22 A pegada ecológica do gato

Não importa se você entra em um supermercado em Curitiba, em Seul ou em Bruxelas: em qualquer lugar você vê vários metros com opções de ração para gatos e para cachorros. A ração enlatada é um dos bem-vindos polos de crescimento para as multinacionais de alimentos. A indústria de alimentos não pode continuar a se expandir se não houver consumidores com poder de compra. É que um ser humano não recebe alimento porque ele é humano, mas porque ele pode pagar. Os 1 bilhão de famintos podem confirmar esse fato.

Gatos e migração

Com os gatos, é diferente. Eles não são consumidores abastados, mas a nossa relação emocional com cães e gatos já tem mais de cem anos. Nós os humanizamos e vamos continuar a fazê-lo. Eles não podem nos insultar – então, eles são amigos ideais. De modo geral, os cães são encontrados com mais frequência com pessoas mais pobres; os gatos, na classe média e com os ricos. De modo geral, porque há muitos ricos com cães de raça caros ou gatos de raças raras.

 

Há milhares de anos, o gato ocupa um espaço em muitas culturas. É só pensar no status desse animal no tempo dos faraós egípcios. Humanizar animais de estimação é algo mais recente e se disseminou aproximadamente junto com a enorme emigração da Europa. Por causa da pobreza e da fome extremas (em consequência, entre outros, da doença de batata), entre os anos de 1846 e 1924, 55 (!) milhões de europeus se mudaram para as Américas, para a Austrália, a Nova Zelândia, a África do Sul e a Sibéria. A companhia de navegação Red Star Line, da Antuérpia, entre 1873 e 1935 transportou dois milhões de emigrantes europeus para os Estados Unidos e para o Canadá. Em 1930, constatou-se que, em um século, a parte branca da população mundial aumentou para 35%. Com esse êxodo, o gato foi espalhado por todo o mundo. Como, por exemplo, aqui no Sul do Brasil, onde desembarcaram muitos italianos, alemães, ucranianos e poloneses.

Gatos fora

Vamos, agora, nos focar em Dorien Knockaert, na Nova Zelândia. Essa ilha é um país de aves, com espécies endêmicas famosas, como o quivi, um pássaro que não pode voar porque, durante milhares de anos, não havia razão para fugir. Somente com a chegada dos europeus (os primeiros foram holandeses; da província de “Zeeland” para a “Nieuw Zeeland” [Nova Zelândia]) é que também vieram os predadores para a ilha: ratos, urubus, gatos. Agora, o quivi é uma das muitas espécies ameaçadas de extinção. Mas os gatos estão passando bem: quase uma em cada duas famílias tem um gato. O fato de ninguém levar a sério a relação entre as duas evoluções incomoda o economista neozelandês Gareth Morgan. Por isso, ele começou uma campanha antigatos: “Gatos fora”.

 

“O problema é que o seu amigo fofinho, na verdade, é o assassino serial do bairro”, escreve ele em seu site (1). “Nas cidades, os gatos matam os pássaros mais rápido do que eles conseguem se reproduzir. Eles são cúmplices no extermínio de nove espécies de aves nativas e afetam as chances de outras 33 espécies de aves ameaçadas de extinção.” Em seguida, ele faz um apelo: “Faça com que seu gato atual também seja o último. Mime-o, cuide bem dele, mas quando ele morrer, não adote outro em seu lugar.”

Esse apelo circulou ao redor do mundo e desencadeou muitos debates, principalmente entre amantes de felinos e aqueles que odeiam gatos. No entanto, em um ponto, o homem tem razão. Os gatos se multiplicam muito mais rápido do que suas presas. O período de gestação de um gato é de 60-65 dias. Uma gata tem, em média, três ninhadas (= 12 filhotes) por ano. Um ano = 12 gatinhos; 2 anos = 144 gatos, 3 anos = 1.728 gatos, 4 anos = 20.736 gatos (2). Esse cálculo, de um grupo de Diest que adotou a campanha, certamente é um pouco exagerado – até porque gatos do sexo masculino não têm filhotes –, mas os números dão uma ideia de como a população de gatos pode crescer exponencialmente.

O que o gato caça?

Na Bélgica, uma nova campanha da ONG ambientalista Natuurpunt [Ponto da Natureza] pergunta: “O que o gato caça?” (3). Eles não entram na discussão sobre os gatos serem animais de estimação recomendáveis, mas querem fazer com que olhemos para as suas presas, principalmente os camundongos. “Nós suspeitamos que deverão ocorrer grandes mudanças nas populações de camundongos nativos de nosso país”, diz Yuri Cortens, da Natuurpunt. “Para mapear essa mudança, pedimos que as pessoas tirem uma foto de qualquer rato ou camundongo que seu gato cace e faça o upload da imagem em nosso site. Pode-se dizer que fazemos da necessidade uma virtude: esses gatos já estão aqui mesmo. Eles podem nos ajudar em nossa pesquisa.”

 

É claro que não é uma pesquisa muito precisa. Para Natuurpunt, a questão principal é conscientizar. “Os gatos têm um impacto ambiental muito maior do que estamos inclinados a imaginar. Quando, por exemplo, o rato-dos-pomares é ameaçado, você vai ouvir as pessoas sugerirem que isso se deve à coruja. Mas os gatos são muito mais numerosos e influentes.” Eles caçam mais e em locais muito mais distantes do que seus donos geralmente pensam. Eles se afastam facilmente até 8 quilômetros de sua casa, de acordo com um estudo holandês com radiotransmissores. “Na Bélgica há cerca de 2 milhões de gatos e estima-se que um gato mata, em média, 20 animais por ano. Isso representa cerca de 40 milhões de presas por ano.” E qual seria a situação no Brasil? O Brasil, um vasto país, com uma ainda imensa biodiversidade, mas também com muitos colonizadores. Portanto, com muitos animais de estimação.

Equilíbrios

A maioria dos leitores certamente acha ótimo que esses ratos e camundongos sejam capturados. É verdade, às vezes existe superpopulação de camundongos, porque o equilíbrio ecológico está perturbado. Por outro lado, existe uma grande diversidade de ratos e camundongos, e cada um deles tem a sua função no ecossistema. Por exemplo, os voles, os lemingues e os ratos-almiscaradeiros são herbívoros. Eles mantêm o crescimento da vegetação em equilíbrio, garantem que o solo permaneça aerado e, assim, contribuem para a fertilidade.

 

O que nós subestimamos o efeito “espantalho” de um gato. Quando há gatos vivendo em determinado lugar, haverá menos pássaros fazendo ninhos por lá. Assim, mesmo quando não estão caçando, os gatos provocam impacto. Dar mais comida aos gatos para que cacem menos não faz diferença, pois, mesmo sem fome, eles gostam de caçar. Por isso, Morgan recomenda que os neozelandeses mantenham os gatos dentro de casa. E, se o gato vai lá fora, um sininho pode ajudar.

Comer os cães e os cavalos?

Mesmo se um gato passar o dia inteiro dentro de casa, ele tem um grande impacto ambiental. Cortens: “Por causa das enormes quantidades de carne e peixe que eles comem.” Um estudo realizado pela revista The New Scientist, de 2009, revelou que um gato tem o mesmo tamanho de pegada ecológica que um Volkswagen Golf que percorre 10 mil quilômetros por ano (a pegada ecológica de um cão de porte médio se equipara à de um Toyota Land Cruiser). E a ainda resta a questão sobre devermos ou não considerar a embalagem de alumínio de muitas das rações (úmidas) de gatos.

Os resultados do estudo acima estão de acordo com os cálculos que os arquitetos neozelandeses Robert e Brenda Vale fizeram em muito comentado livro, Time to eat the dog: The real guide to sustainable living [É hora de comer o cachorro: o verdadeiro guia para uma vida sustentável]. Eles concluíram que as galinhas são animais de estimação muito mais ecológicos. Os coelhos também têm menor impacto ambiental, especialmente se você comê-los depois de algum tempo. Essa provocação não deixou de atingir o alvo. Um eco distante é a indignação geral no recente escândalo da carne de cavalo na Europa. Os consumidores não aceitam – e com razão – que em muitos países europeus se encontre carne de cavalo na lasanha, enquanto o rótulo diga carne de gado. O que também desempenha um papel importante é que, aparentemente, nós não temos sentimentos quando consumimos a carne de um boi, mas sentimos ao pensar em consumir um cavalo. Especialmente na Grã-Bretanha, onde consumir a carne do nobre animal cavalo é algo que não se faz. A ONG Eva (Etisch Vegetarisch Alternatief [Alternativa Vegetariana Ética]) (4) se pergunta, com razão: “Por que o boi sim e o cavalo não?” É realmente uma questão interessante, em Flandres também, onde continua a aumentar a quantidade de cavalos na paisagem. As vacas estão diminuindo, mas cavalos estão em ascensão, graças ao hobby e com o apoio do ministro-presidente Peeters. Cavalos como um símbolo de status de uma classe média que está enriquecendo.

Emissões de gases de efeito estufa

A ONG Eva, em um cálculo aproximado, afirma que somente pelo consumo de carne a população de gatos belga já produz emissões de gases de efeito estufa equivalentes a um carro de passeio que circula 25 mil vezes em torno da Terra.

 

Em vários pontos, resta a adivinhação. Precisamos de mais pesquisas, mas está claro que a humanização dos animais de estimação e, ao mesmo tempo, a instrumentalização de “animais comestíveis” (vacas, porcos, galinhas) na pecuária intensiva tem impactos planetários.

 

Curitiba, 18 de março de 2013.

(1) Veja: garethsworld.com/catstogo/

(2) Dados do “Projeto Gatos de Rua de Diest”. Diest é uma cidade na Bélgica. “Castrar ou esterilizar” é a mensagem deles.

(3) Veja: www.natuurpunt.be/nl/vereniging/actua/katten-helpen-muizen-tellen_911.aspx [Gatos ajudam a contar camundongos]

(4) No Brasil, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) provavelmente faz a mesma pergunta. Veja: www.vegetarianismo.com.br

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