18 Agora o Brasil vai importar soja?

Embora, pelo contrato, os agricultores familiares tenham direito a R$ 54,50 por saca de 60 kg da usina de biodiesel, nas últimas semanas o preço de mercado está mais próximo de R$ 60,00 por saca. Será eles vão se beneficiar desse aumento ou vai valer o contrato?

Diminuição no crescimento

Enquanto a crise mundial tem implicações para as exportações de commodities brasileiras, a soja parece ser uma exceção. Das 23 principais “matérias-primas”, 16 apresentam declínio no volume exportado, enquanto 18 tiveram redução no preço. A perspectiva do governo é que as exportações crescerão “apenas” 3,1% neste ano, enquanto o crescimento em 2001 ainda foi de 27%. Sim, o Brasil é um “país emergente” e deseja, principalmente, crescer – não obstante todos os discursos sobre o “verde”, o “sustentável”, o “socialmente responsável” ou o Rio+20. Crescer até que não reste árvore alguma e até que todos nós pereçamos.

Explosão na demanda por soja

A Europa e os Estados Unidos estão em crise. Assim, a fábrica do mundo – a China – exporta menos e o fornecedor de matéria-prima – Brasil – vende menos minério de ferro e outras commodities para essa mesma China. Para a soja, não é esse o caso. Acredita-se que a China vai importar 57 milhões de toneladas de soja neste ano, enquanto em 2010 a importação foi de “apenas” 50 milhões de toneladas. Compare isso com os 39 milhões de toneladas das importações da União Europeia. A demanda global por soja está aumentando, principalmente na Ásia, enquanto – devido à severa estiagem – vários países sul-americanos estão sofrendo perdas significativas. No ano passado, o Brasil colheu 75 milhões de toneladas de soja; neste ano, a safra seria de menos de 69 milhões de toneladas. Como o preço está muito interessante, as exportações do país triplicaram ainda durante a época da colheita. O resultado disso é que, no final de abril, o Brasil já havia vendido 69% de sua soja e o Paraná, 75% do total. O Paraná é o segundo maior produtor, depois do Mato Grosso. Esse rápido desenvolvimento está fazendo tocar o sinal de alerta na indústria de processamento. Nesse ritmo, o maior produtor de soja – Brasil – terá de importar soja (!) para manter sua própria indústria funcionando. Mas de onde? A Argentina e o Paraguai também foram atingidos pela estiagem e, pela forte demanda da China, os estoques mundiais de soja encolheram, inclusive os norte-americanos. Agora todos estão de olho nos agricultores norte-americanos. Eles ainda podem, rapidamente, plantar mais soja e, em setembro, obter uma safra maior do que a prevista. Mas a estiagem também foi detectada nos Estados Unidos (1). Mais uma vez, os gêmeos siameses soja-milho dão as caras. Quando aumenta o preço da soja, planta-se menos milho na safra seguinte e mais soja (2).

Suinocultura em crise na Europa

Enquanto isso, aqui, na Bélgica e em praticamente toda a Europa, estamos enfrentando uma prolongada crise na suinocultura. Já há quatro anos os suinocultores estão sendo esmagados, de um lado, pelo aumento dos preços da ração e, do outro, pelos baixos preços da carne. No final deste ano, os preços da ração teriam subido novamente cerca de 40% em relação aos do mesmo período do ano anterior. Uma situação insustentável. Os 50 anos de subsídio sutil, com os preços baixos da soja do exterior para a pecuária intensiva, parece não funcionar mais. O “subsídio invisível que não deveria, de modo algum, ser chamado de subsídio” colocou, agora, os suinocultores contra a parede. O sistema travou, porque a Ásia está atraindo massivamente a soja para si.

A crise, um momento de reflexão e julgamento (do verbo grego krinein: julgar, decidir), tem certamente uma vantagem. Os agricultores e os seus sindicatos estão, finalmente, começando a mostrar interesse por aquilo que propusemos ao longo de décadas, ou seja, voltar a produzir proteínas vegetais na Europa: tremoços, ervilhas e feijões, grama e trevo de modo associado, soja…

 

De qualquer modo, os brasileiros já estão trabalhando fortemente na safra do próximo ano. No mercado de sementes, há uma escassez aguda, porque todos querem ganhar dinheiro imediatamente. A soja tem uma dinâmica semelhante à do garimpo. Quando é encontrado ouro em algum lugar, todos vão para lá. Legalmente e ilegalmente.

A colheita de 2013 promete bater todos os recordes. O ouro está à flor da terra. O Cerrado e a Amazônia vão sofrer uma pressão enorme. Nesse contexto, a batalha pelo Código Florestal adquire um sabor muito amargo.

 

São Paulo, Caravanserai, 12 de maio de 2012.

(1) Efeitos do aquecimento global (dezembro de 2012). Nos EUA, 2012 foi o ano mais quente já registrado. O primeiro semestre do ano foi tão quente que, no início de agosto, os EUA já haviam tido mais dias com recordes de temperatura do que em todo o ano de 2011. Nesse período, a temperatura média para o período de janeiro a agosto se elevou para a maior já registrada. Uma estiagem severa atingiu, portanto, 48 estados. Em quase todos os 2.300 counties foi decretada “calamidade agrícola”. Houve um número extraordinário de incêndios e os fazendeiros tiveram de vender seus animais porque suas terras se transformam em uma espécie de tapete de pó. O nível de água no Rio Mississipi atingiu um nível mínimo histórico, causando problemas de transporte.

De acordo com alguns economistas, o prejuízo pode ser ainda maior do que aquele causado pelo furacão Sandy. As perdas no setor agrícola foram estimadas em U$ 100 bilhões. Na Região Centro-Oeste, o verão quente e seco consumiu quase três quartos da safra de milho e de soja.

(2) Veja: Ração animal, uma história de interdependência, em: Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

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