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Soja: tesouro ou tesoura? PDF Imprimir E-mail

 

Os sete pecados sociais são: política sem princípios, riqueza sem trabalho, prazer sem consciência, conhecimento sem caráter, economia sem moralidade, ciência sem humanidade e culto sem devoção.” (Mahatma Gandhi)

Depois da Segunda Guerra Mundial, a industrialização e a internacionalização da agricultura ocorreram à velocidade da luz. Ciclos naturais foram rompidos. A partir dessa época, tornou-se possível “praticar a agricultura” com pouquíssima terra (visível). Desde então, suínos e frangos são engordados na Europa Ocidental, principalmente “sem ocupação de terra”. A terra, a água e o petróleo vêm do exterior – na forma de soja para ração animal. Ração que se torna alimento da destruição. Tudo é desvinculado: o consumo crescente e os elementos da produção. O que é causa? O que é efeito? É como se uma tesoura fosse utilizada para retalhar a trama da realidade, tornando-a irreconhecível.

Neste processo, 1962 é um ano divisor de águas

1962? Rachel Carson lançou seu polêmico livro Silent Spring (1). “Primavera silenciosa”, devido ao avanço desenfreado da agricultura química. Sua obra foi praticamente o começo do movimento ambientalista na América do Norte. No mesmo ano, o julgamento do nazista Adolf Eichmann abriu os olhos do mundo para um fator do Holocausto que ainda não havia chamado muita atenção. Hannah Arendt esteve presente durante o julgamento e inquietou a opinião mundial com seu controverso livro Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal (2). Duas mulheres no lado americano do Atlântico levantam suas vozes. Debate garantido! Até hoje.

 

Do lado europeu, a agricultura se desvincula da terra, devido à Rodada de Dillon (3), do GATT (atualmente OMC – Organização Mundial do Comércio): um acordo no âmbito do comércio mundial, que coincide com o início da Política Agrícola Comum Europeia. Mais uma vez, no ano de 1962.

Os acordos firmados em Dillon deram início ao fluxo destrutivo da soja: primeiro, a partir dos Estados Unidos; depois, com a “Revolução Verde”, a partir do Brasil, da Argentina, do Paraguai, da Bolívia.

Obediência cega, irrefletida – a banalidade do mal

E o que essas duas senhoras têm a ver com esses acontecimentos?

Com relação a Rachel Carson, a conexão é clara. Ela disparou o alarme com razão. Apesar do “Ano Internacional da Biodiversidade” (2010) – 50 anos mais tarde –, a diversidade da vida está se reduzindo numa velocidade assustadora.

E quanto a Hannah Arendt e a agricultura? Arendt fala do “subordinado” Eichmann. No julgamento em Jerusalém, ele simplesmente repetia que “apenas cumpria ordens superiores”. O refrão nos julgamentos do pós-guerra é: “Nós éramos apenas uma pequena engrenagem da grande máquina.” Eichmann não tinha visão da conexão das coisas. Ele tinha apenas um retalho da realidade, mas, mesmo assim, conseguiu organizar a logística para o massacre de milhões de judeus, homossexuais, ciganos, comunistas. Eichmann, o provedor de soluções.

Para Arendt, não é “o mal” que é banal, e sim o inexpressivo burguês comum que cumpria o seu “dever”. Poderia ser nós mesmos. Obedecer sem refletir...

 

Será que podemos estender a “banalidade do mal” da política para a economia? Para a indústria internacional de ração, carnes e alimentos? Ou corremos o risco de ficarmos presos na armadilha do nosso típico dualismo ocidental do “bem” e do “mal”. Afinal, o que é que o consumidor médio sabe sobre a “engrenagemzinha” que ele mantém em movimento ao comprar um quilo de carne de panela no supermercado? Utilizando ou não a desculpa da “engrenagem”, Arendt argumenta que uma pessoa continua sendo responsável, é capaz de pensar e, em seguida, julgar, independentemente do sistema em que ele/ela se encontra. Cabe a nós fazer o misto do bem e do mal pender para a direção que favorece a vida. Há alternativas de sobra!

Thomas Merton e The Unspeakable [O Indizível]

Hannah Arendt e Rachel Carson são duas mulheres fortes que romperam o silêncio. No mesmo período, também se erguiam as vozes de advertência de alguns homens. Por exemplo, Thomas Merton (1915-1968), o famoso monge trapista americano e líder espiritual de várias gerações após a Segunda Guerra Mundial. Em Raids on the Unspeakable (4) ele fala sobre as lacunas do discurso público: “São as lacunas que contradizem tudo o que é falado antes mesmo de as palavras serem ditas; lacunas que permeiam a linguagem dos discursos públicos e oficiais no exato momento em que eles são proferidos, fazendo com que soem sem vida, vazios como um abismo. É dessas omissões que Eichmann extrai a meticulosa exatidão de sua obediência.”

O perigo dos “mentalmente sãos”

Na década de 1960, Merton fala explicitamente sobre Eichman em três ocasiões. Enquanto Arendt fala mais sobre a banalidade do “solucionador de problemas”, Merton acha perturbadora a assim chamada sanidade mental de Eichmann. Ele fala sobre o “homem tecnológico”, a “linguagem tecnológica” e o possível Eichmann em cada um de nós. “Nós equiparamos sanidade mental com um senso de justiça, com amor pela humanidade, com cautela, com a capacidade de compreender e amar o próximo. Nós confiamos que as pessoas mentalmente sãs protegerão o mundo da barbárie, da loucura, da destruição. E agora começamos a perceber que são exatamente as pessoas mentalmente sãs que são as mais perigosas.” [...] “São as pessoas mentalmente sãs, as bem ajustadas, que – sem consciência e sem ficarem enojadas – apontam os foguetes e apertam os botões que darão início à grande festa da destruição; uma ‘festa’ que elas – as pessoas mentalmente sãs – também já haviam bem preparado previamente [...] Ninguém suspeita de pessoas mentalmente sãs e as mentalmente sãs provavelmente têm razões perfeitamente aceitáveis, razões lógicas e adequadas para puxar o gatilho. Elas obedecerão as ordens razoáveis que chegam as elas corretamente pela cadeia de comando [...].” (5)

Linguagem tecnológica em “Tecnópolis” ($)

Se Eichmann fosse uma aberração, nós poderíamos respirar mais aliviados. Mas, infelizmente, atualmente ele ainda está presente de muitas maneiras. Sua linguagem tecnológica prevalece. No ensaio Auschwitz: um campo familiar, Merton escreve ironicamente: “A linguagem burocrática tem um talento para argumentar sobre a realidade e, ao mesmo tempo, negá-la [...]” (6). A “Tecnópolis” utiliza a linguagem dos computadores e da matemática. A “Tecnópolis”, quer seja na Alemanha nazista, na Rússia dominada pela máfia, na Coreia do Norte stalinista ou na América corporativa, prefere sempre a linguagem da segurança e da abstração. Ela sempre utiliza a linguagem dos números, tabelas e mapas. A “Tecnópolis” eleva e promove o tipo de caráter eichmanniano e a sua linguagem, o executor obediente que é eficiente na organização, que reduz a diversidade humana, que utiliza recursos tecnológicos para resolver os problemas humanos e ecológicos que o atrapalham. A força da discordância de Merton do monopólio tecnológico – e sua crítica a ele – está em enxergar como a “Tecnópolis” está encarnada na pessoa e na linguagem de Adolf Eichmann.

Eu estou em todos os lugares

A força de sua oposição e crítica também está também no fato de que, para ele, “Eichmann” não é apenas uma determinada pessoa que nasceu em um momento específico e viveu em um determinado lugar. Para Merton, Eichmann é atemporal e apátrida, até mesmo “apessoal”. Ele vive em qualquer lugar, em qualquer momento. Ele mora sempre e em qualquer lugar quando e onde as instituições e a burocracia, onde a nação e a nacionalidade, onde o poder e a riqueza são colocados antes da liberdade individual e das necessidades humanas. Merton se manifesta sempre que fatos e números são colocados antes de sentimentos humanos, sempre que teorias abstratas são consideradas mais importantes do que a vida. Em Conjectures of a guilty bystander [Conjecturas de um espectador culpado], ele faz Eichmann dizer: “Seu mundo está repleto de mim. Eu estou em todos os lugares, meu nome é legião...” (7)

 

Cabe a nós traduzir as críticas de Merton, Arendt e Carson para o século XXI. Nós poderíamos, com cautela, aplicar suas ideias à atual realidade retalhada (chamada de sustentável) da política agrícola internacional, ao cinismo das multinacionais de sementes e produtos químicos, ao transporte a granel – mantido oculto – nas mãos de quatro empresas de tecnologia, às multinacionais de alimentos que fazem lobby, às vítimas mantidas invisíveis (os povos indígenas, a Agricultura Familiar, os ecossistemas destruídos, o crescimento das epidemias de câncer e obesidade...).

 

Luc Vankrunkelsven, Bruxelas, 20 de fevereiro de 2014.

Dia Mundial da Justiça Social.

(1) Publicado no Brasil: CARSON, Rachel. Primavera silenciosa. São Paulo: Gaia, 2011.

(2) Publicado no Brasil: ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

(3) A “Rodada de Dillon do GATT”, em 1962: o início das importações de soja da Europa, sem taxas e sem cota. Para um histórico dos fatos correlatos e mais informações sobre a Rodada de Dillon, veja: Ração animal, uma história de interdependência, no livro Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(4) MERTON, Thomas. Raids on the Unspeakable, Nova Iorque: New Directions, 1966 [em espanhol: Incursiones en lo indecible, Santander, Espanha: Sal Terrae, 2005]. Traduzido literalmente: incursões no indizível. “The unspeakable” é difícil de traduzir. Pode ser o “Indizível”, “Deus”, mas o termo também é fundamental na crítica social de Merton. “O indizível” também pode se referir, por exemplo, à reunião de forças do complexo militar-industrial, contra o qual ele se opunha com palavras desmascaradoras a partir de sua cela. Nesse sentido, ele previu, em janeiro de 1962, a morte de John Kennedy. O assassinato de Kennedy não pode ser visto separado de sua busca por paz e diálogo na antiga Guerra Fria. É que “1962” também foi o ano da crise dos mísseis de Cuba, com as armas nucleares soviéticas em Cuba. Contrariando seus conselheiros, ele decidiu não bombardear Cuba, mas estabelecer um diálogo com o presidente Khrushchov e Fidel Castro. Suas tentativas de política pacificadora, inclusive no Vietnã, custariam-lhe a vida. Esta é, seguramente, a opinião de James W. Douglass, em JFK and the unspeakable. Why he died & why it matters [JFK e o inominável. Por que ele morreu e por que isso importa]. Nova Iorque: Orbis Books, 2008.

(5) MERTON, Thomas. Raids on the Unspeakable, Nova Iorque: New Directions, 1966. p. 46-47.

(6) MERTON, Thomas. Passion for Peace: The Social Essays [Paixão pela Paz: Os Ensaios Sociais]. Nova Iorque: The Crossroad Publishing Company, 1995. p. 282.

(7) MERTON, Thomas. Conjectures of a Guilty Bystander [Conjecturas de um espectador culpado]. Nova Iorque: Doubleday, 1989, p. 290. Publicado em holandês sob o discreto título Oplettende toeschouwer [Observador atento]. Em espanhol: Conjeturas de un espectador culpable (Santander, Espanha: Sal Terrae, 2011).

Com relação à expressão legião, veja também o Evangelho de Marcos 5:9.

   

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