17 Dia das Mães

O Dia das Mães é o segundo feriado mais importante no Brasil. Pelo menos, para o comércio. A Associação Brasileira de Shopping Centers estima que, nesse período, as vendas serão 8% superiores às do ano passado. O Brasil é um país emergente e, principalmente, a classe média tem cada vez mais renda para gastar. Um fato deve ser registrado: nesse dia, a maioria das pessoas se reúne com a família. As ruas estão desagradavelmente desertas. Muitos restaurantes estão fechados. Até os donos dos restaurantes querem namorar. Ocasionalmente você vê alguém vendendo flores, ou se depara com um taxista tocando a campainha para entregar um presente. No período da tarde, há um grande número de famílias passeando no Parque Ibirapuera.

O campo versus a cidade

Eu estou em São Paulo, cercado por arranha-céus. Um contexto completamente diferente do campo. Na política, a cidade sempre foi privilegiada – e, no campo, a agricultura de exportação em larga escala é favorecida desde os tempos coloniais. Sob um governo mais progressista, os movimentos sociais possuem, claramente, uma força de mobilização menor do que, por exemplo, no final da década de 1990. Isso requer reorientação.

Na Agricultura Familiar, a família agricultora é valorizada de acordo. Ou seja, o Dia das Mães é um dia em que todos retornam ao “ninho”, porque – sim – muitos jovens emigraram para a cidade. Ainda que a agricultura de exportação, mesmo com um presidente progressista, receba mais atenção do que a AF, os agricultores familiares não permitem que passem por cima deles.

Fetraf-Sul/Cut (1)

Tomemos, por exemplo, a Fetraf-Sul/CUT. A conjuntura é mais difícil do que há 15 anos. Também nesse sindicato há menos poder de mobilização em uma sociedade focada cada vez mais no indivíduo. Como na Europa, ainda não se encontrou um novo equilíbrio entre os direitos e as necessidades de cada pessoa, da família ou do grupo mais amplo e a sociedade em geral. Muitos jovens, principalmente as moças, partiram para as cidades (2). Muitos líderes rurais foram formados nas décadas de 1970 e 1980, dentro da dinâmica das comunidades eclesiais de base e da Teologia da Libertação. Nos anos da ditadura militar, a igreja era o único lugar onde as pessoas podiam se organizar. Agora há liberdade e democracia, pelo menos formalmente. Há menos necessidade de fazer oposição a uma política que proporciona bastante oportunidade para o desenvolvimento. O presidente Lula e, agora, a presidenta Dilma tomaram muitas iniciativas de apoio à AF, mas a agricultura de exportação em larga escala continua recebendo cinco vezes mais apoio financeiro. Enquanto isso, os líderes rurais que estão envelhecendo buscam seus sucessores, mas nem sempre os encontram. Há décadas, a vida na cidade é apresentada como muito mais atraente. O onipresente deus “TV” desempenha um papel inegável nisso.

Seguridade social

E, no entanto, apesar de todos esses obstáculos, as campanhas continuam, tanto com mobilizações nas ruas quanto com o trabalho de lobby de apoio, chegando até Brasília. Os principais eixos permanecem: 1. organização da produção; 2. organização sindical; e 3. “políticas públicas”. Neste terceiro eixo, trabalha-se principalmente na seguridade social, habitação em áreas rurais, agricultura ecológica e preservação ambiental, além da ampliação da nova Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), que foi criada a partir do impulso dos movimentos sociais (3).

 

É Dia das Mães. Bem, no terceiro eixo, neste ano a Fetraf-Sul quer investir pesadamente sobre a posição das mulheres na agricultura. Desde 1923 existe seguridade social no Brasil, mas os agricultores e as agricultoras só foram incluídos aqui a partir de 1971. O benefício de licença-maternidade só passou a ser pago às agricultoras a partir de 1994. Apesar de muita luta e mobilização, ainda há muita diferença entre o tratamento dado às mulheres e aos homens na zona rural e na cidade. Por exemplo, na cidade, as mulheres já têm a possibilidade de tirar seis meses de licença-maternidade, enquanto as mulheres da AF têm apenas quatro meses. Neste ano, Fetraf quer abordar as muitas desigualdades que ainda existem com campanhas. O ponto focal é reivindicar que as mulheres da zona rural tenham o mesmo direito a seis meses de licença-maternidade que as mães nas cidades.

Para fortalecer a mobilização, será organizado o “Primeiro Encontro das Mulheres Agricultoras no Sul do Brasil”, no dia 23 de novembro de 2012.

Mãe negra

Hoje também faz 124 anos que foi abolida a escravidão no Brasil. Uma coincidência que nos faz refletir sobre a profunda diferença entre a vida de uma mulher branca, descendente de imigrantes italianos, em uma cidade como, por exemplo, São Paulo, e a vida de uma mãe negra, descendente de escravos africanos, na zona rural. Ou a vida de uma cabocla numa comunidade de ribeirinhos às margens do Rio Amazonas. O que elas têm em comum? Todas elas, brancas-negras-pardas, podem ser vítimas da violência. A cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil.

 

Chama minha atenção que, no site Facebook, eu só encontro mensagens de brasileiros sobre o dia das mães. Para encerrar, a mensagem postada por Rosinalda da Silva Simoni em homenagem à Ilê Axé Iya Oloxum (Casa de Benção Mãe Oloxum [Deusa de fertilidade e riqueza]).

Mãe!

“Ser mãe é assumir de Deus o dom da criação, da doação e do amor incondicional. Ser mãe é encarnar a divindade na Terra.”

 

O sobrenome da Silva geralmente indica ascendência de escravos. Quando, no século XIX, começaram a registrar as pessoas e não se sabia de onde vinham, os ex-escravos frequentemente recebiam o sobrenome da Silva: “(nascido em) a mata, originário da floresta”.

 

São Paulo, 13 de maio de 2012.

(1) Fetraf-Sul/CUT: CUT é a central sindical cofundada pelo líder sindical Lula (que mais tarde se tornou presidente da República). Ela tem uma ala operária e uma ala camponesa. A Fetraf-Sul é a ala camponesa dos três estados do Sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná). A Fetraf-Brasil está presente nacionalmente em 20 estados.

(2) Veja: Desequilíbrio no “mercado amoroso”, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(3) Veja: Universidade dos e com os movimentos sociais, em Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

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