24 Cooperafloresta, uma lição para a União Europeia

Na União Europeia, já há dois anos, existem conflitos e discussões sobre a assim chamada “ecologização da agricultura”, prevista para 2014-2020. Especialmente a proposta dos “7% de área de interesse ecológico”[1] está tendo dificuldades de aceitação entre os agricultores belgas. As organizações agrícolas e a maioria de seus membros defendem, principalmente, a “separação”, enquanto Wervel e muitas outras organizações querem que o “entrelaçamento” da natureza com a agricultura seja o mais amplo possível.

Os 7% que dividem a natureza e a agricultura

Quando eu dialogo com grupos no Brasil, modéstia é uma necessidade. Na condição de “gringo”, eu não posso ir chegando com “vocês, brasileiros, estão derrubando a Floresta Amazônica e destruindo o Cerrado” sem apontar a responsabilidade dos europeus, japoneses e chineses (carne, ração, etanol, biodiesel e polpa de celulose sobre o oceano). Eles também sabem que, séculos atrás, nós desmatamos a Europa. Desde a Idade Média que Flandres já é uma das regiões mais densamente povoadas do mundo. Ou seja, ainda no século XIII já havíamos desmatado quase tudo. “Por que, então, precisamos ceder agora 7% da nossa boa terra para dar lugar à ‘agricultura verde’?!”

Dá para ser diferente

Vamos agora para Cooperafloresta (1), um projeto agrícola situado entre Curitiba e São Paulo. Um sistema agroflorestal que evoluiu ao longo dos anos para ser uma referência internacional. Eu visitei a região em 2003 e vi como a Mata Atlântica, a floresta remanescente neste lado do oceano, foi transformada em um deserto, com pouca força vital. Com o apoio de, entre outros, Eliziana Vieira de Araújo, no local onde estou hospedado agora, eles conseguiram converteram esse “sistema mortal” em um sistema cheio de vida: “Sistemas Agroflorestais”. Será que existe algo como “a sedução do bem”, em oposição à “banalidade do mal”? Atualmente, são 112 famílias no Vale do Ribeira, que possuem em conjunto 250 hectares de agroflorestas intensamente manejadas e mais 750 hectares em processo de regeneração natural. No total, eles já transformaram mil hectares em sistemas agroflorestais nos municípios de Barra do Turvo, Adrianópolis e Bocaiúva do Sul, no sul do Brasil. Eles estruturaram uma agroindústria, estão incluídos no processo de certificação participativa da Rede Ecovida (2) e comercializam os seus produtos coletivamente em diversos canais de mercado. A Escola Agroflorestal envolve, anualmente, 800 pessoas.

Mais renda com menos terra

O interessante é que os agricultores e as agricultoras estão produzindo cada vez mais em lotes cada vez menores, e as “capoeiras” (digamos, os 7% de área de interesse ecológico/reserva legal, muito discutida aqui na Europa) são quatro vezes maiores do que o próprio sistema agroflorestal. Além disso, a renda dessas pessoas está aumentando significativamente. Na região, a renda média mensal é de R$ 450,00/mês. Na Cooperafloresta, 40% das famílias recebem entre R$ 551,00 e R$ 1.110,00/mês. Aqueles que possuem áreas maiores no sistema agroflorestal têm uma renda de mais de R$ 1.600,00/mês (3).

Como isso é possível? Afinal, sua “área de interesse ambiental/reserva legal” é quatro vezes maior do que a área cultivada? Apesar das agroflorestas se constituírem na base da produção, da segurança alimentar e da renda das famílias agricultoras, a cobertura mais comum do solo das propriedades é formada por capoeiras (florestas secundárias em estágio inicial e médio de regeneração), de diferentes tamanhos e idades. Em média, as capoeiras ocupam praticamente a metade da área das propriedades (45,5% da área).

É interessante observar, entretanto, que a rotação entre agroflorestas e capoeiras, desenvolvida há quase duas décadas pelos agricultores associados à Cooperafloresta, gera uma relação entre estes dois tipos de áreas de praticamente dois hectares de capoeiras para um hectare de agrofloresta (45,5% da área com capoeiras e 19,5% da área com agroflorestas, no total de áreas avaliadas).

Os agricultores argumentam que é importante fazer um bom trabalho em lotes menores e, assim, aumentar a quantidade de hectares. Não se trata do tamanho de cada lote em sistema agroflorestal. Na maioria dos lotes agroflorestais, encontram-se mais espécies e a densidade está ficando cada vez maior. Nos novos lotes com menos de um hectare, é comum encontrar 50 espécies de arbustos ou árvores, com uma densidade de mais de 7 mil plantas por hectare.

A fertilidade do solo e o sequestro de CO2

À primeira vista, essas capoeiras não têm utilidade. No entanto, uma grande quantidade de raízes aumenta a fertilidade do solo. Em primeiro lugar, há uma grande quantidade de matéria orgânica, como um resultado do material podado das plantas, que é colocado sobre o solo com cuidado. Ele garante uma intensa fertilização.

Estudos mostram que há uma diferença significativa no sequestro de CO2 entre os sistemas agroflorestais em campos e os mesmos sistemas no assim chamado “mato”. Por outro lado, os agricultores identificam em capoeiras as sementes que seriam perdidas no sistema agroflorestal. Além disso, eles encontram muita vida na forma de pássaros e abelhas, que trazem sementes e garantem a polinização. Essas características são importantes para o aumento da diversidade e da produção.

Cooperafloresta: “Na agricultura convencional, não há uma transição gradual entre a área cultivada e a floresta. Eles querem fazer o máximo de monocultura possível.” Por exemplo, em Flandres, até a margem de um córrego…

Será que é necessária uma mudança de paradigma para começar a pensar em “área de interesse ecológico”? Que dirá tentar implantá-la nas próprias terras!? Os agricultores com uma boa renda de antigas áreas erodidas, no Brasil, podem ensinar muito aos moradores da Bélgica. Com certeza. Talvez a Federação Europeia de Sistemas Agroflorestais (4) devesse fazer uma visita à Cooperfloresta.

 

Florianópolis, 23 de março de 2013.

(1) Veja: www.cooperfloresta.com e www.agroflorestar.org.br. Veja também o capítulo: Sistemas agroflorestais e recuperação.

(2) Veja: www.ecovida.org.br

(3) Veja também Mato Grosso: do desmatamento para a recuperação?, com o quadro sobre o rendimento dos diferentes sistemas agrícolas, em: Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, Curitiba, 2010).

(4) Veja: www.agroforestry.eu e www.agroforestry.be


[1]
             Nota da tradutora: Semelhante à “Reserva Legal”, prevista no Código Florestal Brasileiro.

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