36 Química e obesidade?

Quem viaja pelo Brasil encontra mais e mais pessoas com problemas de obesidade. É uma verdadeira epidemia, não só nos Estados Unidos, mas também na China, na África e no Brasil.

Ao longo dos anos, muitas foram as teorias para esclarecer o fenômeno. Uma que me parecia muito plausível é a relação entre o consumo excessivo de refrigerantes com xarope feito a partir do milho. Um americano de origem francesa, William Reymond, publicou um livro interessante sobre o assunto (1).

Obesogênico

Uma nova e alarmante pesquisa vem de Bruce Blumberg, biólogo do desenvolvimento na Universidade da Califórnia, em Irvine, que também formulou uma tese. Em um artigo de 2006, ele cunhou pela primeira vez o termo “obesogênico”. Inicialmente, sua descoberta foi altamente controversa, mas agora é confirmada por mais e mais estudos. Trata-se dos assim chamados “perturbadores hormonais”. Eles perturbam a sintonia do corpo. Inicialmente, a principal preocupação era que eles poderiam causar câncer e desvios nos órgãos sexuais. Essas preocupações permanecem, mas agora são 20 produtos químicos que causam obesidade: substâncias em plásticos, em alimentos enlatados, em produtos químicos agrícolas, na espuma de colchões e em querosene. Um estudo trata, por exemplo, de triflumizole, um fungicida muito utilizado na horticultura. Ele gera obesidade em camundongos.

As mulheres grávidas e as crianças

Um novo estudo publicado na revista Environmental Health Perspectives [Perspectivas da Saúde Ambiental] sugere que perturbadores hormonais às vezes podem ser adicionados em produtos de PVC. Em camundongos, eles provocam problemas de obesidade e no fígado. O efeito se propaga de geração em geração nesses animais. Outro estudo descobriu que as mulheres com resíduos de agrotóxicos no sangue dão à luz bebês que, após 14 meses, tendem a estar acima do peso. É de conhecimento geral que a exposição a várias substâncias tem seu maior impacto durante a gravidez e na puberdade.

O emblema da indústria de rações europeia: Lucas do Rio Verde

Precisamente, este é o tema central do DVD (2) que usei durante esta turnê. No ano passado, recebi um telefonema do cineasta holandês Wiek Lenssen. Ele precisava fazer, com urgência, um filme sobre soja e a interdependência da pecuária holandesa com a monocultura de soja no Brasil.

Resposta: “A soja acabou de ser colhida. No momento, seu projeto é impossível.”

Mesmo assim, Wiek foi para Mato Grosso e fez três curtas-metragens sobre “soja, sem soja”. Você é confrontado, principalmente, com desertos que, poucas semanas atrás, estavam cobertos com o “ouro verde”. O primeiro curta é sobre o que acontece com os guaranis, enxotados pela soja. O segundo trata dos inúmeros resíduos de agrotóxicos no sangue de mulheres grávidas. A terceira contribuição dá a palavra aos pequenos agricultores, que tentam praticar a agricultura orgânica no contexto da envenenada Lucas do Rio Verde. Para o segundo curta, ele conversou com o professor Pignatti, da Universidade Federal de Mato Grosso (Cuiabá). O professor Pignatti realizou, em Lucas do Rio Verde, uma pesquisa convincente sobre o impacto negativo do excessivo uso de agrotóxicos na produção de soja. É interessante o que o homem revela, pois esse município é justamente o emblema da soja “responsável” na Europa.

Comovente debate na TV

Durante um concorrido debate na TV (3) na Floriade, em Venlo, os três curtas-metragens foram apresentados. Além de representantes do setor de alimentação animal, dos sindicatos de agricultores, ambientalistas e consumidores, os brasileiros que aparecem no filme também estavam presentes: Genito Kaiowá, guarani; Nilfo Wandscheer, um pequeno agricultor brasileiro, e Giba Vieira dos Santos, da ONG brasileira Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Juntamente com o representante de Wervel, eles travaram um debate com a indústria holandesa de alimentação animal e de carne. Foi uma experiência inesquecível para todos. Legal! Mas, também, cheia de emoção contida.

 

Estou muito curioso para saber se o lobby da Mesa-Redonda sobre Soja Responsável vai querer enfrentar essas verdades. Em textos e discursos, Wervel (4) tenta, há anos, desmistificar essa grande mentira. Talvez imagens com o depoimento das vítimas tenham mais impacto.

Comprem alimentos orgânicos

A revista Scientific American (5) perguntou recentemente quais médicos fariam mais esforços para alertar gestantes sobre certos produtos químicos. A pesquisa mostra que apenas 19% dos médicos destacam o perigo de agrotóxicos para as mulheres grávidas, 8% destacam BPA (um perturbador hormonal em alguns plásticos) e apenas 5% falam de ftalatos (encontrado em cosméticos e xampus). O pioneiro dr. Blumberg recomenda enfaticamente que as pessoas comprem alimentos orgânicos, para prevenir os riscos de perturbação hormonal. Isso se aplica especialmente às mulheres grávidas e às crianças. E ele acrescenta: “Evite plásticos para armazenar alimentos ou água.”

 

Durante décadas, o lobby da indústria do tabaco conseguiu bloquear as informações sobre os perigos de fumar e evitar a proibição do cigarro em áreas públicas. Quantas décadas serão necessárias para desmistificar as mentiras mortais da indústria química?

 

Rio de Janeiro, 22 de abril de 2013.

(1) REYMOND, William. Giftig. Zwaarlijvigheid, ongezonde voeding, ziekten: onderzoek naar de ware schuldigen [Tóxico. Obesidade, junk food, doenças: investigando os verdadeiros culpados]. Breda, Holanda: De Geus, 2008.

(2) 1. Posseiros da terra: vimeo.com/user13714409/review/60578395/29001226d2 [em português]

2. Grãos batizados: vimeo.com/user13714409/review/60597051/03e3f073f4 [em português]

3. Pequenos agricultores: vimeo.com/user13714409/review/60634491/73257800cb [em português]

(3) O debate de 1º de outubro de 2012 foi ao ar no dia 21 de marco de 2013, na TV Limburg, e pode ser lido em: www.behouddeparel.nl/cms/?q=node/3274. Poderá ser visto também em: www.wieklenssenfilm.nl (clique em “duurzaam varken” [porco sustentável]).

(4) Veja: www.wervel.be/soja

(5) As informações vêm, entre outras, de Nicholas D. Kristof: twitter.com/NickKristof

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