Soja: tesouro ou tesoura?

31 Aefapi: Associação Regional das Escolas Família Agrícola do Piauí.

Uma entrevista com o coordenador João Pinheiro Emílio Lemos

No escritório Aefapi há um grande cartaz com fotos e objetivos. Reproduzo algumas das citações desse cartaz para apresentar as EFAs (Escolas Família Agrícola) e a Aefapi.

 

“A maravilhosa história das escolas é mais do que uma história de educação. É uma história que conecta as problemáticas ligadas ao mundo do campesino com suas dimensões ecológica, política, econômica, social, profissional e cultural.”

 

Princípios das EFAs:

Formação integral.

Projeto de vida profissional.

Desenvolvimento no plano social, econômico, humano e político.

Alternância: um método pedagógico adaptado.

Inter-relações locais: pais, famílias, profissionais, instituições.

 

Desde o início, os agricultores definiram a alternância (15 dias na escola; 15 dias de reconexão com a situação familiar) como uma educação escolar, mais adaptada aos ritmos do campo, e um currículo com os seguintes objetivos:

·                     uma formação técnica e profissional, que prioriza a prática e a experiência;

·                     uma educação geral para formar a personalidade, para aprender a interpretar a realidade e a mudá-la;

·                     uma formação humana com o objetivo de preparar para a vida e para o desenvolvimento pessoal e comunitário.

João Emílio, quando exatamente teve início a coordenação da Aefapi?

João Emílio (JE): Em 1986 foi estabelecida a primeira escola no Brasil. Desde então, elas se espalharam por todo o Brasil. As “Escolas Família Agrícola” (com raízes italianas) e as “Casas Famílias Rurais” (da França, onde o modelo surgiu na década de 1930) respondem, juntas, por 270 escolas.

A ONG belga Disop (1) apoiou essas escolas durante anos: construção de escolas, formação de estudantes, apoio aos professores. A partir de 2004, surgiu a necessidade de coordenar melhor e de fortalecer as 18 escolas no Piauí. Desde aquele ano, Disop tem apoiado especialmente esse trabalho institucional, com financiamento do governo belga – recursos que, aliás, irão expirar no final de 2013.

Não será um problema se o financiamento acabar?

O fato foi comunicado com bastante antecedência e nós nos preparamos para isso. O auxílio já havia evoluído de investimento em construções para investimento em formação e instrutores. O serviço prestado por Disop foi essencial para o nosso trabalho, mas agora precisamos encontrar nossos recursos no Brasil. Em primeiro lugar, no próprio Piauí.

O que você deseja alcançar com essa organização articuladora, abrangente e participativa?

JE: As primeiras escolas são iniciativas da Igreja Católica. De figuras fortes, padres, que continuam a nos inspirar até hoje. Isso é ótimo, mas nós também queríamos trabalhar em mais participação das famílias na vida escolar. Mais horizontal, adaptada aos tempos de hoje.

Também queremos melhorar um pouco a alternância, porque ela é muito complexa. Temos um grande arsenal para apresentar os jovens ao trabalho e às comunidades. A escola, os jovens, as famílias não são ilhas. Queremos fortalecer os laços com associações, cooperativas, sindicatos etc., para que possamos progredir coletivamente. Realizar o movimento em conjunto e quebrar a inércia.

Queremos, finalmente, ampliar a rede escolar enquanto instituição, para que possamos dialogar melhor com as autoridades e fortalecer a Agricultura Familiar. Esperamos construir uma organização mais sólida, que é respeitada, de modo a termos também peso político.

Eu já visitei quatro escolas: duas próximas de Teresina e duas na região de Oeiras. Trata-se de dois contextos diferentes: Teresina, com a vegetação exuberante do “cerradão”; Oeiras, no meio do Semiárido da Caatinga. Chamou minha atenção que as escolas próximas a Teresina enfatizam mais a produção e, para isso, querem reduzir o uso de agrotóxicos, mas não pensam em evitá-lo completamente. Nas escolas na Caatinga fiquei agradavelmente surpreso que as escolas adotaram como ponto de partida a difícil realidade climática. Elas são grandes defensoras da agroecologia, da sabedoria do povo, fortalecida com as novas descobertas de, por exemplo, a Embrapa.

De fato, cada região é distinta, tem uma história diferente com outras condições naturais. Em Miguel Alves havia uma antiga tradição de extrativismo: a coleta de frutos de babaçu para extração de óleo dessa palmácea. Essa cadeia produtiva se deteriorou e, com a chegada dos produtos químicos, muitas pessoas pensam que é possível conseguir rapidamente uma boa renda com pouco trabalho. Lá surgiu uma espécie de imediatismo. A assistência técnica do governo nem sempre é adequada e, muitas vezes, é realizada dentro do paradigma da agricultura convencional. Isso requer uma avaliação. Aqui na Aefapi nós organizamos muitos debates e tentamos, desse modo, discutir essas questões para fazer ajustes.

Por outro lado, existem projetos interessantes na Embrapa. Uma ala dessa empresa de pesquisa do governo federal está se dedicando especificamente à Agricultura Familiar. Ela introduziu, assim, a batata-doce e o feijão biofortificados (variedades de batata-doce e de feijão obtidas por melhoramento convencional). Eles fortalecem as propriedades e dão a elas mais oportunidades, por exemplo, no “Programa de Alimentação Escolar” (no qual 30% dos alimentos para instituições como escolas devem ser fornecidos pela Agricultura Familiar). Nossa grande preocupação, é claro, é motivar os jovens para construírem suas vidas e serem felizes no campo.

Sim, esta manhã eu conheci Marcos, da Embrapa. Ele faz um trabalho maravilhoso com caprinos e suínos de raças regionais e com forte inserção nas comunidades. Como é que você avalia a chegada de um gringo crítico da Bélgica?

Estamos felizes por você ter dedicado uma semana para conhecer a nossa realidade. Nós sabemos que você, enquanto escritor, vai dar mais visibilidade às EFAs e à Aefapi. Isso é bom para não ser isolado. E sim, o fato de você ter dúvidas e até mesmo críticas, isso é bom. Isso nos faz refletir. Afinal, você se colocou com respeito e em diálogo.

Você gostaria de dizer mais alguma coisa?

Somos um projeto educacional e defendemos o desenvolvimento rural. A educação deve estar inserida no desenvolvimento sustentável. Por isso, nos últimos anos, ampliamos o trabalho com as famílias. Os pais recebem assistência técnica na produção e nós nos articulamos mais com organizações parceiras que querem fomentar a vida no campo. Os ex-alunos são, portanto, envolvidos no trabalho por meio de várias parcerias. A permanência de jovens no campo começa a aumentar um pouco. Vamos trabalhar de modo ainda mais coletivo e envolver todos ao máximo, tanto no plano educacional quanto associativo. A Aefapi e as EFAs vão continuar, ainda que o apoio financeiro da Bélgica acabe.

 

Teresina, 11 de abril de 2013.

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