14 Cooperativismo em 2012

14 – Cooperativismo em 2012

O ano de 2012 foi declarado como o “Ano Internacional das Cooperativas”. Tudo muito bem, mas o que será que se abriga nessa bela denominação, que sugere cooperação? Bancos, indústrias de ração, empresas de compra e venda de fertilizantes, sementes, grãos, carnes e laticínios: qualquer um deles pode ser uma cooperativa. A maioria começou com a intenção pura de trabalho cooperativo e de levar os cooperados a sério. Nas últimas décadas, muitas das chamadas cooperativas evoluíram para verdadeiras multinacionais, com grandes interesses em exportação. O novo conceito de “soberania alimentar” (1) não é para eles. Não, eles querem ocupar ao máximo o mercado doméstico e externo.

Economia solidária

No Brasil surgiu, nos últimos anos, um forte movimento de “Economia Solidária” (2). O coração da economia solidária é o verdadeiro trabalho cooperativo. Além disso, o amplo conceito de agroecologia abrange muito mais do que “não utilizar produtos químicos na agricultura”. É um modo de vida coletivo, no qual todos os tipos de colaboração são valorizados.

 

Estou hospedado na casa de Sandra e Alexandre Bergamin. Alexandre é o coordenador da Fetraf-Santa Catarina. Sandra coordena o movimento cooperativo dos agricultores na região de Chapecó. Ela me conta: “Aqui há uma grande diversidade de organizações de produção e cooperativas agrícolas: associações cooperativas, coletivos de produção, cooperativas de crédito solidário, cooperativas de construção de casas em áreas rurais, agroindústrias familiares e grupos de diversas formas de cooperação, que dinamizam a região, tornando-a o centro de origem de muitas organizações sociais.”

A criatividade daqueles que persistem numa zona rural que está encolhendo

De acordo com dados do IBGE de 2000, a zona rural do município de Chapecó contava com 1.837 propriedades, das quais 92% com um caráter familiar. Na década de 1960, a população rural do município representava por 68% da população total; em 2003, esta se reduziu a 8%. Vários fatores contribuíram para esse processo, como o surgimento dos grandes complexos agroindustriais, a reestruturação da produção e dos produtores.

Aqueles que persistem agora expandem suas atividades com turismo rural, produção de frutas, criação de peixes e, desde a década de 1990, com a agroindústria familiar em pequena escala. Geralmente, a produção de frutas, a instalação de apiários e outras iniciativas agroecológicas são realizadas de modo cooperativo. Os produtos são comercializados principalmente nas feiras de agricultores de Chapecó; às vezes, pelos supermercados.

Cooperfamiliar

Sandra trabalha para a Cooperfamiliar, que foi fundada em 1995. Desde então tem havido uma explosão de criatividade e sinergia. Quase ao mesmo tempo, surgiram a marca “Sabor colonial” e o Cresol, o fornecedor de crédito de e para a Agricultura Familiar. Também nessa época surgiu, nos três estados do Sul do Brasil, a Ecovida, uma rede de interação de consumidores e produtores. O fornecimento de alimentos da Agricultura Familiar para a merenda escolar teve início em 2002. Há também mais de 50 produtos entregues a instâncias públicas de Chapecó, no âmbito do Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA). Cerca de 214 famílias têm gado de leite e recebem assistência técnica da cooperativa.

 

De acordo com o censo agropecuário de 2010, a Cooperfamiliar possui uma base de 25.143 agricultores familiares, distribuídos em vários municípios.

Sandra fez uma pesquisa entre os membros. As entrevistas revelam que a maioria deles espera que a cooperativa desenvolva canais de comercialização alternativos a serem construídos, especialmente os de venda direta. Outros enfatizam a organização da produção em si mesmos e a assistência técnica. A expectativa é que ela seja uma verdadeira “Cooperativa Alternativa da Agricultura Familiar”.

Uma lei para todas as cooperativas

Os membros pedem que a Cooperfamiliar aborde as limitações no processo organizacional. É um problema comum a muitas cooperativas porque, no nível nacional, a lei geral do trabalho cooperativo “trata igualmente organizações muito desiguais”. Afinal, um grande banco “cooperativo” é muito diferente de uma pequena organização de fornecimento de crédito cooperativo para agricultores familiares. Para superar essas dificuldades, continua a luta para a criação de leis que estabeleçam uma distinção entre cooperativismo “solidário” e cooperativismo “comercial”.

E qual é a situação na Bélgica?

Desde o final do século XIX, há muitas cooperativas. Originalmente elas estavam nas mãos dos agricultores… Atualmente, formalmente, ainda é assim, mas a realidade é – não raramente – de alienação e de concentração de poder pelos representantes das assim chamadas “companhias pioneiras”. Enquanto as velhas cooperativas estão frequentemente interligadas com o agronegócio voltado para exportação, surgem novas alianças de cooperação. Por exemplo, dez anos atrás surgiu um problema para os 16 produtores de leite orgânico existentes naquela época, na região de Flandres (Bélgica). Como, de uma hora para outra, eles não puderam mais contar com a coleta de leite pela transportadora habitual, eles fundaram a cooperativa “Biomelk Vlaanderen” [Laticínio Orgânico de Flandres]. “Estamos trabalhando com uma transportadora independente e nós mesmos organizamos a coleta”, explica o presidente da cooperativa, Johan Broekx. “Nós temos um regimento interno que especifica a quais requisitos o fornecimento de leite deve atender. Acrescentamos alguns parâmetros relacionados a requisitos gerais de qualidade.”

 

Biomelk Vlaanderen” iniciou suas atividades na região de Flandres; porém, há seis anos, também começou a trabalhar com um grupo de pecuaristas de leite de Vielsalm. Os pecuaristas fundadores e os agricultores de Vielsalm são os associados da cooperativa. No total, os 25 pecuaristas produzem 7 milhões de litros de leite por ano. “Nós nos fortalecemos mutuamente”, diz Johan Broekx. “Sendo um pecuarista individual que produz 200 mil litros de leite por ano, você não consegue entregar seu leite em qualquer lugar. Também é um problema logístico. O leite pode ter sido ordenhado há, no máximo, três dias. Ele deve ser recolhido e processado dentro de 72 horas. Além disso, nossa localização é bem dispersa. Por isso é realmente importante ter várias pessoas para arcar com o elevado custo da logística.”

Ter o controle nas próprias mãos

“Em relação às cooperativas de consumidores, existe um claro processo de reavivamento”, diz Hilde Coucke, da ONG Wassende Maan [Lua Crescente] (3). “Isso está relacionado com uma espécie de sentimento de autonomia. As pessoas percebem que o setor bancário não vai bem, não confiam mais no governo e decidem assumir o controle das próprias vidas. Especialmente no tocante à alimentação, eu acredito que há um futuro reservado para as cooperativas. No momento, estamos lidando com a questão energética e de crescimento populacional. Portanto, o abastecimento local de alimentos voltará a ser muito importante.”

 

A terra é extremamente cara em Flandres. Para os jovens que não herdaram a terra de seus pais agricultores, é quase impossível de se estabelecer. Felizmente, a Bélgica ainda conta com uma boa Lei de Arrendamento, que protege o arrendatário juridicamente. Por causa da existência de uma nova tendência de jovens das cidades que querem se tornar agricultores, surgiu – a partir da sinergia entre Landwijzer vzw [Centro de Formação em Agricultura e Alimentação Orgânica e Biodinâmica; organização sem fins lucrativos] (4) e outras organizações – a idéia de criar um fundo de aquisição de terras para produção orgânica. Nos moldes do exemplo inspirador de Terre de Liens [Terra de Ligações] (5), na França, a iniciativa de produtores e consumidores quer adquirir terras livres de ônus para a agricultura orgânica. É uma ampliação da atividade iniciada pela ONG Land-In-Zicht [Terra à Vista] (6). Enquanto isso, a ONG Landwijzer continua a formar jovens para iniciar a prática da agricultura biodinâmica.

 

A terra, base de toda a agricultura, torna-se assim o foco de novas cooperativas. Em tempos de “land grabbing” globalizada, este é um dos sinais de esperança.

 

Chapecó, 1º de maio de 2012.

(1) Em relação a soberania alimentar, veja: Aurora no campo: soja diferente (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2008).

(2) Veja Economia solidária, no livro Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2012).

(3) Veja: www.dewassendemaan.be [somente em neerlandês]

(4) Veja: www.landwijzer.be [somente em neerlandês]

(5) Veja: www.terredeliens.org [somente em francês]. Terre de Liens também coordena um estudo europeu para mapear as diversas iniciativas na Europa relacionadas com o gerenciamento coletivo de terras para agricultura orgânica.

(6) Land-In-Zicht: www.kollebloem.be/land-in-zicht [somente em neerlandês]

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