29 Fora Babaçu! Bem-vinda a soja?

A região em torno de Teresina se situa na interseção entre o Cerrado, a Caatinga e a Amazônia, chamada de “Cerradão”: um cerrado com árvores altas e mata fechada. Uma das espécies que se destacam é o babaçu, uma palmeira.

Aumento de resíduos e veneno

Viajo de ônibus durante três horas pela (ainda) bela natureza. Rumo à Escola Família Agrícola, de Miguel Alves (Piauí). É uma escola com 112 alunos em quatro turmas, com forte ligação e integração com 83 famílias de 33 comunidades.

O secretário do Meio Ambiente vem me buscar na rodoviária. Ele tem duas grandes preocupações: fazer algo com relação ao problema do lixo no município e parar o aumento exponencial de agrotóxicos. Novamente o veneno! Desde 2004, o aumento nessa região foi alarmante, tanto nas pequenas propriedades quanto nas grandes. Naquela época tinha início o primeiro governo Lula. Não que Lula incentivasse o uso de agrotóxicos, mas é uma consequência indireta de uma política de redistribuição justa. Com o aumento da renda de muitos agricultores, também veio a tentação de utilizar agrotóxicos pela primeira vez. A propaganda diária nos meios de comunicação fez o resto.

Da agricultura de subsistência para uma vida digna no campo

Parece que essa escola também quer conter o uso de veneno, mas a opção clara pelo caminho agroecológico ainda não foi feita. A prioridade é aumentar a produção e garantir uma renda melhor para as famílias. Uma intenção nobre, mas é uma pena que a sabedoria da agroecologia não esteja incluída no pacote. As pessoas vêm da agricultura de subsistência e, até recentemente, nunca haviam utilizado produtos químicos. Por que não buscar uma forma de obter um maior rendimento mesmo sem agrotóxicos? A agricultura orgânica não é um retorno ao passado, mas um caminho de progresso, que parte da sabedoria do povo e aliada às novas descobertas da ciência.

O efeito indireto do avanço da soja

Nós visitamos algumas pequenas propriedades que estão ligadas à escola. Enquanto isso, o diretor me conta, com tristeza, que a cadeia produtiva do babaçu está praticamente estagnada.

“Por causa da chegada da soja, senhor.”

“Como assim? Não se avista soja alguma por aqui. É no sul do Piauí que ela está avançando, mas ela não chega aqui, chega?!”

Com um pouco de reflexão, chego ao cenário que se desenrola em todos os continentes. A grande variedade de óleos que conhecemos está sendo pressionada pelo óleo de soja mais barato no mercado mundial. Com a soja é possível ganhar, pelo menos, duas vezes: soja para óleo comestível ou biodiesel e farelo de soja para ração animal (com uma pequena fração para o consumo humano). A soja pode ser cultivada em larga escala e com alta tecnologia em mecanização. Além disso, a soja brasileira não paga impostos – nem nos portos brasileiros, nem nos portos europeus. Outros óleos, como o de amendoim do Senegal, o de azeite de oliva do sul da Europa, ou o de babaçu do Piauí, são muito mais finos e mais saudáveis, mas eles exigem muita mão de obra. Para eles, não há a dupla possibilidade de renda e isenção fiscal. A única unidade de processamento de babaçu na região está fechada. A maioria das pessoas, portanto, deixou de colher essa riqueza das palmeiras. É verdade que, nos últimos anos, o preço da soja aumentou de maneira espetacular (devido à demanda asiática com seu crescente consumo de carne). O mal está feito: muitas economias locais, baseadas na biodiversidade, estão à míngua. A produção de soja se comporta como o ciclo do ouro. Agora que os preços estão elevados e, provavelmente, permanecerão assim por algum tempo, haverá ainda mais desmatamento e ainda mais imposição da monocultura da soja (1).

Do amor pelo animal para a máquina de produção a serviço dos consumidores

Partiram em busca, portanto, de produção conforme o modelo ocidental. Curioso, apesar de tudo. Sobre o primeiro casal que nós visitamos, a jovem esposa trouxe o marido de volta da longínqua São Paulo. Ele foi trabalhar na cidade grande, a 2.500 km de distância, para ter uma renda. De 2010 a 2012, ela frequentou o curso de capacitação na escola, junto com outras 72 famílias. Resultado: eles começaram uma horta e comercializavam a produção na cidade. Além disso, possuem 300 frangos, criados parcialmente soltos – galinhas caipiras –, que eles conseguem vender por um bom preço em um supermercado local. E eles começaram criar alguns suínos de raça, que eu também vejo em granjas na Bélgica. Os porcos pretos da região não podem ser criados soltos, e sim dentro de cercados. Felizmente, ainda ficam ao ar livre, de modo que eles podem brincar e escavar, como já fazem aqui há séculos. Afinal, porcos são animais muito sensíveis e curiosos.

Os suínos de raças melhoradas precisam ficar dentro da granja, para se alimentar da dupla soja-milho e produzir leitões. É que eles não podem mais acumular muita gordura. Não é isso que o consumidor quer… Agora a família é formada por pessoas felizes, com uma renda decente. Se os porcos também estão felizes é questionável. Mas quem sou eu para fazer essa pergunta? Em Flandres, há 6 milhões de porcos trancafiados – o mesmo número de habitantes da região. Eles podem viver apenas 6 meses. Portanto, 12 milhões de porcos por ano, criados sem terra, empilhados em gaiolas. A ração – ou seja, o solo e a água – vêm em grande parte do exterior: soja do Brasil e companhia. A soja, que destruiu a cadeia produtiva do babaçu e outras economias locais…

Em silêncio, presenteio o casal feliz com o livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança. É que “esperança” é algo diferente de, por exemplo, “otimismo tecnológico”.

Fora roça!

As próximas duas visitas são belos resultados da reforma agrária. A escola também contribuiu para isso. Até uns bons dez anos atrás, a maior parte da região estava nas mãos de quatro famílias. Agora se encontram espalhados por ali os resultados de redistribuição de terras compradas na região para essa finalidade. O assentamento tem oito famílias. Eles compraram a terra coletivamente: 127 hectares. Cada família tem uma parte que elas cultivam separadamente, principalmente hortaliças. Há também um jardim comunitário, que é cultivado em conjunto e cuja produção é repartida. A maior parte dos 127 hectares é floresta em recuperação. No mesmo curso da Escola Família Agrícola eles concluíram, em conjunto, que seus muitos esforços para fazer uma lavoura, ao final, rendiam quase nada. A prática da “roça” – ou seja, queimar, a cada ano, um pedaço da floresta para cultivar – foi, portanto, abandonada recentemente. O cultivo de hortaliças exige menos esforço, acaba com a tradicional queimada e gera mais renda. Dá o que pensar…

Batata biofortificada?

As outras quatro famílias compraram suas terras cada uma separadamente, mas vivem de modo bastante comunitário. Eles também se dedicam principalmente à horticultura, com uma notável batata doce: a batata biofortificada, um produto fomentado pela Embrapa. A raiz contém mais vitamina A e é ideal para o programa do governo de compra direta da Agricultura Familiar. Eu não tenho certeza se eu devo ficar entusiasmado com esse desenvolvimento. “Biofortificada” (2) sugere que a diversidade de sementes e frutos de Agricultura Familiar não é capaz de alimentar a população adequadamente. “Bio” é sempre algo suspeito, porque o prefixo é, frequentemente, mal utilizado. Ele pode se referir tanto à agricultura orgânica quanto à biotecnologia, para não ter de dizer “engenharia genética”, porque a população é muito sensível em relação a esta última. Na Europa, não é preciso ir muito longe: Europabio (www.europabio.org) é um grupo de lobby de empresas de engenharia genética que quer, a todo custo, colocar alimentos geneticamente modificados nos pratos dos consumidores europeus relutantes. Para mim, “biofortificada” me parece muito próximo do “arroz dourado”, uma variedade de arroz geneticamente modificado que a indústria quer impor na Ásia. Seria a solução para milhões de pessoas pobres, porque esse arroz contém mais vitamina A. O que a indústria de engenharia genética não conta é que você precisa consumir diariamente muito mais arroz do que o habitual para receber a dose correta de vitamina A.

O branco é chique

Muito menos se reflete sobre o fato de que a deficiência de vitamina é o resultado da colonização. Os colonos britânicos e holandeses introduziram a moda do consumo de arroz polido, arroz branco – semelhante ao pão branco, que também seria um sinal de prosperidade. Tente encontrar no Brasil um “pão integral”, ainda que, nos últimos anos, tenha havido alguma mudança nesse sentido, começando com a classe média nas cidades.

É na película que reveste os grãos de arroz e de trigo que se encontram vitaminas. Não seria melhor, então, simplesmente consumir uma diversidade saudável de arroz integral, verduras e frutas? A Embrapa me assegura que os produtos “biofortificados” (batata-doce, feijão, milho etc.) foram obtidos por seleção convencional.

Bill Gates

Será que posso manter a devida suspeita ao saber que esses produtos melhorados são resultantes de Harvest Plus (3), uma organização financiada pela Fundação Bill Gates, pelo Banco Mundial e pela Syngenta? Uma pessoa não deve ser paranoica, mas também não pode ser ingênua. Bill Gates é um dos poderosos que acreditam na afirmativa de que a fome no mundo pode ser resolvida graças à engenharia. E o que pensar da gigante da indústria química/produção de sementes Syngenta, membro da Europabio? Eu ainda prefiro tratar com a IAASTD, da Organização das Nações Unidas (4). Quatrocentos pesquisadores de todo o mundo trabalharam juntos nessa estratégia. Seu princípio básico é que agroecologia e investimentos na agricultura camponesa representam o caminho para alimentar a população mundial. Não a rodovia das multinacionais, que querem vender seus produtos químicos e sementes transgênicas. O professor Olivier De Schutter – relator especial das Nações Unidas para matérias referentes ao direito à alimentação (5) – é um dos defensores do caminho IAASTD. Ele acrescenta ainda que sistemas agroflorestais (6) são a solução de muitos dos problemas que estamos enfrentando agora para chegar a essa agricultura socialmente justa e ecologicamente responsável.

Utilizar a biodiversidade do Brasil

Um exemplo do Cerrado. Além do babaçu, há toda uma cadeia produtiva viável com o buriti. É possível utilizar literalmente tudo dessa palmeira (7). Para continuar no mesmo tema: o fruto do buriti contém vitaminas A, B, C e ferro. A polpa do buriti contém 20 vezes mais vitamina A do que o já elevado teor de vitamina A em uma cenoura.

Um exemplo que transcende o Brasil é o trabalho de Clara Brandão (8). Ela argumenta há décadas que a nossa dieta sofreu um forte atraso devido à industrialização da agricultura e dos alimentos. No entanto, o Brasil é rico em diversidade de fontes nutricionais. Cada região tem suas plantas, castanhas e frutos comestíveis e que podem ser usados como suplemento na dieta. É só pensar na ora-pro-nóbis em Minas Gerais (9).

Ela dá como exemplo as folhas de mandioca. Embora contenham mais ferro do que a carne e mais vitamina A do que o leite, elas são pouco utilizadas. Atualmente, o resultado de suas pesquisas é aplicado em todos os estados do Brasil e em muitos outros países. Esperemos que o seu trabalho não seja suplantado pelo capital de Bill Gates e companhia. “Biofortificado” não é necessário. Cada região tem as verdadeiras “bio”forças à disposição para serem aproveitadas: elas só precisam ser enxergadas e usadas com sabedoria.

 

Amanhã viajo 400 km na direção oposta, para a Caatinga: uma região mais seca, com vegetação mais pobre. Estou curioso para saber quais são as escolhas das escolas de lá.

 

Miguel Alves, 8 de abril de 2013.

(1) O Brasil tem grande disposição para responder ao crescimento global e exponencial do consumo de carne. Por isso, no país, aumentarão não apenas os suínos, aves e bovinos, mas principalmente o desmatamento e as monoculturas soja-milho: “Em 2023, o Brasil quer estar produzindo cerca de um quarto a mais de carne suína. O Ministério da Agricultura manifestou a ambição de também aumentar a produção de carne bovina em 22,5%. Para a indústria avícola é esperado um crescimento de 46%”, informa a revista Boerenbusiness [Agronegócio]. Para realizar tudo isso, o Brasil também vai intensificar a produção de milho e de soja. A agricultura brasileira não ficou parada nos últimos anos. De acordo com dados do Departamento de Agricultura dos EUA, a produção de carne suína aumentou em 36% entre 2003 e 2013. Espera-se que, neste ano, o Brasil produza 3,37 milhões de toneladas de carne de porco.

Na próxima década, o país quer que a produção de carne suína aumente em mais 24,6%, para 4,42 milhões de toneladas. Além disso, o governo tem grandes planos para produção em outros setores. Em 2023, o país quer produzir 10,9 milhões de toneladas de carne bovina. Isso é 22,5% a mais do que o Brasil espera produzir em 2013. O setor avícola deve ter um crescimento de 46% para, em 2023, produzir 4,67 milhões de toneladas de carne.

Mais carne significa também maior necessidade de ração. Em 2023, o Brasil almeja um aumento de 20% na safra de milho, o que representa uma produção de 93,6 milhões de toneladas de milho. A safra de soja – que, nos últimos dez anos, já aumentou 66% – deve aumentar mais 22%, até um total de 99,2 milhões de toneladas em 2023. Destas, 46,9 milhões de toneladas seriam exportadas, um índice 27,5% superior às exportações atuais. De acordo com o governo, a área plantada com soja ainda pode se expandir dos 27,7 milhões de hectares, em 2013, para 34,4 milhões de hectares em 2023.

Fonte: Revista Boerenbusiness (Lelystad, Holanda), 16 de junho de 2013.

(2) Veja: www.almanaquedocampo.com.br/imagens/files/Batata%20doce%20biofortificada.pdf e r4d.dfid.gov.uk/pdf/outputs/misc_crop/ofsp_country_report_mozambique_portuguese_web.pdf

(3) Internacional: www.harvestplus.org; ramificação brasileira: www.biofort.com.br

(4) Veja: www.unep.org/dewa/Assessments/Ecosystems/IAASTD/tabid/10585Default.aspx. IAASTD – International Assessment of Agricultural Knowledge, Science and Technology for Development [Avaliação Internacional do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia no Desenvolvimento Agrícola].

(5) Veja: www.srfood.org

(6) Veja: www.agroforestry.be; www.agroforestry.eu

(7) Veja: www.ispn.org.br/o-buriti-a-palmeira-de-mil-e-uma-utilidades. Central do Cerrado, Cooperativa de Grupos Produtivos (contato): centraldocerrado@centraldocerrado.org.br. ISPN: Instituto Sociedade, População e Natureza: www.ispn.org.br

(8) Veja: www.multimistura.org.br

(9) Veja Proteínas de ora-pro-nóbis, em Aurora no campo. Soja diferente (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2008).

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