Soja: tesouro ou tesoura?

32 Fuligem “do mal”

As labaredas dos incêndios sobem alto no sul do Piauí. O governo dá as boas-vindas aos produtores de soja do Sul do Brasil. Na verdade, quase todos os governos neste país recepcionam com entusiasmo ardente a chegada da soja e do eucalipto. Para isso, fingem que não veem a expulsão de residentes locais e a queimada de reservas naturais. Estradas são construídas, ou melhor, asfaltadas em direção ao porto: para que os motores a diesel de caminhões possam transportar a riqueza da soja de forma mais eficiente – embora muitas estradas brasileiras estejam em condições lamentáveis, cheias de buracos provocados por caminhões sobrecarregados de soja. Com frequência, isso torna a empreitada um inferno para motoristas de caminhão. Por exemplo, para a soja “sustentável” de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, eles devem transpor 2.450 km para descarregar seu tesouro no Porto de Paranaguá.

Enquanto isso, luxuosos 4×4 deixam claro em toda parte quem é que manda na terra da soja: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão, Bahia, Minas Gerais…

7,5 milhões de toneladas de fuligem/ano

Fuligem em dobro: queimam a floresta e o (bio?)diesel. No entanto, uma pesquisa recente mostra que evitar a queima de diesel e de lenha é uma medida eficaz para o clima. A fuligem negra é o segundo maior fator de aquecimento da atmosfera, após o malfadado CO2, que provoca efeito estufa. É o que escrevem 31 dos pesquisadores do clima mais importantes do mundo (1).

 

Em média, a atmosfera é obrigada a absorver anualmente 7,5 milhões de toneladas de fuligem. E os seres humanos a absorvem junto. A principal fonte é a queimada de florestas/savanas, primitivos fogões a lenha e as lâmpadas de querosene. A combustão do carvão e as emissões dos navios (2) também produzem grandes quantidades de fuligem negra. Porém, na Europa, nos EUA e na América Latina, cerca de 70% das partículas de fuligem vêm diretamente de motores movidos a diesel. O nosso próprio pequeno país, a Bélgica, com seus 11 milhões de habitantes, provavelmente é campeão mundial em termos de “veículos de passeio com motor a diesel”. Em 2012, dos 5,44 milhões de veículos de passeio, 3,4 milhões utilizaram diesel como combustível. Durante décadas, devido a escolhas políticas dos governos, era mais interessante – do ponto de vista financeiro – investir em um veículo a diesel do que se deslocar naqueles a gasolina. Nos últimos anos, essa diferença diminuiu um pouco. Às vezes, essa escolha política é apresentada como uma resposta ao aquecimento global, pois seria menos poluente do que o motor a gasolina! Porém, Não por acaso, a Bélgica é detentora do triste recorde mundial de câncer de mama: 11,63% das mulheres são acometidas antes de completar 75 anos. O câncer de mama é, em parte, determinada geneticamente, mas nos últimos tempos também se aponta para a relação entre a elevada concentração de motores a diesel e a onipresença desse tipo de cãncer.

Novamente, efeitos indiretos

As finas partículas negras de carbono são o principal componente da fuligem. Partículas com um diâmetro de cerca de cem nanômetros provocam o aquecimento da Terra, porque absorvem e retêm a luz e o calor do sol. A fuligem também estimula a formação de nuvens e reduz a reflexão da luz solar em planícies geladas. Todos esses efeitos indiretos também provocam mais aquecimento.

 

Tudo isso tudo já era conhecido, mas a nova pesquisa reúne todos os dados possíveis sobre o fenômeno e mostra como o efeito de aquecimento das partículas de carbono é duas vezes maior que estimado anteriormente pelo Painel do Clima, da ONU. Se forem computados os efeitos indiretos de aquecimento provocado pelas partículas de fuligem, verifica-se que elas são três vezes mais prejudiciais ao clima do que se pensava anteriormente. Essas partículas acrescentam 1,1 watts de energia por metro quadrado à atmosfera. Para o CO2, o valor é de 1,66 watts.

Diesel e sulfatos

A interação com certas substâncias químicas pode afetar os efeitos de aquecimento da fuligem. Por exemplo, as partículas de fuligem de motores a diesel provocam um aquecimento adicional porque estão misturadas com sulfatos. Os pesquisadores enfatizam, portanto, que agora ficou claro, pela primeira vez, que limitar o número de veículos a diesel seria uma maneira muito eficaz para combater o aquecimento global.

 

Isso está principalmente relacionado com uma diferença significativa entre o “tempo de vida” do CO2 e das partículas negras de carbono. O CO2 se acumula e perdura por décadas. A fuligem permanece por uma semana a dez dias na atmosfera. Portanto, evitar a emissão de uma tonelada de partículas de carbono tem um efeito imediato.

“Se fizermos tudo o que pudermos para reduzir as emissões decorrentes da queima de madeira e de diesel, conseguiríamos reduzir o aquecimento em meio grau ou retardar o processo por várias décadas”, diz o pesquisador Piers Forster, da School of Earth and Environment [Escola da Terra e do Meio Ambiente], da Universidade de Leeds (Inglaterra).

Cancerígeno

Não só o clima sofre mais danos do que se imaginava. O impacto mais pesado é sobre nossa saúde. A pesquisa do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas conclui que 2,4 milhões de mortes por ano podem ser evitadas se reduzirmos as emissões de fuligem. A Organização Mundial de Saúde também deu sua contribuição. Eles elevaram a classificação das emissões do diesel de “possivelmente cancerígeno” para “cancerígeno”.

 

Soja, fuligem, queima de madeira, diesel, aquecimento, câncer: será que essa história inesgotável da soja está, literalmente, relacionada com tudo?!

Ou: “A banalidade do mal”. Nós não sabíamos.

 

Teresina, 11 de abril de 2013.

(1) Veja: The Journal of Geophysical Research-Atmospheres: onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jgrd.50171/abstract. Veja também: www.igbp.net/news/pressreleases/pressreleases/blackcarbonlargercauseofclimatechangethanpreviouslyassessed.5.4910f0f013c20ff8a5f8000152.html

(2) Veja: Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2006).

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