Soja: tesouro ou tesoura?

15 Frango halal[1] para a Arábia Saudita

Isso nunca me aconteceu antes: estou sendo entrevistado por uma muçulmana, em Francisco Beltrão, para a rádio católica Anawim. A jornalista é uma brasileira que, desde criança, queria ser uma religiosa católica envolta em véus, mas a família dela não o permitiu. Mais tarde, ela se converteu ao islamismo e hoje, coberta por véus, ela adentra o sindicato de Fetraf.

OMC e sobrecoxas de frango

Fiquei surpreso. Estamos fazendo a entrevista para a rádio, mas, em seguida, começamos a conversar. Tal como Chapecó, Francisco Beltrão é uma cidade e uma região com grande concentração de avicultores, integrados (= sob o domínio de) ao sistema de produção da Sadia. Eu conto a ela sobre a exportação de frangos para a África, como isso destrói a economia local em muitos países africanos e como a posição das mulheres é prejudicada. Em muitas culturas, são as mulheres que criam os frangos. Quando há festas, o cardápio é frango; porém, desde 1995, as mulheres não conseguem competir com as sobrecoxas de frango congelado do exterior. 1995: o início da Organização Mundial do Comércio, pela qual esses países tiveram de abrir suas fronteiras para as sobrecoxas de frango congelado da Europa e do Brasil. Eu conto sobre o interessante DVD, Anomalia aviária, que expõem essa situação perversa (1).

Também conversamos um pouco sobre as recentes mudanças no mercado russo. Até poucos anos atrás, as empresas europeias e brasileiras competiam umas com as outras para ocupar o mercado da Rússia com sua carne de frango. Recentemente, a própria Rússia está com um excedente de carne de frango e, em vão, bate à porta da União Europeia. Agora que a Rússia aderiu à OMC, ela busca no Brasil um aliado para abrir o portão do frango para a Europa.

Halal brasileiro

A jornalista, por sua vez, conta a sua história. Por que ela se tornou muçulmana, mas especialmente como toneladas de frango halal de Francisco Beltrão e Chapecó são exportadas para os países árabes e do Oriente Médio: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Egito, Paquistão etc. Como esses frangos são tão “puros”, os japoneses também estão interessados neles. Em ambos os casos, trata-se de frangos inteiros, ainda que os japoneses deem preferência aos frangos menores. Para a Rússia também ocorrem muitas exportações halal, mas nesse caso se trata de partes do frango: sobrecoxas, coxas… O frango como um símbolo da globalização.

Muitos muçulmanos trabalham aqui nos abatedouros da Sadia. Regularmente também chegam equipes rigorosas de vistoria da Arábia Saudita, Egito e outros países.

Eu a questiono sobre a assim chamada “pureza”: “Eles podem ter sido abatidos de acordo com os princípios halal, mas e quanto à grande quantidade de hormônios e antibióticos na avicultura brasileira? Isso não é contra a halal?”

Ela acena com a cabeça em concordância: “Complicado, mas não há muito a fazer. Os frangos simplesmente têm de crescer rapidamente.”

 

Francisco Beltrão, 2 de maio de 2012.

(1) Uma publicação de Mídia da União Européia (2006): www.eu-media.info, com o apoio de várias ONGs europeias, ligadas a igrejas evangélicas. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=XOO0KoCsdf0


[1]  Nota da tradutora: halal é o termo habitualmente usado nos países não islâmicos para se referir aos alimentos autorizados de acordo com a Xariá, ou lei islâmica (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Halal; consultada em: 14/7/2013).

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