34 Ciência a serviço da sociedade?

O ano de 1973 foi o da primeira crise do petróleo e do grande “roubo de cereais” (1). Devido a quebras de safra no Vale do Mississipi (EUA), houve uma escassez súbita de soja, milho e trigo no mercado mundial. Coincidência ou não, foi nesse ano que surgiu a Embrapa (2). Isso foi 40 anos atrás, portanto, e não pudemos deixar de notá-la.

Ciência a serviço de qual modelo agrícola?

A Embrapa é um pássaro com duas asas muito desiguais: uma asa gigante, a serviço do agronegócio, e uma pequena asa para apoiar a agricultura camponesa.

Na edição de abril de sua própria revista, percebe-se concretamente a desproporção entre as asas. Há um pequeno – mas interessante – artigo sobre os ribeirinhos da Amazônia e seus conhecimentos da biodiversidade. Por outro lado, há um artigo muito mais extenso sobre a pesquisa da Embrapa no mundo da nanotecnologia e da biologia sintética (3).

Biodiversidade a serviço de Homo economicus

Neste segundo artigo, o pesquisador Elíbio Rech discorre sobre a enorme biodiversidade do Brasil, mas somente a partir de sua função para o homem. Trata-se de antropocentrismo no superlativo. Tudo a serviço do ser humano. A biodiversidade deste planeta tem valor em si, mas somente se ela pode ser útil para as pessoas e, especialmente, para aumentar a expansão econômica do Brasil. É claro que, na Europa, a mesma atitude prevalece para a maioria dos cientistas. Só que a Europa não conta com uma biodiversidade tão rica. É por isso que há empresas europeias, americanas e japonesas à espreita para roubar genes do Hemisfério Sul e patenteá-los.

Genes de três aranhas brasileiras no algodão

Os pesquisadores da Embrapa, juntamente com os da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade de Brasília (UnB) e do Instituto Butantã, trabalham juntos para produzir em laboratório, por meio de biologia sintética, as teias de aranha de três aranhas brasileiras (uma da Mata Atlântica, uma da Amazônia e uma do Cerrado). Isso porque os fios das teias das aranhas são tão resistentes que eles podem aguentar quatro vezes o peso da própria aranha. Uma aplicação, na qual estão trabalhando atualmente, é inserir genes das aranhas em algodão, de modo que essas fibras sejam quatro vezes mais resistentes.

 

E por que, afinal? A multiplicidade de vida em nosso planeta já assegurou, milhares de anos atrás, a existência do cânhamo. A fibra dessa espécie já é utilizada há 6 mil anos. A fibra é quatro vezes mais resistente do que a de algodão. Além disso, o cultivo de cânhamo para fins industriais aumenta a biodiversidade, enquanto o cultivo do algodão a reduz. O cânhamo não requer agrotóxico, enquanto 26% de todos os inseticidas do mundo são destinados à cultura do algodão. É claro que não se pretende passar da “monocultura do algodão” para a “monocultura do cânhamo”. Isso daria no mesmo, embora, com mais cânhamo e menos algodão, certamente seriam utilizados menos agrotóxicos.

“Bio”fábricas

Os pesquisadores vão ainda mais longe. A produção das teias em laboratórios é um fato. A questão agora é, o mais rápido possível, produzi-las em massa e comercializá-las. A Embrapa pesquisa, agora, a possibilidade de utilizar plantas, microrganismos e animais geneticamente modificados como “bio”fábricas para esses fios. Parece que a soja – sempre a soja – se saiu bem nos testes. A soja geneticamente manipulada Roundup Ready, da Monsanto, pode sofrer mais algumas manipulações para produzir fibras resistentes. O Ministério da Defesa já está interessado! Para “acompanhar” a Revolução Verde, como fizeram nas décadas de 1960 e 1970, durante a ditadura militar?

Pode ser mera coincidência, mas um minuto de busca na internet mostra que o cientista Rech, o “doutor soja”, tem uma boa amizade com os centros de decisão de Monsanto e de sua concorrente BASF. No debate sobre se os agricultores brasileiros ainda terão de pagar royalties à Monsanto após dez anos, ele sempre defende esse gigante da indústria química. É que se os royalties não fossem mais pagos, a Embrapa corre o risco perder de 5 a 10 milhões de dólares para a pesquisa em engenharia genética (6).

Sinergia das multinacionais

Nem uma palavra é dita sobre os interesses (geopolíticos e macroeconômicos) e a sinergia das multinacionais nas aplicações da nanotecnologia (BASF, Bayer, Monsanto, Pfizer, Syngenta, Nestlé, Kraft, Unilever…) e na biologia sintética (Shell, BP, Marathon Oil, Chevron, ADM, Cargill, Bunge, Louis Dreyfus, Monsanto, Syngenta, Dupont, Dow, BASF, Merck, Pfizer, Bristol Myers Squibb, General Motors, Procter&Gamble, Marubeni, Amyris, Athenix, Codexis, Coskata, Genencor, Genomatica, Gevo, LS9, Masoma, Metabolix, Novozymes, Solazyme, Synthetic Genomics, Verenium etc.)

Última frase do artigo: “Nós vamos agregar valor à biodiversidade nacional.”

Obrigado. Quem sabe também poderia pensar em parar a destruição dessa mesma biodiversidade. A produção de soja Roundup Ready, com fibras para a indústria e para os militares, fará com que o Cerrado e outros ecossistemas desapareçam mais rapidamente.

 

Eu continuo a achar estranho que, desde 1996, ocorre um feroz debate internacional sobre os perigos da engenharia genética, mas que poucos estão preocupados com a tecnologia ainda mais radical e concentradora de poder, que está se concretizando. “Nanotecnologia e biologia sintética, nós não sabíamos disso”.

 

Rio Pomba (Minas Gerais), 17 de abril de 2013. Dia Internacional da Luta Camponesa.

(1) Veja Ração animal, uma história de interdependência, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, Curitiba, 2010).

(2) Veja: www.embrapa.br

(3) Sobre nanotecnologia: centroecologico.org.br/novastecnologias/novastecnologias_1.pdf

(4) Sobre biologia sintética: www.centroecologico.org.br; www.etcgroup.org.

(5) Veja também a crônica Neoquímica, compromisso com a vida, em Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(6) Veja: www.nature.com/news/monsanto-may-lose-gm-soya-royalties-throughout-brazil-1.10837

www.monsanto.com/improvingagriculture/Pages/how-are-we-doing-it.aspx

www.zoominfo.com/#!search/profile/person?personId=153655578&targetid=profile

www.myhealthwire.com/news/food/119

Um livro interessante, em alemão, que revela o trabalho de lobby da indústria de biotecnologia, tanto na União Europeia quanto no Brasil: Agro-Gentechnik: Die Saat des Bösen. Die schleichende Vergiftung von Böden und Nahrung. (Lahnstein, Alemanha: Emu-Verlags, 2008). A obra foi editada no Brasil com o título Transgênicos: as sementes do Mal. A silenciosa contaminação dos solos e alimentos. (São Paulo: Expressão Popular, 2008; 2012).

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