Soja: tesouro ou tesoura?

13 Biodiesel de soja?

A gente acredita na força do solo gaúcho”. Essa declaração de fé ornamenta os silos da Companhia Estadual de Silos e Armazéns (CESA), do Rio Grande do Sul. Como se protegessem a cidade de Erechim. Próximo da Sutraf (sindicato local, ligado à Fetraf-Sul/Cut), eu me deparo com um mural retratando um campo de soja, mãos cheias de soja e o sol nascente. A soja traria prosperidade para essa comunidade. Uma aurora, um amanhecer, como nunca antes visto. É irônico: Fetraf também utilizou o símbolo das mãos, porém cheias de solo fértil e uma frágil e incipiente muda de planta.

Biodiesel, a solução para os agricultores familiares que plantam soja?!

Eu nunca fui fã da ideia da utilização de biodiesel como solução para as nossas necessidades globais de energia. Veja o capítulo Biodiesel de soja (1), de 2004, uma “carta aberta” ao coordenador geral da Fetraf-Sul na época, Altemir Tortelli. Não é possível dizer que o biodiesel é socialmente, ambientalmente e economicamente sustentável, apesar de todo o discurso ecobranqueador [greenwashing]. Principalmente nestas semanas que antecedem a Rio+20, a roupagem de “sustentabilidade” é vestida alegremente. Na Europa, o vestido mais sexy agora se chama “economia verde”. Em português, soa mais claro: “capitalismo verde”.

Desde a referida carta já se passaram oito anos e podemos dizer que, no Rio Grande do Sul, a maior parte do óleo de soja é destinada ao biodiesel. Na verdade, é uma solução “de limpeza”, porque aqui o óleo de soja é, na verdade, apenas um subproduto. Cerca de 18% do grão é composto de óleo, ou seja, apenas 500 litros por hectare, podendo chegar, no máximo, a 570 litros. A soja aqui é plantada, principalmente, para obter farelo de soja, que é destinado à alimentação animal. Durante anos, nos debates com o setor agrícola na Bélgica/Europa, nos atiraram afirmativas como: “Vocês deviam ficar contentes por nossos porcos, galinhas e gado se alimentar de farelo de soja. Afinal, é apenas um produto residual.” Sempre, invariavelmente! Numa tentativa de calar a voz de Wervel. Por outro lado, aqui em Erechim, a resposta servida a mim numa bandeja é: “A soja é cultivada aqui para ração animal. O óleo e, consequentemente, o biodiesel, são apenas subprodutos. Além disso, o óleo de soja não é o melhor para o consumo humano.” Fiquei sem palavras, depois de 22 anos de luta contra a mentira descarada de que o farelo seria apenas “resíduo”.

 

A Fetraf-Sul/CUT, a federação de sindicatos de agricultores familiares com a qual Wervel já tem uma ligação há 10 anos, sempre se opôs ao avanço da soja (incluindo os OGM). Mas… desde a década de 1960, o grão milagroso (2) é simplesmente um legado da Revolução Verde, também para muitos agricultores familiares. Atualmente, são plantados cerca de 6 milhões de hectares com soja nesse estado, contra 32 mil hectares de colza. Desse volume, 95% é soja transgênica, o inverso do que ocorre em Rondônia – região amazônica desmatada –, onde apensa 5% é soja transgênica. O óleo de colza é de melhor qualidade e rende mais por hectare. Mesmo assim, a maioria dos agricultores se apega à soja, que lhes é familiar. Além disso, o cultivo de colza também está concentrado principalmente nas mãos de grandes proprietários.

Por dia, 2 mil toneladas soja, 600 mil litros de biodiesel

Nós visitamos Olfar (3), uma indústria de “Alimento e Energia”. Em 1988, a indústria começou com a produção de óleo para consumo humano e farelo para ração animal; porém, nos últimos cinco anos, ela mudou completamente a ênfase, para a produção de biodiesel, juntamente com farelo para ração animal. Olfar tem capacidade de processamento de 2 mil toneladas por dia, mas atualmente são processadas mil toneladas de soja por dia. Dentro em breve, passarão a trabalhar na capacidade plena. Já a unidade de produção de biodiesel tem capacidade de produção de 600 mil litros de biodiesel/dia. Para promover o programa de biodiesel e integrar a agricultura-familiar-com-soja nesse processo, o governo federal editou uma lei que determina que 30% da soja utilizada para produzir biodiesel deve vir da Agricultura Familiar (AF). Em média, os agricultores familiares possuem 12 hectares de soja, enquanto os grandes fazendeiros possuem centenas – talvez milhares – de hectares de soja em monocultura. Os fazendeiros plantam soja em grande escala em áreas que são facilmente mecanizáveis. Quando a mecanização não é possível, eles plantam eucaliptos.

Os agricultores da AF têm um contrato com um preço prefixado. Para 2012, esse valor é de R$ 54,50 por saca de 60 kg. Para tornar possível o envolvimento da Agricultura Familiar, o governo cobra menos imposto sobre o produto. Sendo assim, a usina pode pagar um real a mais por saca de soja produzida pela AF. Elas também prestam assistência técnica aos agricultores, sem falar nos fornecedores de sementes, agrotóxicos e fertilizantes…

300 m3 de eucalipto por dia

Em todo o país você vê silos imensos para grãos. Geralmente, a soja chega com umidade de 15% a 17%. Se a umidade for maior, a perda para o agricultor é grande, pois a soja é seca a 13% de umidade. A diferença é descontada do preço pago a ele. Na usina de biodiesel, a soja é novamente submetida a um processo de secagem, para chegar a 9% de umidade; em seguida, é feita a extração do óleo com auxílio de um solvente, o hexano. Em ambos os casos, a fonte de energia para a secagem é madeira de eucalipto. Para essa usina, parte dela é fornecida pela AF. Para a secagem de 2 mil toneladas de soja, serão utilizados diariamente 300 m3 de madeira de eucalipto, ou seja, cerca de um hectare de reflorestamento por dia. A produção de biodiesel em si é baseada no consumo de energia elétrica.

Quando vejo a chegada da madeira, não posso deixar de fazer algumas perguntas: “Eu compreendo que, para essa região e para a AF, há geração de valor agregado, mas quando se visualiza a questão energética globalmente, duvido que essa seja uma solução. Como fica o balanço energético? Ele é positivo ou negativo?”

Balanço energético?

Durante a conversa, reconhece-se que não existe uma solução global para a premente questão energética. Além disso, esse método de produção é fruto dos gêmeos siameses automóveis-carne. O produto principal é o farelo de soja; o biodiesel é um subproduto que, por si só, não é muito eficiente. Compare os 500 litros/hectare com um hectare de cana-de-açúcar, que pode produzir até 6 mil litros de etanol – em um deserto verde de cana, é bem verdade.

Não recebo uma resposta imediata sobre a questão do balanço energético negativo. Dizem, sim, que devemos considerar o tudo: óleo para biodiesel e farelo para ração animal. Porém, justamente essa “conversão em carne” é extremamente ineficiente do ponto de vista energético. Até chegar a essa conversão, passa-se por desmatamento com emissões de carbono, o cultivo com várias operações mecanizadas, fertilizantes e agrotóxicos (ambos grandes consumidores de energia), rochas calcárias trituradas espalhadas nas lavouras, três transportes de soja por caminhão, duas secagens dos grãos com madeira de eucalipto e por todo o processamento até chegar, finalmente, ao biodiesel “sustentável”. Exportar biodiesel para a Europa, por exemplo. Novamente, um grande consumo de energia.

 

E pouco se fala do consumo de água. Justamente nessa região ocorrem, ano após ano, grandes perdas por causa das longas estiagens. Alguns agricultores perderam, neste ano, até 80% de sua soja; outros perderam 50%. E além desse problema climático, o eucalipto não é considerado grande consumidor de água? (4) Em Erechim tem havido racionamento de água há um bom tempo…

Soja, a alternativa pelo menos interessante

A pedido do Greenpeace, recentemente foi realizado na Holanda um estudo (Onderzoeksbureau [empresa de pesquisa] CE Delft) sobre o ranking de combustíveis mais – ou menos – interessantes. Resultado: soja e colza estão no final do ranking (5). A utilização de colza para obtenção de óleo vegetal puro (PPO) não foi incluída nesse estudo, mas é, provavelmente, uma das mais ambientalmente sustentáveis.

 

Quanto maior a pontuação, mais ecológico é o combustível. (Pontuações ponderadas dos vários combustíveis alternativos. Foram levados em consideração: emissões de CO2, ocupação do solo e uso de fertilizantes; porém não o consumo de água ou as diversas consequências sociais) (6).

Combustível à base de:

 

Metanol de glicerina

240

Biometanol de resíduos de madeira

236

Energia elétrica sustentável

235

Biogás de resíduos (compostados)

213

Energia elétrica fóssil

212

Hidrogênio

203

Biodiesel à base de óleo de fritura reciclado

192

Gasolina/diesel de petróleo

166

Gás natural

165

Beterraba sacarina (etanol)

163

Cana-de-açúcar (etanol)

160

Milho (etanol)

120

Biogás de biomassa cultivada (milho para silagem)

109

Trigo (etanol)

97

Biodiesel à base de:

 

Palma

88

Girassol

80

Colza

73

Soja

18

 

No Brasil, todo o diesel vendido como combustível contém 5% de biodiesel, toda a gasolina contém 25% de etanol. Além disso, já há quase 40 anos, milhões de carros são movidos 100% à base de álcool/etanol. Motores “flex” funcionam tanto com gasolina quanto com etanol. A União Europeia firmou compromisso para que, até 2020, 10% da energia consumida deverá ser renovável.

O novo estudo joga uma bomba nessa política.

 

Erechim, 30 de abril de 2012.

(1) Veja: Biodiesel de soja, em Navios que se cruzam na calda da noite. Soja sobre o oceano (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2006). Na sequência, vários estudos foram publicados que confirmam meus temores. No caso de extração de óleo de colza a frio, nas propriedades dos agricultores, a situação é um pouco diferente. A ONG Wervel até é parceira em um projeto de colza em Westhoek. Veja: www.ppo.be e www.beauvent.be

(2) Veja: www.sojaconnectie.be e www.wervel.be/soja

(3) Veja: www.olfar.ind.br

(4) Veja: Você alguma vez alimentou seu filho com papel?, em Aurora no campo: soja diferente (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2008). Ou consulte este link: www.vegetarianismo.com.br/sitio/index.php?option=com_content&task=view&id=990&Itemid=145

(5) Veja: www.ce.nl/nieuws/213/Duurzaamheidsmeetlat_biobrandstoffen/?PHPSESSID=6abbc9b292aa0bafa1865470a9e55b7 [em holandês]

(6) O estudo de Delft reconhece que existem vários critérios que deveriam ser utilizados para avaliar os agrocombustíveis em termos de sustentabilidade. Em sua enumeração, foram listados somente os critérios ecológicos: emissões de gases causadores do efeito estufa; segurança de abastecimento energético; ocupação de terra por unidade de biocombustível, sem concorrência com a produção de alimentos; conservação de nutrientes; consumo de água por unidade de biocombustível; impacto sobre a biodiversidade; uso de culturas geneticamente modificadas. Dessa relação eles utilizaram apenas três critérios no estudo: emissões de gases causadores do efeito estufa, ocupação de terra e conservação de nutrientes (uso de fertilizantes químicos). A tabela mostrada deve ser lida com essas limitações em mente. Ou seja, as emissões de CO2 foram incluídas, mas é duvidoso que todos os elos possam ser quantificados. Por exemplo, todos os aspectos relacionados com os eucaliptos, descritos acima.

Em estudos relacionados com agrocombustíveis, os critérios sociais não são utilizados com frequência. Alguns aspectos que raramente foram estudados: o aumento da concentração de terras nas mãos de uma elite; êxodo rural; favelas nas cidades; o trabalho considerado análogo à escravidão pelo Ministério do Trabalho, especialmente nas plantações de cana-de-açúcar etc. Como, em muitos estudos, apenas uma parte dos critérios será estudada, nunca conseguimos ter um quadro completo e as conclusões são, às vezes, até mesmo diametralmente opostas.

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