25 Índios no Rio? O lado sombrio de “verde”

Um apelo à imaginação: índios que são expulsos por causa da ampliação do estádio de futebol Maracanã, no Rio de Janeiro. “Índios”. Desde a época de Colombo, a palavra nunca foi corrigida; o bom homem acreditou que ele chegara à Índia. Desde a “descoberta” do continente americano, os nativos, tanto da América do Norte quanto da Central e da do Sul, foram massacrados. Em 2013, eles ainda são fortemente marginalizados. Sim, regularmente há vítimas fatais – especialmente na zona rural.

 

O fato gerou um forte artigo no jornal belga De Standaard, de 26 de março. É significativo que o fato seja pouco noticiado pela imprensa brasileira. A situação dos “índios” lembra um pouco a dos “ciganos” na Europa. Também é melhor não noticiar muito sobre eles… Na nossa memória coletiva europeia, o Brasil é lembrado como sinônimo de “futebol e carnaval no Rio de Janeiro”. De vez em quando, ficamos emocionados ou indignados com o que está sendo feito com os índios. De vez em quando…

 

Estou viajando pelo Brasil para lançar o novo livro de Wervel, em português: Legal! Realidade – Otimismo – Esperança. Na obra eu tento explicar a diferença fundamental entre o otimismo superficial (por exemplo, tecnológico) e a esperança. Esperança que vai mais fundo, à la Vaclav Havel. O título é meio estranho porque, a cada ano, eu retorno mais pessimista desse subcontinente.

País emergente, país da carne

Como isso é possível? O Brasil não é um “país emergente”, um dos BRICS? É justamente isso que torna o diálogo tão interessante. Os brasileiros vivem não só na euforia do carnaval e do futebol, mas também na dinâmica de uma prosperidade crescente, apesar da crise global. Para apontar para o fato de que, em muitas áreas, esse crescimento não é sustentável, os movimentos sociais e as universidades recepcionam um “gringo”: para ajudar a revelar o lado sombrio dos desenvolvimentos atuais.

 

Neste ano, no Rio de Janeiro, o agronegócio, o carnaval, os índios e o futebol estão estranhamente entrelaçados. O agronegócio, a reboque da expansão da soja, há anos financia grupos que desfilam no carnaval. A Vila Isabel venceu o Carnaval 2013. Essa escola de samba foi financiada pela BASF.

 

Atualmente restam 180 povos indígenas no Brasil. Há 500 anos, estima-se que havia cerca de 500. Às vezes, você realmente pode encontrá-los nas cidades: São Paulo abriga uma grande favela, na qual guaranis sobrevivem em condições desumanas; no Rio de Janeiro havia, até agora, aquele prédio ocupado [Museu do Índio]; nas rodoviárias, eles tentam vender cestos de fibras vegetais. Eles podem expor seu artesanato próximo às cataratas de Foz do Iguaçu, mas estão proibidos de entrar no Parque Nacional do Iguaçu, onde estão as mundialmente famosas cataratas. No entanto, é terra sagrada para eles. Seus antepassados foram enterrados ali.

Isso acontece em nosso país?

Oficialmente, os brasileiros não são racistas. Na prática, é diferente, especialmente em relação a índios e negros. Frequentemente, o desconhecimento também contribui para isso. Por exemplo, durante a viagem, levo comigo o documentário da An Baccaert, ex-jornalista da [Difusora de Rádio e Televisão Flamenga (Bélgica)] VRT: À sombra de um delírio verde. Quando exibimos esse filme em universidades, os estudantes ficam chocados: “Isso acontece em nosso país? Nós nunca vemos essas imagens na TV!”

 

O filme mostra de forma clara como os guaranis e outros povos são expulsos pela aliança dos fazendeiros com a polícia; como eles são empregados para trabalhar em condições análogas à escravidão nos canaviais que ocupam suas terras ancestrais. Cana-de-açúcar, especialmente para o etanol, a assim chamada “gasolina verde” para os carros brasileiros e europeus. Além da cana-de-açúcar, a soja, os reflorestamentos de eucalipto e o gado avançam cada vez mais. Em quase todos os estados, eles cercam as reservas indígenas. Em muitos casos, também provocam o desmatamento nessas áreas – para o plantio de soja, o “ouro verde”.

 

A soja é destinada, principalmente, para produção de ração para suínos, aves, gado e peixes europeus e chineses. Do óleo é feito o “bio”diesel. Novamente “verde”.

O eucalipto representa a celulose para a Europa. Especula-se muito sobre o cenário futuro: etanol a partir de eucalipto geneticamente modificado. Combustível agrícola, que teria menos impacto ambiental do que o etanol de cana-de-açúcar…

Há séculos, o gado reina na zona rural. Agora ele está sendo levado para a Amazônia e para o Cerrado, justamente pelo avanço da soja, da cana-de-açúcar e do eucalipto.

 

Os povos indígenas que foram violentamente expulsos por causa do estádio de futebol Maracanã têm valor de notícia – pelo menos na Europa. Soja, cana-de-açúcar e eucalipto para os consumidores europeus chamam muito menos a nossa atenção. No entanto, são justamente os dois ícones de nossa sociedade ocidental que tomam suas terras e água limpa: “O Rei Carro e Imperador Presunto”. Ração animal, carne e etanol não são tão inocentes quanto parecem ser.

 

Chapecó, 26 de março de 2013.

Esse texto foi publicado na Bélgica, no jornal “De Standaard”, como “Opinião”, na Sexta-Feira Santa, 29 de março de 2013.

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