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Atcham - local onde está enterrada Anna Kingsford - Abadia e Rio Severn

 

Atcham - a casa onde Anna Kingsford passou os últimos dias - o cemitério e a abadia


A falecida Dra. Anna Kingsford

Obituário 

H.P. Blavatsky

[Lúcifer, Vol. II, no 7, março, 1888, pp. 78-79]

É com o mais profundo pesar que anunciamos neste mês a passagem deste mundo físico de alguém que, mais do que qualquer outro, foi instrumental em demonstrar a seus semelhantes o grande fato da existência consciente e, portanto, da imortalidade, do Ego interior. 

Referimos-nos ao falecimento da Sra. Anna Kingsford, médica, ocorrido nesta terça-feira, 28 de fevereiro, após enfermidade dolorosa e prolongada. Poucas mulheres trabalharam com mais afinco que ela, ou em causas mais nobres; nenhuma teve mais sucesso na causa do humanitarismo. Sua vida foi curta, porém muito útil. Sua luta intelectual contra os vivisseccionistas da Europa, numa época em que o mundo culto e científico estava mais fortemente fixado em compreender o materialismo do que em qualquer outro período da história da civilização, por si só a proclama como um daqueles que, a despeito do pensamento convencional, colocam-se no próprio foco da controvérsia, preparados para desafiar e enfrentar com bravura todas as conseqüências de sua audácia. Piedade e justiça para com os animais estavam entre os temas favoritos da Sra. Kingsford quando lidava com esta parte da obra de sua vida; e, em virtude de sua cultura geral, seu treinamento especial nas ciências da medicina e seu magnífico poder intelectual, ela foi capaz de influenciar e trabalhar da maneira que desejou com um grande contingente de pessoas que ouviram suas palavras ou leram seus escritos. Poucas mulheres escreveram de forma mais gráfica e contagiante, ou possuíram um estilo mais fascinante.

O campo de atividade da Sra. Kingsford, contudo, não se limitou ao plano da vida puramente físico e mundano. Ela foi uma Teosofista e uma verdadeira Teosofista no íntimo; uma líder do pensamento espiritual e filosófico, dotada dos mais excepcionais atributos psíquicos. Em conjunto com o Sr. Edward Maitland, seu leal amigo — alguém cujos cuidados incessantes indubitavelmente prolongaram sua delicada e sempre ameaçada vida por vários anos, e que recebeu seu último suspiro — ela escreveu vários livros que tratam de temas metafísicos e místicos. O primeiro e mais importante foi The Perfect Way, or the Finding of Christ (O Caminho Perfeito, ou a Descoberta de Cristo), que apresenta o sentido esotérico do cristianismo. Ele esclarece muitas das dificuldades que leitores sérios da Bíblia enfrentam em seu esforço de compreender ou aceitar literalmente a história de Jesus Cristo conforme é apresentada nos Evangelhos.

Ela foi durante algum tempo Presidente da "Loja de Londres" da Sociedade Teosófica, e, após renunciar ao cargo, fundou a " Sociedade Hermética" para o estudo especial do misticismo cristão. Embora suas idéias religiosas tenham diferido amplamente sobre alguns pontos da filosofia Oriental, ela permaneceu uma leal associada da Sociedade Teosófica e fiel amiga de seus líderes.1 Ela foi uma pessoa cujas aspirações de toda a vida sempre estavam voltadas para o eterno e o verdadeiro. Mística por natureza — a mais ardente para aqueles que a conheceram bem — ainda assim ela era uma mulher extraordinária mesmo na opinião de materialistas e céticos. Pois, além de sua figura extraordinariamente fina e intelectualizada, havia nela aquilo que chama a atenção do menos observador e alheio a qualquer especulação metafísica. Pois, como escreveu a Sra. F. Fenwick Miller, embora o misticismo da Sra. Kingsford fosse "simplesmente ininteligível" para ela, achamos que isso não impediu a autora de perceber a verdade. Como ela descreve sua falecida amiga, "Jamais conheci uma mulher tão extraordinariamente bela como ela, que cultivasse seu cérebro de forma tão aplicada... Nunca conheci uma mulher em quem a natureza dual mais ou menos perceptível em todo ser humano tenha sido tão fortemente marcada2 — tão sensual, tão feminina de um lado, tão espiritualizada, tão imaginativa de outro".3

A natureza espiritual e psíquica sempre predominou sobre a sensual e feminina; e o círculo de seus amigos com inclinação para o místico sentirá muito sua falta, pois mulheres como ela não são numerosas no mesmo século. O mundo em geral perdeu na Sra. Kingsford alguém que não se encontra facilmente nessa era de materialismo. Toda a sua vida adulta ela passou trabalhando altruisticamente para os outros, pela elevação do lado espiritual da humanidade. Podemos, contudo, ao lamentar sua morte, nos confortar com o pensamento de que o bom trabalho não pode ser perdido nem morrer, ainda que o trabalhador não esteja mais entre nós para ver os frutos. E o trabalho de Anna Kingsford ainda estará dando frutos mesmo quando sua memória tiver sido obliterada com as gerações dos que a conheceram bem, e novas gerações terão se aproximado mais dos mistérios psíquicos.   

Tradução: Marly Winckler
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Notas:
1. Tanto o Sr. Maitland quanto a Sra. Kingsford desligaram-se da Loja de Londres da Sociedade Teosófica", mas não da Sociedade-Mãe.
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2.  A afirmação feita por alguns jornais de que a Sra. Kingsford não encontrou descanso na força psíquica, pois "morreu Católica Romana", é totalmente falsa. A observação orgulhosa feita por R.C. no Weekly Register (3 e 10 de março de 1888) no sentido de que ela morreu no seio da igreja, tendo abjurado seus pontos de vista, o psiquismo, a teosofia, e até seu livro Perfect Way, e escritos em geral, foi vigorosamente refutada no mesmo jornal por seu marido, o Rev. A. Kingsford e pelo Sr. Maitland. Lamentamos ter de ouvir que seus últimos dias foram amargurados por agonia mental infligida sobre ela por uma freira inescrupulosa, que, conforme nos declarou o Sr. Maitland, se infiltrou como uma freira e nada mais fazia senão encher sua paciência, "importuná-la e rezar". Que a Sra. Kingsford era totalmente contra a teologia da igreja de Roma, apesar de acreditar nas doutrinas Católicas, pode ser provado por uma de suas últimas cartas para nós, sobre o "pobre caluniado São Satã", com relação a certos ataques ao título de nossa revista, Lúcifer. Preservamos esta e várias outras cartas, uma vez que foram todas escritas entre setembro de 1887 e janeiro de 1888. Elas são assim testemunhos eloqüentes contra as pretensões do Weekly Register. Pois provam que a Sra. Kingsford não abjurou seus pontos de vista nem morreu "na fidelidade da Igreja Católica".
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3. ["Woman: Her Position and Her Prospects, Her Duties and Her Doings", Lady's Pictorial, Londres, 3 de março de 1888.— Compilador].
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Pedal na Estrada - ciclista vegetariano

Arthur Simões Cardoso Neto partiu de São Paulo em abril de 2006 e já passou por 19 países da América do Sul, Oceania e Ásia (inclusive Nepal e Índia). Atualmente (nov de 2007) está no Paquistão.

Ele tem um site com o diário e fotos da viagem, onde é possível deixar mensagens de apoio tb:

http://www.pedalnaestrada.com.br/


Vivissecção: um negócio indispensável aos “interesses” da ciência”? - Sônia Felipe

Enviada para o jornal Estado de São Paulo, a propósito do debate sobre experiências em animais, em 12/11/2007, não publicada

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Cientistas e pesquisadores que investigam as doenças que afligem humanos são treinados em centros de pesquisa na prática criminosa da vivissecção, proibida pela Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, quando há métodos substitutivos. Em muitos casos, a vivissecção é o único método no qual a inteligência científica recebe treinamento. Nos últimos quarenta anos, a pesquisa biomédica centrou esforços em experimentos com “modelos” obtidos às custas do sofrimento e morte de animais não-humanos, usados para espelhar as doenças produzidas num ambiente físico e mental humano. Entre essas estão o câncer, os acidentes vasculares, a hipertensão, a hipercolesterolemia, o diabetes, a esclerose múltipla, as degenerações neurológicas conhecidas por mal de Parkinson e mal de Alzheimer, a “depressão” e  outras formas de sofrimento psíquico. Ratos, camundongos, cães, símios, cavalos, porcos e aves são comercializados no mercado vivisseccionista.

Só para dar um exemplo: Calcula-se que sejam 2, 6 milhões de humanos sofrendo de esclerose múltipla ao redor do planeta. Os medicamentos obtidos a partir da vivissecção de roedores fracassaram. Cientistas reconheceram que a causa da doença é “ambiental”, contribuindo para ela diferentes genes, não apenas um. Os medicamentos disponíveis hoje, de origem microbiana, não resultaram da vivissecção, e sim da codificação da estrutura físico-química deles (Greek & Greek, Specious Science).

Não sendo aquelas doenças de origem genética nem hereditária, qual seria o propósito científico em se insistir na arquitetura do modelo animal para buscar a cura delas?

Talvez se possa saber a resposta, olhando para os interesses financeiros (reais “benefícios humanos”?), em jogo na base, em volta e por detrás da atividade vivisseccionista acadêmica e dos negócios que ela encobre. Consultando-se a tabela de preços das empresas que fornecem camundongos geneticamente modificados para pesquisas vivisseccionistas, por exemplo, começamos a ter uma idéia do que se esconde por detrás do argumento do “benefício humano”, que os vivisseccionistas defensores da legalização desta prática anti-ética usam como escudo para protegerem-se das críticas abolicionistas.

A pesquisa com animais vivos “beneficia interesses humanos”: o preço de um camundongo geneticamente modificado, para citar apenas uma espécie usada na vivissecção, pode variar de U$ 100,00 a U$ 15.000,00 dólares a unidade. Os utensílios para o devido manejo de um animal desses não são oferecidos por preços camaradas. Um aparelho para matar, de forma “humanitária”, animais usados na pesquisa, desativando-lhes as enzimas cerebrais, custa algo em torno de U$ 70.000,00 a unidade. Aparelhos para conter ratos, cães, gatos e macacos, podem custar entre U$ 4.500,00 a U$ 8.500,00 a unidade. Os “produtores” de animais também são parte desta cadeia que forma a “dependência da ciência em relação à vivisseccção”, sem a qual ela não pode sobreviver hoje, e à qual a vida e a saúde humana estão algemadas.

Em 1999, relatam Greek & Greek, a venda de camundongos nos Estados Unidos alcançou 200 milhões de dólares. A de outros animais chegou a 140 milhões de dólares. Mas, os “benefícios humanos” aos quais os vivisseccionistas se referem em sua defesa pública da regulamentação da vivissecção no Brasil, não se restringem apenas ao que os empresários produtores de animais e fabricantes de aparelhos para contê-los nos biotérios e laboratórios faturam. Também os editores das revistas, jornais e livros são parte desta comunidade humana “beneficiada” pela vivissecção. E, finalmente, o benefício humano mais espetacular está no faturamento da indústria química e farmacêutica, uma cadeia de negócios ao qual estão atreladas todas as farmácias ao redor do planeta e todas as pessoas que compram medicamentos alopáticos na esperança de cura ou alívio de seus males, e alimentos processados, cujos componentes levaram os animais a sofrerem o Draize Test e o LD 50.

Mas, quando os vivisseccionistas publicam artigos defendendo a legalização de sua prática anti-ética, a de matar animais para inventar modelos que possam espelhar doenças humanas, mesmo sabendo que cada organismo tem sua própria realidade ambiental e não existe um meio que possa curar uma mesma doença em todos os indivíduos, pois cada um a desenvolve de modo peculiar, os “benefícios contábeis” e os “benefícios acadêmicos” acumulados em todos os elos dessa cadeia vivisseccionista são escondidos do leitor. Ninguém publica, no Brasil, um relato minucioso do montante destinado pelas agências financiadoras à pesquisa vivisseccionista. Por isso, não temos conhecimento dos custos do fracasso vivisseccionista (AIDS, câncer, Parkinson, Alzheimer, esclerose múltipla, diabetes, colesterolemia, doenças ambientais, muito mais do que genéticas).

A pesquisa com animais levou a indústria farmacêutica ao apogeu nos últimos vinte anos. Não casualmente, nestes últimos vinte anos, multiplicaram-se as mortes por insuficiência circulatória, hipertensão, diabetes, câncer, síndromes neurológicas degenerativas, cirrose hepática e infecções. O componente ambiental dos males humanos não pode ser espelhado em organismo de ratos e camundongos. Ao mesmo tempo, vivisseccionistas insistem em defender a lei que legalizará sua prática, dando a entender ao público leigo que a vivissecção é a “saída” para a cura dos males humanos. Seus artigos “científicos” não produzem efeito, nem sobre seus pares vivisseccionistas. Como poderiam produzir efeitos sobre a saúde humana? 80% dos artigos publicados em revista especializada são citados no máximo uma vez em outros veículos, e 50% dos artigos vivisseccionistas jamais são citados, seja na mesma, seja em outras revistas (Greek &Greek). Os milhões de animais mortos para que tais artigos sejam publicados e para que seus autores os contabilizem em sua produtividade acadêmica, tiveram suas vidas destruídas para nenhum outro “benefício humano”, a não ser dar a seus autores o título de mestre e doutor, ou a concessão de bolsas de produtividade.

São esses os reais “benefícios humanos” da prática vivisseccionista, dos quais ninguém pode abrir mão?

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Sônia T. Felipe, doutora em Filosofia Moral e Teoria Política pela Universidade de Konstanz, Alemanha, membro do Bioethics Institute da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento, FLAD; pós-doutorado em bioética com recorte em ética animal,  Professora e pesquisadora da UFSC, orienta monografias, dissertações e teses em bioética, ética animal, ética ambiental, direitos humanos e teorias da justiça. Autora de, Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2007) e Por uma questão de princípios (Boiteux, 2003). Colaboradora da Revista Pensata Animal, www.sentiens.net.


A soberba vivisseccionista - Sônia Felipe

[Enviado à Folha de S. Paulo em 12/11/07]

A soberba vivisseccionista

Prof.ª Dr.ª Sônia T. Felipe/UFSC    

Já na sua primeira frase, o secretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, de Campinas, SP, o farmacologista João Ernesto de Carvalho, comete um grave erro, ao escrever coisas que não constam do artigo de minha autoria publicado pela Folha de S. Paulo no sábado 09/11/07, no qual defendo que a ciência pode abrir mão do uso do modelo animal-vivo, por servir-se deste modelo sem alcançar sucesso na “cura” dos males que afetam enorme parcela dos seres humanos ao redor do planeta.

No artigo de minha autoria não se pode ler uma frase sequer negando que a pesquisa vivisseccionista tenha produzido drogas para tratar dos sintomas das doenças crônicas e agudas que representam a causa da maior parte das mortes humanas a cada ano. O que afirmo é que apesar das mais de seis décadas de intensas pesquisas vivisseccionistas não foram cumpridas as promessas de “cura” do câncer, do diabetes, da hipertensão, dos distúrbios circulatórios, da vulnerabilidade às infecções, do mal de Alzheimer, do mal de Parkinson, da esclerose múltipla, etc.

Minhas afirmações não são “sem fundamentação científica”, nem “totalmente inverídicas”, conforme o afirma o autor da carta divulgada no Painel do Leitor, da Folha de S. Paulo no dia seguinte ao da publicação do meu artigo.

O autor afirma que “é muito fácil de comprovar” que existem drogas que “curam” ou “controlam essas doenças”. Não nego que existam drogas que minimizam os sintomas de certas dessas e de outras doenças, em “alguns” pacientes humanos. A verdade é que as mesmas drogas não resultam na “cura”, nem no “controle dessas doenças” em muitos outros humanos. Se o resultado desses experimentos fosse “científico”, não deveria resolver o mesmo problema em todos os casos? Por que os fracassos?

Ao defender a abolição da vivissecção, não afirmo que nada do que se fez até hoje teve qualquer resultado. O que afirmo é que os resultados são pífios, levando-se em conta seis fatores: 1.) mais de meio século de vivissecção seguindo um único modelo que promete ser capaz de levar o cientista aos resultados esperados, sem que os males humanos tenham sido curados pelas drogas elaboradas com base neste modelo; 2.) investimentos trilionários feitos por governos e empresas na produção de drogas, não na prevenção das doenças humanas; 3.) a soberba dos vivisseccionistas que afirmam junto à opinião pública que seu modelo de investigação é imprescindível para a produção do conhecimento humano sobre as patologias devastadoras da saúde humana; 4.) o número ínfimo dos casos de “cura”, comparados ao assombroso número  de “mortes”, sofridas por humanos que fizeram uso das drogas criadas e vendidas a eles para livrá-los das doenças; 5.) a diversidade da expressão de uma mesma patologia em diferentes sujeitos humanos, algo impossível de ser “espelhado” no modelo animal-vivo empregue pelo vivisseccionista; 6.) a soberba dos vivisseccionistas que afirmam que “toda a ciência” estagnaria se a vivissecção fosse abolida. Com relação a esta última questão, é certo que a ciência vivisseccionista deixaria de existir, mas daí a afirmar que “a ciência” deixaria de existir, e que mergulharíamos nas trevas medievais, não faz o menor sentido. Toda a ciência teria enormes progressos, porque os investimentos hoje consumidos pela vivissecção seriam destinados a pesquisas relevantes para a saúde humana, não para a indústria química lucrar.

Considerando-se que o quadro das doenças devastadoras que afetam a população humana ao redor do planeta não diminuiu nas duas últimas décadas, apesar das centenas de milhares de drogas comercializadas pela indústria farmacêutica com a promessa ao paciente e aos seus familiares, de “cura”, uma cura que na maioria absoluta dos casos nunca chega, e considerando que os investimentos em dinheiro, cérebros, equipamentos, espaço físico e poder intelectual centrados no modelo vivisseccionista não surtem efeitos proporcionais ao seu montante, não seria razoável concluir que todo esse montante devesse ser multiplicado ainda mais, com o custo que representa para os mais de 500 milhões de animais exterminados nesses experimentos anualmente, ao redor do mundo vivisseccionista.

Portanto, o autor não deveria “ficar estarrecido” ao ler as “afirmações” contrárias à ciência vivisseccionista. Se fizer um esforço mínimo para botar na ponta do lápis o investimento que este modelo de ciência consome dos governos, das agências financiadoras e do bolso dos pacientes ou de suas famílias, que pagam remédios caríssimos que nunca os livram de todos aqueles males, o presidente regional da SBPC de Campinas poderá concluir que algo está dando errado, algo volumoso está escapando pelos ralos das pias dos laboratórios vivisseccionistas, não apenas o sangue dos animais exterminados nos experimentos, mas também a inteligência científica da juventude forçada a moldar-se a este único modelo para a cura das doenças humanas, quando esta mesma inteligência deveria ser direcionada para a busca da prevenção da maioria destas doenças, que não são de ordem genética, mas “ambiental” e “cultural”.

Quanto aos produtos de higiene pessoal e cosméticos, é certo que até a década de 80 do século XX, na Europa e nos Estados Unidos eram necessariamente testados em animais vivos (Draize Test e LD 50), levando à morte em agonia milhões de coelhos, para citar apenas uma das várias espécies usadas nestes testes, em cujos olhos os componentes eram testados. Mas, se fosse buscar um pouco mais de informação, o senhor João Ernesto de Carvalho já teria lido alguma coisa sobre o que se fez para eliminar definitivamente tais testes na produção desses itens. Aliás, a comunidade européia decidiu que a partir de 2010 não poderão mais ser comercializados tais produtos em seu território, exatamente por serem testados em animais. Estarrecida fico eu, com sua desinformação.

Quanto aos aditivos colocados nos alimentos, é de lastimar que não tenha lido o quanto são tóxicos e o quanto respondem pelo alto índice de câncer em humanos. Em outras palavras, em vez de defender a vivissecção como forma apologética de defesa dos químicos artificiais usados pela indústria da comida para garantir que o produto não apodreça dentro das latas e sacos antes de serem consumidos pelos humanos, o missivista deveria lamentar que a comida humana tenha se tornado um produto sintetizado a tal ponto que os nutrientes esperados que deveriam garantir a saúde humana não mais se fazem presentes nela. Em seu lugar foram introduzidos, pela pesquisa vivisseccionista, sintéticos de todo tipo, cor, sabor e aroma. A vivissecção é responsável, sim, por esta desgraça na qual a dieta humana se tornou. Isto não é um mérito da pesquisa vivisseccionista. É resultado danoso. Não pode ser computado como algo positivo, algo em cujo nome se deva defender a prática vivisseccionista. Quanto aos adoçantes, é verdade, foram desenvolvidos em modelo animal vivo, e veja o que se descobre somente vinte anos mais tarde, com relação ao aspartame: é cancerígeno, além de alterar o metabolismo de quem o usa prolongadamente, fazendo com que a pessoa não consiga mais perder o excesso de peso.

Quanto às vacinas, é preciso dizer que o próprio Sabin reconheceu que perdeu uma década de sua vida seguindo o caminho errado ao adotar o modelo animal, quando seus antecessores haviam acumulado informações valiosíssimas obtidas dos estudos feitos em humanos infectados. O “trabalho na prevenção [da pólio] [afirma Sabin] foi atrasado por uma concepção errônea da natureza da doença humana, baseada em falsos modelos experimentais em macacos”, apud Greif & Tréz, A verdadeira face da experimentação animal, 2000. Os cientistas haviam encontrado o vírus no trato digestivo, mas os que usavam modelo animal insistiam em fazer a vacina centrando-se nas vias respiratórias.

Com isso não se está a dizer que todo esforço de tantas pessoas inteligentes e bem-intencionadas nunca resultou em nada. O que se deve entender, é que todo este esforço, se empregue em modelos não vivisseccionistas, também teriam levado a resultados valiosos. Hoje, a lógica imperante é a seguinte: se as descobertas não levarem à proposição de nenhuma droga, mas à proposição de projetos direcionados para redesenhar a forma como estamos vivendo e comendo há mais de três décadas, tal modelo, que não traz lucro algum à indústria das drogas é varrido para debaixo do tapete. Isto é o que ocorre hoje com as pesquisas não voltadas para a venda de drogas, mas para a prevenção das doenças.

Quanto à sua última questão, a da coerência moral, não há dúvida de que é a única contribuição valiosa de seu artigo: é preciso abdicar de produtos de origem animal, seja de animal vivo ou morto, e de todos os outros que foram produzidos pela indústria da vivissecção. Obrigada por escrever que quem não segue à risca o princípio da não-violência é hipócrita. Concordo absolutamente consigo. Aliás, procuro viver há mais de duas décadas de acordo com este princípio. Quanto ao último parágrafo de seu artigo, o que se refere ao aumento na expectativa de vida, os próprios médicos reconhecem que ele se deve em especial aos hábitos de higiene e aos cuidados com a alimentação, incorporados ao longo do século XX, por boa parcela dos humanos esclarecidos, não à vivissecção.

Obrigada por rebater minha posição.

Atenciosamente,

Profa. Dra. Sônia T. Felipe / UFSC

Autora de: Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2007, 351 p.) e, Por uma questão de princípios (Boiteux, 2003, 211 p.)


Essa ciência não entrega a cura prometida - Sônia Felipe

A carta abaixo foi escrita a convite da Folha de São Paulo sobre o tema vivisecção, para a culuna Tendências / Debates, responde à pergunta "A ciência pode abrir mão de fazer experiências com animais?". Abaixo neste texto da resposta positiva, de Sônia Felipe, veja a resposta negativa, de Luiz Eugenio Mello

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Resposta: SIM

AS INVESTIGAÇÕES científicas mais relevantes para a preservação da saúde e da vida humanas resultaram de estudos feitos com base na clínica, na observação e no mapeamento das doenças que mais incidem sobre a população humana ou de estudos voltados para a prevenção das doenças, não exclusivamente para o combate de seus sintomas.

As descobertas científicas que mais contribuíram para prolongar a vida humana resultaram basicamente de estudos e observações clínicos, e não de testes feitos em animais vivos de outras espécies.

Via de regra, estudos baseados no modelo animal vivo (vivissecção) servem apenas para desenvolver a habilidade dos cientistas na construção de modelos que terão de ser, mais tarde, redesenhados para a aplicação em estudos destinados à investigação de possíveis terapêuticas para doenças humanas.

Após todo esse esforço, as drogas não funcionam como prometido. Muitas delas são retiradas do mercado após constatada sua letalidade para humanos. A ciência usa o dinheiro e investe o tempo de seus operadores se perdendo nos labirintos da vivissecção. Seu investimento nesse único método de pesquisa é diretamente proporcional ao seu fracasso em responder satisfatoriamente às questões às quais se propõe responder com a investigação.

Enquanto gerações e gerações de jovens cientistas são transformadas em vivisseccionistas sob a imposição hegemônica de uma ideologia claramente fracassada, outras tantas gerações de jovens, bebês e adultos morrem a cada ano daquelas mesmas doenças que o cientista há mais de cinco ou seis décadas promete curar ao buscar em organismos de ratos e camundongos a resposta para males que afetam cada vez mais devastadoramente organismos de indivíduos humanos.

A ciência vivisseccionista não tem feito nenhum progresso na busca da cura dos grandes males que produzem as doenças crônicas, dolorosas e letais mais comuns em organismos humanos: câncer, acidentes vasculares, diabetes, hipertensão, mal de Alzheimer, mal de Parkinson. Além do fracasso evidente de todas as drogas até hoje empregues para a "cura" dessas doenças, é preciso contabilizar o fracasso de outras inventadas a partir do modelo vivisseccionista para o tratamento das demais doenças que afligem os seres humanos, a exemplo da depressão e de outras formas de sofrimento psíquico.
Ao adotar o organismo de camundongos, ratos, cães, gatos, porcos, cavalos, aves e primatas não humanos como referência para a investigação, a ciência deixa de estudar e conhecer o organismo e o psiquismo dos seres da espécie humana, a destinatária de seus resultados.

O que o cientista vivisseccionista faz é estudar a fisiologia dessas doenças em organismos que, via de regra, nem sequer as produzem naturalmente. É preciso "fabricar" um camundongo com câncer para testar nele as drogas prometidas para curar o câncer em organismos que não foram "fabricados" com câncer, mas que o desenvolvem. A morte por câncer continua a ser praticamente previsível, apesar das drogas às quais o paciente humano é submetido na "luta contra" ele. Adiar a morte não cura.

Essa ciência pode abrir mão do uso de animais vivos, pois, embora ela tenha produzido uma quantidade incalculável de drogas para combater os sintomas de tais males, ao sustentar sua investigação no vivisseccionismo, não produz resultados que garantem a "cura" de nenhum daqueles males mais freqüentes que afetam crônica ou agudamente a saúde e destroem a vida humana.

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SÔNIA TERESINHA FELIPE, 53, doutora em filosofia moral e teoria política pela Universidade de Konstanz (Alemanha) com pós-doutorado em bioética-ética animal pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (Portugal), é professora da graduação e da pós-graduação em filosofia e do doutorado interdisciplinar em ciências humanas da Universidade Federal de Santa Catarina.
 

Carta publicada na Folha de São Paulo - TENDÊNCIAS/DEBATES

ão Paulo, sábado, 10 de novembro de 2007

 

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TENDÊNCIAS/DEBATES

A ciência pode abrir mão de fazer experiências com animais?

Resposta: NÃO

Uma necessidade científica básica

Luis Eugenio Mello

PRECISAMOS respirar? Essa poderia ser a tradução da pergunta sugerida. O uso de animais é tão básico para a ciência como é respirar para qualquer um de nós. Para explicar de outra forma, a interrupção da experimentação animal representaria a morte de parte importante da ciência, do ser humano e do planeta.

É claro que podemos voltar para a Idade da Pedra e tentar viver sem energia elétrica, sem os excessos do mundo moderno e em plena harmonia com a natureza. Para os que não percebem a falácia oculta nessa utopia, relembro apenas que nesse mundo idealizado não haveria tampouco os avanços médicos que permitem a milhões de pessoas existir. Ideal para quem, portanto?

Digamos que não se trate de renegar toda a ciência e os avanços do mundo moderno, mas simplesmente de impedir o sofrimento dos animais de experimentação. Dizendo de outra forma, deveríamos impedir a experimentação animal, pois o sofrimento de qualquer criatura deve ser evitado a todo custo. Fora dessa equação, ficam todos os pacientes que hoje sofrem de doenças incuráveis. Fora dessa equação, ficam todas as futuras vítimas de novas doenças. Poucas pessoas? Lembremo-nos apenas da dengue. Doença antiga e ainda sem cura.

Neste ano, as pesquisas com animais de laboratório indicam que há uma possível vacina. Teríamos essa vacina sem animais? Não. Talvez no século 22, 23 ou no futuro remoto.

Espécies animais são extintas o tempo todo. Teríamos capacidade de preservar ou recriar animais sem experimentação animal? Não. É só porque aprendemos a dominar a fertilização in vitro e a clonagem que hoje somos capazes de impedir a extinção de aves, gatos selvagens etc.

Cientistas são pessoas como quaisquer outras. Não são sádicos nem monstros. Assim, é importante esclarecer a população sobre alguns aspectos. A primeira delas é que ciência não se associa a maus-tratos de animais.

Nas atividades de pesquisa, o uso de cobaias segue normas éticas. Os cientistas trabalham arduamente na busca de respostas para questões que afligem tanto homens como animais.

Outro argumento apresentado é a existência de diferenças anatômicas e fisiológicas entre ratos, rãs, cães, gatos e gambás e os humanos. Certamente há diferenças, mas há muito mais similaridades. A biologia molecular tem sido pródiga em demonstrar a riqueza de informações possíveis de serem obtidas a partir da biologia comparativa.

O fato de testes de drogas em ratos e chimpanzés terem mostrado alguns efeitos diferentes quando aplicados a seres humanos também tem sido listado entre os argumentos contra o uso de animais de experimentação.

Os que se opõem fazem referência ao caso da talidomida. Após a talidomida, as regras mudaram. Podemos dizer que, se não fosse a experimentação animal, teríamos dezenas de casos equivalentes ao da talidomida.

Outra questão polêmica é a introdução de técnicas alternativas que substituam a utilização de animais em ensino e pesquisa, tais como uso de células em cultura e biologia computacional. Esses procedimentos são completamente diferentes. Se os computadores pudessem prever tudo, a experimentação animal certamente seria desnecessária. Isso não é assim em nenhum país do mundo.
Não há como prever todas as interações de um organismo complexo.

Em 1995, o então deputado Sérgio Arouca apresentou o projeto de lei 1.115, que estabelece procedimentos para o uso científico de animais. O projeto foi elaborado com competência e integridade intelectual, mas questionado em alguns pontos. Foi então apresentado o PL 3.964/97.

Em outubro de 2007, completaram-se 12 anos desde a proposição de Arouca e uma lei ainda não foi regulamentada no país.

O uso de animais na ciência é absolutamente necessário. Ciência é questão de soberania nacional. Não se trata de procedimento obsoleto. Nossa segurança estaria mais comprometida caso não pudéssemos antes testar esses medicamentos em animais de laboratório. Analgésicos, antiinflamatórios, vacinas, antibióticos, hormônios em suas versões mais modernas dependeram tanto da experimentação animal como nós dependemos do ar para respirar e viver.

LUIZ EUGENIO ARAUJO DE MORAES MELLO, 50, graduado em medicina, mestre e doutor em biologia molecular com pós-doutorado em neurofisiologia pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), é professor titular de fisiologia e pró-reitor da Universidade Federal de São Paulo e presidente da Federação das Sociedades de Biologia Experimental.

Fonte: http://www.folha.uol.com.br/fsp/ - Sábado, 10 de novembro de 2007.


Os verdadeiros argumentos abolicionistas contrários à vivissecção - Sônia Felipe

A carta abaixo foi escrita em resposta ao artigo de 11/11/2007: O atraso zoofílico, de Andre Petry, na revista Veja, em:

http://img340.imageshack.us/img340/3391/oatrasozoofliconp3.jpg

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Os defensores dos animais, favoráveis à abolição do uso do modelo animal para pesquisa da cura das doenças humanas, ao contrário do que afirma André Petry, não são "obscurantistas zoofílicos" que querem fazer parar toda pesquisa científica na área da saúde e medicina humana. André Petry parece bastante "cego e obscurecido" por sua própria visão egocêntrica, e possivelmente ainda não teve tempo de ler nada do que já foi publicado nos últimos 30 anos sobre a necessidade de mudar do paradigma vivisseccionista para outro mais de acordo com os avanços tecnológicos e científicos da humanidade esclarecida. Quais são os argumentos que sustentam a posição nada "obscurecida nem medieval", dos abolicionistas?

O primeiro deles, é que a saúde humana é a saúde de uma espécie viva, cuja biologia, fisiologia e psicologia em muito se assemelha a muitas outras espécies vivas que habitam o planeta terra. É verdade. Em nome disto, os abolicionistas sustentam que não se pode justificar eticamente o uso de animais vivos em experimentos dolorosos e letais, porque nenhuma vida senciente é substituível por outra, nem da própria espécie, nem de qualquer outra espécie. Estar vivo é a única e grandiosa maravilha para cada um dos seres vivos sencientes. Tirar a vida de centenas de milhões de seres sencientes para testar drogas inventadas para lidar apenas com os sintomas das doenças produzidas na espécie humana, justificando-se que afinal as vidas destruídas não têm valor inerente algum para os seres dizimados, que seu valor só existe em relação ao que os humanos podem fazer aproveitando-se de sua vulnerabilidade, não é argumento ético. Tal tese não se sustenta eticamente, porque não poderia ser usada validamente para justificar o uso de seres humanos em condições vulneráveis em experimentos semelhantes.

 
O segundo argumento dos defensores dos animais (erroneamente denominados por André Petry de "zoofílicos", o certo seria dizer zoófilos, do grego zoo = animal, e philia = amor), não se baseia na hipótese "de parar a ciência em nome da bicharada", ou seja, da interrupção de toda e qualquer pesquisa científica, mas da abolição de toda e qualquer pesquisa que quer ser considerada científica mas continua a fazer uso de animais vivos como modelo para testes de produtos químicos e drogas que se multiplicam não apenas desnecessariamente ao redor do planeta, sempre prometendo a cura dos males humanos que nunca chegam a ser curados, mas letalmente, por induzirem a própria comunidade científica a crer que, por serem semelhantes os organismos de animais não-humanos e de humanos, do ponto de vista da estrutura fisiológica e em muitos casos neurológica e mental, também do ponto de vista da estrutura molecular esta semelhança se repita.
 
Não é verdade que da perspectiva metabólica sejam iguais dois organismos vivos quaisquer.  Se um organismo é dotado de um sistema nervoso central organizado, se produz hormônios, se tem consciência dos eventos que o afetam positiva ou negativamente, isto é, se tem emoções, este organismo assemelha-se, mas de modo algum é igual a um outro organismo com as mesmas características. Não apenas o sexo, a idade, a espécie, a linhagem, o estatuto no grupo social são características que alteram significativamente as percepções de um indivíduo senciente (não importa aqui se este indivíduo é um rato, um suíno, um eqüino ou um humano), mas, para além dessas variáveis um milhão ou milhões de outras traçam uma rede impossível de ser escaneada em cada indivíduo animal usado como modelo ou cobaia para testes da indústria farmacêutica e química. Cada indivíduo produz uma química própria, semelhante à dos pares da mesma espécie, mas infinitamente singular. Não há dois processos metabólicos exatamente iguais, embora padrões semelhantes se façam reconhecer em indivíduos da mesma idade, sexo e linhagem.

Nos milhões de outros interferentes devemos levar em conta, desde o tipo de parceiros confinados no mesmo grupo prestes a servir de cobaia, até os sons ou ruídos produzidos ou subtraídos do ambiente no qual os animais ficam engaiolados enquanto são usados para os experimentos. O olfato de humanos não consegue perceber os odores que impregnam uma sala de experimentação, desde o cheiro do shampoo usado pela estudante, até seu desodorante, esmalte de unhas, maquiagem, tecidos de suas roupas, sapatos, e outros odores de seu corpo.

 
Multiplique-se isto por 10 ou 20 pessoas que entram e saem do laboratório todos os dias, o que comeram dois dias antes, ou agora mesmo na lanchonete... se lavaram as mãos, ou não, após pagar o lanche e tocar no dinheiro fedido... ah! ainda tem o fedor de suas carteiras, suadas e manuseadas há anos, de seus bolsos, nos quais botam e tiram as mãos dezenas de vezes por dia... e o cheiro de suas bolsas, de seu material científico, da tinta na qual o artigo acabou de ser impresso... dos produtos usados para a desinfecção do ambiente, isto, quando tal preocupação existe... o cheiro das gaiolas, do piso, das paredes, dos químicos usados para tornar potável a água que sai da torneira, o cheiro do capacho no qual todos limpam os pés ... se é que o fazem, antes de entrar no laboratório, e os cheiros que entram por debaixo das portas, nos dias de vento, de chuva, de poeira e calor... e o cheiro da roupa nova que três ou quatro estão usando... o cheiro do sexo que acabaram de fazer antes de virem para o trabalho vivisseccionista, e o cheiro de seus hálitos infectos com fumo, álcool,
frituras, refrigerantes e partes dos cadáveres que acabaram de ingerir na última refeição... São muitos cheiros a perturbarem o olfato dos camundongos e ratos, dos gatos e cães engaiolados como se fossem sapatos aos pares em caixinhas nas quais mal se podem mover. Cada cheiro desses desencadeia em seus organismos reações metabólicas mil, sobre as quais o pesquisador não tem o menor controle. Por isso, não existe o tal do "controle das variáveis". Por isso, o que o pesquisador pensa que garante controle de variáveis em sua investigação é apenas aparente, é muito pouco ou mesmo nada, quando se trata de seres que têm 300 milhões de células olfativas a mais do que as nossas próprias.
O vivisseccionista tem a soberba de dizer ao público que sua pesquisa é científica, porque todas as variáveis estão sob seu controle experimental. Mentira. Não estão. E vejam, só me referi até aqui a um tipo de estímulo que altera completamente a fisiologia do animal senciente super-olfativado. Não falei dos sons. Mas os há em quantidade tão variável e "sem qualquer controle", num laboratório de vivissecção, que levam o organismo dos animais a produzirem químicas singulares, em reação ao que ouvem sem poderem decodificar: o som da água que passa por dentro das paredes, nos canos embutidos. Sons que o vivisseccionista não ouve, mesmo tendo um ouvido "superior" ao de sua cobaia. E tem ainda o som da eletricidade, que também passa pelos canos embutidos nas paredes. Também estes sons horríveis e estressantes o vivisseccionista não ouve, mesmo tendo uma superioridade biológica sobre todas as demais espécies. Mas, no laboratório vivisseccionista, somente os pesquisadores são surdos, e não apenas a estes ruídos insuportáveis que só são percebidos por ouvidos muito sensíveis, os mesmos ouvidos atormentados 24 horas por dia com esses e outros ruídos ensurdecedores que não existem no ambiente natural dos animais usados na vivissecção. E tem ainda o ruído dos computadores ligados, do ar condicionado, da impressora e dos teclados, os sons metálicos dos objetos manipulados no experimento, o som dos que caem no chão ou sobre as bases metálicas. Tem o som das vozes dos 10 ou 20 vivisseccionistas que entram e saem do laboratório conversando, rindo, chorando, gargalhando... e o de seus aparelhinhos enfiados nos ouvidos com MP3, e o de seus celulares, bips, e Ipods....  e o som dos carros lá fora, de buzinas, das trovoadas, e os sons do andar superior, do inferior, de gavetas que são abertas e fechadas, de armários metálicos abertos e fechados, de portas metálicas ou não, de chaves passadas na fechadura, de trincos de portas manuseados, de fechos de bolsas e sacolas abertas e fechadas, de equipamentos sendo ligados ou desligados.
 
E há, ainda, a variação da temperatura, da umidade do ar, da quantidade de químicos que a companhia de águas acaba de botar para "tratar" da água depois daquela denúncia de que a água estava sendo servida contaminada... e o insuportável odor da comida servida, sempre da mesma marca e com nutrientes que apenas para o vivisseccionista são necessários, não para o bem-estar do animal senciente. E tem o toque do manejador, e já não preciso descrever o que fazem ao animal em seguida.

Fiz apenas uma lista ínfima das variáveis que interferem no metabolismo de um animal senciente, e que levam os resultados a níveis enganadores. Esta lista não chega a 1% de tudo o que um animal usado como modelo vivo percebe. Qual o controle que o vivisseccionista tem sobre tais variáveis e outras? Mesmo que todos os animais sencientes sejam de uma mesma linhagem, de uma mesma idade, de um mesmo sexo, a intensidade de suas percepções, a exemplo do que ocorre com os humanos, varia de indivíduo para indivíduo, e mesmo num indivíduo de uma hora para outra, ou de um dia para outro.

Um terceiro argumento que leva os abolicionistas a se oporem ao uso de animais vivos na ciência, é justamente o da perda de tempo que tal modelo tem representado para o avanço científico, se é que a ciência quer mesmo encontrar a cura dos males humanos e não apenas drogas para serem consumidas e renderem lucros à indústria farmacêutica, aliás, uma das mais poderosas ao redor do planeta.

A maior parte das doenças humanas são produzidas por hábitos que somente os humanos têm. Os abolicionistas não pregam o fim da pesquisa genuinamente científica sobre a saúde humana. Eles defendem o fim do uso de animais não-humanos como objeto destas pesquisas. Quando, afinal, os cientistas acordarão para o fato de que só se pode conhecer a etiologia das doenças humanas estudando a clínica humana? O que os abolicionistas querem é que todo o dinheiro investido hoje ao redor do planeta em modelo animal seja investido em pesquisas realmente científicas voltadas ao estudo da etiologia da doença humana. Não precisa usar humanos como cobaias em experimentos bárbaros.

 
Mais de 50 anos de testes de drogas em animais e em humanos são suficientes para se ter dados sobre as reações a todas as drogas comercializadas no mundo desde a década de 60 do século XX. Basta formar um banco de dados com todos os resultados obtidos até hoje, com todos os relatos médicos obtidos com o uso dessas milhões de drogas inventadas e usadas em cobaias humanas ao redor do planeta sem que essas cobaias tenham sequer noção de que, o que seus médicos acabam de lhes anunciar como a droga mais recente para a cura de suas doenças, é na verdade um experimento que lhes pode ser inócuo, ou mortal.

Os abolicionistas não são obscurantistas medievais [se é que a Idade Média foi obscurantista, embora os médicos dos reis o fossem, ao abrirem sapos, pombos e cães para examinar suas vísceras e dar resposta aos soberanos sobre a cura ou não de suas doenças. Os abolicionistas não defendem esta prática medieval, pelo contrário, defendem o fim dela!]. Pelo contrário. São seres humanos cientes do desperdício da inteligência humana, que hoje é treinada apenas para prescrever drogas legais tendo na parede de sua sala de trabalho um diploma da medicina. O que está sendo feito com a inteligência dos jovens que entram num curso de medicina com o intuito de ajudarem os seres humanos a eliminarem seus males e a curarem suas doenças? Prescrevendo drogas, ainda que legais, os jovens médicos apenas estão matando o rim, o fígado, o estômago, a bexiga, o sangue de muitos de seus pacientes, efeito do uso de medicamentos testados largamente em animais.

Um quarto argumento abolicionista refere-se às doenças mais letais e crônicas que afetam a espécie humana: cardiovasculares, pulmonares, do trato digestivo e urinário, psíquicas, dores nas costas, câncer, degenerações neurológicas... curáveis com a abstenção, por alguns meses, de todos os produtos de origem animal [leia, Foods that Fight Pain e The Food Revolution].

Mas, milhões de camundongos e ratos são mortos todos os anos para que uma droga seja inventada para curar os humanos de triglicerídios, hipercolesterolemia, falta de cálcio, excesso de ácido úrico, hipertensão, diabetes, e assim por diante. Vivisseccionistas querem por que querem fazer os que sofrem dessas doenças crerem que logo, logo, uma droga será comercializada para livrá-los dos males que eles mesmos inventam com sua dieta errada.

 
Mas, se o médico não prescrever nenhuma droga, se olhar para seu paciente e disser: por dois meses quero que "teste" em você mesmo a seguinte dieta sem leite, ovos, manteiga, iogurte, carne, peixe, frango ou quaisquer de seus derivados... este médico será demitido da clínica. Afinal, para que lhe foi concedido um diploma, se não é para prescrever aos pacientes as drogas legais colocadas no mercado?

A Organização Mundial da Saúde tem tornado públicos os relatórios médicos que alertam para a necessidade de redesenhar a dieta humana [leia The Food Revolution, e Diet for a New America, de John Robbins]. Mas, os cientistas querem que milhões de animais morram em suas mãos até que eles tenham conseguido inventar drogas para que os humanos não precisem abrir mão de nada que costumam comer, por mais tóxico que isso seja para seus organismos.

De qualquer modo, ainda que se descobrisse uma droga para curar o alto nível de colesterol, o uso desta droga certamente desencadearia outros males. Estes, outra vez, requereriam a vivissecção, para que o cientista pudesse encontrar uma nova droga para livrar os pacientes que houvessem usado a anterior dos males que ela produz. A cadeia vai se expandindo ao infinito. É exatamente neste ponto que já nos encontramos. O que os vivisseccionistas não querem perceber é que esta trama não apenas não os levará ao sucesso, mas é responsável pelo seu fracasso.
 
A maior parte dos males dos quais padecem os humanos, hoje, ou já existia há mais de 5 séculos, ou há mais de 2 mil anos, ou resultou do uso de produtos químicos testados em animais e colocados em alimentos, bebidas e medicamentos.
Os animais não têm culpa alguma de nossas escolhas. Eles não beneficiam das nossas vantagens. Eles não têm de responder às perguntas que os cientistas deveriam estar buscando responder com a matemática, com simulações em computador, com raciocínio sobre os dados já disponíveis ao estudioso.

Os abolicionistas, ao defenderem a libertação dos animais de sua condição de escravização, defendem a libertação dos cientistas dessa malha que os ata e os desatina. Não achamos que os vivissectores são maldosos e cruéis. Achamos apenas que são homens e mulheres "infelizes", no sentido aristotélico do termo, quer dizer, são seres racionais, que sabem o que se espera deles, por sua "excelência", mas estão se condenando a fazer exatamente o contrário do que se espera que façam. Este é o conceito de infelicidade na ética aristotélica: saber o que é esperado fazer, e fazer o que leva ao contrário do resultado esperado.

A libertação animal é a libertação humana, a libertação da mente e da inteligência humana, para que possa finalmente prestar-se à finalidade mais refinada para a qual deveria ter sido aprimorada: buscar o saber, sem tirar a vida de seres vulneráveis. Esta é a inteligência que esperamos ver florescer na ciência biomédica. Mas os obscurantistas vivisseccionistas não querem tornar-se inteligentes desse outro modo, pois aprenderam a obscurecer sua inteligência revolvendo as vísceras de animais vulneráveis, em vez de aprimorarem-na, criando modelos matemáticos e computadorizados e métodos de investigação não-invasivos em humanos, afinal, os destinatários finais de tanto empenho, ou não?

E, finalmente, não é por ser aceita e defendida por "toda a comunidade" vivisseccionista, que a prática vivisseccionista se torna, então, ética. Se André Petry não for obscurecido por seu furor contra os abolicionistas, deve lembrar-se de que a história humana arquiva episódios de aceitação das maiores barbáries por uma maioria, ainda que uma minoria antecipasse a crítica ética a tais costumes ou tradições. Foi assim, no império romano, com as lutas forçadas entre os gladiadores e animais; foi assim com a escravização dos africanos, contra a qual ninguém ousava levantar a voz, e quem o fez, no Brasil, foi condenado à forca; foi assim, com o império nacional-socialista europeu no século XX, não apenas com um país inteiro formando a maioria apoiadora, incluindo-se a "comunidade dos médicos e cientistas" favorável a tais práticas; foi assim com a exclusão das mulheres, a inquisição, a ditadura e o consumo que levará nosso planeta à morte. A verdade não necessariamente se encontra do lado do mais forte, apenas a força está lá. Quem desafia a tradição moral dominante é tachado de obscurantista. Apenas não se disse claramente que tipo de luz ilumina a vivissecção. A "cura das doenças" humanas, infelizmente, não é. Os abolicionistas não são iluminados por esta luz, eles o são, por outra: paz para todos os animais viverem o seu próprio bem, a seu próprio modo, sem prisões, sem grilhões, sem tormentos. Basta estar vivo para sofrer maus momentos. Não precisa nenhuma inflição de novos tormentos.


Ferro da Carne: desnecessário - Eric Slywitch

A importância dada ao ferro da carne é excessiva.
Ferro é ferro, um único mineral. No entanto, esse ferro pode estar "disfarçado" de heme e não-heme.

O ferro heme apresenta uma absorção de cerca de 20% e sofre pouca influência dos fatores que dificultam ou promovem a sua absorção.

Já o ferro não-heme apresenta absorção de cerca de 10% e é mais influenciado pelos fatores que estimulam ou inibem a sua absorção. O reino vegetal é composto exclusivamente por ferro não-heme.

A diferença desses dois ferros é apenas na sua absorção. Entrando no organismo eles são iguais e têm as mesmas funções.

É aqui que começa a nossa questão: o ferro da carne não é esse "todo poderoso" ferro heme, mais absorvido. Vou explicar.

Uma pessoa precisa absorver diariamente 1 a 2 mg de ferro. Como a absorção do ferro não é simples, a recomendação de ingestão dele é bem maior do que o que precisamos absorver. Homens precisam ingerir cerca de 8 mg de ferro por dia e as mulheres 18 mg.
Pois bem, seguindo a recomendação de consumo de carne preconizada por muitos nutricionistas de 100 gramas de carne magra por dia e, sendo essa carne das mais ricas em ferro, a pessoa estará ingerindo 3 mg de ferro.

É aqui o ponto chave da questão! O ferro da carne é 60% não-heme (igual ao dos vegetais!!) e 40% heme. Portanto, se a questão de comer carne é pelo fato de ingerir o ferro heme, 100 gramas de carne contém 1,2 mg de ferro heme (40% do ferro total), e não 3 mg!

Mas não para por aí! Após o abate do animal, a carne não é consumida imediatamente. Quanto mais tempo ela fica guardada, mais ferro heme se transforma em não-heme. E para piorar a situação, o calor também acentua a transformação do ferro heme em não-heme. Isso significa que quando você come a carne, está consumindo bem menos de 40% de ferro heme, ou seja, bem menos de 1,2 mg de ferro, mas vamos considerar que você ingeriu realmente esses 1,2 mg.

Esse ferro heme é 20% absorvido. Isso significa que, ao ingerir 1,2 mg de ferro, você estará absorvendo 0,24 mg de ferro. Lembre-se de que você precisa absorver de 1 a 2 mg por dia.

Através desses cálculos podemos ver claramente que a ingestão de carne não satisfaz as necessidades diárias de ferro.

Estudos com vegetarianos demonstram claramente que a ingestão de ferro, ao contrário do que muitos pensam, é maior do que a de não-vegetarianos. Esses estudos demonstram que os vegetarianos costumam ingerir cerca de 15 a 20 mg de ferro por dia e, como a sua absorção é de cerca de 10%, absorvemos 1,5 a 2 mg por dia, que é a quantidade necessária.
Para ajudar ainda mais, a vitamina C é um dos maiores promotores da absorção de ferro. Os vegetarianos ingerem o dobro de vitamina C do que os onívoros, o que favorece intensamente a absorção do ferro.

Estudos populacionais demonstraram claramente que a prevalência de anemia ferropriva em vegetarianos é a mesma que a encontrada em onívoros. O artigo científico mais recente que discorre sobre esse fato pode ser encontrado com nome "Bioavailability of iron, zinc, and other trace minerals from vegetarian diets" e pode ser encontrado com a referência: American Journal of Clinical Nutrition. 78(3 Suppl):633S- 639S, 2003 Sep. Assim, não podemos, em hipótese alguma, dizer que o ferro contido na carne é tão importante quanto se alegam por aí.

Fonte: Grupo Bem Alimentado.
Texto de Eric Slywitch: