21 Uso indireto da terra

Todos os anos eu me vejo com o mesmo dilema de consciência. O que fazer a respeito do combustível fóssil finito que consumimos e a respeito das emissões da aeronave que me leva para o Brasil? O que fazer a respeito do enorme volume de lixo – em plástico e alumínio – que tal viagem produz? Eu já faço esse alerta sobre o abuso do “metal verde” (1) desde 1997. A sopa de plástico nos oceanos e o caldo de plástico no Mar do Norte começaram a nos preocupar (2) nos últimos anos.

Dia Internacional da Luta Camponesa

Pergunto à aeromoça se algo será reciclado? “Não, não temos espaço para isso.” Isso corta meu coração. A clareza da destruição sempre me transporta mentalmente para a região de Carajás (Pará), uma das áreas de mineração do Brasil. Além do minério de ferro, também se converte muita bauxita em alumínio, um processo muito poluente e com grande consumo de energia. As muitas barragens expulsaram os povos indígenas e os pequenos agricultores para tornar possível a exploração do metal “verde” – já que ele poderia ser 100% reciclado. A mesma Carajás onde 19 agricultores sem-terra foram assassinados. Desde essa carnificina, o dia “17 de abril” foi declarado o “Dia Internacional da Luta Camponesa” (3).

 

Mesmo assim, somente com internet, Skype, Twitter e Facebook a gente não chega lá. Se quisermos estabelecer um diálogo internacional para a conscientização, se quisermos criar vínculos e se esperamos nos organizar, as pessoas e os grupos também precisam se reunir pessoalmente. Razão para fazer, sim, essa turnê a cada ano – enquanto minha idade e minha saúde me permitirem. Para debater, dialogar, articular e para inspirar resistência internacional.

Friends of the Earth Europe [Amigos da Terra Europa]

“Mundo B”, o edifício no qual Wervel está sediado, é um lugar de estudo, diálogo, resistência e construção de alternativas. Fica a poucos passos do bairro “europeu”, em Bruxelas, com sua “trindade” da Comissão Europeia – Conselho Ministerial Europeu – Parlamento Europeu. Com 400 pessoas, trabalhamos em torno de temas como ecologia e justiça social; são 40 organizações, principalmente europeias. Por exemplo, “Amigos da Terra – Europa” (4). Eles trabalham muito, em numerosos temas. Assim, existem suas interessantes publicações sobre “Culturas para biocombustíveis, mudança indireta no uso da terra e emissões” (5). É minha literatura de bordo durante a viagem de avião, não tão recente, mas ainda muito atual.

 

A União Europeia decidiu que, até 2020, 20% do fornecimento de energia na UE devem ser provenientes de fontes renováveis. O setor de transportes deve ser abastecido por, pelo menos, 10% de “bio”combustíveis. Na aparência, propostas bem “ecológicas”, mas houve pouca reflexão sobre os efeitos perversos dessas metas políticas. As consequências geralmente estão ocultas, bem distantes: na Argentina, no Brasil, na Colômbia, na Malásia, na Indonésia, na Somália…

“Amigos da Terra – Europa” publicou três estudos de caso sobre os temas “cana-de-açúcar no Brasil”, “óleo de soja” e “óleo de palma ‘sustentável’ para o biodiesel”. Vou me limitar aos efeitos de deslocamento provocados pela cana-de-açúcar para etanol (6). Sobre biodiesel a partir de óleo de soja, você pode ler os meus livros anteriores.

“Não, nós não desmatamos!”

Tanto o setor sucroalcooleiro quanto a cadeia produtiva da soja sempre juraram, para todos aqueles que quiserem ouvir, que eles não se envolvem em desmatamento. A “Mesa Redonda sobre Soja Responsável” (RTRS) estabeleceu, por analogia com a – um pouco menos recente – “Mesa Redonda sobre Óleo de Palma Sustentável” (RSPO), uma série de critérios para declarar esses produtos obtidos por monocultura “sustentáveis”. Ser isento de OGMs [organismos geneticamente modificados], por exemplo, não faz parte dos critérios. E nada se encontra sobre os direitos dos povos indígenas. No entanto, eles são cercados, expulsos e lentamente envenenados pelo herbicida Roundup e por outros agrotóxicos (muitas vezes proibidos), que geralmente são chamados pelos fabricantes de “defensivos agrícolas”.

Além disso, os critérios levam em conta apenas o que acontece na própria fazenda. O trabalho da “Amigos da Terra Europa” coloca o dedo em uma das muitas feridas fétidas: a soja para ração animal/biodiesel e a cana-de-açúcar para etanol (e para outras aplicações) tomam terras em que, até pouco tempo atrás, ainda havia produção de alimentos ou criação de gado. A pecuária está se deslocando em direção à Amazônia e ao Cerrado. Nos últimos 15 anos houve uma verdadeira explosão na “produção” de carne por lá. Na Amazônia, de 1997 a 2007, o gado aumentou 78%. Em 2007, havia 69.575.000 cabeças de gado na região, cerca de 35% do total nacional.

São Paulo: agricultura para a produção de alimentos diminui

A maior expansão da cana ocorre no Centro-Oeste e no Sul do Brasil, próxima de usinas de etanol, portos e mercados para o etanol. Cerca de 60% das plantações de cana-de-açúcar estão localizadas no Estado de São Paulo. Em Goiás, a produção aumentou em 55%; no Mato Grosso do Sul, em 30% (7).

 

O epicentro da cana-de-açúcar ainda é São Paulo. A recente expansão desloca a pecuária para regiões mais ao norte (que são, então, desmatadas) e expulsa outras culturas. Entre 2005 e 2008, a área plantada de cana aumentou em 1,8 milhão de hectares. Anteriormente, metade era pasto e 44% eram de outras culturas. Por enquanto, São Paulo ainda é uma importante fonte de alimentos para a Região Sudeste, mas os números mostram claramente que o cultivo de milho, soja, trigo e feijão está diminuindo…

Aumento nos gases responsáveis pelo aquecimento global provocado por agrocombustíveis

Conclusão da “Amigos da Terra”: “O uso de etanol em vez de petróleo leva claramente a problemas econômicos, sociais e ecológicos. Esses problemas minam os supostos benefícios de cana. O uso indireto da terra como um resultado da expansão da cana conduz a um aumento substancial na produção de gases que provocam o aquecimento da Terra. Talvez eles gerem até mesmo mais emissões do que os combustíveis fósseis.”

“Amigos da Terra” reivindica:

·                     fatores fortes para ILUC (ILUC: mudança indireta no uso da terra), a serem incluídos na análise do ciclo de vida de agrocombustíveis;

·                     uma revisão urgente das metas da UE envolvendo biocombustíveis, porque as emissões ILUC são desproporcionalmente elevadas em comparação com os objetivos acordados (8).

A “banalidade do mal”

Ao ler essas publicações, não consigo deixar de pensar na filósofa judia-americana nascida na Alemanha Hannah Arendt. Em 1962, ela se tornou conhecida da noite para o dia com seu livro Eichmann em Jerusalém. Um relatório do julgamento do nazista Adolf Eichmann. O subtítulo do controverso livro é: Um relato da banalidade do mal. Ela descreve a “subserviência” desse inexpressivo burguês comum, que organizou a logística para a destruição de milhões de judeus, ciganos, homossexuais, comunistas… Para ela, não é o mal que é banal, e sim o homenzinho subserviente, que tornou o mal possível. Nos julgamentos pós-guerra, o refrão era: “Nós éramos apenas uma pequena engrenagem da grande máquina. Nós tivemos que obedecer.” Arendt contrapõe que sempre se pode cobrar de um ser humano, de uma pessoa, a sua responsabilidade.

Posso estender cuidadosamente essa “banalidade do mal” da política destrutiva para a economia destrutiva? Será que também não se aplica a nós, consumidores “subservientes” e ignorantes produtores-presos-no-sistema-de-produção-internacional, que “nós não sabíamos”? É tão distante! (Mantido) Tão oculto.

 

Ainda bem que existem organizações e movimentos, como a “Amigos da Terra”. Aqueles que tentam revelar o oculto, para que pudéssemos saber e não mais fazer parte da banalidade. Talvez essa viagem anual de Wervel e essa troca também possam contribuir com isso.

 

São Paulo, 14 de março de 2013.

(1) A espiritualidade da lancheira[1], na Tijdschrift voor Geestelijk Leven [Revista para a Vida Espiritual] – TGL, de 1997, incluída no Jornal de Wervel Da Guerra Mundial por Alimentos para Movimento Mundial por Alimentação, de 1998.

(2) Caldo de plástico ou roupas de cânhamo?, no Jornal de Wervel, setembro de 2012.

(3) Wervel e Associations 21 organizam, no dia 17 de abril de 2013, em “Mundo B” (www.mundo-b.org), uma tarde de debates sobre “comércio justo local”. Ao mesmo tempo, é possível visitar a renovada exposição sobre o Cerrado brasileiro. No sábado, 23 de março, Wervel organiza uma tarde de formação sobre “o papel dos bancos na agricultura & alternativas financeiras”.

(4) Veja: www.foeeurope.org

(5) Três publicações: Soy oil and indirect land use change [Óleo de soja e mudança indireta no uso da terra], Sugar cane and land use change in Brazil [Cana-de-açúcar e mudança no uso da terra no Brasil] e ‘Sustainable’ palm oil driving deforestation [Óleo de palma ‘sustentável’ promove desmatamento], cada uma delas com o mesmo subtítulo: Culturas de biocombustíveis, mudança indireta no uso da terra e emissões (FOE, 2010).

(6) Globalmente, o fenômeno do “landgrabbing” está aumentando, não só por causa da cana-de-açúcar para o etanol, mas também por causa da biomassa cana: como um substituto para tudo o que, agora, ainda é fabricado a partir do petróleo (plásticos etc.) Veja Neoquímica, compromisso com a vida, em Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(7) Veja o comovente filme de An Baccaert, À sombra de um delírio verde, sobre o avanço da cana no Mato Grosso do Sul e a situação dos guaranis: www.thedarksideofgreen-themovie.com

(8) Devido às constantes críticas, a Comissão Europeia começa a mudar um pouco sua política. Agora está sendo proposto um teto de 5% de etanol a partir de culturas agrícolas e 5% de “biocombustíveis avançados” (por exemplo, combustível de algas): www.vilt.be/Ethanolindustrie_vindt_EU_bijmengdoelen_onrealistisch


[1]
             Nota da tradutora: Os trabalhadores europeus têm costume de levar seu almoço – geralmente composto de sanduíches preparados em casa e frutas – para o trabalho numa lancheira.

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