20 Herman Verbeek, o novo Marx do Extremo Norte?

No dia 1º de fevereiro de 2013 faleceu Herman Verbeek, o padre holandês e ex-deputado do partido GroenLinks [Esquerda Verde] no Parlamento Europeu.

Poucas semanas antes de sua morte, uma pessoa – muito envolvida com Wervel nos seus anos iniciais – escreveu uma carta de despedida para a longínqua Groningen. Groningen, a cidade mais ao norte da Holanda, onde Herman viveu e trabalhou durante 76 anos.

Chamar o capitalismo pelo nome

Na sua carta, essa pessoa relembra a nossa visita conjunta a Sicco Mansholt[1], em 1990. Ela também discorreu sobre as manifestações contra o baixo preço do leite, em novembro de 2012, e a crise do capitalismo.

Em sua resposta (carta de 5/12/12), Verbeek escreveu, entre outros assuntos, que “deve ser dada continuidade à análise do capitalismo, ora globalmente dominante, com toda clareza”. “Mais do que nunca, deve ser chamado de ‘capitalismo’”. […] “Ganhar dinheiro é o primeiro e primordial objetivo. Utilidades, produtos, serviços para as pessoas, para as suas necessidades, por outro lado, foram reduzidos a meros meios para obtê-lo. Três vítimas são conhecidas: o trabalho, os pobres e a terra”. Ele também trata de seu livro A economia como Guerra Mundial, que ele escreveu em 1990, e a sua repercussão na época, como no jornal NRC Handelsblad, sob a manchete: “O novo Marx, um agitador no Extremo Norte”.

Não é possível definir Herman Verbeek com uma única palavra. Ele era um sacerdote católico, mas afiadíssimo para com a instituição chamada “igreja”. Ele realizava a análise marxista de modo crítico, mas entrou em sério conflito com aqueles que defendiam/defendem um marxismo dogmático. Para muitos agricultores da Holanda e da Bélgica, ele era “o pastor dos agricultores”, mas isso fez com que lançasse ataques frontais ao setor agroindustrial. Em sua análise, ele era implacável com os sindicatos agrícolas convencionais desse mundo, pelo modo como eles estão presos ao modelo agrícola agroindustrial globalizado e capitalista.

Antes de tudo, um monge

A vocação de Verbeek era, antes de tudo, ser monge com uma caneta afiada e um talento para um discurso convincente. Os agricultores belgas que abandonaram esse modelo deram testemunho sobre isso depois de sua morte. O criador de cabras R. diz: “Herman é uma pessoa que inspirou muito o meu modo de pensar e agir. Um homem muito especial. Cada palestra dele causava grande impacto em mim.”

Eu mesmo conheci Herman Verbeek, em junho de 1984, logo após a sua eleição para o Parlamento Europeu. Ele ocuparia uma cadeira durante dez anos e se debruçaria sobre as questões agrícolas, mas ele também mantinha muitos contatos, principalmente com a base camponesa, com o movimento ambiental, com as organizações Norte-Sul etc.

Naquela época, em junho de 1984, ele ainda conduzia com pouca ousadia seu workshop sobre o Evangelho de Marcos: uma mensagem libertadora para os pobres e oprimidos. Pouco ousado, em que isso vai dar no Parlamento?

Naquela época eu era colaborador do centro de reflexão e formação na Abadia de Averbode e o convidei para um fim de semana sobre o tema São Marcos. Foi um fim de semana a partir de seus “cantos”, no outono de 1987. Desde então, seus textos extremamente poéticos, que possuem uma forte dimensão contemplativa e, geralmente, também uma dimensão político-econômica, inspiram muitos belgas engajados.

Wervel

Em 1989, ele desafiou a mim, na qualidade de responsável do centro, para organizar fins de semana não só de canto e debate, mas também fins de semana com agricultores e agricultoras, consumidores, participantes do movimento ambientalista, do movimento em favor de países em desenvolvimento e do movimento da paz. Eu posso ser o filho de um veterinário, mas isso jamais havia passado pela minha cabeça: “Um fim de semana crítico dedicado à agricultura em uma abadia, o que resultaria disso?!”

Foi um intenso encontro de dois dias, no qual conseguirmos reunir esses diferentes grupos de interesse. Naqueles dias, eu estava morrendo de medo que essa abadia medieval se tornasse um refúgio para “belos oradores”. Assim, invariavelmente, encerrávamos os dias de reflexão e formação dizendo: “Amanhã é segunda-feira. O que vamos fazer a respeito?” Foi a partir dessa pergunta que nasceu Wervel: “Grupo de trabalho por uma agricultura justa e responsável”. A sigla Wervel foi inspirada no subtítulo de seu livro Nas mãos de agricultores: Por uma agricultura justa e responsável. Um título que já é um programa.

Nos primeiros anos de Wervel, organizamos várias turnês visitando agricultores em Flandres [Bélgica]. O fenômeno “Verbeek” atraía salas cheias, com centenas de homens e mulheres agricultores, de Limburg até Flandres Ocidental. Enquanto, na Holanda, ele era o deputado mais entrevistado, na Bélgica esse emissor de “interferência agrícola” também foi abordado com frequência, tanto pelo rádio quanto por emissoras de TV e imprensa escrita.

Ao longo dos anos surgiram mais alguns livros escritos por ele, obras de engajamento tanto espiritual quanto político[2]: Marx é obrigatório?, Interesse dos agricultores, A economia como Guerra Mundial, Diário de bordo verde, Contra o espírito do tempo, O homem na estrela, Cantos camponeses, Marés, Cancioneiro da alma, Cancioneiro da terra etc. Nas últimas semanas de sua vida, enquanto o câncer o agredia, ele finalmente escreveu sua autobiografia: E, então, a pomba desceu. Memórias. O livro foi distribuído no funeral.

O agricultor e a agricultora inspiram

O papel desse orador e escritor talentoso no debate agrícola nas décadas de 1980 e 1990 é difícil de avaliar. Ele estava entre os que criaram o “Conselho Agrícola Crítico”, da Holanda (que, infelizmente, não existe mais), e ele foi determinante para a fundação de Wervel. Ao mesmo tempo, há sua grande obra político-estrutural invisível. Por exemplo, no início da década de 1990, ele e a Bancada Verde no Parlamento Europeu conseguiram a implementação de um regulamento em nível europeu sobre agricultura orgânica. Ao mesmo tempo, durante as várias noites de debates, ele soube inspirar centenas de agricultores e consumidores em favor de uma nova política agrícola e de outras práticas agrícolas.

Wervel não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para uma transição muito necessária no mundo agrícola. É uma pequena engrenagem de um movimento global pela soberania alimentar. Nesses meios, Herman Verbeek continuará a ser uma inspiração, ainda que agora tenhamos chegado a outro momento. As muitas crises que se encadeiam talvez possam acelerar a tão necessária transformação.

Para encerrar, mais um comentário desse colaborador de Wervel, sobre a última carta: “Por fim, ele escreve que ele ainda pode concluir sua biografia: ‘E, então, a pomba desceu’”. Com esse título, ele quer dizer que, em sua vida, ele desceu cada vez mais, do céu para a terra, para a matéria, de toda a superestrutura para a subestrutura… "

Herman, seus pensamentos em livros e poemas e permanecem em nós e nos movem.

Obrigado.

 

Bruxelas, 5 de março de 2013.

Herman Verbeek há três anos: http://www.youtube.com/watch?v=sFisfjKmEac&feature=youtu.be


[1]
             Nota da tradutora: Sicco Mansholt, primeiro Comissário Europeu para a Agricultura.

[2]           Nota da tradutora: Os títulos foram traduzidos, mas as obras estão disponíveis apenas em neerlandês.

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