Soja: tesouro ou tesoura?

28 Escolas Família Agrícola

Foi fascinante: fazer uma palestra em uma Livraria Cultura para os vegetarianos de Recife (Pernambuco). Em seguida, uma viagem de 15 horas de ônibus para uma realidade muito diferente: Teresina, capital do Piauí. Para comunidades de agricultores, nas quais carne e laticínios são os temas centrais. Tal como na Europa. Dois mundos? Intransponível?

Para os vegetarianos, eu falo sobre o “mundo real” da agricultura camponesa. Para os agricultores, eu me atrevo a falar da transição de proteínas, muito necessária. Menos dependência de soja do exterior e redução no consumo de proteína animal. Para a maioria, isso ainda é muito virtual.

Pioneiro

Fui convidado aqui mediante proposta da ONG belga Disop. Gerard Verhelst, um belga nascido no Brasil, ouviu uma palestra minha sobre o Brasil, em Gent, na “Vredeshuis” [Casa da Paz]. O apelo de Wervel pela proteção do Cerrado e a responsabilidade da Europa aparentemente o tocaram. Ele enviou um e-mail para seus parceiros no Piauí. O objetivo é conhecer a realidade do estado mais pobre do Brasil, mas especialmente a contribuição das Escolas Família Agrícola.

Sou hóspede dos jesuítas. É comum encontrar pioneiros entre os jesuítas. Essa comunidade conta com um deles: Humberto Pietrogrande.

É um italiano que já trabalha há mais de 50 anos no Brasil. Primeiro no Espírito Santo; mais tarde, no Piauí. Na Itália, ele conheceu as escolas agrícolas familiares – um modelo que, por sua vez, surgiu na década de 1930, na França.

Estrondoso sucesso

Como foi confrontado com o êxodo rural já na década de 1960, ele foi buscar inspiração na Itália e convidou brasileiros para conhecer as escolas nesse país. Foi o início da primeira escola agrícola com um método de trabalho de “alternância”. Como os estudantes não são arrancados de seus contextos – pelo contrário, estão sempre retornando para suas famílias –, esse modelo espera, pelo menos, reduzir o êxodo rural e viabilizar a esperança de uma vida digna no campo. O modelo teve grande aceitação. Atualmente, já existem no Brasil mais de 270 dessas escolas. No Estado de Piauí, há 18 delas.

Novamente “família”?

Para os ouvidos europeus secularizados e individualistas pode soar um pouco estranho, mas no Brasil a “família” ainda é muito enfatizada: Fetraf = Agricultura Familiar; as escolas nesse sistema comunitário são chamadas de “Escolas Família Agrícola”. Pode ser devido à influência italiana, na qual “la mamma” e a família são fundamentais. Extremamente católico também. Afinal, há muitos imigrantes italianos e seus descendentes no Brasil.

Mesmo assim, a realidade aqui nem sempre é como o nome sugere. Meu guia me conta que, na escola dele, cerca de 80% dos alunos vêm de famílias monoparentais ou de outras variantes. O contexto aqui é, naturalmente, a capital e seus arredores. Na zona rural isso ocorre menos; porém, é uma das características de desarraigamento nas cidades.

 

A desestruturação familiar é um problema para a implantação desse modelo inovador de escola, porque o projeto pretende, com base nos estudantes, colocar as famílias no caminho da agricultura sustentável. Os alunos ficam 15 dias na escola, num regime de internato. Em seguida, eles retornam durante 15 dias para a família ou para os substitutos (avós, tios, tias…). Às vezes há uma família, mas os pais não querem participar porque não veem mais futuro na agricultura. Nesse caso, o objetivo não pode ser alcançado e o aluno é convidado a mudar de escola. Quando se tem sucesso, a família é incluída no processo de formação. É algo semelhante ao projeto que foi lançado esta semana no Sul do Brasil. Lá, os alunos ajudam na formação de colegas da mesma idade em suas comunidades (nos três estados da Região Sul). Aqui se pretende que o conhecimento adquirido seja transferido para a própria família.

Abordagem integral

Esse modelo (1), em que o foco não é apenas a transferência de tecnologia, mas também de laços afetivos (na escola e na família), cultura, espiritualidade, aprender a trabalhar de modo cooperativo, entre outros, teve grande aceitação. Portanto, investe-se fortemente nas relações pessoais. Cada aluno tem um monitor e as famílias também recebem acompanhamento a partir da escola.

 

Um dos problemas em toda zona rural do Brasil é que as escolas rurais foram fechadas e que o governo apenas fornece transporte escolar para a cidade. Lá os jovens são imersos diariamente na cultura urbana, com outros valores, uma linguagem diferente, práticas diferentes. Alienação de todas as formas. Em casa, o deus TV faz o resto: propaganda diária do agronegócio com sua agricultura de exportação em grande escala, as novelas apresentam novamente um mundo urbano (geralmente branco) como o ideal. Porém, é preciso mencionar que as novelas incluem, às vezes, temas sociais: homossexualismo, negros, a história da escravidão e os fazendeiros.

Fazenda Nova Esperança

Cada escola tem autonomia, mas trabalham em rede umas com as outras. A Fazenda Nova Esperança está a serviço das várias escolas, bem como dos agricultores da região. A palavra “fazenda” gera um pouco de confusão, pois remete a “fazendeiros”, que se apropriam de grandes áreas. O objetivo do padre Humberto era fazer uma espécie de ponte entre os dois modelos agrícolas. Se ele será bem-sucedido, é outra questão. Novamente, é uma questão de valores diferentes, muito embora o ponto principal seja o desequilíbrio no poder.

 

Quando eu pergunto se a formação na fazenda é agroecológica, a resposta é: “Não, nós partimos da realidade dos próprios agricultores e esta é uma realidade em que, às vezes, trabalha-se com agrotóxicos de maneira perigosa. O trabalho na fazenda é feito da maneira mais ecológica possível, com o mínimo de recursos externos, para promover a autonomia das propriedades. Só lançamos mão de produtos químicos em último caso.”

Uso criativo de água

Como no Nordeste estamos com enormes problemas por causa da seca, é dedicada muita atenção ao uso racional da água. Irrigação por gotejamento, por exemplo, em vez de aspersores, que exigem muito mais água. Eles também acreditam em produção utilizando um substrato de lã de rocha. Técnica aprendida na Holanda: sem usar terra, assim como se cultiva endívia na Bélgica. É um método que não é aceito pela agricultura orgânica. A agricultura orgânica exige solo. Eu também tenho as minhas reservas, mas é uma alternativa criativa para as propriedades com pouca terra e pouca água. Eles usam garrafas vazias de refrigerante, nas quais o substrato é colocado. O conjunto de garrafas é colocado sobre um suporte, debaixo de uma cobertura que protege contra o sol muito forte. A água com minerais passa pelas garrafas cortadas. Não há desperdício de água. Quanto a agrotóxicos, somente utilizam fungicidas se houver doenças. Para uma cabeça de alface, são necessários 2,5 litros de água, enquanto na irrigação em cultivos no solo são utilizados de 9 a 15 litros. Isso faz você pensar: sem terra, com pouca água e com poucos produtos químicos, é obtida uma grande produção. Como será que é o sabor? Será que agricultura e alimentos não são mais do que uma simples mistura de minerais? O interessante é que eu acabo de receber um e-mail de um projeto europeu que quer apoiar a produção de endívia no solo, na província de Brabant. Os governos dessa província e de Flandres também querem fomentar o entusiasmo da nova geração por essa cultura, que se originou mais de cem anos atrás, na região de Bruxelas (2).

Vaca holandesa?

Quando chegamos ao gado de leite, não consigo deixar de perguntar: “Por que vacas holandesas de elevada produtividade?” Essa vaca foi imposta mundialmente a partir da Europa: na Índia, no Brasil… Ou seja, aqui também. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) serviu de canal de distribuição. O mantra é sempre o mesmo: “maior produção”. Sim, mas além de pasto, o gado exige ração: soja e milho. A não ser que você seja um fazendeiro muito criativo, como Ronny Aerts: em Herselt, na Bélgica, ele consegue a mesma produção com o consórcio capim-trevo e um pouco de milho. Não só a exigência alimentar é um problema dessa dominação holandesa. A diversidade genética também está se reduzindo assustadoramente em todo o mundo, tanto na União Europeia quanto, por exemplo, no Brasil. O estranho é que primeiro a UE forneceu subsídios para impor esse modelo de alta produção. Nos últimos 15 anos se observou que, agora, as raças regionais estão se extinguindo em toda a Europa. E a mesma UE, agora, dá dinheiro aos agricultores que querem manter a agrobiodiversidade com essas raças domésticas raras: vacas, cabras, ovelhas. Algo semelhante aconteceu com as espécies frutíferas nativas de pé-franco.

Erosão genética

O professor confirma minhas dúvidas. No caso das cabras, no Piauí, a importância da diversidade genética regional foi reconhecida a tempo. Agora, a Embrapa está desenvolvendo um projeto interessante na escola, com os porcos que as pessoas têm criado aqui há séculos. Ou seja, a importação da Europa não é recente. Para raças de gado não é tarde demais, mas a recuperação da diversidade é urgente.

Na avicultura industrial, as linhagens genéticas estão particularmente empobrecidas. Em todo o mundo, cerca de 80% dos pintos e das matrizes são fornecidas por duas empresas multinacionais: uma dos EUA e uma segunda que opera com base na Alemanha. Dizem que metade da capacidade de carga da Lufthansa é reservada para pintainhos e para ovos fertilizados! Desde Zaventem também são despachados milhões de pintainhos e ovos para a África.

É isso que nós queremos? O que vamos fazer se houver uma nova epidemia de gripe aviária? Diversidade genética só pode fortalecer as galinhas.

Caju, cajá, jaca…

Eu prefiro o caju, conhecido por nós pelas castanhas. Não deve ser confundido com o cajá ou a jaca. Sim, o Brasil abriga um tesouro em termos de frutas e castanhas a serem comercializadas. O caju é um dos principais frutos na economia do Piauí. Até agora, os agricultores só colhiam a castanha, mas também há uma boa produção de polpa. A Fazenda Nova Esperança quer, agora, orientar os jovens e os agricultores locais para colher tanto a castanha quanto a polpa. O suco da fruta poderia aumentar sua renda de modo significativo.

 

Teresina, 6 de abril de 2013.

(1) Mais informações em: www.funaci.com.br. Seis das 18 Escolas Família Agrícola fazem parte da rede Funaci. Uma das escolas capacita os jovens para o turismo (hotelaria, restaurantes, bares) e outra ensina diversos ofícios e habilidades fora da agricultura. Além disso, Funaci ainda está intensamente envolvida em atendimento à saúde (por exemplo, uma clínica), creches, assistência social e outros projetos.

(2) Veja: www.vilt.be/Vlaams_Brabant_wil_vakkennis_grondwitlooftelers_delen [A província do Brabante Flamengo que compartilhar o conhecimento de produtores de endívia no solo].

Please follow and like us: