4 Elefante branco?

No assim chamado “Terceiro Mundo” – ou o “Sul”, desde 1989 –, há muitos “elefantes brancos”: projetos nos quais um país doador injetou muito dinheiro, mas que não eram exatamente desejados pela população local. Muitas vezes, trata-se de construções ou máquinas caras que, em um curto espaço de tempo, passam a definhar.

Há muito tempo que o Brasil não faz mais parte dos 18 países pobres que a Bélgica diz apoiar. É um dos “países emergentes” e deve, portanto, “se virar” sozinho. Ele é poupado de “elefantes brancos europeus”. Isso seria uma grande vantagem se o país não tivesse problemas com a disputa de poder e a oposição de potentados locais e outros.

Boicotar

Tomemos por exemplo o Centro de Pesquisa e Formação Olga Benário Prestes, que nós estamos visitando hoje. Nós? Sim, Fábio Nolasco, professor de agricultura tropical da Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiabá, e eu. Fábio é um dos poucos nesse estado que tenta criar uma ponte entre a universidade e os movimentos sociais.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) necessita de centros de formação para seus integrantes. Eles conseguiram convencer o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a construir um grande centro de formação em um assentamento em Várzea Grande, próximo a Cuiabá. Sem ouvir o MST, um empreiteiro construiu uma grande estrutura de concreto. Dificilmente você poderá dizer que foi construído a partir de materiais ecológicos, logo agora, num momento em que há muita atividade no Brasil em torno de construções ecológicas (argila, bambu e outros materiais). O Incra nunca verifica quais materiais eram usados ou se os cálculos sobre o que finalmente foi injetado estavam corretos. De qualquer modo, a empresa teve um bom ganho.

A construção está pronta desde 2008; porém, por meio de boicote e várias outras manobras de atraso, os fundos operacionais necessários para realizar os cursos não foram disponibilizados. O acabamento também deixa muito a desejar, e não foram providenciados camas e móveis para a biblioteca.

Ocupar

Há quatro anos algumas pessoas moram no edifício para fazer a manutenção do local do melhor modo possível. Se eles não ocupassem o prédio, eles o perderiam em pouco tempo. É um pouco parecido com as ocupações de terra que o MST é obrigado a fazer: ocupar para conseguir terra. Enquanto isso, com pouco ou nenhum recurso, eles conseguem fazer belas mesas e cadeiras para o refeitório e armários para a biblioteca. Ocasionalmente, eles conseguem requerer um lote de madeira apreendida, extraída ilegalmente da Floresta Amazônica. De vez em quando, há atividades de capacitação, porém ainda muito abaixo do potencial do centro.

 

Será que precisam aguardar as próximas eleições? Ou um novo diretor regional do Incra?

Até lá, a Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiabá, tenta romper o boicote realizando alguns de seus seminários no local e, quem sabe, instalar um curso de agronomia. No que depender do professor Fábio, isso poderia representar um início de solução para o impasse.

 

Cuiabá, 13 de abril de 2012.

 


Agronomia: paradigmas em conflito

Um fenômeno interessante está acontecendo nas instituições públicas de ensino superior, ao menos na UFMT (campus de Cuiabá-MT-Brasil), onde estou docente. Está cada dia mais evidente que, em média, os discentes estão se tornando mais respeitosos, sérios, dedicados, pontuais e menos relapsos em suas relações no mundo acadêmico, apesar do deficitário hábito médio de leitura. Antes da adoção do regime de cotas, era bem maior o índice de estudantes humilhadores, prepotentes e arrogantes frente a docentes e colegas mais pobres, ou com menos sinais exteriores de riqueza, tais como carro, roupas de grife, aparelhos eletrônicos, idiomas estrangeiros e “papos” (farras-feitos-viagens). É provável que o atual regime de cotas para negros, indígenas ou discentes originados de escolas públicas seja o responsável por essas transformações. Assim, parece que o propósito de inclusão social do governo federal está surtindo outros efeitos, além do maior acesso de filhos de pobres à universidade.

O curso de agronomia da UFMT é famoso por se dedicar à geração de profissionais para lidar com o agronegócio (empresarial) e não para a agricultura (campesinato). Vale lembrar que este último representa mais de 70% do número de famílias do campo, do abastecimento interno de alimentos (mais livres de agroquímicos) e dos empregos rurais, apesar de usar menos área e de usar os solos de menor capacidade de uso.

Sendo assim, ficam os discentes pobres (até filhos de camponeses) à mercê da lógica do paradigma convencional de produção (monocultural, oligogenético, agroquímico, mecanicista, excludente etc.). Se algum estudante possuir o sonho de se dedicar aos problemas da maioria, da proteção ambiental, da produção de alimentos limpos, da inclusão e distribuição de renda-terra-poder-informação aos mais marginalizados do campo, terá bastante dificuldade. As mudanças na matriz curricular em andamento, não meramente reformistas, não impactam de forma revolucionária, com mudança de foco, de paradigma e de objetivos… Ou seja, só reforçam a modernidade conservadora da Revolução Verde.

Muitas das crises agrícolas planetárias induzidas pelo homem têm origem, entre outros: na matriz fornecedora de energia e de recursos em vias de esgotamento; nas desiguais relações de troca cidade-campo, ou Norte-Sul, ou desenvolvidos-subdesenvolvidos; na dependência de fornecedores externos de crédito, insumos, energia, serviços e informações; na submissão a políticas ditadas por grupos de interesse econômico oligárquicos; na busca de soluções inovadoras sem mudança de paradigmas. Enfim, são as crises arquitetadas pela “modernidade conservadora”. Nela, as relações de dependência permanecem inalteradas. Trocam-se os tipos de “insumos e ferramentas”, mas os fornecedores são os mesmos. Troca-se a “tecnologia”, mas os royalties ficam nas mesmas mãos.

No que tange ao papel dos profissionais de ciências agrárias, por exemplo, é imperioso conceber novas formas de se produzir, processar, armazenar, abastecer com produtos do campo, e novos modos de se relacionar com os consumidores, cidadãos urbanos e rurais.

Os consumidores-cidadãos-eleitores, cada vez mais exigentes quanto aos impactos desse modelo hegemônico de produção subserviente, degradador ambiental e poluidor dos alimentos, passam a ter atitudes crescentemente discriminatórias (até com boicote) com relação às irresponsabilidades sociais dos produtores, dos técnicos e das ciências que os formam e apoiam. Porém, a deliberada deificação atual da “ciência acadêmica” – subliminarmente colocada pela mídia, por organizações de marketing e até por governos – prenuncia os tipos de manipulações que estão emergindo. Explicitamente, reforça-se o fatalismo do poder do “deus mercado”, ampliando ainda mais suas garras, em desfavor da maioria consumidora inconsciente ou impotente. Reforça-se, então, o esquema de manipulação do sistema de “ciência e tecnologia”, criando necessidades (produtos e serviços) usadas para explorar-alienar-concentrar bens, lucros e poderes. As instituições públicas permanecem, assim, a serviço “de quem”? Mesmo as parcerias público-privadas acabam induzindo, portanto, a buscar por “mudanças” que não alteram as relações de poder e de troca, ou seja, agem como meros “panos quentes reformistas”. Muitas inovações se configuram como meras maquiagens, alterações superficiais ou troca de visual, mas sem torná-las socialmente empoderadoras, ambientalmente limpas e economicamente justas. Sem mudança de paradigma, a “inovação” pode ser simplesmente discurso de marketing: “ouro de tolo”.

A crise pela qual passa a universidade brasileira nos remete, portanto, à necessidade de mudanças de paradigmas – ou seja, de revolução científica, de pesquisa extraordinária e não de “reforma”, de pesquisa normal, dentro dos cânones convencionais hegemônicos. Esse modo vigente de pensar reforça a histórica acumulação de poder e recursos nas mãos das multinacionais (máquinas, insumos, genes) e outros grupos de interesse (crédito, processamento, transporte, tradings etc.), impondo aos produtores níveis intoleráveis de dependência externa. O desafio hoje colocado aos profissionais da agronomia pelos setores mais democráticos e críticos está basicamente em superar o modelo monocultural-químico-oligogenético-mecanicista-excludente-dependente-escravizante-poluidor e buscar um processo policultural-orgânico-multigenético-organicista-includente-autonomicista-libertador-preservador do valor biológico dos alimentos, solo, água e seres vivos. Portanto, novas concepções de agricultura exigem “inovações reais”, ou seja, profundas, que promovam a quebra de paradigmas das escravizantes formas de se produzir (alimentos, fibras, energia, minerais etc.), especializadas em submeter o campo aos ditames da cidade, da indústria e dos setores neoescravagistas (financeiro, tradings, indústria química etc.).

A própria agricultura convencional (agronegócio), por exemplo, está refém de interesses externos ao campo, numa forma explícita de um novo tipo de escravagismo consentido, legalizado e rotulado de “moderno” – e até de “sustentável”. À semelhança dos famosos casos de escravidão na Amazônia, esses produtores dependem dos mesmos grupos econômicos que “fornecem os insumos de custeio” e “compram seus produtos”. Por seu gigantismo e sua sanha desenfreada de lucro, é evidente que manipulam os preços “antes e depois da porteira”, por meio de jogos de informações, de especulação em bolsas de mercadorias e de valores. Provavelmente, dominam hoje os imateriais territórios públicos de crédito, de vigilância, de pesquisa e apoio à pesquisa, dos recursos genéticos e talvez… do ensino. Para sair desse círculo vicioso, não bastam medidas paliativas fornecidas pela “pesquisa normal do paradigma vigente, com reforma e melhoria do sistema”, é necessário que se quebrem muitos paradigmas e se faça emergir uma nova matriz: libertadora, ética e inclusiva.

As instituições de ensino superior deveriam assumir alguma responsabilidade nessa libertação? Quais os papéis dos profissionais mais exigidos hoje pela sociedade? Quais os papéis dos docentes e gestores nos processos de ensino-pesquisa-extensão, para formação de profissionais protagonistas, consequentes e responsáveis? Afinal, as IES públicas deveriam ficar do lado de quem? Servir a quem? Somente à lógica do “mercado”? Até quando? A crescente dependência dos produtores a fornecedores externos não estaria levando também os países à perda de soberania sobre os territórios hipotecados? A ciência e a tecnologia poderiam ou deveriam ajudar a reverter esse quadro?

Para responder a essas perguntas é importante refletir: o conceito de “paradigma” é dominado por todos? É generalizado o conhecimento de como os paradigmas influenciam nossos processos de ensino-aprendizagem? Temos coragem para romper com modelos obsoletos e viciados? Estamos abertos para criar e instaurar “o novo”? “Inovação” com que sentido, impacto ou finalidade? Bastaria chamar de “inovação” e pronto? A quem se quer enganar? Por quanto tempo?

Afinal, existiriam ainda outros sinais de que nosso sistema de ciência e tecnologia precisa se transformar? O mundo do trabalho, as populações e consumidores estão atualmente demandando profissionais com perfis diferentes de outras épocas? As transformações científicas, tecnológicas, sociais, culturais e legais passaram a exigir agentes com novas características? As “responsabilidades sociais” das empresas implicariam em novas competências dos trabalhadores? Os “sistemas de certificação e rastreamento” impõem novas habilidades dos egressos das instituições de ensino superior? As IES públicas brasileiras já se inteiraram de novas legislações, como o Decreto Federal nº 7.794, de 20 de agosto de 2012, que institui a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, que se adéqua às condições de mais de 70% dos agricultores brasileiros? As matrizes curriculares das universidades estão se ajustando para atender às exigências legais de sanidade, segurança e soberania alimentar?

Dentro da academia – a agronômica em especial –, os objetos considerados relevantes para estudo, dedicação e pesquisa não são as demandas do povo, dos pobres e dos campesinos. São as dificuldades dos latifundiários para sua expansão de territórios materiais e imateriais, para competir, lucrar e dominar os espaços “permitidos” pelas tradings e corporações transnacionais (financeiras, de transformação, sementeiras-fertilizantes-venenos-remédios humanos e outras coligações nefastas aos interesses das populações do planeta). Miragens projetadas pelos escravocratas?

Emergem, portanto, muitas questões. Qual a porcentagem de docentes que domina essas questões, dos seus papéis nas academias? Quantos dominam os conceitos e a aplicabilidade da teoria das habilidades ou inteligências múltiplas? Quantos são plenamente conscientes da importância de se conhecer as próprias potencialidades profissionais? Quantos já compreenderam as mutantes exigências profissionais do “mercado de trabalho”? Quantos percebem a magnitude dos impactos das forças das matrizes paradigmáticas individuais e coletivas? Existiria “massa-crítica” nas IES para mudar? Existem forças empenhadas para que isso não ocorra? Seria importante que os discentes também estivessem cientes disso? Quando deveriam ser informados e alertados desses processos: antes, durante ou depois de adentrarem a academia? Poderia isso diminuir as crises de relacionamento, esclarecer problemas existenciais, reduzir os índices de evasão-abandono de curso e consequentes vagas ociosas? A melhor compreensão geral dessas questões poderia reduzir alguns entraves advindos de egos inflamados, de diálogos truncados ou de estilos de administração-visão-postura? A melhor decodificação desses campos poderia tornar mais harmoniosa, produtiva e prazerosa as vidas acadêmica, profissional e pública? Qual seria a economia de recursos materiais, financeiros e humanos para os poderes públicos, comunidades e famílias pela redução dos índices de evasão e de vagas ociosas? Os poderes públicos se interessam?

Cremos que sim… mas o que fazer? Quem fazer? Como fazer? Seria possível, desejável e viável melhorar os níveis de autoconhecimento pessoal e de esclarecimento sobre os papéis sociais das profissões? Seria prudente criar e instaurar sistemas que forneçam pistas sobre tendências quanto ao potencial profissional, acadêmico e funcional das pessoas, especialmente de pretendentes a vagas em universidades? São conhecidos os perfis e as exigências dos cursos? Poderiam esses sistemas apoiar processos decisórios nas buscas por bolsas, monitorias, cursos, grupos de estudo-pesquisa-extensão, estágios, treinamentos?

Como tornar as universidades públicas em ferramentas de paz e justiça social se não houver mudanças de paradigmas no escopo dos conhecimentos que são objeto de seus estudos? Até quando manter estruturas dedicadas a um modelo tendencioso de agricultura e desenvolvimento? Até quando continuar conduzindo jovens pobres para servir ao “mercado”, por meio das corporações transnacionais, geralmente contrárias aos interesses da humanidade?

 

Prof. Fábio Nolasco (fabionol@gmail.com)

Agrônomo, Doutor em Fitotecnia.

Universidade Federal do Mato Grosso, Cuiabá.

 

Esta é uma versão resumida do texto de 11 páginas. A íntegra do texto (com muitas referências) pode ser lida em português na página motiro.org/sustentabilidade De tekst staat er niet op…

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