industrial, contra o qual ele se opunha com palavras desmascaradoras a partir de sua cela. Nesse sentido, ele previu, em janeiro de 1962, a morte de John Kennedy. O assassinato de Kennedy não pode ser visto separado de sua busca por paz e diálogo na antiga Guerra Fria. É que “1962” também foi o ano da crise dos mísseis de Cuba, com as armas nucleares soviéticas em Cuba. Contrariando seus conselheiros, ele decidiu não bombardear Cuba, mas estabelecer um diálogo com o presidente Khrushchov e Fidel Castro. Suas tentativas de política pacificadora, inclusive no Vietnã, custariam-lhe a vida. Esta é, seguramente, a opinião de James W. Douglass, em JFK and the unspeakable. Why he died & why it matters [JFK e o inominável. Por que ele morreu e por que isso importa]. Nova Iorque: Orbis Books, 2008.

(5) MERTON, Thomas. Raids on the Unspeakable, Nova Iorque: New Directions, 1966. p. 46-47.

(6) MERTON, Thomas. Passion for Peace: The Social Essays [Paixão pela Paz: Os Ensaios Sociais]. Nova Iorque: The Crossroad Publishing Company, 1995. p. 282.

(7) MERTON, Thomas. Conjectures of a Guilty Bystander [Conjecturas de um espectador culpado]. Nova Iorque: Doubleday, 1989, p. 290. Publicado em holandês sob o discreto título Oplettende toeschouwer [Observador atento]. Em espanhol: Conjeturas de un espectador culpable (Santander, Espanha: Sal Terrae, 2011).

Com relação à expressão legião, veja também o Evangelho de Marcos 5:9.


1– Europa exporta seus problemas

Eu estou novamente a caminho do Brasil, para o lançamento da versão em português de Legal! Otimismo – Realidade – Esperança. Durante a espera nos aeroportos, reli Nieuwe spijswetten. Over voedsel en verantwoordelijkheid [Novas leis alimentares. Sobre alimentação e responsabilidade], de Louise O. Fresco (1). Ela fala sobre “pensadores sombrios” e “aqueles que buscam a luz” que, junto com “as pessoas solidárias” se opõem – com justiça, mas às vezes de modo um tanto ingênuo e nostálgico – ao agronegócio internacional. Para o meu gosto, a autora é demasiado otimista sobre o uso e as perspectivas maravilhosas da agricultura industrial e da engenharia genética. Ela também compartilha a opinião do agronegócio brasileiro e de muitos dos elaboradores de políticas do Brasil de que o Cerrado é uma área inútil. “O consumo de carne já não é tão problemático”, diz ela, “porque houve redução do desmatamento na Amazônia. O Cerrado é o ideal para a alimentação animal e carne.” Muitos movimentos brasileiros discordam totalmente dessa concepção. Eu mesmo abomino esse ponto de vista que, atualmente, destrói a biodiversidade do Cerrado, mas consigo apreciar muito de sua busca pela integração. A partir de diferentes perspectivas ela tenta entender a realidade complexa. Além disso, ela está dividida entre otimismo e pessimismo. A esperança é a sua missão.

Todos rumam para Luanda

O trajeto da viagem é Lisboa-Brasília-Cuiabá. Uma fila no aeroporto de Lisboa me colocou inesperadamente na tradição de emigração europeia ou “exportação de seus próprios problemas”. Cerca de 23% da população espanhola está, atualmente, desempregada; 50% dos jovens. Em Portugal, a “Crise do Euro” é um pouco menos acentuada do que no país vizinho e da que reina no pária chamado Grécia. No entanto, a fila leva para o avião que vai para Luanda, capital de Angola. Dois voos diários levam uma quantidade marcante de jovens para a ex-colônia portuguesa. Luanda, alternando com Tóquio, é atualmente a cidade mais cara do mundo para se viver. É o resultado dos expatriados atraídos pela loucura de petróleo do país.

Nos últimos meses, a imprensa relatava regularmente que muitos jovens gregos, portugueses e espanhóis com nível superior estavam emigrando para a Bélgica e outros países paradisíacos ao norte. Por exemplo, o VDAB [Serviço Belga de Colocação de Trabalhadores, semelhante ao SINE no Brasil] está buscando ativamente 3 mil jovens engenheiros em Portugal. Isso porque já não encontram engenheiros na Bélgica, mas também, provavelmente, porque esses jovens gênios desempregados aceitam trabalhar por salários mais baixos. A Alemanha também busca ativamente engenheiros e enfermeiros em Portugal e Espanha. Portugueses são desejados pela Bélgica e pela Alemanha, mas a maioria ainda vai para as ex-colônias. O Brasil, como um país emergente otimista, está em evidência, mas outros países de língua portuguesa, como Angola e até Moçambique, estão entre os destinos favoritos.

Mundo estranho: estima-se que cerca de 60 mil brasileiros vivem na Bélgica. A maioria, “sem documentação”. As mulheres trabalham como domésticas, geralmente “seguras” atrás das paredes e por salários baixos (na informalidade). Muitos homens brasileiros estão empregados no setor de construção, muitos deles são pagos informalmente ou recebem salários muito baixos (2). Engenheiros portugueses são atraídos para a Bélgica, enquanto os cérebros jovens da Bélgica estão deixando o país em números cada vez maiores. Os graduados têm fácil acesso aos Estados Unidos, Canadá e Austrália. As universidades americanas distribuem deliberadamente bolsas de estudo aos nossos melhores estudantes. A crise na Europa ajuda a acelerar o êxodo. Em 2000, 13.296 jovens belgas emigraram permanentemente. Em 2010, já eram 16.759 jovens, entre 15 a 29 anos. Será que isso não se tornará uma implacável fuga ou circulação de cérebros? Os jovens estão adquirindo mais mobilidade graças aos diversos programas de intercâmbio? As pessoas também podem retornar, permitindo o intercâmbio de conhecimento e enriquecendo a sociedade. Os governos podem reagir a esses desenvolvimentos de modo positivo.

Tráfico humano

Os jovens emigrantes em busca de trabalho e de uma nova vida dão continuidade a uma longa tradição de emigração. Já são cinco séculos [fugindo] de: pogroms [intolerância religiosa], fome, guerras de todos os tipos, duas guerras mundiais, ditaduras de esquerda e de direita, desemprego e, ainda, deportação de desocupados e condenados e busca de aventuras e lugares exóticos. O auge do êxodo de milhões de europeus ocorreu nos séculos XIX e XX: a combinação de fome por causa, entre outros, da doença da batata e o advento do navio a vapor, que tornava mais fácil o deslocamento para as Américas do Norte e do Sul. Muitos se tornaram vítimas de tráfico de seres humanos (3). Nada de novo sob o sol. Na nossa rua, em Bruxelas, há dezenas de prostitutas búlgaras e romenas. Muitas são vítimas do tráfico humano moderno.

Na Páscoa, a presidenta Dilma Rousseff foi hóspede na Casa Branca. Ela expôs ao presidente Obama que “os países ricos, com as desvalorizações de suas moedas, estão exportando a crise para os países emergentes”. Ela pôs o dedo na ferida, muito embora a visão também seja um tanto simplista. O agressivo estímulo às exportações do Brasil & companhia também deve ter sua participação na crise mundial. De qualquer modo, a crítica feita pela presidenta é manchete nos jornais de hoje. Eu mesmo também vou sentir isso na pele, nestas semanas, porque o euro está realmente muito fraco em relação ao forte real brasileiro.

Democratização de geladeiras, carros e carne

Em Brasília, o emigrante europeu é recepcionado com a informação de que: “O tráfico de animais e plantas silvestres é um crime federal”. Além disso, os alto-falantes repetem a cada dez minutos: “O Ministério da Agricultura proíbe a importação de alimentos de origem animal ou vegetal sem registro sanitário ou fitossanitário, ainda que sejam para consumo próprio”. Uma questão de proteger seu próprio rebanho contra a disseminação de quaisquer vírus, inerente à explosão global de carne.

Ou, ainda, um anúncio chamativo de 100% de “energia limpa”, com a logomarca do Governo Federal e com o slogan: “Brasil, país rico é país sem pobreza”. É claramente propaganda do governo, porque a população está cansada das numerosas hidrelétricas planejadas. A resistência à barragem de Belo Monte, no Pará, continua particularmente intensa.

Nos últimos oito anos, o governo conseguiu de fato fazer com que dezenas de milhões de brasileiros saíssem de condições miseráveis para a classe média baixa. País rico é país sem pobreza. Pela primeira vez, essas famílias adentram, confiantes, o paraíso dos consumidores e compram geladeira, carro e outros símbolos de riqueza. E elas merecem. É ligeiramente comparável àquilo que aconteceu na Bélgica após a Expo ‘58. Afinal, por que eles não “poderiam” se, há décadas, nós reivindicamos isso como um direito natural na Europa? Mas a Terra tem os seus limites. Como é que nós todos vamos lidar com isso nas próximas décadas? Os brasileiros são “apenas” cerca de 203 milhões de pessoas. Eles podem receber algumas dezenas de milhares de europeus desesperados e desempregados! Já a Ásia é outro assunto. Os chineses, 1,4 bilhões de pessoas, também estão na expectativa de ter uma geladeira, um carro e de consumir muita proteína animal.

Dentro de dez anos haverá mais indianos do que chineses. Eles também devem descer da bicicleta e entrar no carro. Eles também deixam sua posição vegetariana acalentada durante séculos e adentram o paraíso do McDonald’s. Na geladeira, haverá carne, ainda que em menor quantidade do que na Europa e na América. O consumo per capita será menor, mas coletivamente maior, porque quando se trata de Ásia estamos falando de vários bilhões de pessoas: 54% da população mundial, comprimidos em um continente. Como é que vamos administrar a democratização do modo ocidental de vida?

Rio+20

Em junho, no Rio de Janeiro, os membros das Nações Unidas voltam a se reunir em torno dessa questão. Vinte anos depois da Rio-92[1], o evento mundial histórico sobre a situação do nosso planeta. A aposta da Rio+20[2]: será que, com a economia “verde”, teremos mais do mesmo ou finalmente perceberão a gravidade da situação global? De qualquer modo, o governo brasileiro acredita está tendo um bom desempenho e que tem as melhores credenciais para receber essa conferência sobre “desenvolvimento sustentável”. Trinta e nove movimentos ambientalistas brasileiros não têm tanta certeza. Recentemente, eles escreveram uma carta aberta na qual denunciam o desenvolvimento altamente não sustentável em seu país. Estou curioso acerca do que vou ouvir sobre isso nas próximas semanas. Será que há vida em torno do novo fetiche da indústria: a “economia verde”? Será essa a nova roupagem do “Consenso de Washington” (4) da década de 1980? Como é que estudantes brasileiros, agricultores, ativistas enxergam o Rio, 20 anos mais tarde? E o Brasil, que possui 20% de toda a água doce do mundo, 60% da água doce prontamente disponível? O Brasil, que ainda tem/tinha 34% do estoque das florestas tropicais do mundo. O Brasil, que detém 30% de toda a fauna e a flora do mundo. A biodiversidade e as florestas estão desaparecendo rapidamente. Como estará na “Rio+40”?

Tudo isso promete. Chego aqui no Brasil como uma página em branco. A “esponja-em-mim” faz com que eu, imediatamente, pegue meu notebook. Será que eu devo, mais uma vez, usar as crônicas para instigar meus leitores?

Brasília, 10 de abril de 2012.

(1) Louise O. Fresco, Nieuwe spijswetten. Over voedsel en verantwoordelijkheid [Novas leis dietéticas. Sobre alimentação e responsabilidade] (Amsterdã: Bert Bakker, 2009, quarta edição).

(2) Consulte o capítulo 1, Você nasceu para voar, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(3) Consulte: Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2006).

(4) Consulte o artigo revelador A economia verde é o novo Consenso de Washington? (http://globaltransition2012.org; http://www.sustainabilityleadersnetwork.org/2012/03/from-limits-to-growth-to-life-beyond-growth). Sobre a diferença entre “economia verde” e “economia ecológica”, consulte Andere landbouw? Andere economie! Ecologische economie als fundament voor een duurzame landbouw [Outra agricultura? Outra economia! Economia ecológica como uma base para uma agricultura sustentável] (Bruxelas: Wervel, 2012).


[1]

             Nota da tradutora: Refere-se à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada na cidade do Rio de Janeiro em 1992, também conhecida como Eco-92 ou Cimeira da Terra.

[2]           Nota da tradutora: Refere-se à Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (CNUDS), realizada na cidade do Rio de Janeiro em 2012.


2 Instituto para a vida

Cuiabá, capital do Mato Grosso. Mato Grosso, o estado onde o Cerrado, a Amazônia e a maior reserva de aves do mundo – o Pantanal – se encontram.

Mato Grosso, que há várias décadas é o estado do grande desmatamento e do assim chamado “milagre da soja”. É por isso que eu não queria vir aqui, mas há cinco anos sou convidado por várias instâncias para auxiliar no fortalecimento do “outro lado do Mato Grosso”.

Globalização da terra

Tomemos, por exemplo, o Instituto Centro de Vida (ICV). À primeira vista, achei que fosse um movimento antiaborto. Mas não, a expressão “em defesa da vida” é amplamente utilizada pelas ONGs e pelos movimentos sociais brasileiros. Para eles, ela abrange tudo: o planeta, os diversos ecossistemas habitados pelo homem... Para o ICV (1), começa pelo muito maltratado Mato Grosso. Um movimento contra o aborto planetário, por assim dizer.

O ICV surgiu em 1991, um ano após Wervel. É um dos movimentos ambientais mais antigos no Brasil. No início da década de 1990 a “globalização da terra” já ocorria de modo descontrolado. Os sulistas incendiavam o Cerrado e a Amazônia. Eles repetem o que ocorreu na década de 1970 do século XX, no Paraná: colocar fogo em tudo e, imediatamente em seguida, semear soja. Os sulistas são os invasores e os “desenvolvedores” da Região Sul: gaúchos, principalmente pessoas vindas do Paraná que têm pais ou avós no estado mais ao sul, o Rio Grande do Sul. Estes, por sua vez, são descendentes de italianos, alemães, poloneses, ucranianos e, vez por outra, um holandês com espírito missionário. Especialmente no norte de Mato Grosso, mas também em Rondônia, Tocantins e Piauí está cheio de paranaenses com sobrenomes italianos e alemães. Eles não ficam muito satisfeitos com intromissões europeias, ainda que suas próprias raízes se encontrem no lado europeu do oceano.

Um crescimento de 10% ao ano

O ICV começou de modo muito idealista e radical em sua oposição aos estragos causados por barragens. Como o Mato Grosso se tornou o campeão em desmatamento, eles se afincaram cada vez mais na denúncia das consequências devastadoras dessa globalização perversa.

Em 2006, começaram a trabalhar com o Imazon, que desenvolveu um sistema para detectar desmatamento: o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD). Por volta dessa época, eles também começaram a divulgar mensalmente o desmatamento. Este já era detectado há algum tempo pelo Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), mas não era divulgado (2). Graças à pressão do ICV, agora isso acontece há muitos anos.

Alguns números: de 1996 até 2005 foram desmatados mais de 1 milhão de hectares/ano na Amazônia e no Cerrado de Mato Grosso juntos. Posteriormente, esse número passou para 100 mil hectares. Até 2006, houve um crescimento anual de 10% de soja e de gado. De 2006 a 2010, houve uma estagnação. A partir de 2011, o desmatamento passou a acelerar. Para o período 2010-2020 é esperado um aumento de 70% de soja (1,7 milhões de hectares para essa leguminosa) e uma duplicação da pecuária. O agronegócio afirma que vai realizar essas metas nas terras disponíveis. Atualmente existem 26 milhões de hectares com, aproximadamente, uma cabeça de gado por hectare. Isso seria duplicado com dois animais por hectare. A engorda confinada também está aumentando drasticamente, mas não a de gado no pasto, o que, em nossa região, já ocorre há um bom tempo. No Brasil, o estado de Goiás é, atualmente, o campeão da engorda confinada.

Portanto: não haverá mais desmatamento... mas é preciso ver para crer. Será que vão plantar os 1,7 milhões de hectares de soja adicionais como um segundo estrato, como se fosse permacultura? A permacultura, que é uma tentativa louvável de imitar o ecossistema, pratica a “agricultura-em-estratos” e sem entrada de energia: uma mistura de várias plantas terrestres, arbustos, árvores, animais, água.

Campeão dos agrotóxicos “responsáveis”

O ICV não consegue ignorar essa terrível realidade de destruição. Por isso, eles precisam se equilibrar entre o exercício da influência nos círculos de quem organiza tais estragos e o onipresente e imperativo greenwashing[1]. Atualmente, todos querem oferecer soja “sustentável” e “verde”, enquanto os jatos de agrotóxicos saindo dos aviões continuam a aumentar. O Brasil é o maior “consumidor” de agrotóxicos e, em 2010, despejou 983 milhões de litros sobre as lavouras. Também nessa área o Mato Grosso está em primeiro lugar: 132 milhões de litros. Tomemos, por exemplo, o município de Lucas do Rio Verde, que é frequentemente utilizado como exemplo de “boas práticas”. Seria uma comunidade que pratica a sustentabilidade. A população é de cerca de 37 mil pessoas. Em 2010, foram plantados cerca de 420 mil hectares de soja, milho e algodão. O consumo de veneno chegou a 5,1 milhões de litros. O professor Pignati estudou, com sua equipe da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, o que isso acarreta para a população local, especialmente para crianças e mulheres grávidas.

Deve ficar claro que a revelação desses dados não é apreciada. Os líderes sindicais e pesquisadores que mostram esse outro lado do paraíso da soja são extremamente pressionados. É que eles pedem o fim da pulverização aérea e, também, que sejam colocados na “lista negra” daqui os produtos que são proibidos na Europa. Um pedido urgente pelo fim da política de subsídios para o uso desses agrotóxicos.

É nessa realidade que trabalha a Mesa-Redonda da Soja Responsável [Round Table on Responsable Soy – RTRS]. Uma mesa-redonda na qual empresas como Monsanto e Unilever, junto a fazendeiros, à indústria de ração (incluindo a nossa Bemefa belga), ao WWF e a várias ONGs holandesas tentam desenvolver critérios para “soja socialmente responsável”. O ICV não participou como membro da mesa, mas tem compartilhado sua experiência há vários anos, na esperança de que isso resultasse efetivamente em alguma melhora. Atualmente eles esperam para ver o que acontece. Nesse meio tempo, parece que muitos produtores de soja de Mato Grosso abandonaram a Mesa-Redonda. Os governos na Europa – incluindo o nosso próprio governo belga – aproveitam cada oportunidade para se vangloriar desses fluxos de ração “responsáveis” e clamam, quase em desespero, que existem ONGs que apoiam isso. Isso se encaixa perfeitamente na preservação dos interesses de exportação de carne.

Municípios verdes

Minha suspeita é despertada pela colaboração do ICV no surgimento de “municípios verdes”. Está na moda ser “verde”. O encontro Rio+20, em junho, também está bastante ocupado por “economia verde”. É mais do mesmo, com um molho verde?

Em 2008, o governo federal fez uma lista de municípios nos quais a situação no campo da sustentabilidade é crítica. Nessa “lista negra” constam 43 municípios, dos quais (de novo) 22 se localizam em Mato Grosso. Um dos problemas é que os limites de muitas empresas na região amazônica são desconhecidos. Consequência: “ninguém sabe nada do desmatamento”.

O governo adota critérios. Se os municípios dessa lista estiverem em conformidade, eles podem ser retirados da lista e isso é bem importante, porque há sanções. Menos subsídios, por exemplo.

Um dos critérios é que as terras sejam cadastradas: Cadastro Ambiental Rural (CAR). Para sair da “lista negra”, 80% das terras precisam estar cadastradas. Por isso existe, no Mato Grosso, o projeto “Mato Grosso Legal”: a legalização das áreas que foram ilegalmente desmatadas antes de 2007. O fato de eu estar aqui, na turnê de lançamento do meu novo livro, Legal! (3), é uma divertida coincidência (legal!). Com um sorriso, o ilegal é legalizado.

Após o CAR, 6 mil nascentes poderão ser resgatadas. Cerca de 1 milhão de hectares em torno dessas nascentes e rios poderão ser recuperados. Parece bom, ainda que seja uma arte não ser sugado por essa grande máquina de greenwashing. Afinal, aquilo que foi desmatado ilegalmente está sendo legalizado tornando possível, portanto, plantar despreocupadamente soja socialmente responsável em terras públicas que foram usurpadas injustamente.

O ICV não se ocupa apenas da realidade dos latifundiários. Com os assentamentos de pequenos agricultores e de agricultores familiares eles fortalecem a tendência de expansão da agroecologia.

O ICV é um dos nossos parceiros na luta por uma agricultura socialmente justa e ecologicamente responsável – contanto que, em ambos os lados do Atlântico, continuemos críticos em relação ao significado de “responsável”. Afinal, Wervel significa, por extenso: “grupo de trabalho por uma agricultura justa e responsável”.

Cuiabá, 11 de abril de 2012.

P.S.: No aeroporto de Cuiabá, moças encantadoras tentam me vender um cartão Visa. Um Mastercard não é suficiente. Visa é melhor nesse novo El Dorado. No balcão do check-in há um grande outdoor da “Colonizadora Sinop” (www.gruposinop.com.br), como a nova metrópole do Mato Grosso. Sinop, uma cidade que gira em torno da soja e um projeto dos paranaenses. No mapa em torno de Sinop dá para ver que o norte do Mato Grosso de fato foi e é colonizado por paranaenses: Paranaíta, Novo Horizonte do Norte, Ipiranga do Norte, Nova Maringá, Boa Esperança do Norte, Terra Nova do Norte...

Na sala de espera há uma grande foto com um campo de soja que parece infinito. Ela mostra os agricultores sendo atualizados por extensionistas sobre os benefícios do novo futuro: “FMC: Fazendo Mais pelo Campo”. A gente enxerga no campo o seu desenvolvimento.

(1) Veja: www.icv.org.br

(2) Veja: www.obt.inpe.br/deter.

(3) Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular /Cefuria, 2012).


[1]

                 Nota da tradutora: Greenwashing [literalmente, “lavagem ecológica”, por analogia com “lavagem de dinheiro”] é um termo utilizado para designar um procedimento de marketing utilizado por uma organização (empresa, governo etc.) com o objetivo de dar à opinião pública uma imagem ecologicamente responsável dos seus serviços ou produtos, ou mesmo da própria organização. Nesse caso, a organização tem, porém, uma atuação contrária aos interesses e bens ambientais (Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Greenwashing; consultada em: 10/4/2013).


3 Saúde nas próprias mãos

“Que a saúde se difunda sobre a terra”. Este slogan é visível em muitos lugares. É a Campanha da Fraternidade 2012: o tema deste ano é ”saúde pública”. A Semana dos Povos Indígenas também trata desse tema, considerando sua abordagem holística da saúde. O slogan fala por si: “Terra livre, águas puras, florestas sagradas: fonte de saúde”.

Medicina popular em ascensão

Percebe-se que a saúde no Brasil é uma prioridade pela quantidade de farmácias. Você pode encontrá-las em quase todas as esquinas. Ao mesmo tempo, muitas pessoas redescobrem as formas tradicionais de medicina, por intermédio – ou não – de movimentos organizados. Especialmente a antiga sabedoria acerca de plantas medicinais está voltando a ser valorizada, ainda que o lobby farmacêutico faça todo o possível para roubar essa soberania do povo. Também a homeopatia, tanto para plantas quanto para animais e seres humanos, está bem difundida (1) – mais do que na Europa.

A energia que nos faz viver: bioenergética

Em Cuiabá eu tomei conhecimento de uma forma muito especial de cuidados de saúde, a “bioenergética”. Em 1994, o Padre Renato Roque Barth, um jesuíta, trouxe esse conhecimento da Nicarágua para o Brasil. Ele me recebeu no centro de Biosaúde (2) e conta sua história. É óbvio que eu consigo reproduzir apenas uma pequena parte neste texto.

Na década de 1990, na época do revigorante governo sandinista, ele foi trabalhar na Nicarágua. Nessa época, um colega dele, Fernando Cardenal, era Ministro da Educação. Renato trabalhava com cooperativas de agricultores, mas o que realmente mudou sua vida e seu trabalho foi ser apresentado à bioenergética. A primeira pista veio através do japonês Áton Inoue. Na Nicarágua, Áton deu o primeiro curso no mundo para pessoas comuns. Foi outro japonês, Yoshiaki Omura, que, de 1976-1978, em Nova Iorque, desenvolveu o “Teste do Anel Bi-Digital”. O nome peculiar se refere à maneira um tanto estranha de trabalhar: com uma haste de cobre, vários lugares no corpo são examinados. Ao mesmo tempo, como dois dedos unidos em forma de anel. Pela abertura do anel, a pessoa que realiza o teste em alguém pode detectar quais órgãos estão doentes. A energia que faz com que uma pessoa tenha ou não uma vida saudável é crucial nesse procedimento.

Nesta tática de diagnóstico, três questões são fundamentais:

‑ descobrir quais órgãos estão doentes;

‑ saber quais doenças afetam esses órgãos;

‑ a sabedoria do corpo doente, que sabe de quais plantas necessita para preparar o chá que vai curar a doença de dentro para fora, e vai estimular sua defesa.

Argila, ervas, dieta

A argila é amplamente utilizada para curar uma variedade de doenças. Após o diagnóstico, sete ervas são centrais na terapia. Eles variam de acordo com a região, conforme sua própria diversidade de plantas e ervas. Dieta, acupuntura e massagem podem ser empregadas. É melhor não misturar esse processo com homeopatia. Normalmente, o tratamento tem duração de 15 dias, mas o processo pode ser repetido. registros de resultados muito bons, até mesmo relacionados a câncer e aids.

Eu recebo uma série de livros interessantes, inclusive um sobre a – um tanto estranha – “urinoterapia”. Argumenta-se que esta é um antibiótico especial. Parece um pouco menos estranho e confuso se você pensar que nós, quando fetos, ingerimos nossa própria urina durante meses. Nos últimos meses de gravidez isso seria de uns 500 a 700 ml por dia. Para ouvidos europeus – principalmente na Bélgica, onde a indústria farmacêutica também tem um grande impacto –, isto parece insano. No entanto, parece funcionar para muitas pessoas. Mas eu mesmo não me candidato imediatamente...

Um milhão de brasileiros atendidos

Noto que as pessoas começam a se aproximar para serem diagnosticadas. Isso ocorre assim em Cuiabá, mas também em Curitiba, onde são atendidas 30 pessoas por dia. Na capital do Paraná trabalham quatro equipes.

Padre Renato tem todo o tempo para responder a minhas perguntas, porque ele não precisa, necessariamente, realizar os exames pessoalmente. O trabalho é feito por uma equipe de voluntários, tal como outras mil equipes em todo o Brasil. Os voluntários precisam se filiar a associações estaduais, para evitar que haja abuso ou charlatães. Assim, existem dez associações estaduais e uma organização nacional. Eles atuam em cem dioceses, mas também trabalham fora da esfera eclesial. Foram ministrados cursos na Bolívia, no Uruguai, no Paraguai e em países africanos, com grande aceitação especialmente em Moçambique, em colaboração com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Na maioria dos países o trabalho é realizado sem problemas, mas justamente no Brasil a ação é problemática. Isso está relacionado com o poder da indústria farmacêutica. Muitas vezes, as mesmas multinacionais também controlam os agrotóxicos. Como é amplamente sabido, o Brasil é o “Número Um” no consumo de agrotóxicos e isso por causa da expansão do agronegócio. Gradualmente, a população está se dando conta de que as planícies desérticas de soja e outras culturas pulverizadas com agrotóxicos estão na origem de muitas doenças.

Atualmente circula na internet uma campanha contra a bioenergética, apoiada em programas da TV Globo. A indústria química se sente visada pelo “não queremos produtos químicos em nossos organismos”.

 

Evidencia-se pelos números que toda a abordagem é eficaz e ameaçadora: no Brasil já são 1 milhão de pessoas atendidas; em todo o mundo, trata-se de cerca de 3 milhões de pessoas. Potencialmente, já existem apenas no Brasil cerca de 40 milhões de “terapeutas” – se levarmos a sério, por exemplo, uma mulher que dá à vizinha um chá personalizado.

Eles estão atuando agora em 40 países, com 40 mil pessoas em 20 mil equipes. Nessas equipes, há as pessoas que fazem o diagnóstico e outras que coletam as ervas em sua própria região.

Reduzir o consumo de carne

Padre Renato me oferece um “pão de queijo”. Totalmente feito de soja. Ele parece ser um opositor feroz ao consumo de carne e peixe, especialmente no contexto das condições de produção no Brasil. Na aquicultura, o peixe recebe hormônios masculinos nos três primeiros dias, para crescer mais rápido. Depois de três dias, seguem hormônios femininos. Os frangos (3) da bioindústria recebem, além dos necessários antibióticos, hormônios femininos. Isso pode resultar, principalmente, em câncer de próstata.

Ele defende a redução no consumo de carne: “Os americanos consomem sete vezes mais carne do que os chineses. E eles também têm sete vezes mais câncer do que os chineses.”

E também: “Vamos parar de consumir tanto açúcar e tanta carne. Na verdade, o diabetes é mais o resultado do consumo de carne do que de açúcar, mas o açúcar definitivamente não é recomendado.”

 

No próximo ano, Padre Renato espera lançar um novo livro. O movimento já dispõe de 500 novos recursos, que os médicos desconhecem. Segundo ele, em Moçambique, descobriram que conseguem erradicar malária com suas terapias. Alem disso, acredita-se que há uma ligação entre a malária e a aids. “A aids também pode ser tratada desta forma”, diz Padre Renato, pois “metade da aids na África é, na verdade, malária”.

 

Cuiabá, 12 de abril de 2012.

(1) Sobre homeopatia na agricultura, veja: www.ihama.com.br

(2) Veja: www.biosaudebrasil.org

(3) De acordo com um estudo recente da União Brasileira de Avicultura (Ubabef), os brasileiros consomem, em média, 47 kg de carne de frango por ano.


4 Elefante branco?

No assim chamado “Terceiro Mundo” – ou o “Sul”, desde 1989 –, há muitos “elefantes brancos”: projetos nos quais um país doador injetou muito dinheiro, mas que não eram exatamente desejados pela população local. Muitas vezes, trata-se de construções ou máquinas caras que, em um curto espaço de tempo, passam a definhar.

Há muito tempo que o Brasil não faz mais parte dos 18 países pobres que a Bélgica diz apoiar. É um dos “países emergentes” e deve, portanto, “se virar” sozinho. Ele é poupado de “elefantes brancos europeus”. Isso seria uma grande vantagem se o país não tivesse problemas com a disputa de poder e a oposição de potentados locais e outros.

Boicotar

Tomemos por exemplo o Centro de Pesquisa e Formação Olga Benário Prestes, que nós estamos visitando hoje. Nós? Sim, Fábio Nolasco, professor de agricultura tropical da Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiabá, e eu. Fábio é um dos poucos nesse estado que tenta criar uma ponte entre a universidade e os movimentos sociais.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) necessita de centros de formação para seus integrantes. Eles conseguiram convencer o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a construir um grande centro de formação em um assentamento em Várzea Grande, próximo a Cuiabá. Sem ouvir o MST, um empreiteiro construiu uma grande estrutura de concreto. Dificilmente você poderá dizer que foi construído a partir de materiais ecológicos, logo agora, num momento em que há muita atividade no Brasil em torno de construções ecológicas (argila, bambu e outros materiais). O Incra nunca verifica quais materiais eram usados ou se os cálculos sobre o que finalmente foi injetado estavam corretos. De qualquer modo, a empresa teve um bom ganho.

A construção está pronta desde 2008; porém, por meio de boicote e várias outras manobras de atraso, os fundos operacionais necessários para realizar os cursos não foram disponibilizados. O acabamento também deixa muito a desejar, e não foram providenciados camas e móveis para a biblioteca.

Ocupar

Há quatro anos algumas pessoas moram no edifício para fazer a manutenção do local do melhor modo possível. Se eles não ocupassem o prédio, eles o perderiam em pouco tempo. É um pouco parecido com as ocupações de terra que o MST é obrigado a fazer: ocupar para conseguir terra. Enquanto isso, com pouco ou nenhum recurso, eles conseguem fazer belas mesas e cadeiras para o refeitório e armários para a biblioteca. Ocasionalmente, eles conseguem requerer um lote de madeira apreendida, extraída ilegalmente da Floresta Amazônica. De vez em quando, há atividades de capacitação, porém ainda muito abaixo do potencial do centro.

 

Será que precisam aguardar as próximas eleições? Ou um novo diretor regional do Incra?

Até lá, a Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiabá, tenta romper o boicote realizando alguns de seus seminários no local e, quem sabe, instalar um curso de agronomia. No que depender do professor Fábio, isso poderia representar um início de solução para o impasse.

 

Cuiabá, 13 de abril de 2012.

 


Agronomia: paradigmas em conflito

Um fenômeno interessante está acontecendo nas instituições públicas de ensino superior, ao menos na UFMT (campus de Cuiabá-MT-Brasil), onde estou docente. Está cada dia mais evidente que, em média, os discentes estão se tornando mais respeitosos, sérios, dedicados, pontuais e menos relapsos em suas relações no mundo acadêmico, apesar do deficitário hábito médio de leitura. Antes da adoção do regime de cotas, era bem maior o índice de estudantes humilhadores, prepotentes e arrogantes frente a docentes e colegas mais pobres, ou com menos sinais exteriores de riqueza, tais como carro, roupas de grife, aparelhos eletrônicos, idiomas estrangeiros e “papos” (farras-feitos-viagens). É provável que o atual regime de cotas para negros, indígenas ou discentes originados de escolas públicas seja o responsável por essas transformações. Assim, parece que o propósito de inclusão social do governo federal está surtindo outros efeitos, além do maior acesso de filhos de pobres à universidade.

O curso de agronomia da UFMT é famoso por se dedicar à geração de profissionais para lidar com o agronegócio (empresarial) e não para a agricultura (campesinato). Vale lembrar que este último representa mais de 70% do número de famílias do campo, do abastecimento interno de alimentos (mais livres de agroquímicos) e dos empregos rurais, apesar de usar menos área e de usar os solos de menor capacidade de uso.

Sendo assim, ficam os discentes pobres (até filhos de camponeses) à mercê da lógica do paradigma convencional de produção (monocultural, oligogenético, agroquímico, mecanicista, excludente etc.). Se algum estudante possuir o sonho de se dedicar aos problemas da maioria, da proteção ambiental, da produção de alimentos limpos, da inclusão e distribuição de renda-terra-poder-informação aos mais marginalizados do campo, terá bastante dificuldade. As mudanças na matriz curricular em andamento, não meramente reformistas, não impactam de forma revolucionária, com mudança de foco, de paradigma e de objetivos... Ou seja, só reforçam a modernidade conservadora da Revolução Verde.

Muitas das crises agrícolas planetárias induzidas pelo homem têm origem, entre outros: na matriz fornecedora de energia e de recursos em vias de esgotamento; nas desiguais relações de troca cidade-campo, ou Norte-Sul, ou desenvolvidos-subdesenvolvidos; na dependência de fornecedores externos de crédito, insumos, energia, serviços e informações; na submissão a políticas ditadas por grupos de interesse econômico oligárquicos; na busca de soluções inovadoras sem mudança de paradigmas. Enfim, são as crises arquitetadas pela “modernidade conservadora”. Nela, as relações de dependência permanecem inalteradas. Trocam-se os tipos de “insumos e ferramentas”, mas os fornecedores são os mesmos. Troca-se a “tecnologia”, mas os royalties ficam nas mesmas mãos.

No que tange ao papel dos profissionais de ciências agrárias, por exemplo, é imperioso conceber novas formas de se produzir, processar, armazenar, abastecer com produtos do campo, e novos modos de se relacionar com os consumidores, cidadãos urbanos e rurais.

Os consumidores-cidadãos-eleitores, cada vez mais exigentes quanto aos impactos desse modelo hegemônico de produção subserviente, degradador ambiental e poluidor dos alimentos, passam a ter atitudes crescentemente discriminatórias (até com boicote) com relação às irresponsabilidades sociais dos produtores, dos técnicos e das ciências que os formam e apoiam. Porém, a deliberada deificação atual da “ciência acadêmica” – subliminarmente colocada pela mídia, por organizações de marketing e até por governos – prenuncia os tipos de manipulações que estão emergindo. Explicitamente, reforça-se o fatalismo do poder do “deus mercado”, ampliando ainda mais suas garras, em desfavor da maioria consumidora inconsciente ou impotente. Reforça-se, então, o esquema de manipulação do sistema de “ciência e tecnologia”, criando necessidades (produtos e serviços) usadas para explorar-alienar-concentrar bens, lucros e poderes. As instituições públicas permanecem, assim, a serviço “de quem”? Mesmo as parcerias público-privadas acabam induzindo, portanto, a buscar por “mudanças” que não alteram as relações de poder e de troca, ou seja, agem como meros “panos quentes reformistas”. Muitas inovações se configuram como meras maquiagens, alterações superficiais ou troca de visual, mas sem torná-las socialmente empoderadoras, ambientalmente limpas e economicamente justas. Sem mudança de paradigma, a “inovação” pode ser simplesmente discurso de marketing: “ouro de tolo”.

A crise pela qual passa a universidade brasileira nos remete, portanto, à necessidade de mudanças de paradigmas – ou seja, de revolução científica, de pesquisa extraordinária e não de “reforma”, de pesquisa normal, dentro dos cânones convencionais hegemônicos. Esse modo vigente de pensar reforça a histórica acumulação de poder e recursos nas mãos das multinacionais (máquinas, insumos, genes) e outros grupos de interesse (crédito, processamento, transporte, tradings etc.), impondo aos produtores níveis intoleráveis de dependência externa. O desafio hoje colocado aos profissionais da agronomia pelos setores mais democráticos e críticos está basicamente em superar o modelo monocultural-químico-oligogenético-mecanicista-excludente-dependente-escravizante-poluidor e buscar um processo policultural-orgânico-multigenético-organicista-includente-autonomicista-libertador-preservador do valor biológico dos alimentos, solo, água e seres vivos. Portanto, novas concepções de agricultura exigem “inovações reais”, ou seja, profundas, que promovam a quebra de paradigmas das escravizantes formas de se produzir (alimentos, fibras, energia, minerais etc.), especializadas em submeter o campo aos ditames da cidade, da indústria e dos setores neoescravagistas (financeiro, tradings, indústria química etc.).

A própria agricultura convencional (agronegócio), por exemplo, está refém de interesses externos ao campo, numa forma explícita de um novo tipo de escravagismo consentido, legalizado e rotulado de “moderno” – e até de “sustentável”. À semelhança dos famosos casos de escravidão na Amazônia, esses produtores dependem dos mesmos grupos econômicos que “fornecem os insumos de custeio” e “compram seus produtos”. Por seu gigantismo e sua sanha desenfreada de lucro, é evidente que manipulam os preços “antes e depois da porteira”, por meio de jogos de informações, de especulação em bolsas de mercadorias e de valores. Provavelmente, dominam hoje os imateriais territórios públicos de crédito, de vigilância, de pesquisa e apoio à pesquisa, dos recursos genéticos e talvez... do ensino. Para sair desse círculo vicioso, não bastam medidas paliativas fornecidas pela “pesquisa normal do paradigma vigente, com reforma e melhoria do sistema”, é necessário que se quebrem muitos paradigmas e se faça emergir uma nova matriz: libertadora, ética e inclusiva.

As instituições de ensino superior deveriam assumir alguma responsabilidade nessa libertação? Quais os papéis dos profissionais mais exigidos hoje pela sociedade? Quais os papéis dos docentes e gestores nos processos de ensino-pesquisa-extensão, para formação de profissionais protagonistas, consequentes e responsáveis? Afinal, as IES públicas deveriam ficar do lado de quem? Servir a quem? Somente à lógica do “mercado”? Até quando? A crescente dependência dos produtores a fornecedores externos não estaria levando também os países à perda de soberania sobre os territórios hipotecados? A ciência e a tecnologia poderiam ou deveriam ajudar a reverter esse quadro?

Para responder a essas perguntas é importante refletir: o conceito de “paradigma” é dominado por todos? É generalizado o conhecimento de como os paradigmas influenciam nossos processos de ensino-aprendizagem? Temos coragem para romper com modelos obsoletos e viciados? Estamos abertos para criar e instaurar “o novo”? “Inovação” com que sentido, impacto ou finalidade? Bastaria chamar de “inovação” e pronto? A quem se quer enganar? Por quanto tempo?

Afinal, existiriam ainda outros sinais de que nosso sistema de ciência e tecnologia precisa se transformar? O mundo do trabalho, as populações e consumidores estão atualmente demandando profissionais com perfis diferentes de outras épocas? As transformações científicas, tecnológicas, sociais, culturais e legais passaram a exigir agentes com novas características? As “responsabilidades sociais” das empresas implicariam em novas competências dos trabalhadores? Os “sistemas de certificação e rastreamento” impõem novas habilidades dos egressos das instituições de ensino superior? As IES públicas brasileiras já se inteiraram de novas legislações, como o Decreto Federal nº 7.794, de 20 de agosto de 2012, que institui a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, que se adéqua às condições de mais de 70% dos agricultores brasileiros? As matrizes curriculares das universidades estão se ajustando para atender às exigências legais de sanidade, segurança e soberania alimentar?

Dentro da academia – a agronômica em especial –, os objetos considerados relevantes para estudo, dedicação e pesquisa não são as demandas do povo, dos pobres e dos campesinos. São as dificuldades dos latifundiários para sua expansão de territórios materiais e imateriais, para competir, lucrar e dominar os espaços “permitidos” pelas tradings e corporações transnacionais (financeiras, de transformação, sementeiras-fertilizantes-venenos-remédios humanos e outras coligações nefastas aos interesses das populações do planeta). Miragens projetadas pelos escravocratas?

Emergem, portanto, muitas questões. Qual a porcentagem de docentes que domina essas questões, dos seus papéis nas academias? Quantos dominam os conceitos e a aplicabilidade da teoria das habilidades ou inteligências múltiplas? Quantos são plenamente conscientes da importância de se conhecer as próprias potencialidades profissionais? Quantos já compreenderam as mutantes exigências profissionais do “mercado de trabalho”? Quantos percebem a magnitude dos impactos das forças das matrizes paradigmáticas individuais e coletivas? Existiria “massa-crítica” nas IES para mudar? Existem forças empenhadas para que isso não ocorra? Seria importante que os discentes também estivessem cientes disso? Quando deveriam ser informados e alertados desses processos: antes, durante ou depois de adentrarem a academia? Poderia isso diminuir as crises de relacionamento, esclarecer problemas existenciais, reduzir os índices de evasão-abandono de curso e consequentes vagas ociosas? A melhor compreensão geral dessas questões poderia reduzir alguns entraves advindos de egos inflamados, de diálogos truncados ou de estilos de administração-visão-postura? A melhor decodificação desses campos poderia tornar mais harmoniosa, produtiva e prazerosa as vidas acadêmica, profissional e pública? Qual seria a economia de recursos materiais, financeiros e humanos para os poderes públicos, comunidades e famílias pela redução dos índices de evasão e de vagas ociosas? Os poderes públicos se interessam?

Cremos que sim... mas o que fazer? Quem fazer? Como fazer? Seria possível, desejável e viável melhorar os níveis de autoconhecimento pessoal e de esclarecimento sobre os papéis sociais das profissões? Seria prudente criar e instaurar sistemas que forneçam pistas sobre tendências quanto ao potencial profissional, acadêmico e funcional das pessoas, especialmente de pretendentes a vagas em universidades? São conhecidos os perfis e as exigências dos cursos? Poderiam esses sistemas apoiar processos decisórios nas buscas por bolsas, monitorias, cursos, grupos de estudo-pesquisa-extensão, estágios, treinamentos?

Como tornar as universidades públicas em ferramentas de paz e justiça social se não houver mudanças de paradigmas no escopo dos conhecimentos que são objeto de seus estudos? Até quando manter estruturas dedicadas a um modelo tendencioso de agricultura e desenvolvimento? Até quando continuar conduzindo jovens pobres para servir ao “mercado”, por meio das corporações transnacionais, geralmente contrárias aos interesses da humanidade?

 

Prof. Fábio Nolasco (fabionol@gmail.com)

Agrônomo, Doutor em Fitotecnia.

Universidade Federal do Mato Grosso, Cuiabá.

 

Esta é uma versão resumida do texto de 11 páginas. A íntegra do texto (com muitas referências) pode ser lida em português na página motiro.org/sustentabilidade De tekst staat er niet op…


5 Sistemas agroflorestais e recuperação

Ontem à noite, na apresentação do mais recente rebento de Wervel – o livro Legal! – na loja Flor do Ipê, estavam presentes alguns jovens do Grupo Semente. É uma pequena ONG, que busca preservar a riqueza de sementes na Chapada dos Guimarães e pratica a agricultura ecológica.

A Chapada dos Guimarães é um local bastante popular do ponto de vista turístico. É um planalto, onde a temperatura é bem mais amena do que na quase intoleravelmente quente capital de Mato Grosso. Assim sendo, muitas pessoas da classe média de Cuiabá possuem lá uma segunda casa, para onde elas vão nos fins de semana, para se refrescar e descansar. Ao mesmo tempo, ocorre um despovoamento no planalto. Onde, algumas décadas atrás, ainda havia muita agricultura familiar, agora a natureza reclamou de volta a sua parte. Se você observar de perto, ainda dá para ver onde os sítios se localizavam. É um claro ganho para a natureza, mas uma perda para uma agricultura próxima, familiar e ecológica.

Aqueles que fazem a conversão

Felizmente, algumas pessoas persistem. Não é por acaso que são aqueles que trilham novos caminhos. Ou melhor, os que combinam a sabedoria milenar com novos conhecimentos agrícolas. Eloir Bernardon consegue reunir um grande número de pessoas em torno de seu projeto agroflorestal no sítio Jamacá (1), uma propriedade no meio da natureza restaurada e no final de uma estrada com outras propriedades, quase todas abandonadas. Até alguns anos atrás, Eloir possuía uma bem-sucedida produção de hortaliças. Os restos das estufas são testemunhas dessa época.

Há alguns anos, ele mudou de rumo e guardou o arado para iniciar um engenhoso sistema agroflorestal. Agora, a propriedade fornece seus produtos para, entro outros, um restaurante ecológico em Cuiabá, ao qual também está vinculado o Instituto Centro de Vida.

 

Na Bélgica/Europa, a ONG Wervel está promovendo os sistemas agroflorestais (2) à sua maneira, mas as condições tropicais são totalmente diferentes daquelas do nosso clima temperado. Essas condições distintas pedem uma abordagem diferente, voltada para as aptidões regionais. Eloir e seus companheiros plantam linhas com dezenas de espécies de plantas e árvores, todas misturadas. Também há sempre o capim-elefante, que é regularmente cortado para servir como adubo. As diferentes espécies se apoiam ou se sucedem. Quando, por exemplo, a bananeira se esgota, já há outra árvore ou planta frutífera pronta para assumir seu lugar. Eu não ouso enumerar a diversidade. O leitor neerlandês não seria capaz de acompanhar.

Aqueles que abrem o futuro

“Eloir e seus companheiros?” Para o Grupo Semente, é uma espécie de porto seguro. O grupo se reúne mensalmente. Lentamente, constroem um centro ecológico (3), no qual os grupos e os indivíduos podem ir. Por exemplo, Antoinette Brouyaux, da organização belga Associations 21, vai se hospedar lá, depois da Rio+20.

Várias vezes por ano são ministrados cursos para ensinar a implantar esses sistemas agroflorestais e de permacultura. Bem bolado, porque durante esses cursos eles implantam novas linhas, pelas quais, posteriormente, muitas pessoas se sentem responsáveis e envolvidos. Além disso, eles podem acompanhar as evoluções no decorrer dos anos e estudar os resultados para aprender ainda mais.

 

Se você acompanha o jogo político e as chantagens em Brasília a respeito do “Código Florestal”, há muitos motivos para ser pessimista. As milhares de iniciativas na base, no Brasil e no mundo (4) nutrem a esperança de que há um futuro para a agricultura realmente sustentável.

 

Chapada dos Guimarães, 14 de abril de 2012.

(1) No Brasil há muita atividade relacionada com sistemas agroflorestais em diferentes contextos (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica). Um pioneiro dos sistemas agroflorestais na Mata Atlântica é a Cooperafloresta (www.cooperfloresta.com; www.agroflorestar.org.br). Em suas camisetas está escrito: “Agroflorestar, semeando um mundo de amor, harmonia e fartura. Cooperafloresta, união de gentes e natureza”.

(2) Veja: www.agroforestry.be. O site inclui o filme que distribuímos: Agroforestrie. Produire autrement (Agrofloresta. Produzir diferente). No DVD, você pode escolher o idioma em que deseja ver o filme (neerlandês, francês, inglês ou português). O site da União Europeia é: www.agroforestry.eu

(3) Veja também Ecocentro: onde Pantanal, Cerrado e Amazônia se encontram, no livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(4) Veja também: tegenlicht.vpro.nl/afleveringen/2011-2012/Groen-Goud.html


6 A bicicleta toma a cidade

Quando fui morar em Bruxelas, em 1992, eu raramente encontrava qualquer outra pessoa que também arriscava sua vida. Ou seja, não havia ciclistas. Desde 1994, eu combino uma bicicleta dobrável da marca Brompton com o trem, metrô, bonde, ônibus e, ocasionalmente, o carro. Também me desloquei, durante anos, usando apenas a bicicleta. E eis que o impossível se tornou possível. Há vários anos, Bruxelas copiou o sistema parisiense de bicicletas públicas e há quatro anos a bicicleta dobrável se tornou moda. Nossa organização Wervel causa inveja em muitas ONGs: há oito anos, em vez de um veículo corporativo, cada funcionário tem uma Brompton corporativa à disposição.

O Príncipe Ciclista

E, na verdade, desde algumas semanas, as comportas da barragem se abriram completamente. Uma das ruas principais, a Anspachlaan [Avenida Anspach], foi reduzida de quatro para duas pistas. Em ambos os lados da Avenida, uma pista para automóveis foi transformada em uma ampla ciclovia. Resultado imediato: constantes congestionamentos, como só são imagináveis em São Paulo. Mas o ciclista se desloca como um príncipe ao lado dos motoristas transtornados. Estou curioso para saber como isso vai terminar.

 

São Paulo ainda não chegou lá, mas também aqui a bicicleta começa a aparecer timidamente. Ciclovias estão sendo planejadas e nos vagões do metrô serão reservados lugares para algumas bicicletas. Ninguém mais aguenta os constantes congestionamentos. As cidades estão se tornando inabitáveis. O transporte público não foi adaptado às necessidades de mobilidade de tantas pessoas. A necessidade de mudança agora ressoa até a Câmara Federal e o Senado. O Jornal do Senado dedica um caderno especial de “Cidadania” ao tema. Sistemas de aluguel de bicicletas, como em Nova York e em várias cidades europeias, são apresentados como exemplos inspiradores. Há anos Curitiba tem ciclovias, mas com cruzamentos perigosos. Agora, estes estão sendo melhorados. O Rio de Janeiro tem a maior malha de ciclovias, seguida por Sorocaba. Em Mauá, região metropolitana de São Paulo, a estação de trem conta com um verdadeiro estacionamento para 2 mil bicicletas – com serviço de reparos. Um intercâmbio entre Leuven e outras cidades da Bélgica não seria má ideia. Em cooperação com a NMBS [Companhia Ferroviária Nacional da Bélgica], a ONG de economia solidária Velo faz a manutenção, o reparo e a guarda de milhares de bicicletas. Em Bagé, no Rio Grande do Sul, há ônibus com um espaço do lado externo para acomodar duas bicicletas. É um começo.

Rei Carro e Imperador Caminhão

Por enquanto, andar de bicicleta no Brasil ainda é muito perigoso. Mesmo que, proporcionalmente à crescente frota automotiva, o número de ciclistas seja muito pequeno, ocorreram em média quatro mortes por dia nos últimos três anos. Machismo e comportamento beligerante no trânsito são “bons amigos”. Será necessária uma grande mudança de mentalidade dos motoristas para compartilhar o espaço público com os ciclistas e os pedestres. Nessa terra do “rei carro” e “imperador caminhão” os ciclistas e pedestres são realmente os usuários vulneráveis. Só em São Paulo dois pedestres perdem a vida diariamente, porque os motoristas não respeitam a faixa de travessia dos pedestres.

O senador Eduardo Suplicy já está totalmente a favor do uso da bicicleta na cidade. Se depender dele e de alguns outros senadores, a silenciosa revolução das bicicletas vai continuar. Um impulso é dado semanalmente. Aos domingos, uma das pistas para automóveis que cruza a cidade se transforma em uma imensa ciclovia. Nessa ocasião, milhares de paulistas sentem-se príncipes por um breve momento. Na bicicleta.

 

Gostaria de saber se os participantes do Rio+20 vão notar o sistema de bicicletas da cidade.

 

Brasília, 17 de abril de 2012.

Mais notícias de ciclismo no Brasil:

Rodas da Paz: www.rodasdapaz.org.br

Escola de Bicicleta: www.escoladebicicleta.com.br

Bicicleta: www.bicicletas.org.br

Bike Rio – aluguel de bicicletas no Rio de Janeiro: www.mobilicidade.com.br/bikerio.asp

www.rioguiaoficial.com.br/en/en/noticias/understanding-bike-rio [texto em inglês]

Internacional:

Nova Iorque: www.bikenewyork.org; www.nycbikemaps.com

Copenhague: desde 1995, a pioneira nas bicicletas de aluguel espalhadas pela cidade – www.bycyklen.dk; www.cyclecopenhagen.dk

Paris: com 23.900 bicicletas para alugar em 1.751 estações, um recorde europeu absoluto, mas a cidade de Lyon conta com o sistema mais bem distribuído, mais acessível e mais simples para o usuário – www.velib.paris.fr

Londres: www.tfl.gov.uk

Barcelona: www.bicing.cat; www.bikerentalbarcelona.com

Bruxelas: com 5 mil bicicletas, 27 mil associados mensalistas e, em 2012, 144 mil usuários eventuais. Veja: www.villo.be; www.provelo.org

Amsterdã ameaça ficar saturada de ciclistas. Formam-se grandes filas principalmente para a balsa atrás da Estação Central.


7 Frutos do Cerrado

Dez anos atrás, falar sobre o Cerrado era algo atrasado. O Cerrado era uma coisa do passado, como a região De Kempen [A Campina], na Bélgica, somente remetia a Bokrijk[1]. Solo infértil, pobre: para esquecer o mais rapidamente possível. Os casarões e sítios vistosos que agora já existem em De Kempen há várias décadas são testemunhas. É como se eles quisessem clamar: “Não, nós não somos pessoas estúpidas condenadas a permanecer pobres sobre este solo arenoso.”

Do constrangimento ao orgulho

Um fenômeno semelhante ocorreu em 11 estados do Brasil Central. O Cerrado despertava repulsa, até que a área de quase 2 milhões de km2 foi descoberta pelo agronegócio: fácil de desbravar e de corrigir o solo com calcário. É a agricultura de exportação a serviço do mercado mundial, ainda que baseada em um grande aporte de energia. Desde então, a palavra de ordem é: desmatar. Removam essas árvores retorcidas, esquisitas (1)!

Ao mesmo tempo, algo estranho está acontecendo por lá nos últimos anos: em todos os lugares, ressurge o nome “Cerrado”. Supermercado Cerrado, posto de gasolina Cerrado, farmácia Cerrado – ainda que o supermercado não venda nada típico do Cerrado, que a farmácia só comercialize medicamentos sintéticos e sejam poucas as plantas medicinais do Cerrado que são oferecidas. Só no posto de gasolina é que se encontra etanol, provavelmente a partir da cana-de-açúcar abundante no Estado de Goiás. Mas é exatamente a cana-de-açúcar uma das principais causas da destruição neste coração do Brasil.

 

Ou seja, a marca “Cerrado” é eficientemente utilizada no comércio. Afinal, as pessoas estão sempre buscando produtos “locais” autênticos. Grande parte são mentiras e comércio. Novilíngua[2]. Em Flandres, na Bélgica, não é diferente: “carne produzida localmente”, enquanto a ração vem do outro lado do oceano. A expressão “produzida localmente” omite esses 10 mil quilômetros de distância e esconde a realidade das granjas de frangos-e-suínos-sem-terra, mas a máquina da propaganda oficial em Flandres não quer saber disso.

Mesmo assim, na região do Cerrado há muitas iniciativas pioneiras e economias crescentes. E realmente vale a pena mencioná-las. Vamos começar com o “Trem do Cerrado” (2). Eles conseguem colocar uma grande variedade de pães no mercado. Pão integral com baru, por exemplo. Ou bolachas feitas com a amêndoa do mesmo baru. É uma típica espécie arbórea do Cerrado, que pode alcançar 25 metros de altura. Ela produz amêndoas com altas concentrações de ferro e zinco. É um pouco semelhante à relação de ferro-zinco da espécie Teff, da Etiópia (3). O “Trem do Cerrado” merece a devida atenção. Aqueles que lançaram a iniciativa querem, claramente, unir o social e o ecológico. A defesa do que resta do Cerrado, com a enorme biodiversidade, é o seu objetivo principal.

Pequi e companhia

Os produtos que mais chamam a atenção são os picolés da “Frutos do Cerrado” (4). Não são apenas geladinhos, mas picolés de: graviola, cajá-manga, cajuzinho, mama-cadela, mutamba, mangaba, araticum, brejaúba, taperebá, umbu, tamarindo, pequi, araçá, cagaita, guabiroba, jatobá, murici, seriguela. E há ainda muitos outros valores consolidados dentre as frutas brasileiras: buriti, goiaba, cupuaçu, jabuticaba, jaca, maracujá, açaí e muito mais. O Brasil possui mais de 320 espécies frutíferas, que podem facilmente comercializadas. Alguns estudos falam de até de 775 espécies (5) que poderiam ser processadas e comercializadas. O que é que, afinal, os brasileiros estão esperando?

 

A “Frutos do Cerrado” não consegue obter frutas em quantidade suficiente. Nos últimos anos, a empresa tem crescido 20% ao ano. Poderia ser mais, mas falta-lhe a “matéria-prima” para isso. Esperemos que os agricultores da agricultura familiar descubram a tempo que, com a biodiversidade do Cerrado, é possível construir uma economia forte e verdadeiramente sustentável, em vez de serem sugados pelo turbilhão da soja. Clóvis, o fundador da empresa, afirma que, por hectare, é possível obter uma renda 30 vezes maior com o cultivo e processamento de frutas do Cerrado em vez de simplesmente semear soja. Além disso, não há envolvimento de agrotóxicos e, portanto, não há dependência da indústria química.

Picolés no exterior?

Clóvis tem uma boa renda. A empresa já tem mais de 80 pontos de venda no Brasil. No entanto, ele diz que o que o motiva em primeiro lugar é a paixão pela natureza. Pela preservação do Cerrado e a serviço da construção de uma economia sustentável. Em seu site, você pode ler o que ele pensa: “E nós temos que cuidar de toda essa riqueza, preservá-la e levar esse conhecimento adiante. Ficar atento a toda uma rede: da formiga e da abelha até o passarinho. Todos dependem dos mesmos frutos que chegam a você. Frutos do Brasil que foram colhidos, também, para sua degustação – aqui oferecida no palito. Esperamos que seja um momento natural e gostoso. Como o seu dia, que seja muito bom!”

 

Os primeiros containers com picolés para Portugal e Alemanha estão prontos. Será que não seria possível deixar alguns deles em Bruxelas? Por exemplo, para oferecê-los no escritório Mundo B (6)? Será que isso ainda poderia ser chamado de “sustentável”? Eu prefiro ouvir que eles produzem, preferencialmente, para o mercado interno, mas o que poderia haver contra alguns containers para a Europa? Em comparação com os 39 milhões de toneladas de importações de soja para a Europa, não é nada. Isso sem falar das toneladas de carne bovina congelada que devem circular no mundo. Como, por exemplo, a carne de gado da raça Belgian Blue, da Bélgica para a China. Engordados com soja do Brasil.

Brilho nos olhos

Peço-lhe algumas embalagens da grande diversidade de picolés, para em seguida mostrá-las nas palestras para 200 jovens na Universidade Federal de Goiás (UFGO) e outros 220 jovens na PUC Goiás. É interessante ver quantos deles ainda se lembram desses nomes estranhos, e como se orgulham dos frutos em si. Animação garantida. Brilho nos olhos. Parece que muitas famílias ainda conhecem a vegetação do Cerrado que ocorre na região onde moram. O gringo confirma seu saber sobre a enorme riqueza e diversidade que está à disposição de todos. Na região com poucas espécies de onde ele é originário, não é assim.

 

Será que a “ficha vai cair” em tempo para essa jovem geração apostar nessa economia promissora, a ser construída? Ou estão atraídos pela tentação do paraíso de soja? A serviço da China (1), Monsanto, Cargill e companhia?

 

Goiânia, 19 de abril de 2012.

(1) Veja os capítulos A festa arruinada do Cerrado e Goiás de joelhos perante a China, no livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Popular/Cefuria, 2012).

(2) Veja: http://tremdocerrado.blogspot.be/2008/02/frutos-do-cerrado.html.

(3) A espécie Teff está sendo cada vez mais plantada na Europa, por causa de suas qualidades. Não só a relação zinco-ferro é interessante, mas também o fato de que esse cereal ancestral não contém glúten. E não é que a intolerância ao glúten é justamente uma das muitas doenças que despontam entre os consumidores europeus?! Veja: www.teffcentre.nl

(4) Veja: www.frutosdocerrado.com.br / www.frutosdobrasil.com.br/pt

(5) Veja Proteínas de ora-pro-nóbis em Aurora no campo: Soja diferente (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2008).

(6) Veja: www.mundo-b.org, edifício que sedia de 40 ONGs, com cerca de 400 funcionários Europeus.


[1]

             Nota da tradutora: Bokrijk é uma cidade que data da Idade Média e abriga um museu a céu aberto, com propriedades rurais que reproduzem a vida dos agricultores como ela era até a metade do século XX.

[2]           Nota da tradutora: Novilíngua ou novafala é um idioma fictício criado pelo governo hiperautoritário na obra literária 1984, de George Orwell. A novilíngua era desenvolvida não pela criação de novas palavras, mas pela “condensação” e “remoção” delas ou de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento. Uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passava a não existir. Assim, por meio do controle sobre a linguagem, o governo seria capaz de controlar o pensamento das pessoas, impedindo que idéias indesejáveis viessem a surgir (Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Novilíngua; consultada em: 18/9/2013).