Soja: tesouro ou tesoura?

16 CO2 do Brasil às vésperas da Rio+20

Na viagem anual, eu sempre passo no campus Rio Pomba, do IFET. Ao longo desses anos, essa instituição se juntou aos campi de Barbacena, Muriaé e outros que eu não costumo visitar, por não estarem envolvidos com o tema agricultura.

O governo Lula investiu pesadamente em 13 novas universidades, com 102 campi (1). Ele também elevou os Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET) ao mesmo nível das universidades e os rebatizou de IFET: “Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia”. A presidente Dilma Rousseff deu continuidade a essa política. Atualmente, já existem 208 IFETs com vários campi. Até o final de seu mandato, devem ser mais do que 400 IFETs, com uma prioridade para o Nordeste, onde, até então, havia menos oportunidades de formação.

O avanço do eucalipto para o nosso consumo excessivo de papel

As boas-vindas em Rio Pomba são sempre bem calorosas. Professor Eli de Jesus e seus colegas conseguem mobilizar uma plateia entusiasmada e curiosa. Uma noite nos dirigimos ao campus de Barbacena, para a abertura da Primeira Feira de Ciência e Tecnologia. Mais de 200 alunos de diferentes escolas de Barbacena se reúnem numa das mais antigas escolas agrícolas do Brasil: durante dois dias, eles compartilharão suas experiências sobre ciência e tecnologia. Na abertura, uma apresentação musical (incluindo um saxofone; um “gancho” oportuno, pois esse instrumento foi inventado pelo belga Sax, de Dinant). O gringo da Bélgica fará o discurso de abertura. Usamos o DVD Sustentável no papel, da ONG Climaxi (2), para falar sobre o caráter não sustentável dos reflorestamentos de eucalipto com selo FSC na Bahia. Para essa ocasião, algo diferente da crônica abominação da soja. O público está genuinamente indignado com tanto “capitalismo verde” (greenwashing) em seu país. Os estudantes também estão insatisfeitos com o novo Código Florestal. Uma delas fez um gancho inteligente com o slogan do atual governo, “País rico é país sem pobreza”, e elaborou um belo cartaz com os dizeres: “País rico = país verde de florestas. Veta Dilma!”.

Rio de Janeiro e Rio+20

No dia seguinte, reapresentamos esse filme novamente no campus Muriaé do IFET, a 140 quilômetros de Rio Pomba – distância considerada pequena por brasileiros!

No edifício principal, há uma grande faixa de boas-vindas:

“Educando para um mundo melhor: mais justo e igualitário, onde as gerações presentes satisfaçam suas necessidades sem comprometer as gerações futuras!

Sustentabilidade.”

 

Seria difícil encontrar um ponto de partida melhor para tratar da Rio+20. Há 20 anos, para a alegria de todos, foi lançada a palavra “sustentabilidade”, que foi incluída em numerosos textos e declarações. Posteriormente, a comemoração virou frustração quando a indústria passou a utilizar essa palavra em campanhas de greenwashing. A “economia verde” que, particularmente, não quer avançar para a verdadeira “economia ecológica” ameaça agora ocupar as sessões oficiais no Rio. No contexto da REDD+ (3), o setor industrial não quer somente arrecadar dinheiro com “créditos de carbono” pelos reflorestamentos de eucalipto, mas também pelos milhões de hectares de monocultura de soja. A lógica por trás disso? “Nossas lavouras de soja captam CO2. Portanto, nós, fazendeiros, que primeiro derrubamos a floresta e lançamos milhões de toneladas de CO2 no ar, agora queremos dinheiro pela captação de CO2 dos nossos paraísos de soja.” Quem vai ajudá-los a parar com essa loucura?

Felizmente, existe o programa paralelo com o encontro dos povos tradicionais e movimentos sociais.

17,2 bilhões de toneladas de CO2

Exatamente no momento em que o Brasil ameaça esvaziar o Código Florestal de 47 anos de idade, surge um estudo sobre as emissões históricas de CO2 geradas pelo desmatamento para agricultura e pecuária no Brasil. Nunca antes esses valores foram calculados de forma tão precisa. E o que esse estudo revelou? Entre 1940 e 1995, essa conversão de vegetação nativa em terras agrícolas provocou a emissão de 17,2 bilhões de toneladas de CO2. Nesse período, a área agrícola brasileira foi ampliada de 106,4 milhões de hectares para 219,5 milhões de hectares.

Agora eu dou palestras nos campi do IFET no sudeste de Minas Gerais, no meio da Mata Atlântica – ou melhor: nas montanhas, onde até um século atrás havia Mata Atlântica. Como assim? Segundo o estudo, as maiores emissões foram provocadas justamente pela derrubada dessa Mata Atlântica, especificamente 43%, seguidas pelo Cerrado, com 29%. A Floresta Amazônica representa “apenas” 25%. A explicação para isso? O desmatamento na Amazônia só começou na década de 1970, impulsionada pela ditadura militar da época. A infame “Rodovia Transamazônica” foi, então, construída do leste para o oeste, para atrair os nordestinos para a floresta quando o Nordeste estivesse novamente afetado por uma seca extrema. Garantia de mão de obra barata para o desmatamento! Como a destruição por lá aconteceu mais recentemente, o imenso desmatamento gravado em nossa retina coletiva não supera o desmatamento menos notado da Mata Atlântica. É que a colonização começou de leste para oeste e, durante séculos, permaneceu principalmente na costa leste. No século XX ocorreu uma mudança drástica, com suas bem conhecidas consequências.

Olivier De Schutter e o gado Belgian Blue

Agora junte esse fato à campanha de difamação que está atualmente se formando em Flandres (Bélgica). No canal de televisão e rádio VRT foram feitos alguns questionamentos críticos sobre o gado Belgian Blue – carne produzida localmente – e, veja, imediatamente o Sindicato Rural Belga (BB) processou a rede de TV flamenga. Por danos à imagem! Mas o que eles mantêm fora das vistas, fora da “imagem”, há mais de 50 anos? Exatamente! Esse musculoso gado belga somente consegue ter traseiros tão terrivelmente grandes devido ao elevado consumo de soja vinda do outro lado do oceano. Gado tão musculoso que nem consegue nascer naturalmente. Meu pai era médico veterinário. Por definição, os bezerros eram trazidos ao mundo por cesariana. Para realizá-las, ele foi tirado várias vezes da cama à noite. Quer apostar que, dentro de dez anos, a “nosso” gado Belgian Blue será proibido na União Europeia? Os países escandinavos não conseguem apreciar a nossa “carne mais saborosa do mundo”. Se eles encontrarem uma maioria na UE, eles vão tentar proibir essa carne produzida em condições que não garantem o bem-estar animal.

 

Quase ao mesmo tempo em que ocorria o embate TV-BB, Olivier De Schutter, “relator especial da ONU sobre o Direito à Alimentação”, desvelou um pouco a questão. Ele considerou o imenso fluxo de soja transgênica da América Latina para a Europa como um “subsídio para a nossa pecuária intensiva”.

Ele apresentou alguns números chocantes: “A Europa necessita de uma área do tamanho da Alemanha fora do seu território para cultivar a ração animal que alimenta nosso gado. Além do milho onipresente em Flandres, esse gado também consome anualmente 40 milhões de toneladas de concentrados de proteínas, principalmente soja transgênica.” De Schutter explicou que as plantações de soja em escala só conseguem produzir de modo tão barato porque os impactos negativos no entorno não são incluídos no preço de custo. Ninguém é indenizado pelo desmatamento, pelo êxodo rural e pela pobreza provocada pela grilagem de terras para o plantio de soja. Pois bem, agora vocês estão ouvindo isso de outra pessoa. O que De Schutter esqueceu de contar é que, desde 1996 (Lei Kandir), a soja brasileira é a mais barata porque não paga imposto ao ser exportada. Ao entrar na União Européia, há 50 anos não se paga imposto de importação (Rodada Dillon do GATT, de 1960-61, e início da Política Agrícola Comum, em 1962) (4).

 

Flandres espera exportar carne do gado Belgian Blue para a China. O governo flamengo está numa alegre expectativa. Após importar peras dessa mesma Flandres, os chineses estão de olho em “nossa” carne. “Carne produzida localmente”, alimentada com soja do Brasil. Já com a carne de porco, a situação é mais difícil. Metade da população mundial de suínos já está na China e, para ela, são importadas 55 milhões de toneladas de soja produzida no outro lado do mundo.

 

Rio Pomba, 6 de maio de 2012.

(1) Veja Universidade dos e com os movimentos sociais, em: Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(2) Sustentável no papel, um filme de Leo Broers e An-Katrien Lecluyse (versões em neerlandês, inglês e português). Veja: www.climaxi.be

(3) REDD: Sigla em inglês para Redução de Emissões Decorrentes de Desmatamento e Degradação Florestal. REDD+: quando são acrescentadas atividades à REDD. “Mesas-redondas” relacionadas a soja, óleo de palma, carne “sustentável” etc. adoram se aprofundar nesse tema. Veja: www.nature.com/news/farm-focus-for-saving-trees-1.10339; ht.ly/adaom; www.fastcoexist.com/1679655/can-we-make-enough-food-to-eat-without-cutting-down-all-the-trees

A soja RTRS (soja produzida de acordo com critérios da “Mesa-Redonda sobre Soja Responsável”) poderia, injustamente, qualificar-se para receber recursos REDD: por causa do assim chamado desmatamento evitado (ou melhor, principalmente pela observância da legislação nacional, o que é algo bem diferente); por causa do teor de carbono medido no solo e que talvez aumente; de um plano de ação para reduzir o uso de combustível (relacionado com o assim chamado plantio direto que, nesse caso, não significa “não arar”, mas com o uso abundante de Roundup e soja Roundup Ready); alguma recuperação de vegetação nativa e “expansão responsável” de lavouras de soja segundo um sistema de “mapeamento” e “zoneamento”, aprovado pela RTRS.

(4) Veja Ração animal, uma história de interdependência, capítulo final do livro Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

 

 

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