11 de setembro e o Cerrado

O dia 11 de setembro faz com que (quase) todas as pessoas voltem seus olhos para Nova Iorque e se lembrem dos atentados de 11 de setembro de 2001. Mas há também o 11 de setembro de 1973: o assassinato do presidente chileno Salvador Allende, que marcou o início do governo militar no Chile. Uma data importante para a América Latina (1). Mas o dia 11 de setembro não é somente uma data de morte e destruição. Nesse dia também nasceram pessoas como, por exemplo, o conhecido bispo Jacques Gaillot, na França, e o artista Ary Pára-Raios, no Brasil. Ary José de Oliveira – seu nome de batismo – era um homem versátil, que dominava a arte de reunir em torno de si artistas plásticos, poetas, músicos, escritores, jornalistas e ambientalistas. Em reconhecimento ao seu trabalho, o dia 11 de setembro foi declarado o “Dia Nacional do Cerrado”. 

A importância central do Cerrado 

A opinião pública no Brasil, a imprensa internacional e, portanto, também a opinião pública mundial perdem o sono por causa da destruição da Floresta Amazônica. E com razão. O estranho é que nenhuma indignação semelhante é despertada em relação ao Cerrado, a savana com a maior diversidade de espécies no mundo. Juntamente com o outro ecossistema característico, a Caatinga, esses biomas ocupam 30% do território brasileiro. Só o Cerrado se estende por 2 milhões de km2 (isso em 11 estados) e ocupa literalmente a região central do país: Maranhão, Piauí, Bahia, Minas Gerais, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Pará e Rondônia. Enquanto o desmatamento da Floresta Amazônica – felizmente – tem diminuído, o do Cerrado tem aumentado intensamente: 30 mil km2 por ano, duas a três vezes mais do que o desmatamento da Amazônia no Brasil. Enquanto a Floresta Amazônica se distribui por vários países, essa savana única somente é encontrada no interior do Brasil. 

O Cerrado também forma uma conexão entre os diferentes biomas/ecossistemas. Às vezes, espécies de animais ameaçadas de extinção na Mata Atlântica costumam sobreviver em número ainda maior no Cerrado. A imensa região também é, exatamente, o centro de origem de seis das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil. Se essas nascentes e rios secarem, todo o Brasil terá não somente problemas ambientais, mas também problemas sociais e econômicos. 

    Dez razões para dar o seu apoio e participar 
  1. Cerrado e Caatinga ocupam 1/3 do território nacional.
  2. Os dois biomas exercem funções ecológicas vitais para o conjunto do país.
  3. O desmatamento no Cerrado hoje é duas vezes maior do que na Amazônia.
  4. Os principais rios brasileiros nascem e crescem no Cerrado.
  5. O Aquífero Guarani depende de áreas de recarga que estão no Cerrado.
  6. A chuva e os rios no Brasil Central são vitais para a matriz energética brasileira.
  7. Cerca de 95% dos brasileiros dependem de energia elétrica gerada (ao menos em parte) com águas provenientes do Cerrado.
  8. A biodiversidade dos dois biomas é singular, única, sem igual no mundo.
  9. Espécies ameaçadas pela devastação da Mata Atlântica sobrevivem em número maior no Cerrado.
  10. Se o Cerrado e a Caatinga entrarem em colapso, os outros ecossistemas também estarão ameaçados.

    Fonte: PEC do Cerrado e Caatinga – Prós e Contras (Donald Sawyer).

 

Desde 1988, a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica já estão protegidos como “Patrimônio Nacional”. Embora o Parque da Chapada dos Veadeiros tenha sido declarado como patrimônio da humanidade pela Unesco desde 20011, assim como o Parque da serra da Capivara (PI)2, os biomas onde estão localizados – respectivamente o Cerrado e a Caatinga – não são considerados “Patrimônio Nacional”. É por isso que, nos últimos anos, está se desenvolvendo um forte movimento para também proteger essas regiões únicas. A arte na argumentação é unir os argumentos ecológicos aos sociais e econômicos. Os ecológicos estão bem organizados em um ABC: água, biodiversidade e clima. Estes três estão interligados, por sua vez, com as escolhas que devem tornar um outro desenvolvimento econômico e social possível. Cerca de 40% do Cerrado já foi desmatado. A questão é saber se: o Brasil precisa de mais 1 milhão de hectares para manter a guerra nos mercados internacionais de soja, etanol, algodão e outros produtos que podem ser produzidos no Cerrado às custas de muita energia e muita destruição, ou é possível desenvolver mais agricultura familiar que – em áreas menores – pode proporcionar uma renda digna com diversidade de produtos? 

A transformação da grande riqueza pelos próprios agricultores exige criatividade. De preferência, com contribuições do movimento ambiental e de toda a sociedade civil. E essa criatividade está presente. Basta pensar nos deliciosos picolés, feitos a partir da riqueza em frutas da região (2). O “Fórum Goiano em Defesa do Cerrado” está totalmente empenhado no grande consenso em torno de um modelo de desenvolvimento novo e diferente. É claro que isso vai exigir uma atenção permanente. Dias atrás, fui surpreendido com o relato indignado de uma mulher. Ela estava contente com a venda de picolés com frutas do Cerrado no prédio do tribunal. Pouco tempo depois, sem qualquer consulta, esses sorvetes foram substituídos pelo produto em massa da gigante de alimentos Nestlé. É claro que os “manda-chuvas” da terra têm outros planos acerca de alimentos e desenvolvimento regional, ainda que gostem de ostentar a expressão da moda – “desenvolvimento sustentável” – como uma de suas bandeiras. 

A arte pode salvar o mundo? 

Escrever livros é  uma coisa, tirar boas fotos é outra. O livro que você está lendo agora (programado para ser lançado em abril de 2010) foi abrilhantado com ilustrações feitas por estudantes, professores e comunidades de Matinhos (Paraná). Isso diz alguma coisa sobre o alto grau de envolvimento de muitos brasileiros com o que ocorre com o seu país em pedaços. A dilaceração do Brasil também os dilacera por dentro. Eles querem dar vazão a essa lesão e à esperança de mudança. 

Em Goiânia mora um artista extraordinário que, na mesma linha que Ary Pára-Raios, quer sensibilizar pessoas no país e no exterior acerca do drama que ocorre no Cerrado. João Caetano (3) realiza seu objetivo expondo a beleza do que ainda resta do Cerrado com fotos tocantes. Desde quando foi criada, Wervel trata das consequências do avanço da soja e do modelo agrícola destruidor em ambos os lados do Atlântico. Nós não tratamos apenas do que está acontecendo na região amazônica, mas também da situação socioeconômica no sul do Brasil, da destruição cultural no Maranhão, da grande importância do Cerrado e muito mais. E estamos sempre destacando a interdependência do modelo agrícola da Europa com o que está acontecendo no Brasil e em outros países. Como não podemos fazer isso somente com argumentos intelectuais, mas também queremos falar ao coração com a arte, estamos pensando seriamente em convidar esse talentoso fotógrafo para a comemoração do nosso aniversário de 20 anos em Bruxelas. Capital da União Europeia, onde são tomadas as decisões acerca da política agrícola internacional, Bruxelas merece contemplar o esplendor do Cerrado. 

Decisões na Europa têm impacto no Brasil. Decisões em Washington, D.C., têm consequências para Bruxelas e Brasília. Escolhas em Brasília afetam todo o planeta. 

Luc Vankrunkelsven,

Belo Horizonte, 19 de abril de 2009, Dia Nacional do Índio. 

  1. Uma vez escrevi um livro sobre os 28 anos que separam o dia 11 de setembro de 1973 do 11 de setembro de 2001. Também sobre o papel dos EUA na América Latina e muito mais. Título: “En toch… Een andere wereld is mogelijk. Porto Alegre: De basis in beweging” [Ainda assim… um outro mundo é possível. Porto Alegre: A base do movimento] (Dabar-Luyten, Heeswijk, 2002).
  2. Outros sites: www.frutosdocerrado.com.br; www.centraldocerrado.org.br.
  3. João Caetano já lançou vários livros fascinantes, entre outros “Ecos da Natureza” (2006). Veja também www.projetoalerta.com.

 

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