11 As borboletas se foram! Seremos os próximos?

O programa no sindicato Fetraf-Sul/Cut deste ano começa em um clima de reflexão. Hospedado numa propriedade em Paial, perto de Chapecó, vamos visitar o Museu Entomológico Fritz Plaumann, conhecido como “Museu das Borboletas”, no município de Seara (Santa Catarina).

80% extintos

Aos 22 anos, Fritz Plaumann emigrou com os pais da Prússia para Nova Teutônia, uma vila de Seara, fugindo das consequências da Primeira Guerra Mundial. Ele realizou a paixão de sua vida: o estudo de borboletas e outros insetos. Ele faleceu em 1994, aos 92 anos de idade, e deixou um legado impressionante: 80 mil exemplares, 17 mil espécies diferentes, das quais 1.500 eram desconhecidas. Por causa de seus méritos, 150 dessas espécies receberam uma nomenclatura científica a partir do seu nome: Antenisius plaumanni, Aleiphaquylon plaumanni, Ormeta plaumanni… Ao longo de 70 anos ele estudou borboletas e outros insetos em todo o Brasil. No final de sua vida, ele conviveu com o fato de que 80% das 17 mil espécies estavam extintas no país. Em 1982, a prefeitura de Seara recebeu toda a coleção e fez um museu moderno. O maior museu de insetos da América Latina (1). No jardim, próximo de seus insetos, Fritz foi enterrado. Extinto, como seus insetos. Sua paixão pela diversidade da natureza era a sua vida. Como sacerdote, ele permaneceu solteiro para se dedicar 100% a essa profunda pesquisa. Só com idade mais avançada é que ele adotou uma filha.

Romaria

Extinto, mas com um legado que atrai milhares de visitantes. Como se, a partir de uma profunda nostalgia pela riqueza que a natureza nos deu, esteja se formando uma romaria para esse museu. Infelizmente, desde os anos 1970, passamos a conhecer a ascensão mundial de agrotóxicos, consistentemente chamada pelo lobby do agronegócio de “defensivos agrícolas”. Em combinação com o desmatamento maciço, isso fez com que somente possamos admirar esses insetos e maravilhosas borboletas em tais museus.

 

O livro de visitas registra muitos aplausos. “Fantástico!” “Excelente!” Eu não consigo escrever isso… Meus comentários: “Fiquei mudo e triste”.

Um ecossistema que provoca a extinção da diversidade de borboletas está doente. Muito doente. Em Flandres, na Bélgica, restam apenas cerca de 24 espécies que não estão ameaçadas (2). Isso me lembra os mineiros belgas, que levavam um canário para o interior das minas. Se o canário morresse, eles sabiam que o grisu[1] estava se acumulando. Um aviso para saírem da mina imediatamente.

As borboletas têm a mesma função, mas nós não vemos quando elas morrem. Eles morrem silenciosamente.

Recuperação?

Em silêncio e tristes, retornamos para Paial. A maioria das propriedades está abandonada. Ou elas estão ocupadas com eucalipto ou pínus, ou a natureza está tendo uma chance para se recuperar. Nos reflorestamentos de eucalipto, os insetos têm pouca chance. Nos bosques naturais, que voltam a se formar sim, mas os insetos extintos não voltarão nunca mais. Um pouco semelhante com o que ocorre com os pássaros na paisagem belga, na qual algumas espécies da família do corvo predominam sobre as outras espécies.

 

Os insetos mais sensíveis já se foram há muito tempo. Quando será a vez dos humanos? Ou será que não somos mais “sensíveis”?

 

Paial, 28 de abril de 2012.

P.S.: Uma semana depois, inesperadamente, foi incluída na programação uma visita à maior coleção de placas de madeira do mundo (www.casadospratos.com.br), feita por outro valoroso descendente de alemães, Erich Apel. Dessa vez, em Marmeleiro (Paraná). Atualmente, o homem tem de 81 anos e há 65 anos ele faz pratos dos mais variados tipos de madeira. Já são, agora, 600 espécies diferentes. Também com o propósito de conscientizar a sociedade da diversidade original deste subcontinente. Interessante observar como esses idosos conseguem chamar a atenção para algo essencial de seu amado Brasil.

(1) Veja: www.fritzplaumann.com.br

(2) Veja: www.inbo.be/content/page.asp?pid=FAU_INS_VL_rodelijst. Até poucas décadas atrás, Flandres contava com 65 espécies de borboletas. Dessas, 16 estão extintas, oito estão ameaçadas, seis estão em risco, sete são vulneráveis, três são raras, uma é pouco conhecida e 24 não estão ameaçadas no momento. Para espécies da fauna brasileira, consulte: www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/55-especies-ameacadas-de-extincao.


[1]

             Nota da tradutora: Grisu é uma mistura do CH4 (metano – gás natural), que ocorre naturalmente nas minas de carvão, com o O2 (oxigênio) do ar, formando em ambientes fechados uma mistura explosiva que explode facilmente na presença de chamas ou centelhas, e constituía um grande perigo na mineração de carvão (Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Grisu; consultada em: 23/9/2013).

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