3 Saúde nas próprias mãos

“Que a saúde se difunda sobre a terra”. Este slogan é visível em muitos lugares. É a Campanha da Fraternidade 2012: o tema deste ano é ”saúde pública”. A Semana dos Povos Indígenas também trata desse tema, considerando sua abordagem holística da saúde. O slogan fala por si: “Terra livre, águas puras, florestas sagradas: fonte de saúde”.

Medicina popular em ascensão

Percebe-se que a saúde no Brasil é uma prioridade pela quantidade de farmácias. Você pode encontrá-las em quase todas as esquinas. Ao mesmo tempo, muitas pessoas redescobrem as formas tradicionais de medicina, por intermédio – ou não – de movimentos organizados. Especialmente a antiga sabedoria acerca de plantas medicinais está voltando a ser valorizada, ainda que o lobby farmacêutico faça todo o possível para roubar essa soberania do povo. Também a homeopatia, tanto para plantas quanto para animais e seres humanos, está bem difundida (1) – mais do que na Europa.

A energia que nos faz viver: bioenergética

Em Cuiabá eu tomei conhecimento de uma forma muito especial de cuidados de saúde, a “bioenergética”. Em 1994, o Padre Renato Roque Barth, um jesuíta, trouxe esse conhecimento da Nicarágua para o Brasil. Ele me recebeu no centro de Biosaúde (2) e conta sua história. É óbvio que eu consigo reproduzir apenas uma pequena parte neste texto.

Na década de 1990, na época do revigorante governo sandinista, ele foi trabalhar na Nicarágua. Nessa época, um colega dele, Fernando Cardenal, era Ministro da Educação. Renato trabalhava com cooperativas de agricultores, mas o que realmente mudou sua vida e seu trabalho foi ser apresentado à bioenergética. A primeira pista veio através do japonês Áton Inoue. Na Nicarágua, Áton deu o primeiro curso no mundo para pessoas comuns. Foi outro japonês, Yoshiaki Omura, que, de 1976-1978, em Nova Iorque, desenvolveu o “Teste do Anel Bi-Digital”. O nome peculiar se refere à maneira um tanto estranha de trabalhar: com uma haste de cobre, vários lugares no corpo são examinados. Ao mesmo tempo, como dois dedos unidos em forma de anel. Pela abertura do anel, a pessoa que realiza o teste em alguém pode detectar quais órgãos estão doentes. A energia que faz com que uma pessoa tenha ou não uma vida saudável é crucial nesse procedimento.

Nesta tática de diagnóstico, três questões são fundamentais:

‑ descobrir quais órgãos estão doentes;

‑ saber quais doenças afetam esses órgãos;

‑ a sabedoria do corpo doente, que sabe de quais plantas necessita para preparar o chá que vai curar a doença de dentro para fora, e vai estimular sua defesa.

Argila, ervas, dieta

A argila é amplamente utilizada para curar uma variedade de doenças. Após o diagnóstico, sete ervas são centrais na terapia. Eles variam de acordo com a região, conforme sua própria diversidade de plantas e ervas. Dieta, acupuntura e massagem podem ser empregadas. É melhor não misturar esse processo com homeopatia. Normalmente, o tratamento tem duração de 15 dias, mas o processo pode ser repetido. registros de resultados muito bons, até mesmo relacionados a câncer e aids.

Eu recebo uma série de livros interessantes, inclusive um sobre a – um tanto estranha – “urinoterapia”. Argumenta-se que esta é um antibiótico especial. Parece um pouco menos estranho e confuso se você pensar que nós, quando fetos, ingerimos nossa própria urina durante meses. Nos últimos meses de gravidez isso seria de uns 500 a 700 ml por dia. Para ouvidos europeus – principalmente na Bélgica, onde a indústria farmacêutica também tem um grande impacto –, isto parece insano. No entanto, parece funcionar para muitas pessoas. Mas eu mesmo não me candidato imediatamente…

Um milhão de brasileiros atendidos

Noto que as pessoas começam a se aproximar para serem diagnosticadas. Isso ocorre assim em Cuiabá, mas também em Curitiba, onde são atendidas 30 pessoas por dia. Na capital do Paraná trabalham quatro equipes.

Padre Renato tem todo o tempo para responder a minhas perguntas, porque ele não precisa, necessariamente, realizar os exames pessoalmente. O trabalho é feito por uma equipe de voluntários, tal como outras mil equipes em todo o Brasil. Os voluntários precisam se filiar a associações estaduais, para evitar que haja abuso ou charlatães. Assim, existem dez associações estaduais e uma organização nacional. Eles atuam em cem dioceses, mas também trabalham fora da esfera eclesial. Foram ministrados cursos na Bolívia, no Uruguai, no Paraguai e em países africanos, com grande aceitação especialmente em Moçambique, em colaboração com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Na maioria dos países o trabalho é realizado sem problemas, mas justamente no Brasil a ação é problemática. Isso está relacionado com o poder da indústria farmacêutica. Muitas vezes, as mesmas multinacionais também controlam os agrotóxicos. Como é amplamente sabido, o Brasil é o “Número Um” no consumo de agrotóxicos e isso por causa da expansão do agronegócio. Gradualmente, a população está se dando conta de que as planícies desérticas de soja e outras culturas pulverizadas com agrotóxicos estão na origem de muitas doenças.

Atualmente circula na internet uma campanha contra a bioenergética, apoiada em programas da TV Globo. A indústria química se sente visada pelo “não queremos produtos químicos em nossos organismos”.

 

Evidencia-se pelos números que toda a abordagem é eficaz e ameaçadora: no Brasil já são 1 milhão de pessoas atendidas; em todo o mundo, trata-se de cerca de 3 milhões de pessoas. Potencialmente, já existem apenas no Brasil cerca de 40 milhões de “terapeutas” – se levarmos a sério, por exemplo, uma mulher que dá à vizinha um chá personalizado.

Eles estão atuando agora em 40 países, com 40 mil pessoas em 20 mil equipes. Nessas equipes, há as pessoas que fazem o diagnóstico e outras que coletam as ervas em sua própria região.

Reduzir o consumo de carne

Padre Renato me oferece um “pão de queijo”. Totalmente feito de soja. Ele parece ser um opositor feroz ao consumo de carne e peixe, especialmente no contexto das condições de produção no Brasil. Na aquicultura, o peixe recebe hormônios masculinos nos três primeiros dias, para crescer mais rápido. Depois de três dias, seguem hormônios femininos. Os frangos (3) da bioindústria recebem, além dos necessários antibióticos, hormônios femininos. Isso pode resultar, principalmente, em câncer de próstata.

Ele defende a redução no consumo de carne: “Os americanos consomem sete vezes mais carne do que os chineses. E eles também têm sete vezes mais câncer do que os chineses.”

E também: “Vamos parar de consumir tanto açúcar e tanta carne. Na verdade, o diabetes é mais o resultado do consumo de carne do que de açúcar, mas o açúcar definitivamente não é recomendado.”

 

No próximo ano, Padre Renato espera lançar um novo livro. O movimento já dispõe de 500 novos recursos, que os médicos desconhecem. Segundo ele, em Moçambique, descobriram que conseguem erradicar malária com suas terapias. Alem disso, acredita-se que há uma ligação entre a malária e a aids. “A aids também pode ser tratada desta forma”, diz Padre Renato, pois “metade da aids na África é, na verdade, malária”.

 

Cuiabá, 12 de abril de 2012.

(1) Sobre homeopatia na agricultura, veja: www.ihama.com.br

(2) Veja: www.biosaudebrasil.org

(3) De acordo com um estudo recente da União Brasileira de Avicultura (Ubabef), os brasileiros consomem, em média, 47 kg de carne de frango por ano.

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