19 Quem ainda acredita nessas pessoas?

Era uma expressão comumente utilizada por Yves Leterme, durante os longos anos de oposição do partido CD&V [Partido Democrático Cristão Flamengo]. Mais tarde, ele próprio se tornou primeiro-ministro da Bélgica e sua lendária frase se voltou contra ele regularmente, como bumerangue: “Quem ainda acredita nessas pessoas?”

Políticos, não dá para confiar neles!

Quando converso com os brasileiros, sempre chama minha atenção a falta de confiança deles nos políticos. Uma pesquisa recente confirmou o que há muito tempo já é sabido: somente 22% da população ainda confiam no Congresso Nacional e apenas 5% nos partidos políticos. As notícias de fraudes amplamente difundidas pela imprensa quase diariamente devem ter tudo a ver com isso. Qual seria o resultado dessa pesquisa entre nós, em Flandres, Bélgica, Europa?

 

E quem se destaca no Brasil? O exército, com 73% de confiança, a Igreja Católica, com 56%, o Ministério Público, com 55%, grandes empresas, com 45%, e a imprensa escrita, com 44%. Entre nós, na Bélgica, esse quadro pode ser bem diferente.

A coordenadora da pesquisa, Luciana Gross Cunha, afirma que pesquisas internacionais mostram que o Brasil é um dos países da América Latina em que as pessoas têm menos confiança na democracia como sistema político: “Não existe uma relação clara entre a área pública e a privada. A privatização daquilo que é público ainda impera. Essas instituições são sempre vistas como o outro, algo ‘do qual eu nada tenho a esperar’.”

Às vezes eu me pergunto se a “negação” de mais de três séculos de escravidão e de duas ditaduras desempenha algum papel na desconfiança de tudo aquilo que está relacionado com o governo. Somente agora, 27 anos após o fim da última ditadura, o Brasil instituiu uma “comissão da verdade”, um dos últimos países da América Latina a fazer isso. Para, finalmente, encarar a verdade daquele horror.

 

A mesma pesquisa também mostra que três em cada cinco pessoas não confiam na polícia. O maior grau de desconfiança é encontrado entre os jovens e os pobres. Com relação à faixa etária, a sensação de confiança é maior em pessoas com mais de 60 anos, apesar de, nessa faixa da população, apenas 50% terem uma boa opinião sobre a instituição “polícia”.

É normal que a população mais pobre tenha menos confiança na integridade da polícia, pois na luta contra o crime várias corporações são empregadas contra ela. Os ricos acionam a polícia para defender suas propriedades bem protegidas. Muitos vivem em ilhas de luxo na cidade, com segurança privada. Em São Paulo, os mais ricos se deslocam de helicóptero. Para não ter de enfrentar o engarrafamento, mas também para não serem confrontados com a pobreza.

A crescente consciência ambiental

Com a perspectiva do Rio+20, também são publicadas pesquisas sobre a crescente conscientização ambiental do brasileiro médio.

Uma pesquisa do Ibope de 2011 revelou que 94% da população está preocupada com o meio ambiente. Em 2010, esse percentual era de 80%. Dos entrevistados, 44% acham que a proteção ambiental deve ter mais prioridade do que crescimento econômico. O desmatamento é o que mais preocupa os brasileiros, cerca de 53% deles. Em segundo lugar vem a poluição da água, com 44%, e o aquecimento global, com 30%. O estranho é que 38% dos entrevistados acreditam que a indústria é o principal responsável pelo aquecimento global, enquanto, na realidade, o responsável é o desmatamento – pelo menos no caso do Brasil. Aparentemente eles não enxergam as relações. Por exemplo, como o Cerrado está sendo rapidamente ocupado com eucalipto-cana-de-açúcar-soja, é a posição secular do gado naquela região está sob pressão. Por isso os pecuaristas estão se deslocando para a Amazônia. O setor sucroalcooleiro sempre insistiu que eles plantam cana apenas em “terras já desmatadas ou degradadas”. Eles também não enxergam a conexão entre a sua ocupação “verde” e o desmatamento mais ao norte no país. Ou melhor, eles negam isso.

 

A atual discussão do Novo Código Florestal, os subornos e as chantagens em torno dele não têm elementos para fazer aumentar a confiança nos políticos.

 

 

São Paulo, 16 de maio de 2012.

Sinais de esperança, a outra notícia

Através da história da soja, Luc já esboça há anos a interdependência entre Brasil e Europa/Bélgica. Conhecer e compreender melhor as transformações no Brasil é, por vários motivos, crucial neste período de profunda transição no mundo. Transição na qual precisamos evoluir da atual relação desequilibrada de dependência para uma verdadeira relação de igualdade. Todavia, enquanto nós comprarmos ar limpo no Brasil para cumprir nossas próprias obrigações, enquanto nós incentivarmos a produção de etanol fazendo com que o cultivo de cana-de-açúcar empurre a produção de alimentos para regiões onde isso, por sua vez, provoca desmatamento, enquanto a soja brasileira servir de alimento para os suínos europeus, ainda não chegaremos a lugar algum.

O livro não traz uma análise distanciada das transformações no Brasil. A partir de uma grande vivência e um grande envolvimento pessoal, torna-se visível uma subcorrente de esperança: as pessoas e iniciativas que protestam contra a loucura neoliberal por meio de seu compromisso com a justiça social, não só no Brasil, mas também na Bélgica (1). A justiça social exige uma atitude de vida ética, uma economia ecológica e, para agricultura e alimentos, isso se encontra na opção por agricultura e alimentação em sistemas agroecológicos.

Uma atitude de vida ética

Luc mostra mais de uma vez como ele estabelece a discussão com os brasileiros, numa abordagem cautelosa e com humildade, sem se esquecer da dívida histórica que nós ainda não pagamos. Enquanto isso, o Brasil – sendo um dos cinco países que formam os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) – representa uma nova potência econômica e, assim, nos oferece uma oportunidade de evoluir para uma relação de igualdade. Mas, então, nós, europeus, precisamos deixar de lado nossa atitude superior e buscar meios para lidar de outro modo com as pessoas (2). Uma série de exemplos neste livro/diário nos dá a oportunidade de ampliar efetivamente os nossos horizontes e assim, lentamente, de perceber que é um processo irreversível. Para mim, isso é essencialmente uma busca por uma atitude de vida mais ética, baseada na justiça social. Gerbert Bakx[1] chama uma vida ética de “uma vida de responsabilidade”, não apenas pelos próprios pensamentos, emoções e ações, mas também pelo impacto desses sobre outras pessoas e sobre todas as outras formas de vida e o meio ambiente, tanto na nossa vizinhança próxima quanto no contexto mais amplo de toda a terra.

Temos consciência de que podemos viver uma vida mais feliz também como indivíduos, pois vivemos conscientes de que nós estamos fazendo uma contribuição valiosa, longe da vida ditada pela sociedade de consumo. Talvez o sucesso de fenômenos como crowdfunding [financiamento coletivo], hortas comunitárias, permacultura, clubes de trocas[2] e a produção de produtos reciclados é um sinal de que estamos lentamente começando a olhar para o valor real das coisas.

Economia verde ou justiça social?

Brasil, o país onde, em 1992, foi realizada a promissora Cúpula da Terra da UNCED [Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento], onde foi firmado, entre outros, o Acordo sobre o Clima. O que resultou disso? Nada, ainda estamos na mesma situação – ou pior, nós até regredimos. Na 19ª (!) COP (Conferência das Partes), em Varsóvia (novembro de 2013), a representação global da sociedade civil abandonou antecipadamente a conferência como um protesto contra os resultados lamentavelmente fracos da reunião. Mais uma vez, constatou-se que a conferência depositava sua esperança na “economia verde”, que leva a falsas soluções para a crise climática, como agrocombustíveis, transgênicos, e a mecanismos de mercado de carbono, como o REDD (Reducing emissions from deforestation and forest degradation [Redução de emissões por desmatamento e degradação florestal]). Em países como o Brasil, eles atraem as pessoas pobres para a armadilha com falsas promessas de progresso, enquanto as florestas e os territórios onde essas pessoas já vivem há milhares de anos são privatizados e comercializados. Em países como a Bélgica, os cidadãos, principalmente a classe média com curso superior, gostam de acreditar na solução por meio da economia verde: aparentemente o problema não é tão grave, existem soluções que colocam seriamente em cheque o nosso modo de vida e, acima de tudo, os políticos e as empresas já estão trabalhando nisso. Um mito que Matthias Lievens e Anneleen Kenes desmantelaram claramente e com detalhes em De mythe van de groene economie [O mito da economia verde] (3). Não, as mudanças virão da base, das pessoas que se organizam em movimentos ambientalistas, sindicatos, movimentos como “Indignados” e “Occupy Wallstreet” e que põem um freio no mercado e na lógica de crescimento, que lutam por uma verdadeira democracia e denunciam o “um por cento da elite no poder”, que só trabalha em benefício próprio, ou seja, embolsa os lucros arrecadados dos demais 99 por cento. Elas irão aumentar a pressão sobre os políticos em todo o mundo, porque muitas das causas da injustiça têm origem nessa lógica de crescimento. Não importa se você parte da perspectiva da crise climática, da crise alimentar ou da crise financeira, a luta contra a injustiça é a mesma: a luta por social justiça e redistribuição. A história de crescimento se tornou ecologicamente insustentável. Nós nos deparamos com inúmeros limites, a redistribuição deve voltar a ser o foco central, inclusive na agenda política.

Embora não exclusivamente, o foco deste livro é alimentação e agricultura. É nesses temas que eu acredito que se encontram os desafios também para nós na Bélgica, distanciando-nos da economia verde, com suas iniciativas como soja responsável que Wervel desmascarou corretamente, e caminhando para a verdadeira economia ecológica, para as alternativas a partir da base.

Agroecologia

O Brasil, conhecido por sua problemática em torno da soja e do desmatamento, também é o país onde se localizava o berço da agroecologia. É um sistema de pensar sobre agricultura e alimentação e que aponta para uma direção construtiva para o futuro de nosso sistema agrícola e alimentar, pois leva em conta tanto a ecologia quanto a economia, a realidade social e a resiliência. A perda da (agro)biodiversidade, as problemáticas do clima e a energética, a escassez de água, a erosão e a degradação do solo, a dependência dos gigantes de sementes e do setor de biotecnologia, as monoculturas… mostram que a abordagem descendente (principalmente técnica) do modelo agroindustrial não produziu o resultado desejado de segurança alimentar. É necessária uma mudança de paradigma, para longe da agricultura industrial produtivista.

Essa mudança deverá ser exigida – portanto, vamos realizar globalmente um verdadeiro debate público sobre agroecologia, como a “nova agronomia” na qual os recursos naturais são gerenciados coletivamente por meio de ação social. Esse debate envolve produtores, agricultores, pesquisadores e consumidores.

O próprio Brasil lida com isso de um modo um tanto esquizofrênico, pois possui dois ministérios da agricultura, a partir do quais continua apoiando dois modelos agrícolas opostos: um ministério para a agricultura agroindustrial convencional e outro para a Agricultura Familiar, mas que é responsável por 70% dos alimentos produzidos. A agricultura convencional está voltada principalmente para a exportação e ainda tem uma clara superioridade em termos de importância e apoio por meio de legislação e de financiamento da pesquisa. É nela que também se situa a problemática do desmatamento na Amazônia, que – entre agosto de 2012 e julho de 2013 – aumentou 28% em relação ao ano anterior. A ministra brasileira do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, declarou que isso é “inaceitável” e prometeu para enfrentar esse “crime”. As causas para esse aumento podem estar no esvaziamento do novo Código Florestal, mas especialmente no apoio ao modelo agroindustrial que, por sua vez, está intimamente ligado ao modelo agroindustrial nos EUA e na UE, ou seja, também conosco.

Em nossa pequena região de Flandres [na Bélgica] não há dois ministros da agricultura, mas o governa opta, hoje, predominantemente pelo modelo de crescimento da agricultura industrial. Cabe a nós, à sociedade – a base –, fortalecer as alternativas, dando mais visibilidade àquilo que ora ainda ocorre principalmente à margem. É graças a iniciativas e movimentos locais que a importância da agroecologia evolui lentamente para o debate público e, assim, pode e deve redirecionar a imagem de mundo dominante. Cursos de permacultura e agroflorestais estão em alta no Brasil e em Flandres. Luc descreve belamente essas pessoas, esses movimentos como “aqueles que abrem o futuro”.

O relatório IAASTD (4) já reivindicava, em 2008, mais ecologia na agricultura (ciências agrárias), distanciando-se do pensamento de curto prazo, das grandes empresas que direcionam/financiam a grande maioria das pesquisas agrícolas. A forma como a pesquisa é feita agora exige, no mínimo, uma reflexão crítica e convida para alternativas radicais. Esmeralda Borgo escreveu um artigo muito interessante no jornal de Wervel (5), no qual ela afirma que produção é mais do que a quantidade de toneladas de produto comercializável produzida em um hectare. Avaliar um sistema de produção meramente com base na perspectiva econômico-financeira é sinônimo de prática de pilhagem sobre o futuro. Quem quiser produzir de forma sustentável deverá levar em conta o valor – que não é passível de ser expressado em termos monetários – da acumulação de húmus necessário e a restrição à produção que é necessária para manter um ecossistema equilibrado. Isso significa, entre outros, que você sacrifica uma parte da produção para manter o equilíbrio do sistema ecológico.

Plataformas de conhecimento

Essas alternativas devem ter muito mais visibilidade e as universidades devem abrir sua exclusividade em torno da gestão do conhecimento. Sobre isso, a professora de filosofia da ciência Isabelle Stengers escreve que ciência não a “monocultura” de uma verdade, mas uma prática social cheia de controvérsias. Os pesquisadores e outros interessados realizam experimentos com as múltiplas relações entre ciência e sociedade. Assim, as plataformas de conhecimento (6) estão surgindo como um modelo refrescante, no qual agricultores, ativistas e pesquisadores de diferentes disciplinas trabalham em conjunto no desenvolvimento e na produção de conhecimento sobre regimes alimentares alternativos em fazendas experimentais ou em outros projetos de pesquisa. Eles compartilham a observação de que a crescente industrialização e o financiamento agrícolas atrapalham as possibilidades de agricultura e de regimes alimentares saudáveis. Eles também compartilham a observação de que grande parte da pesquisa que está sendo realizada hoje em faculdades de agronomia está direcionada para a manutenção dessa situação, devido aos paradigmas em que se baseiam. Tais plataformas de conhecimento estão ativamente empenhadas em desafiar e rejeitar os paradigmas existentes. A pesquisa está sendo radicalmente reorganizada.

Diferentes experiências, valores e interesses garantem que as pessoas vejam alguns fragmentos de uma problemática, que os ampliem e repercutam. Elas contam sua história pelos óculos que possuem, com as técnicas e ações que são parte delas. Afinal, tudo o que sabemos sobre um pedaço do mundo é proveniente da interação que temos com ele. Por exemplo, os pesquisadores podem considerar as pragas em lavouras como um problema técnico, buscando a solução na modificação do código genético do organismo, ou a utilização de pesticidas. O aparecimento de pragas pode, também, estar ligado ao cultivo de uma diversidade limitada de culturas em grandes áreas e à eliminação dos predadores naturais. A partir desta última perspectiva, a pesquisa vai se concentrar em aumentar a resistência, estimulando a biodiversidade em sistemas agrícolas.

Uma plataforma de conhecimento agroecológico como uma plataforma de aprendizagem também é enfaticamente defendida por Olivier de Schutter (7), o internacionalmente respeitado “relator especial da ONU sobre o direito à alimentação”. Ele coloca uma ênfase crescente no necessário desenvolvimento de um sistema de agricultura agroecológica global, que possa tornar nossa agricultura mais eficiente, mais barata e mais acessível, sem que precisemos da engenharia genética. Vamos dar continuidade a essa história e, em 2014, desenvolver uma plataforma de conhecimento europeia sobre agroecologia na Europa e, a partir daí, fortalecer o movimento global junto com outros continentes.

Para encerrar, as palavras de Stephane Hessel e Pierre Rabhi: “Não aceite, faça algo! Acorde!”

 

LeenLaenens

O autor foi deputado federal e diretor da Bioforum Vlaanderen (www.bioforumvlaanderen.be) e, atualmente, é presidente da Velt [Vereniging Ecologisch Leven en Tuinieren = Associação para uma Vida e Horticultura Ecológicas] (velt.be).

(1) Este já é o quinto livro de Luc Vankrunkelsven que é publicado simultaneamente em neerlandês e em português.

(2) PINXTEN, Rik. Kleine revoluties [Pequenas Revoluções]. Berchem, Bélgica: EPO, 2013.

(3) KENIS, Anneleen; LIEVENS, Mathias. De mythe van de groene economie, valstrik, verzet, alternatieven [O mito da economina verde, armadilha, resistência, alternativas]. Berchem, Bélgica: EPO, 2012, em coedição com Jan van Arkel.

(4) http://www.unep.org/dewa/agassessment/reports/IAASTD/EN/Agriculture%20at%20a%20Crossroads_Synthesis%20Report%20(English).pdf

(5) Kan je met agro-ecologische productietechnieken de wereld voeden? [É possível alimentar o mundo com técnicas agroecológicas?] http://www.wervel.be/publicaties

(6) Fondation sciences citoyennes é um exemplo disso: sciencescitoyennes.org/recherche-participative-ou-en-est-on/

(7) SCHUTTER, Olivier de. The Right to Eat. Disponível em: <www.project-syndicate.org/commentary/on-how-the-right-to-food-movement-is-combating-hunger-by-olivier-de-schutter#WlvpFLUqQ6eRCXm7.99>. Acesso em: 15 jan. 2014.


[1] Nota da tradutora: Gerbert Bakx é autor do livro De strategie van het geluk [A estratégia da felicidade] (Schoten, Bélgica: Witsand uitgevers, 2011), e mantém um site com o título Academie van de Levenskunst [Academia da Arte de Viver]: gerbert.webplus.net

[2] Nota da tradutora: Os clubes de trocas reúnem moradores de uma comunidade para o intercâmbio de produtos, serviços ou saberes entre si. Cada grupo estabelece sua metodologia e os períodos de reuniões, que podem ser semanais, quinzenais ou mensais (Fonte: www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2012/04/clubes-de-troca-negociam-produtos-e-servicos; consultada em: 15 jan. 2014).

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