35 “Rei Carro”, o caçador de recursos naturais

Há anos Wervel fala do “Rei Carro” e do “Imperador Presunto”: os dois símbolos máximos da nossa sociedade ocidental. E com a explosão do tráfego aéreo internacional, talvez devêssemos acrescentar algum dia a “Rainha Aeronave”.

Símbolos ocidentais globalizados

Os símbolos são agora democratizados e globalizados. Por ora, vamos nos ater ao carro. Além do fato de a fabricação de um carro consumir mais energia do que a que ele utilizará durante sua vida útil, ele é também – e principalmente – um devorador de recursos naturais. Tradicionalmente, esses recursos naturais são fornecidos pelo Hemisfério Sul para o Norte. Até hoje ainda é fato que a União Europeia reivindica matérias-primas da África e de outras regiões, mas agora o próprio Hemisfério Sul está começando a fazer uso dos carros massivamente.

Os brasileiros gostam de engarrafamentos?

Tomemos, por exemplo, o Brasil. Devido a algumas intervenções do governo Lula (menos imposto sobre a compra do carro, facilidade de crédito), todos os dias milhões de brasileiros passam horas em engarrafamentos. Há cinco anos você ainda conseguia se deslocar facilmente em uma cidade como Goiânia. Agora você fica constantemente parado. Em Florianópolis, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília não é diferente. Brasília que, desde o início, era uma cidade futurista, foi integralmente projetada para o carro. Recentemente, participei de uma reunião realizada na casa de uma família de classe média com três filhos. No total, havia cinco carros. Cada um tinha seu próprio carro particular. No entanto, a noite era para tratar de “outra sociedade”. Eu não sabia para onde olhar primeiro. “Outra sociedade?” Será que não deveríamos, primeiramente, lidar de modo diferente com os nossos símbolos?

 

Em São Paulo se tenta combater os engarrafamentos com o rodízio: um dia podem circular os veículos com determinadas placas; nos dias seguintes, os demais. Resultado: cada família de classe média tem, pelo menos, dois carros. Engarrafamento total assegurado. Felizmente, há um bom sistema de metrô.

De alumínio a zircônio

Como vamos suportar isso nos próximos anos? A Europa copiou o “modo de vida americano” e, agora, o resto do mundo copia o “modo de vida americano-europeu”.

Os carros consomem cada vez mais materiais, tanto em volume quanto em diversidade. Quantos materiais? Isso os fabricantes mantêm em segredo. Eles nunca contam tudo, de “a” (alumínio) a “z” (zircônio), de que seus carros são feitos. Raf Custers fez muita pesquisa e lançou seu livro revelador, Caçadores de recursos naturais (1).

 

Um carro médio contém cerca de uma tonelada de ferro/aço e mais de cem quilos de alumínio. A tendência mais notável é para o cobre. Os carros modernos estão cheios de cobre. Atualmente, há um quilômetro de meio de cobre em um carro. Isso é 30 vezes mais do que em um carro da década de 1940. Além disso, ainda é possível encontrar muito cobre em motores e geradores elétricos, em baterias para carros “verdes”. O cobre vem, entre outros, da Zâmbia e do Congo.

Metais terrosos raros

Há mais de uma dúzia de minerais e metais comuns em um carro, mas se você computar os materiais mais raros, chega-se facilmente a 60 componentes. São especialmente matérias-primas não renováveis de origem mineral. Sobre os metais terrosos raros, sabe-se que podem ser encontrados principalmente na China. Como “fábrica do mundo”, a própria China precisa desses metais terrosos e, recentemente, pisou fortemente no freio sobre as exportações dessas commodities. Será que isso vai parar a produção de automóveis, telefones celulares e computadores num futuro próximo? Ou será que a reciclagem que está começando em multinacionais como Umicore se tornará uma nova forma de mineração?

 

Os estoques de matérias-primas na crosta terrestre são finitos. Portanto, é preciso utilizá-los com extrema moderação. Gradualmente, a reciclagem está sendo iniciada, mas esses estoques ainda provêm, geralmente, das clássicas minas primárias. Essas minas se localizam fora da Bélgica e, para a maioria dos minerais, fora da Europa também (2).

Agricultura, mineração, espoliação

As mudanças estão ocorrendo devido ao comportamento imitador do Sul; porém, até agora, metade de todo o petróleo produzido e outros minerais serão absorvidos pelas economias e indústrias ocidentais (os assim chamados países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE). O rico Hemisfério Norte ainda consome a maior parte das matérias-primas, mas essas são produzidas no Sul.

No Sul, a exploração é feita principalmente por empresas ocidentais. Para elas, o negócio muito lucrativo, com um retorno total sobre o investimento de 39% para as dez maiores empresas de mineração ao longo da última década. Em troca, o Sul recebe muito pouco. É que, localmente, as empresas ocidentais não promovem desenvolvimento. Ao contrário, para garantir seus interesses e os de seus proprietários/acionistas, eles dificultam esse desenvolvimento. É comparável à invasão das monoculturas de soja ou de eucalipto. Elas também mal criam trabalho nas regiões que ocupam. Afinal, trata-se da mesma atitude básica de roubo: agricultura e silvicultura na forma de mineração primária.

 

Mais e mais países da África e em outras partes do Sul reivindicam a sua parte nos lucros. Quando o fazem, são acusados de praticarem a “nacionalização de recursos naturais”. Eles seriam egoístas, afugentam os investidores e se excluem da economia global.

Quem é egoísta?

Em princípio, esses países devem poder dispor de suas próprias riquezas naturais. Na prática, esses direitos são limitados em benefício de e pelos interesses ocidentais. Os “egoístas” são ameaçados por empresas e bancos, como Barclays, BlackRock e De Beers. Não são empresas insignificantes. O Fundo Monetário Internacional adia o cancelamento de dívidas para os países que não “andam na linha”. São inúmeros os exemplos de lobbies de empresas, de credores internacionais e dos assim chamados “parceiros comerciais” que atuam contra a soberania.

A Europa enfrenta um dilema. No nosso continente, as fábricas necessitam das matérias-primas, mas os países de onde elas vêm querem utilizá-las para seu próprio desenvolvimento. Isso é o seu pleno direito. A África concluiu que os recursos naturais são o núcleo da continuidade de seu desenvolvimento. Já em 2009, essa visão foi colocada no papel e está sendo absorvida por todos os governos, ainda que seja pouco conhecida na Europa.

A Comissão Europeia se posiciona agressivamente. Ela exige que a Europa deva ter livre acesso – sempre e em todos os lugares – a recursos naturais (= matérias-primas), independentemente das consequências para os países do Hemisfério Sul. Essa política de poder, no entanto, é míope e insustentável.

 

Quem vai fazer a comparação com caça de terras e de biomassa na África? (3) Cana-de-açúcar para etanol e soja para biodiesel/ração animal em mais de 11 países africanos. Ou: como o “Rei carro”, a “Rainha aeronave” e o “Imperador presunto” se encontram na África?

Tínhamos conhecimento disso ou nós não sabíamos?

 

Rio de Janeiro, 19 de abril de 2013. Dia Nacional do Índio (4).

(1) Raf Custers, Grondstoffenjagers [Caçadores de recursos naturais], EPO, 2013.

(2) Veja: www.catapa.be: um movimento interessante, no qual muitos voluntários trabalham em torno dos efeitos da extração de minérios no Hemisfério Sul destinados às indústrias no Norte.

(3) Veja: Chineses vêm, brasileiros vão (a invasão de soja em Moçambique e outros países africanos), em Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(4) Muitos povos indígenas estão sob forte pressão por causa da mineração-sob-forma-de-agricultura. Justamente hoje, uma descoberta excepcional é notícia importante. Em 1967, durante a ditadura militar, o procurador Jader de Figueiredo Correia fez uma ampla investigação sobre a violência e o genocídio dos povos indígenas. Ele chegou a conclusões impressionantes, que foram apresentadas em mais de 7 mil páginas ao tribunal. Os documentos desapareceram. Os culpados, funcionários públicos do então governo e fazendeiros, nunca foram punidos. Durante 45 anos, acreditava-se que o documento explosivo tinha sido queimado em um incêndio no Ministério da Agricultura. Ele agora foi reencontrado quase intacto no Museu do Índio, o museu que recentemente chegou às manchetes internacionais por causa da expulsão dos indígenas, em preparação para a Copa do Mundo FIFA, em 2014. É um espelho sujo para o supostamente não racista Brasil. O filho do misteriosamente acidentado procurador suspira: “Os brasileiros apreciam a violência dos caubóis do Velho Oeste em filmes de Hollywood. O que aconteceu com os índios na América do Norte é café pequeno em comparação com o que aconteceu aqui. Lá as pessoas eram mortas, aqui foi um verdadeiro genocídio. Nazista. Hitleriano.”

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