10 Juçara, o açaí do sul

Matinhos: um lugar que certamente vale a pena conhecer. É nesta universidade federal, a 100 quilômetros de Curitiba, que são feitas as ilustrações dos livros de Wervel em português. No período da tarde, foi programada uma reunião com uma cooperativa que surgiu a partir da mobilização dos estudantes. O grupo quer aproximar produtores e consumidores. A iniciativa lembra as “Voedselteams”[1] em Flandres [Bélgica]. À noite, apresentação do livro e do filme À Sombra de um Delírio Verde, de An Baccaert. Sobre os guaranis do Mato Grosso do Sul e do avanço da cana-de-açúcar para o etanol. Os estudantes ficaram bastante emocionados com esse filme impactante. Ouve-se muito choro e também um sentimento generalizado de impotência. “Tamanhas atrocidades contra a população indígena são possíveis no nosso Brasil? E isso por causa do assim chamado ‘combustível verde’ do ‘rei carro’.”

Do palmito para o fruto da juçara

Na cooperativa, alguns estudantes trouxeram uma iniciativa interessante. O fruto do açaí, uma palmeira da região amazônica, é bem conhecido por suas qualidades para a saúde e tem intenso comércio. Atualmente, até na Europa é possível comprar açaí. Menos conhecida é a juçara, uma palmeira da Mata Atlântica (melhor dizendo, dos fragmentos que ainda restam dela). Essa espécie está ameaçada de extinção, entre outros motivos, por causa da colheita do palmito. Isso agora é ilegal, no que se refere às palmeiras na mata. Em plantios comerciais, a colheita de palmito é autorizada. Os jovens (2) têm agora uma alternativa sustentável, ou seja, não extrair o palmito (o que causaria a morte da palmeira) e, sim, colher seus frutos no topo. Em vez de derrubar a palmeira uma única vez, é possível se alimentar dela durante vários anos. A escalada requer muita habilidade, mas vale a pena. Comparado com o açaí, a juçara é até melhor para alguns nutrientes (3):

Espécie

P

(g/kg)

K

(g/kg)

Ca

(g/kg)

Mg

(g/kg)

Fe

(mg/kg)

Zn

(mg/kg)

Cu

(mg/kg)

Mn

(mg/kg)

Açaí

1,4

7,4

4,8

1,4

328,5

10,1

20,4

34,3

Juçara

0,8

12,1

4,3

1,5

559,6

12,2

14,0

43,4

Estão indicadas em negrito as diferenças estatisticamente significativas.

 

Em maio, eles organizaram o primeiro festival da juçara, com o objetivo de informar a população sobre as possibilidades de uso sustentável dessas espécies de palmeira, para o benefício de todos. Esse tipo de iniciativa está se espalhando. Por exemplo, os estudantes de agroecologia de Rio Pomba realizam festivais similares naquela região.

Duto de etanol

Às vésperas da Rio+20, sustentável é a palavra que está na boca do povo. Outro dia, houve uma audiência com uma representante do Partido Verde. Ela quer identificar quais são os problemas no litoral. E sim, os problemas realmente merecem atenção. Já existem dois portos (entre outros, o Porto de Paranaguá, para as exportações de soja), mas há planos para mais dois. Com isso, um trecho de costa com apenas 100 quilômetros terá quatro grandes portos. Como o Brasil não se sente chamado somente para alimentar a população mundial, mas também os motores de carros, está sendo construído um duto para transportar etanol do interior até o porto, rumo à frota de veículos europeia e americana.

 

A Mata Atlântica pode até ser a floresta mais protegida do Brasil, mas a zona costeira estará, de qualquer modo, sob forte pressão nos próximos anos. É bom que os jovens escaladores de palmeiras, com a juçara, tragam uma pequena contribuição para a proteção da região. Ainda que pareça insensatez…

 

Matinhos, 26 de abril de 2012.

(1) Veja: www.thedarksideofgreen-themovie.com

Trailer em inglês: vimeo.com/16868372

Trailer em português: vimeo.com/22134567

No Facebook: www.facebook.com/pages/THE-DARK-SIDE-OF-GREEN/132106013477766?sk=wall

Veja também: www.elocompany.com

(2) Informações: coletivoprojucara@yahoo.com

(3) Silva, M. G. C. P. C., Barretto, W. S.; Serôdio, M. H. Caracterização química da polpa dos frutos de juçara e de açaí. In: XVIII Congresso Brasileiro de Fruticultura. Florianópolis, Santa Catarina, 22 a 26 de novembro de 2004. Anais. CD-ROM, Florianópolis, 2004.


[1]

             Nota da tradutora: Voedselteams são grupos organizados, em Flandres, que buscam restabelecer o elo entre produtores e consumidores. Uma garantia de que os produtos vêm diretamente do produtor. Esses grupos, por sua vez, inspiraram-se nos clubes Seikatsu, do Japão, que surgiram com o mesmo objetivo, após o desastre de Minamata – envenenamento por mercúrio de habitantes daquela localidade devido ao consumo de peixe contaminado.

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