13. Mas esses animais não existiriam se nos não os criássemos para abate.

13. Mas esses animais não existiriam se nos não os criássemos para abate

Há duas maneiras de interpretar essa questão. Primeiro, a pessoa pode estar se referindo a "esses animais" como espécie, e nesse caso o argumento poderia ser mais precisamente formulado como segue:  "O nicho ecológico das vacas é serem criadas para abate;  elas obtêm a sobrevivência da espécie nesse nicho em troca de nós podermos usá-las." 

Segundo, a pessoa pode estar se referindo a "esses animais" como indivíduos, e nesse caso uma frase mais precisa poderia ser: "Esses indivíduos bovinos que nós críamos para comer não teriam tido uma vida se nós não os criássemos." 

Lidaremos primeiro com a interpretação da espécie e depois com a interpretação dos indivíduos.  O argumento se aplica presumivelmente a todas as espécies de animais;  para tornar as coisas mais concretas, tomaremos as vacas como exemplo no seguinte parágrafo. 

É incorreto afirmar que as vacas somente poderiam continuar a existir se nos as criássemos para consumo humano. Primeiro, hoje em dia em várias partes da Índia e em outros lugares, humanos e vacas convivem pacificamente e sem exploração. 

Recentemente é que essa convivência foi corrompida pela exploração unilateral que vemos hoje em dia. *Existe* um nicho para as vacas entre os extremos "abate/consumo" e "extinção da espécie". (O leitor interessado pode procurar o livro Beyond Beef de Jeremy Rifkin que é bastante esclarecedor.) 

Segundo, várias organizações têm programas de salvamento de animais da extinção. Não há motivo para supor que vacas não poderiam ser atendidas por um programa desse. 

O argumento de espécie também é falho porque, de fato, a criação intensiva e extensiva de gado resulta em destruição de habitat e a perda de outras espécies. Por exemplo, a derrubada de árvores na Amazônia para criação de pastos certamente contribui para a extinção de espécies. A criação de gado destrói habitats em todos os continentes. Porque a pessoa que usa esse argumento parece tão despreocupada com as outras espécies? Será que teria algo a ver com o fato de que ela quer continuar a comer carne bovina por mais 
moralmente reprovável que isso seja? 

E por fim, a teoria ética nos fornece um contra-argumento muito forte para o argumento de espécies. Argumentos similares ao de espécie podem ser desenvolvidos para justificar práticas universalmente condenáveis. Por exemplo, considere uma sociedade que crie humanos para usá-los como escravos. Eles argumentariam que a raça destes escravos não existiriam se eles não os criassem para a escravidão. O leitor aceitaria uma justificativa dessa? 

Agora nos responderemos à interpretação de indivíduos. Uma resposta seria: "É melhor não nascer do que nascer para uma vida de miséria e morte prematura." 

Para muitas pessoas, isso é suficiente. No entanto, alguém poderia argumentar que a afirmação de que a vida é miserável antes da morte não é necessariamente verdadeiro. 

Suponha que as vacas sejam bem tratadas antes de serem mortas sem dor e comidas. Não é verdade que as vacas, individualmente, teriam desfrutado sua curta vida se nos não as criássemos para consumo? Mais ainda, e se compensássemos sua morte prematura fazendo outra vaca nascer? 

Peter Singer acreditava no início que esse argumento era absurdo porque não se supõe que haja uma "turma" de almas bovinas esperando por aí até nascerem. Várias pessoas aceitam essa visão e a consideram suficiente, mas Singer agora rejeita esta idéia porque ele entende que trazer um ser para a uma vida prazerosa é causar um beneficio para este ser. (Há uma extensa discussão sobre esse tópico na segunda edição de Libertação Animal). Então como devemos proceder? 

A chave do movimento pelos DA é que humanos e não-humanos têm o direito de não serem mortos por humanos. O problema ético pode ser claramente visto aplicando o mesmo argumento para os humanos. Consideremos o caso de um casal que dá nascimento a uma criança para canibalizá-la com a idade de 9 meses, quando o segundo bebê nasceu. Um bebê de 9 meses não tem conhecimento racional de sua situação maior do que o de uma vaca, então não há razão para distinguir os dois casos. Mais ainda, certamente condenaríamos o casal. Nós os condenamos porque o bebê é um indivíduo para o qual nos conferimos o 
direito de não ser morto. Porque o mesmo direito não é concedido à vaca? Suspeito de que a resposta seja:  "somente porque a pessoa quer comê-la." 
DG 

Seria muito melhor que um ser não tivesse nunca existido, do que existir somente para suportar uma miséria ininterrupta.  Percy Bysshe Shelley (poeta) 

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