9 Fundação Conscienciarte

É tempo de festa em Brasília. Vários milhares de pessoas agarram a oportunidade do feriado do descobrimento do Brasil para fazer uma manifestação contra a corrupção entre os edifícios do governo. Além disso, há as apresentações habituais, mas – pela primeira vez – também ocorre uma grande feira literária, já que no dia 23 de abril se comemora o Dia Mundial do Livro. É interessante observar a grande quantidade de pessoas com sede de ler e de aprender aqui reunida. A presença de famílias com crianças se destaca. A venda de livros está em ascensão ao longo dos últimos anos. No Brasil foram vendidos, em 2011, 7,2% mais livros do que em 2010.
 
Há também muitos debates e sessões com autores. Nós participamos de um debate sobre a crise econômica mundial. Um bom aquecimento para, no dia seguinte, dialogar com a Embrapa, o centro nacional de pesquisa agrícola do governo, que lembra um pouco o ILVO [Instituut voor Landbouw- en Visserijonderzoek = Instituto de Pesquisa Agrícola e Pesca], na Bélgica. Será que a Embrapa também se dedica à agricultura familiar e, por exemplo, à comercialização da biodiversidade do Cerrado? Ou, depois de 40 anos, o fluxo principal ainda é “mais do mesmo”: soja, cana-de-açúcar e companhia? Existe uma “Embrapa Cerrado”, bem como existem a “Embrapa Suínos”, “Embrapa Floresta”, “Embrapa Soja”. E como está a correlação de forças? Em Flandres [Bélgica], por exemplo, o poder está claramente com o setor de carnes. Será que, em Brasília, a Embrapa Soja não tem mais poder do que a Embrapa Cerrado?
Conscientização, arte e cultura
Vamos, então, fazer um “bate e volta” para Paracatu, em Minas Gerais. “Bate e volta”? Sim, 240 km de ida e 240 km de volta. Pelos parâmetros brasileiros, são distâncias insignificantes. Para um belga, significa cruzar o país. Por que, mesmo assim, fazer a viagem? Peter De Lannoy e Isabel Duarte moraram durante cinco anos em Paracatu – “rio bom”, em tupi-guarani –, no meio do vasto Cerrado do Brasil Central. Nessa área, onde o uma vez exuberante Cerrado está há anos sob pressão da mineração (de ouro) artesanal e industrial e da agricultura de escala devastadora (soja, feijão, arroz, cana-de-açúcar, pecuária), também atua a Fundação Conscienciarte, onde Pedro e Isabel estimulavam o protagonismo juvenil e a cidadania ativa por meio de atividades socioculturais. Eles ainda são muito benquistos por lá. E o que isso tem a ver com Wervel? Em Bruxelas, Wervel trabalha atualmente com o coletivo de artistas brasileiros Arte N’ativa. Para, cada um à sua maneira, dar visibilidade ao Cerrado: Wervel com palestras, campanhas, textos e fotos de João Caetano; Arte N’ativa com artesanato e oficinas. “Biojoias” com sementes do Cerrado e da Amazônia, combinada com a corda de cânhamo por causa da Wervel. Isabel é a animadora o grupo.
Foi uma manhã emocionante em Paracatu, com o Movimento Verde e a Fundação Conscienciarte (1). Ambas as organizações estão, cada uma de sua própria maneira, trabalhando com educação e conscientização e unem esforços com foco renovado e luta contra a produção de soja e biodiesel que avança na região. O nome Conscienciarte contém a palavra arte, com base na crença de que a arte e a cultura são importantes para promover mudanças. A ONG defende a melhoria da qualidade de vida, os direitos elementares de crianças, jovens e adultos. Isso também inclui conscientização social e, nesse aspecto, as artes, cultura, esportes e o protagonismo social voluntário dos jovens muitas vezes desempenham um papel instrumental. Esse “protagonismo juvenil” se tornou uma característica da mudança social que as ONGs brasileiras querem promover. Jovens como protagonistas da mudança – não é maravilhoso? Jovens brasileiros, que simbolizam a esperança de um futuro melhor, efetivamente trabalham para construí-lo, arregaçando as mangas para realizar mudanças nas suas comunidades.
Nunca vi um escritório tão artisticamente decorado. Em um edifício tombado como patrimônio histórico, nesse bairro colonial também tombado. Isso também é uma “afirmação”. Cultura para lutar contra a corrente. Um dos projetos implementados visa fortalecer a identidade cultural dos quilombos e a cultura afro-brasileira, um cineclube está vinculado a um projeto audiovisual para promover a inclusão social, cultural e digital das comunidades – só para mencionar alguns dos projetos interessantes. Eles chegam a milhares de pessoas em toda a região e muito além. Por exemplo, na Caravana Cultural Conscienciarte, em 2010, foram envolvidas 10.200 pessoas e cinco comunidades. Objetivo: atividades de cultura, arte, lazer, esporte e cidadania, focadas principalmente em grupos populacionais menos favorecidos, para dar um impulso sociocultural. Jovens carentes na região do Cerrado brasileiro são conscientizados acerca do seu potencial e das oportunidades de se desenvolverem em seu próprio ambiente e fora da metrópole. Assim, a Fundação Conscienciarte contribui indiretamente para o combate do êxodo rural.
Simplesmente ignorar a cultura dos outros
À noite eu embarco no avião de Brasília para Curitiba. Sento-me entre duas mulheres, que representam – involuntariamente – um retrato do Brasil emergente. À minha direita, uma jovem lê a obra Capitalismo cognitivo. Um dos mantras entoados constantemente por nossos governos. Conhecimento como poder, com patentes para proteger esse conhecimento e, principalmente, ganhar muito dinheiro. Até que a bolha estoura. Será que a “economia verde” não poderia ser uma variante da mesma ideologia?
À minha esquerda, está uma fazendeira de Laranjeiras do Sul (Paraná), atualmente sojicultura. Há 30 anos, o pai se mudou – com sua serraria – dois mil quilômetros para o norte, no Pará, onde o governo estadual tem pouco controle sobre o desmatamento e outros fenômenos. Depois que a área estava desmatada, ele e um dos filhos passaram a criar gado – o curso normal dos negócios na “fronteira agrícola”. A filha se desloca duas vezes por ano para fazer a contabilidade. Seu marido também está no caminho de casa, mas a partir de outro estado, o Piauí, o estado mais pobre do Brasil. Os sulistas vêm trazer prosperidade para o Norte e Nordeste. Pelos menos, é nisso que eles acreditam. Eles não respeitam a maneira de viver e a experiência da população local, baseada na agricultura de subsistência, ainda que essa população já viva lá há muitas gerações. Do ponto de vista dos sulistas, essa cultura pode ser inescrupulosamente destruída com soja. Eles estão trazendo a agricultura em “grande escala”. Na verdade, não se trata da agricultura propriamente dita, e sim de máquinas. De contabilidade. De exportações e de ganhar muito dinheiro rapidamente. As pessoas lá no Norte e Nordeste, na ex-floresta do Pará e no Piauí, não conseguem compreender. “Lá, nada acontece como deveria”, diz a senhora fazendeira. Nunca ouviram falar de gestão. Isso me lembra da revista Agricultura e Tecnologia, que o Sindicato dos Agricultores Belgas rebatizou, no início de 2012, de Gestão e Tecnologia. De fato, trata-se cada vez menos da prática agrícola e menos ainda de agricultura. “Gestão e tecnologia”, é disso que se trata.
Como muitas das pessoas que vieram do Sul, o marido possui uma grande extensão de soja no Piauí. O revestimento dos apoios de cabeça dos assentos no avião também proporciona apoio à ideologia: “Melhor do que assistir ao crescimento do Brasil é crescer com ele”. Conte com a consultoria da PwC [PricewaterhouseCoopers] (www.pwc.com/br). Contudo, é essa mesma PwC que conclama os governos para que tomem medidas urgentes contra a continuidade do aquecimento global.
Então vamos praticar especialmente o crescimento “verde”. Afinal, a capacidade de suporte do planeta Terra é ilimitada!
Curitiba, 24 de abril de 2012.
P.S.: Hoje, a Câmara Federal do Brasil aprovou o Código Florestal, após 13 anos de debates. Um desastre para a natureza, “abençoado” para o agronegócio. Muitos dos que votaram “sim” para essa lei estão ligados a uma grande variedade de empresas financeiras. Agora que foi publicada a origem dos fundos de campanha para as eleições de 2010, parece não ser coincidência que aqueles que receberam dinheiro de serrarias ou das grandes potências do agronegócio servilmente votaram ”sim” para essa lei alucinante.
“O setor” vai bem: no primeiro trimestre de 2012, houve um aumento de 26,3% na venda de máquinas. Será que a presidente Dilma, conhecida como sendo economista, ousará emitir um veto a essa lei que perpetua a destruição? Ou será que, depois de 47 anos, o Código Florestal anterior será definitivamente enterrado, pouco antes da Rio+20?
(1) www.conscienciarte.org.br e www.movimentoverdedeparacatu.blogspot.com
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