37 O círculo está completo: manteiga francesa no Rio

Por causa da busca por conquistas de Napoleão, a família real portuguesa fugiu no início do século XIX para o Rio de Janeiro. Navios britânicos providenciaram a partida e uma travessia segura. Por esse serviço, muito outro brasileiro fluiu para a Inglaterra.

Paris: Cidade das Luzes até no Brasil

Ainda assim, no século XIX não havia ressentimento contra a França, a língua francesa e a cultura francesa. Pelo contrário, Paris era um farol para a elite brasileira. Francês era chique e também o idioma utilizado nas conversas, um pouco semelhante àquilo que acontecia no início do século XX, em Flandres, região da Bélgica onde se fala o neerlandês.

A Coroa Portuguesa a passou para os dois imperadores brasileiros, no século XIX. A língua e a cultura francesa não eram estranhas para eles.

Agora, a China determina o mercado de luxo

Até a década de 1990, os brasileiros ricos precisavam ir a Londres e Paris para comprar os artigos de luxo que combinam seu status. Desde o início do século XXI, você encontra em São Paulo lojas mais caras do que na Europa. Ou seja, eles não precisam mais voar para suprir as suas necessidades urgentes. Um helicóptero particular é suficiente para se deslocar em São Paulo. A Europa continua sendo uma referência e o Velho Continente ainda é visitado regularmente. Mas os brasileiros estão sofrendo forte concorrência das classes média e alta da China. Um estudo recente da Ban & Companhia mostra que um em cada quatro produtos de luxo em todo o mundo, e praticamente um terço dos bens de luxo produzidos na Europa, são vendidos para um consumidor chinês. McKinsey & Company informa que dois terços dos consumidores de luxo na China continental viajam para o exterior para fazer suas compras – em parte, para contornar o imposto chinês de 37% sobre mercadorias de luxo. Em 2005, a Organização Mundial do Turismo previu que, por volta de 2020, haveria cerca de 100 milhões de turistas chineses. No entanto, em 2012, cerca de 80 milhões de chineses viajaram para o exterior. O número de 100 milhões será alcançado muito mais rapidamente. De qualquer modo, são muito mais consumidores do que o Brasil poderá enviar algum dia.

President

Não apenas roupas ou perfumes se tornaram onipresentes. Nos supermercados do Rio de Janeiro, agora se faz promoção para President. Você sabe, aquela manteiga boa, que você encontra em qualquer hotel europeu que se preze…

 

Porém, em minha opinião, é um mundo um pouco doido: vacas francesas que precisam se alimentar de soja vinda de Lucas do Rio Verde. Florestas que foram destruídas, aviões para pulverizar veneno sobre o ouro verde. Os povos indígenas e os pequenos agricultores que são expulsos e envenenados lentamente (1). Um caminhão que, até chegar ao porto de Paranaguá, percorre 2.450 km emitindo CO2 e fuligem. Navios que transportam a soja para a região da Bretanha, na França. Vacas holandesas que convertem grama, soja e milho em leite. Leite que é convertido em manteiga. Navios-frigoríficos que transportam President para o Brasil. Quem sabe, de vez em quando, um avião. Supermercados que promovem a manteiga francesa em detrimento da manteiga brasileira…

Vocês estão comendo o nosso Cerrado

A professora Irene Cardoso, recentemente, exclamou em Wageningen: Vocês, holandeses, estão comendo o nosso Cerrado e bebendo a nossa Mata Atlântica. E também: Nós não precisamos de soja. Vocês precisam dela. Ela explicou que 46% de toda a soja produzida no Cerrado brasileiro vai para a Holanda. Com ela são alimentadas, entre outras, as vacas. O queijo resultante vai parar nos supermercados brasileiros, enquanto os queijos brasileiros de leite cru não podem ser comercializados. Cerca de 80% do suco de laranja também vai para a Holanda e para a Bélgica.

É por isso que Irene defende outra agricultura, diferente daquela pela qual a maioria dos seus colegas em Wageningen é conhecida. Ela é professora de ciências do solo na Universidade Federal de Viçosa (Minas Gerais) e vice-presidente da Associação Brasileira de Agroecologia. Ela dá assistência técnica a agricultores com projetos agroflorestais interessantes na Mata Atlântica (ou o que ainda resta da Mata Atlântica na costa brasileira).

Celulose para os nossos lenços descartáveis

A manteiga President, no Rio de Janeiro, desperta a imaginação, mas será que outras cenas no comércio mundial são mais normais (?): leite em pó de vacas europeias alimentadas com soja brasileira para o Senegal (2); coxas de frango holandês e brasileiro em Camarões (3); o etanol de cana-de-açúcar do Mato Grosso do Sul para os carros verdes em Bruxelas (4); reflorestamentos de eucalipto na Bahia para celulose destinada a consumidores europeus (5); peras de Flandres para a China (ainda não há um filme sobre isso!); soja de fazendeiros brasileiros em Moçambique para suínos na China (deve ser registrado em filme urgentemente) etc.

 

E, assim, você já tem uma lista dos filmes que usamos durantes as viagens pelo Brasil.

 

Rio de Janeiro, 23 de abril de 2013.

(1) Três curtas-metragens de Wiek Lenssens (www.wieklenssenfilm.nl) sobre a interdependência da soja brasileira e da carne na Holanda. Os links se encontram na crônica anterior, Química e obesidade?, neste mesmo livro.

(2) A vaca 80 tem um problema, um DVD das ONGs Vredeseilanden, Wervel, Oxfam-Solidariedade e parceiros estrangeiros (em cinco idiomas).

(3) Anomalia aviária, um filme de ONGs europeias ligadas a igrejas evangélicas.

(4) O lado sombrio do verde, um filme de An Baccaert sobre a produção de etanol e a situação dos guaranis no Mato Grosso do Sul.

(5) Sustentável no papel, um filme de An-Katrien Lecluyse e Leo Broers sobre eucalipto no Brasil para o mercado europeu.

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