27 Syngenta e Bayer em defesa das abelhas?

Ou: Quando a esmola é demais… o santo desconfia

Estou visitando a diocese de Ruy Barbosa, interior da Bahia. O bispo é o padre-agrônomo André De Witte, da Bélgica. É uma diocese na qual ainda se trabalha muita a partir da realidade social. A Teologia da Libertação, que surgiu na década de 1970, continua a inspirar. Aliás, um dos pais dessa teologia faleceu em 2010. José Comblin, nativo de Bruxelas, teria completado agora 90 anos de idade. Na Bélgica, ele é um nobre e desconhecido sacerdote. Entretanto, não é possível imaginar o movimento de libertação dos últimos 50 anos na América Latina sem Comblin. Por isso, neste outono, nós e um grupo de simpatizantes vamos editar uma obra (em francês e em holandês) na Bélgica, em memória de José e o que ele representava/representa[1].

O silêncio ensurdecedor sobre a terrível seca

Atualmente, a realidade no interior baiano é dominada principalmente pela seca persistente. Havia 50 anos que eles não vivenciavam por aqui uma seca tão prolongada. No entanto, a imprensa dedica pouca atenção ao assunto. Essa realidade de crescente desespero e êxodo rural não se encaixa exatamente do espetáculo permanente de boas notícias: “O Brasil é um país emergente. Dentro de alguns anos, vamos erradicar a pobreza.”

Insurreição e ressurreição

Ontem à tarde tivemos uma palestra e um encontro com centenas de jovens da escola agrícola local. Outros interessados da cidade também participaram de debate. Em seguida, uma entrevista na “Rádio Esperança”. O que podemos esperar nessa triste realidade? A introdução do último livro de Wervel, Legal!, vem a calhar. O subtítulo é Otimismo – Realidade – Esperança. A realidade está no centro. Toda vez, é novamente dali que partimos. Aquele mundo real muitas vezes não é uma fonte de otimismo. Mas a sinergia de grupos, indivíduos e organizações podem fazer brotar a esperança. Será que a Páscoa – insurreição e ressurreição – é possível em uma paisagem árida, na qual as pessoas fazem as malas e partem para a cidade? Em êxodo, mas nem sempre para uma vida nova e melhor.

Debate sobre neonicotinoides

Um dos participantes é Alex Lima Fábio de Melo. Ele é o coordenador de um promissor projeto de abelhas: Coopaerb (Cooperativa dos pequenos produtores agroecológicos do entorno de Ruy Barbosa). Num momento em que a União Europeia não consegue se decidir se vão ou não proibir neonicotinoides (1), essa visita tem um efeito revigorante. À primeira vista, aqui no interior da Bahia, estamos longe das atividades de lobby promovidas por Syngenta e Bayer, em Bruxelas – muito embora, desde 2009, o Brasil seja o campeão mundial do uso de agrotóxicos. Sim, aqui realmente se usa a palavra “veneno”. Isso desperta uma imagem muito diferente do que as revistas agrícolas “van bij ons” [locais] (2), invariavelmente, chamam de “defensivos agrícolas”. Defensivos? De quem? De quais interesses? “Newspeak” [Novilíngua] para qual modelo agrícola dominante? Desde a batalha entre von Liebig e Hensel, final do século XIX, ainda não houve grandes mudanças. Infelizmente, a proposta agroecológica de Hensel levou a pior (3). As substâncias químicas destinadas à guerra continuam a ser empregadas na guerra global nas lavouras (4).

Syngenta, defensor da vida?

No momento em que escrevo esta crônica, vem aí outra ofensiva “charmosa” de dois gigantes da indústria química: “Plano de Syngenta e Bayer para salvar as abelhas” (5). Eles argumentam que a proibição não salvará as colmeias. É verdade, ainda há debate sobre as verdadeiras causas da morte maciça de abelhas na Europa e em todo o mundo (por exemplo, no Sul do Brasil). Que as sementes embebidas em veneno desempenham um papel central nisso está claramente provado, mas há mais acontecendo. O enfraquecimento generalizado das abelhas, por causa do veneno e por outros fatores ambientais, tornam elas mais sensíveis ao ácaro Varroa.

Semeando o veneno da confusão

Syngenta e Bayer, obviamente, querem a todo custo continuar vendendo o seu veneno – mas, ao mesmo tempo, eles fazem um apelo “forte” por margens floridas de lavouras. Para as abelhas, que ainda não morreram. Ou cujos cérebros ainda não foram afetados, de modo que elas ainda encontrem as margens floridas (6). Os gigantes se defendem como demônios em uma pia de água benta. Para Syngenta, essa eventual proibição coloca em jogo cerca de 1 bilhão de euros. Portanto, vale a pena semear alguma confusão semeada! Há menos de um mês, a mesma multinacional organizou um dia de lobby no local conhecido por Kunstberg [Montanha da Arte], no centro de Bruxelas. Lá fora – no meio de inverno – havia uma plantação de milho e de outras culturas, com propaganda informando que a empresa de produtos químicos defendia a vida, a segurança alimentar e as abelhas. Entre o público, estavam o ministro-presidente da região de Flandres (Bélgica) e o ministro da Agricultura, Kris Peeters, membros da Comissão Europeia, e outras pessoas do alto escalão. Enfim, todas as pessoas que têm boas intenções para com as abelhas e a agricultura. Porque, sim, não vamos nos esquecer: sem as abelhas, grande parte da produção mundial (e dos nossos alimentos) está ameaçada.

Normas sob medida para a grande indústria

Voltando para Alex, em Ruy Barbosa (Bahia). Ele trabalha para Coopaerb, um projeto que é cofinanciado pela ONG belga Disop (7). Cinco anos atrás, com o apoio deles, foi construído um local de processamento e armazenamento. Não é fácil obter a aprovação do Ministério da Agricultura porque as normas estão estreitamente alinhadas com a grande indústria, e não com a Agricultura Familiar. É semelhante à situação na União Europeia, onde as normas de higiene também são fixadas sob medida para a indústria de alimentos que faz lobby e que, em Bruxelas, inclusive se senta à mesa para ajudar a escrevê-las… Entretanto, o excesso de higiene poderia diminuir nossas defesas naturais: o consumidor, reduzido a uma planta de estufa, que adoece ao menor espirro da pessoa que está ao seu lado. Por exemplo, se a norma estipular que o mel exótico a ser importado precisa ser aquecido a 70ºC, esse processo também destrói as enzimas benéficas. Resíduos de veneno em alimentos são, naturalmente, outra questão. Estes sempre devem ser evitados.

 

Recentemente, a cooperativa obteve a aprovação, o selo, e agora eles podem comercializar o mel oficialmente. Entre outros, pelo programa de compras para a merenda escolar eles conseguem, facilmente, vender seu mel. A famosa lei que prevê que, a partir de 1º de janeiro de 2010, 30% de todas as compras para as escolas devem vir da Agricultura Familiar, cria novas oportunidades em todo o Brasil. Ou seja, esperança.

As espécies exóticas, às vezes, podem ajudar

Atualmente, devido à seca extrema, a produção está muito baixa, mas a apicultura tem um enorme potencial por aqui. Em 2011, os cooperados produziram, em conjunto, 57,2 toneladas de mel. Como o inverno não é rigoroso, é possível coletar o mel até cinco vezes por ano. Não são exceção os 50 quilos de mel por colmeia/ano. Durante alguns meses, de agosto a novembro, há poucas plantas e árvores floridas. Por isso, Alex estimula os agricultores a plantar algaroba. Essa espécie floresce justamente nesses meses, de modo que pode haver produção ao longo de todo o ano. Mas é necessário ter cuidado, porque é uma espécie exótica, que ameaça suprimir espécies nativas. A intenção não pode ser a de reflorestar o Brasil com eucalipto ou com o homogeneizador pínus e a algaroba.

 

O que é interessante é que a algaroba também produz frutos alongados, muito ricos em proteína. Eles podem ser usados localmente, como ração animal. Já existe uma empresa que transforma os frutos em ração, mas os agricultores podem, tranquilamente, manter isso nas próprias mãos. Pode ser extremamente importante em épocas de seca.

Alex não ensina apenas criação de abelhas aos agricultores, mas também a como fazer húmus. Em um viveiro, ele produz mudas de espécies arbóreas nativas e, é claro, da exótica algaroba. Alunos do colégio agrícola fazem estágio lá. Os agricultores também vêm dar uma espiada, pois fazer húmus com resíduos orgânicos, esterco e minhocas é novidade para eles. E as mudas são muito bem-vindas, pois o desmatamento está tão acelerado que as abelhas têm dificuldade de sobreviver e de se alimentar. Ou seja, uma abordagem abrangente.

 

A algaroba me lembra o espinheiro-da-virgínia, que está produzindo proteínas em muitas avenidas de Bruxelas. Ninguém sabe disso. Por isso, quando Wervel, no ano passado, entregou ao Parlamento Europeu nossa petição internacional sobre proteínas, ela foi acompanhada pelas vagens compridas colhidas nas avenidas de Bruxelas. Para indicar que a União Europeia não pode continuar sendo dependente de uma única fonte de proteína: a soja importada. Não é um sonho falso, e sim uma verdade óbvia. Nós temos muitas fontes “locais” de proteína (2).

As abelhas europeias africanizadas expulsam as nativas

Exatamente essa expulsão por espécies exóticas também está acontecendo aqui com as abelhas. Os missionários trouxeram consigo abelhas europeias e, em 1956, abelhas africanas escaparam de um laboratório. Esses insetos são particularmente agressivos e cruzaram com as europeias. Resultado: todas as abelhas se tornaram agressivas, o que resultou até em morte durante suas buscas por alimentos. As espécies de abelhas nativas foram marginalizadas. É uma pena; talvez elas produzam menos mel, mas o mel é melhor e os insetos não têm ferrão. Ou seja, são muito pacíficas.

Superando o medo

Por enquanto, o projeto ainda está trabalhando com abelhas africanizadas, mas nos últimos anos eles estão tentando incentivar os agricultores a redescobrir o valor das espécies nativas. Alex dá um exemplo inspirador. Passamos por sua casa na cidade e vimos caixas penduradas com umas sete espécies diferentes de abelhas. Os vizinhos, inicialmente, ficaram com medo, por causa do trauma das abelhas africanas, mas agora percebem que os insetos são amigáveis e produzem um mel excelente. É outro exemplo de como a agricultura urbana é possível. Nos últimos anos, também há criação de abelhas em Bruxelas. Como na cidade não é permitido aplicar agrotóxicos, o mel seria até mais puro do que o do campo. Alex tem ainda uma cabra que fornece o leite diário. Ela recebe resíduos vegetais e folhas de “catinga-de-porco”, uma árvore com folhas ricas em proteína. Novamente, proteína sem de soja… Sim, é possível!

 

Eu sei pouco sobre abelhas, mas, de repente, eu me sinto conectado com o padre Modest Haerens, um confrade da Abadia de Averbode. Ele faleceu no ano em que as abelhas africanas escaparam no Brasil, em 1956, e, até a sua morte, foi um internacionalmente cobiçado “palestrante sobre abelhas”. Em parte graças a ele, na primeira metade do século XX, a apicultura se tornou um verdadeiro movimento social.

Será que isso poderia acontecer novamente aqui? A cooperativa já tem cem apicultores registrados, e estão mantendo contato com 300 agricultores em 35 municípios. É possível.

 

Ruy Barbosa (Bahia), 2 de abril de 2013.

(1) Veja: www.vilt.be/Lidstaten_aarzelen_over_verbod_op_neonicotinoiden [Estados-Membros hesitam sobre a proibição de neonicotinoides] (veneno em que sementes são imersas, especialmente milho, colza, girassol e algodão). Além dos três neonicotinoides que estão em debate, Greenpeace exige a proibição de outros quatro agrotóxicos: www.greenpeace.org/international/en/publications/Campaign-reports/Agriculture/Bees-in-Decline

Enquanto isso, Bayer não quer divulgar seus estudos secretos..

(2) O termo “local” utilizado nesta crônica é uma resposta à campanha mentirosa do lobby agrícola de Flandres. A campanha divulga, entre outros produtos, a “carne produzida localmente”, mas deixa de informar que, para isso, é necessária uma grande quantidade de rações para animais, além de solo e água do outro lado do oceano. Para desmascarar a mentira, Wervel editou um cartaz, “Carne produzida localmente? Desmatamento ao longe!”, com imagens de satélite do desmatamento no Cerrado brasileiro. Durante a viagem pelo Brasil, eu distribuo os cartazes como um “jogo americano”. Os brasileiros apreciam o fato de que os europeus se preocupam com a riqueza do Cerrado e enxergam sua própria responsabilidade no desmatamento do outro lado do oceano.

(3) Veja: Nosso futuro roubado, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(4) Veja: Ração animal, um história de interdependência, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(5) Veja: www.vilt.be/Reddingsplan_van_Syngenta_en_Bayer_voor_de_bijen [Plano de Syngenta e Bayer para salvar as abelhas]. Veja também: www.vilt.be/Nieuwe_bijenhotels_in_Brussel_en_Antwerpen [Novos hotéis para abelhas em Bruxelas e Antuérpia].

(6) Veja: www.vilt.be/Neonicotinoiden_tasten_hersenen_van_bijen_aan [Neonicotinoides afetam o cérebro das abelhas]

(7) Veja: www.disop.be/es


[1]
             Nota da tradutora: HOORNAERT, E. (Org.). Novos desafios para o cristianismo: a contribuição de José Comblin. São Paulo: Paulus, 2010.

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