7 Frutos do Cerrado

Dez anos atrás, falar sobre o Cerrado era algo atrasado. O Cerrado era uma coisa do passado, como a região De Kempen [A Campina], na Bélgica, somente remetia a Bokrijk[1]. Solo infértil, pobre: para esquecer o mais rapidamente possível. Os casarões e sítios vistosos que agora já existem em De Kempen há várias décadas são testemunhas. É como se eles quisessem clamar: “Não, nós não somos pessoas estúpidas condenadas a permanecer pobres sobre este solo arenoso.”

Do constrangimento ao orgulho

Um fenômeno semelhante ocorreu em 11 estados do Brasil Central. O Cerrado despertava repulsa, até que a área de quase 2 milhões de km2 foi descoberta pelo agronegócio: fácil de desbravar e de corrigir o solo com calcário. É a agricultura de exportação a serviço do mercado mundial, ainda que baseada em um grande aporte de energia. Desde então, a palavra de ordem é: desmatar. Removam essas árvores retorcidas, esquisitas (1)!

Ao mesmo tempo, algo estranho está acontecendo por lá nos últimos anos: em todos os lugares, ressurge o nome “Cerrado”. Supermercado Cerrado, posto de gasolina Cerrado, farmácia Cerrado – ainda que o supermercado não venda nada típico do Cerrado, que a farmácia só comercialize medicamentos sintéticos e sejam poucas as plantas medicinais do Cerrado que são oferecidas. Só no posto de gasolina é que se encontra etanol, provavelmente a partir da cana-de-açúcar abundante no Estado de Goiás. Mas é exatamente a cana-de-açúcar uma das principais causas da destruição neste coração do Brasil.

 

Ou seja, a marca “Cerrado” é eficientemente utilizada no comércio. Afinal, as pessoas estão sempre buscando produtos “locais” autênticos. Grande parte são mentiras e comércio. Novilíngua[2]. Em Flandres, na Bélgica, não é diferente: “carne produzida localmente”, enquanto a ração vem do outro lado do oceano. A expressão “produzida localmente” omite esses 10 mil quilômetros de distância e esconde a realidade das granjas de frangos-e-suínos-sem-terra, mas a máquina da propaganda oficial em Flandres não quer saber disso.

Mesmo assim, na região do Cerrado há muitas iniciativas pioneiras e economias crescentes. E realmente vale a pena mencioná-las. Vamos começar com o “Trem do Cerrado” (2). Eles conseguem colocar uma grande variedade de pães no mercado. Pão integral com baru, por exemplo. Ou bolachas feitas com a amêndoa do mesmo baru. É uma típica espécie arbórea do Cerrado, que pode alcançar 25 metros de altura. Ela produz amêndoas com altas concentrações de ferro e zinco. É um pouco semelhante à relação de ferro-zinco da espécie Teff, da Etiópia (3). O “Trem do Cerrado” merece a devida atenção. Aqueles que lançaram a iniciativa querem, claramente, unir o social e o ecológico. A defesa do que resta do Cerrado, com a enorme biodiversidade, é o seu objetivo principal.

Pequi e companhia

Os produtos que mais chamam a atenção são os picolés da “Frutos do Cerrado” (4). Não são apenas geladinhos, mas picolés de: graviola, cajá-manga, cajuzinho, mama-cadela, mutamba, mangaba, araticum, brejaúba, taperebá, umbu, tamarindo, pequi, araçá, cagaita, guabiroba, jatobá, murici, seriguela. E há ainda muitos outros valores consolidados dentre as frutas brasileiras: buriti, goiaba, cupuaçu, jabuticaba, jaca, maracujá, açaí e muito mais. O Brasil possui mais de 320 espécies frutíferas, que podem facilmente comercializadas. Alguns estudos falam de até de 775 espécies (5) que poderiam ser processadas e comercializadas. O que é que, afinal, os brasileiros estão esperando?

 

A “Frutos do Cerrado” não consegue obter frutas em quantidade suficiente. Nos últimos anos, a empresa tem crescido 20% ao ano. Poderia ser mais, mas falta-lhe a “matéria-prima” para isso. Esperemos que os agricultores da agricultura familiar descubram a tempo que, com a biodiversidade do Cerrado, é possível construir uma economia forte e verdadeiramente sustentável, em vez de serem sugados pelo turbilhão da soja. Clóvis, o fundador da empresa, afirma que, por hectare, é possível obter uma renda 30 vezes maior com o cultivo e processamento de frutas do Cerrado em vez de simplesmente semear soja. Além disso, não há envolvimento de agrotóxicos e, portanto, não há dependência da indústria química.

Picolés no exterior?

Clóvis tem uma boa renda. A empresa já tem mais de 80 pontos de venda no Brasil. No entanto, ele diz que o que o motiva em primeiro lugar é a paixão pela natureza. Pela preservação do Cerrado e a serviço da construção de uma economia sustentável. Em seu site, você pode ler o que ele pensa: “E nós temos que cuidar de toda essa riqueza, preservá-la e levar esse conhecimento adiante. Ficar atento a toda uma rede: da formiga e da abelha até o passarinho. Todos dependem dos mesmos frutos que chegam a você. Frutos do Brasil que foram colhidos, também, para sua degustação – aqui oferecida no palito. Esperamos que seja um momento natural e gostoso. Como o seu dia, que seja muito bom!”

 

Os primeiros containers com picolés para Portugal e Alemanha estão prontos. Será que não seria possível deixar alguns deles em Bruxelas? Por exemplo, para oferecê-los no escritório Mundo B (6)? Será que isso ainda poderia ser chamado de “sustentável”? Eu prefiro ouvir que eles produzem, preferencialmente, para o mercado interno, mas o que poderia haver contra alguns containers para a Europa? Em comparação com os 39 milhões de toneladas de importações de soja para a Europa, não é nada. Isso sem falar das toneladas de carne bovina congelada que devem circular no mundo. Como, por exemplo, a carne de gado da raça Belgian Blue, da Bélgica para a China. Engordados com soja do Brasil.

Brilho nos olhos

Peço-lhe algumas embalagens da grande diversidade de picolés, para em seguida mostrá-las nas palestras para 200 jovens na Universidade Federal de Goiás (UFGO) e outros 220 jovens na PUC Goiás. É interessante ver quantos deles ainda se lembram desses nomes estranhos, e como se orgulham dos frutos em si. Animação garantida. Brilho nos olhos. Parece que muitas famílias ainda conhecem a vegetação do Cerrado que ocorre na região onde moram. O gringo confirma seu saber sobre a enorme riqueza e diversidade que está à disposição de todos. Na região com poucas espécies de onde ele é originário, não é assim.

 

Será que a “ficha vai cair” em tempo para essa jovem geração apostar nessa economia promissora, a ser construída? Ou estão atraídos pela tentação do paraíso de soja? A serviço da China (1), Monsanto, Cargill e companhia?

 

Goiânia, 19 de abril de 2012.

(1) Veja os capítulos A festa arruinada do Cerrado e Goiás de joelhos perante a China, no livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Popular/Cefuria, 2012).

(2) Veja: http://tremdocerrado.blogspot.be/2008/02/frutos-do-cerrado.html.

(3) A espécie Teff está sendo cada vez mais plantada na Europa, por causa de suas qualidades. Não só a relação zinco-ferro é interessante, mas também o fato de que esse cereal ancestral não contém glúten. E não é que a intolerância ao glúten é justamente uma das muitas doenças que despontam entre os consumidores europeus?! Veja: www.teffcentre.nl

(4) Veja: www.frutosdocerrado.com.br / www.frutosdobrasil.com.br/pt

(5) Veja Proteínas de ora-pro-nóbis em Aurora no campo: Soja diferente (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2008).

(6) Veja: www.mundo-b.org, edifício que sedia de 40 ONGs, com cerca de 400 funcionários Europeus.


[1]

             Nota da tradutora: Bokrijk é uma cidade que data da Idade Média e abriga um museu a céu aberto, com propriedades rurais que reproduzem a vida dos agricultores como ela era até a metade do século XX.

[2]           Nota da tradutora: Novilíngua ou novafala é um idioma fictício criado pelo governo hiperautoritário na obra literária 1984, de George Orwell. A novilíngua era desenvolvida não pela criação de novas palavras, mas pela “condensação” e “remoção” delas ou de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento. Uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passava a não existir. Assim, por meio do controle sobre a linguagem, o governo seria capaz de controlar o pensamento das pessoas, impedindo que idéias indesejáveis viessem a surgir (Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Novilíngua; consultada em: 18/9/2013).

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