5 Sistemas agroflorestais e recuperação

Ontem à noite, na apresentação do mais recente rebento de Wervel – o livro Legal! – na loja Flor do Ipê, estavam presentes alguns jovens do Grupo Semente. É uma pequena ONG, que busca preservar a riqueza de sementes na Chapada dos Guimarães e pratica a agricultura ecológica.

A Chapada dos Guimarães é um local bastante popular do ponto de vista turístico. É um planalto, onde a temperatura é bem mais amena do que na quase intoleravelmente quente capital de Mato Grosso. Assim sendo, muitas pessoas da classe média de Cuiabá possuem lá uma segunda casa, para onde elas vão nos fins de semana, para se refrescar e descansar. Ao mesmo tempo, ocorre um despovoamento no planalto. Onde, algumas décadas atrás, ainda havia muita agricultura familiar, agora a natureza reclamou de volta a sua parte. Se você observar de perto, ainda dá para ver onde os sítios se localizavam. É um claro ganho para a natureza, mas uma perda para uma agricultura próxima, familiar e ecológica.

Aqueles que fazem a conversão

Felizmente, algumas pessoas persistem. Não é por acaso que são aqueles que trilham novos caminhos. Ou melhor, os que combinam a sabedoria milenar com novos conhecimentos agrícolas. Eloir Bernardon consegue reunir um grande número de pessoas em torno de seu projeto agroflorestal no sítio Jamacá (1), uma propriedade no meio da natureza restaurada e no final de uma estrada com outras propriedades, quase todas abandonadas. Até alguns anos atrás, Eloir possuía uma bem-sucedida produção de hortaliças. Os restos das estufas são testemunhas dessa época.

Há alguns anos, ele mudou de rumo e guardou o arado para iniciar um engenhoso sistema agroflorestal. Agora, a propriedade fornece seus produtos para, entro outros, um restaurante ecológico em Cuiabá, ao qual também está vinculado o Instituto Centro de Vida.

 

Na Bélgica/Europa, a ONG Wervel está promovendo os sistemas agroflorestais (2) à sua maneira, mas as condições tropicais são totalmente diferentes daquelas do nosso clima temperado. Essas condições distintas pedem uma abordagem diferente, voltada para as aptidões regionais. Eloir e seus companheiros plantam linhas com dezenas de espécies de plantas e árvores, todas misturadas. Também há sempre o capim-elefante, que é regularmente cortado para servir como adubo. As diferentes espécies se apoiam ou se sucedem. Quando, por exemplo, a bananeira se esgota, já há outra árvore ou planta frutífera pronta para assumir seu lugar. Eu não ouso enumerar a diversidade. O leitor neerlandês não seria capaz de acompanhar.

Aqueles que abrem o futuro

“Eloir e seus companheiros?” Para o Grupo Semente, é uma espécie de porto seguro. O grupo se reúne mensalmente. Lentamente, constroem um centro ecológico (3), no qual os grupos e os indivíduos podem ir. Por exemplo, Antoinette Brouyaux, da organização belga Associations 21, vai se hospedar lá, depois da Rio+20.

Várias vezes por ano são ministrados cursos para ensinar a implantar esses sistemas agroflorestais e de permacultura. Bem bolado, porque durante esses cursos eles implantam novas linhas, pelas quais, posteriormente, muitas pessoas se sentem responsáveis e envolvidos. Além disso, eles podem acompanhar as evoluções no decorrer dos anos e estudar os resultados para aprender ainda mais.

 

Se você acompanha o jogo político e as chantagens em Brasília a respeito do “Código Florestal”, há muitos motivos para ser pessimista. As milhares de iniciativas na base, no Brasil e no mundo (4) nutrem a esperança de que há um futuro para a agricultura realmente sustentável.

 

Chapada dos Guimarães, 14 de abril de 2012.

(1) No Brasil há muita atividade relacionada com sistemas agroflorestais em diferentes contextos (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica). Um pioneiro dos sistemas agroflorestais na Mata Atlântica é a Cooperafloresta (www.cooperfloresta.com; www.agroflorestar.org.br). Em suas camisetas está escrito: “Agroflorestar, semeando um mundo de amor, harmonia e fartura. Cooperafloresta, união de gentes e natureza”.

(2) Veja: www.agroforestry.be. O site inclui o filme que distribuímos: Agroforestrie. Produire autrement (Agrofloresta. Produzir diferente). No DVD, você pode escolher o idioma em que deseja ver o filme (neerlandês, francês, inglês ou português). O site da União Europeia é: www.agroforestry.eu

(3) Veja também Ecocentro: onde Pantanal, Cerrado e Amazônia se encontram, no livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(4) Veja também: tegenlicht.vpro.nl/afleveringen/2011-2012/Groen-Goud.html

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