8 Macambira-Anicuns: o parque urbano mais longo do mundo

Uma das muitas atividades desta semana em Goiânia foi o lançamento do novo livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança, nesta manhã, na Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA). Para minha grande surpresa, não havia como chegar até a entrada: jornalistas se aglomeravam em torno de mim (incluindo o jornal do meio-dia, da TV Brasil Central), mais de 200 jovens de um curso técnico agrícola (IFET) lotaram o local, professores, funcionários da AMMA. Aparentemente, a internacionalização da (proteção) do Cerrado é valorizada.

Legal!

Os “culpados”? O fotógrafo João Caetano e Altamiro Fernandes, coordenador do Fórum Goiano em Defesa do Cerrado. Há quatro anos, eles me desafiaram a dar visibilidade ao Cerrado em Flandres/Bélgica/Europa. Enquanto isso, Altamiro trabalha para o Programa Urbano Ambiental Macambira-Anicuns (Puama). Goiânia, com seus 1,4 milhões de habitantes, conta com 30 parques urbanos, mas quer acrescentar um megaparque. A ideia é que Puama se torne um parque urbano de 24 quilômetros de comprimento, o mais longo do mundo. Ele está localizado em 120 bairros e irá melhorar significativamente a vida de 350 mil pessoas. Serão implantadas novas áreas do lazer, bem como seis centros de saúde e seis unidades de ensino. Haverá recuperação ambiental em uma faixa de 30 metros em ambos os lados dos cursos d’água, seguida de uma faixa de 15 metros para bicicletas e pedestres. No total, portanto, uma extensa faixa, com 90 metros de largura, sem contar os próprios cursos d’água. Além disso, serão criados mais dois parques urbanos: o Parque Macambira e o Parque da Pedreira.

Já em 2008, Goiânia era considerada a cidade mais “verde” do Brasil, com 94 m2 de área verde por habitante. Com a execução dessa obra, eles certamente chegarão a mais de 100 m2 por habitante. Quem conseguirá imitá-los? Bruxelas? Nova Iorque? Berlim? Paris? São Paulo? Pequim?

 

Uma das críticas que regularmente ouço, na qualidade de “gringo”, é: “Vocês desmataram a Europa inteira séculos atrás. O que o traz aqui agora para nos dizer que há um problema com o nosso desmatamento!?” É fato, essa história da destruição europeia que agora repetimos no exterior torna uma pessoa humilde no diálogo internacional sobre questões ambientais. E, no entanto, o professor Osmar Pires Martins Júnior, da PUC (Pontifícia Universidade Católica de Goiânia), consolou-me nesta semana com o pensamento: “É verdade e não é verdade. De fato, na Europa, grande parte da floresta original foi destruída há séculos. Porém, veja agora o exemplo da Alemanha. O território é tão grande quanto o estado brasileiro de Goiás. Enquanto, em Goiás, vivem 5 milhões de pessoas, na Alemanha residem 80 milhões. Cerca de 41% do território são áreas naturais, muitas das quais cobertas com florestas.” O professor Osmar Pires trabalha na interseção (inovadora) das ciências tecnológicas, jurídicas e biológicas (1). Ele me dá fôlego para entrar nos debates com menos complexos. Tomemos, por exemplo, o sul de Goiás: lá sobraram apenas 5% da vegetação original. O resto foi desmatado nas últimas décadas, para plantio de soja, eucalipto, milho, cana–de-açúcar e criação de gado. O norte e o nordeste de Goiás são abençoados com 70% da vegetação original, mas estão seriamente ameaçados pelos planos chineses para a soja (2). Os europeus podem ter cometido muito erros nos séculos passados, mas os seus descendentes no Brasil não precisam cometer exatamente os mesmos erros. Afinal, vivemos no século XXI e podemos tirar lições a partir dos erros que cometemos coletivamente no passado. De todo modo, Goiânia colabora na recuperação. Os moradores são incentivados a tratar o lixo de modo consciente, a economizar água e a plantar de árvores. No final da apresentação do livro, eu também já recebi a minha muda. Para plantar no futuro parque.

Ilegal!

Para que o parque quilométrico se torne realidade, ainda há muita expropriação e demolição a ser realizada com seriedade. É que há 804 moradias ilegais na área a ser recuperada. Uma das críticas dos fazendeiros no Brasil é que – dependendo da largura do rio – eles devem manter pelo menos 30 metros de ambos os lados nas condições originais, enquanto muitos moradores das cidades constroem suas casas encostadas nos rios e córregos. E passam a poluí-los despreocupadamente. Bem, para Goiânia e esses dois cursos d’água, isso já não será mais o caso.

Casa nova: legal!

Atualmente, 33 pessoas trabalham na expansão do Puama. E justamente Altamiro e sua equipe é que são os responsáveis pelo difícil trabalho de fazer com que as famílias deixem suas habitações ilegais. Um trabalho difícil, com muitos conflitos, embora a oferta da prefeitura seja particularmente atraente. Como se trata de áreas públicas invadidas, eles não serão indenizados pelos terrenos ocupados. Porém, a eles é oferecida uma bela casa nova, que geralmente contrasta fortemente com o “puxadinho” com ares de favela onde já moram há vários anos. Se recusarem a casa, eles podem ocupar um apartamento. Se também não aceitarem essa oferta, um funcionário virá avaliar o valor da construção e a família é indenizada.

 

Goiânia e outras cidades estão rapidamente sendo “assoreadas” com as dezenas de milhares de carros que aumentam a frota a cada ano. Estresse garantido, porém, depois da batalha exaustiva nas avenidas congestionadas, 350 mil pessoas na capital de Goiás podem, pelo menos, se recuperar um pouco praticando corrida e ciclismo. Goiânia quer ser incluída numa rede de “cidades sustentáveis no Cerrado” e fazê-lo no âmbito da Rio+20. A cidade abraça a “economia verde”. Resta saber se este “capitalismo verde” é mais do mesmo ou se ele poderá evoluir para uma verdadeira “economia ecológica” (3).

Próximo passo: reduzir os carros “legais”?

 

Goiânia, 20 de abril de 2012.

(1) Perícia ambiental e assistência técnica (Organizador: Osmar Pires Martins Júnior. PUC-GO, 2010).

(2) Veja o capítulo Goiás de joelhos perante a China, no livro: Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(3) No dia 2 de junho de 2012, Wervel organizou em De Kijfelaar (www.dekijfelaar.be), na localidade de Noorderwijk, Bélgica, um dia de formação sobre “economia ecológica”.

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