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Vegetarianismo: uma postura ética e filosófica - IHU On-Line PDF Imprimir E-mail




Vegetarianismo: uma
postura ética e
filosófica - Entrevista
com Marly Winckler

“O principal fator de destruição da Floresta Amazônica é a criação de bovinos”, constata a socióloga catarinense Marly Winckler, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, logo após o encerramento do I Congresso Vegetariano Brasileiro e Latino-Americano, realizado em São Paulo de 4 a 8 de agosto, do qual ela foi a organizadora. A contraproposta é o vegetarianismo. Na conversa, Marly reflete sobre as questões ambientais ligadas à criação dos animais, bem como sobre suas questões éticas e econômicas. A pesquisadora disse que quem quer um mundo melhor deve estar envolvido em sua construção, e assim tem que tomar uma atitude quanto ao consumo de carne e avaliar a sua procedência, verificando se o animal que originou o bife que temos no prato foi criado com dignidade. Marly Winckler é a tradutora para o português do livro Animal liberation. New York: Harper Collins, 2002 (Libertação animal. Porto Alegre: Lugano, 2004), do filósofo Peter Singer. Além de socióloga e tradutora, Winckler é vegetariana desde 1982. Ela criou o Sítio Vegetariano (www.vegetarianismo.com.br) e modera as listas de discussão sobre vegetarianismo “veg-brasil” e “veg-latina”. É coordenadora para a América Latina e o Caribe da União Vegetariana Internacional (IVU - www.ivu.org/latin-america.html), com sede na Inglaterra. Preside a Sociedade Vegetariana Brasileira (www.svb.org.br) e é autora dos livros Vegetarianismo – Elementos para uma Conversa Sobre. Florianópolis: Ed. Rio Quinze, 1992 e Fundamentos do Vegetarianismo. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2004.

 
IHU On-Line - Como você define a causa comum do vegetarianismo?
Marly Winckler - O vegetarianismo é um regime alimentar. Ele tem a ver, primordialmente, com comida, mas cada vez mais se torna uma postura ética e filosófica diante da vida. Ele se volta para pessoas que estão preocupadas com um mundo novo, um mundo melhor, que eu penso ser a maioria, pois ninguém está satisfeito com as coisas do jeito que estão. Quando as pessoas entram em contato com o vegetarianismo, percebem que ele tem um impacto positivo sobre o meio ambiente, porque a dieta baseada na carne tem um impacto muito negativo. Por sua vez, há também a questão dos animais em si, a postura ética de não aprovar tantos maus tratos com eles. Isso começa já na criação. É cada vez mais difícil ver animais soltos no pasto, no campo. E chegará um dia em que eles irão para a panela. Cem por cento dos suínos são criados confinados, impedidos dos seus instintos mais básicos, e separados da família. Por isso, vivem em um estresse muito grande. Os criadores são obrigados a ministrar a eles grandes doses de antibióticos, utilizando até hormônios de crescimento, embora isso seja proibido. Esses animais também são tirados da vida muito jovens, não têm a oportunidade de viver uma vida inteira, com as experiências que só a idade traz. Qual é o direito que nós temos de fazer isso? Queremos um mundo de paz. Como vamos plantar violência e colher a paz? Todas essas questões estão bastante ligadas ao vegetarianismo. Neste evento, abordamos todas essas questões e mais outros aspectos.

IHU On-Line - O vegetarianismo estaria definido pela exclusão da carne na dieta alimentar e por quais outros fatores?
Marly Winckler - O vegetarianismo tem a ver com a exclusão das carnes, todas elas, não só a bovina. Para nós, as carnes brancas também são carnes, da mesma maneira. Tudo o que implica a morte de um animal, o vegetarianismo não permite consumir, senão a pessoa não é vegetariana. Mais e mais, percebemos, também, que há muita crueldade envolvida no processo de geração de leite e ovos. Assim, cresce esse contingente de “veganos”, que são os vegetarianos restritos. Eles excluem tudo o que vem do reino animal, envolvendo sua alimentação, seu vestuário e todo o seu consumo.  Os veganos têm essa compaixão com os animais e não querem se envolver com tanta crueldade.

IHU On-Line - Quais são as dimensões do impacto ambiental no consumo de carne?
Marly Winckler - São vários aspectos. O principal fator de destruição da Floresta Amazônica, por exemplo, é a criação de bovinos. Em segundo lugar, está a plantação de soja. A soja é para quem? Quem consome soja no Brasil? É um contingente muito pequeno de pessoas, porque ela é usada para fazer o óleo. Fora disso, não existe nem estatística. Não é um alimento que esteja no cardápio do brasileiro. Essa soja é para dar aos animais como ração, para depois devolver, a cada sete ou nove quilos de ração, um quilo de carne. Então, é uma dieta que gera um prejuízo enorme, além de estar destruindo a Amazônia. Com a destruição da mata, perdemos também toda a nossa diversidade, uma riqueza imensa que nem conhecemos e estamos destruindo. Lá já tem muito mais bois do que gente. É uma rota de destruição.

Indústria da carne e contaminação das águas
A principal indústria que utiliza e contamina a água é a indústria da carne. Além de ser utilizada na plantação do pasto, cereais e soja, os animais bebem muita água. E, finalmente, eles geram muitos dejetos. O boi gera dez vezes mais dejetos que o homem. E para onde vai tudo isso? Não tem onde colocar, porque a quantidade é exorbitante. Isso vai diretamente para os córregos, açudes, riachos e contamina também os lençóis freáticos. Esse é um problema gravíssimo. No estado de Santa Catarina, onde eu vivo, é uma situação quase calamitosa. E atrás dessa criação de animais, existe a questão ética do sofrimento imposto a eles e a saúde do próprio ser humano. Uma dieta centrada na carne é geradora das principais doenças que levam ao óbito nas sociedades ocidentais, como cardiopatias, diabetes, vários cânceres e pressão alta. Por exemplo, o câncer do intestino, em 88% dos casos, está ligado a uma dieta centrada na carne.

IHU On-Line - Há muito pouca informação sobre isso. Deve haver interesses fortes para que as informações não apareçam...
Marly Winckler - O hábito de a carne ocupar um lugar tão central na dieta do ser humano é novo na história da humanidade. Sem ir muito longe, não havia nem como estocar, pois não havia geladeira, salvo em lugares com geleiras. Agora há essa facilidade de obter a carne. Além disso, os grupos se organizaram e existe um forte lobby nisso. No próprio Congresso Brasileiro, a bancada ruralista, que tem um poder enorme de persuasão, luta por seus interesses. Por incrível que pareça, os mesmos grupos que distribuem carne, distribuem também material didático nas escolas de Nutrição. Isso é absurdo. Há uma grande desinformação até dos profissionais de saúde. Mas não quer dizer que instituições idôneas, como a Associação Americana de Nutrição, não tenham um parecer sobre o que é dieta vegetariana. A Associação Americana de Nutrição, que é uma associação de nutricionistas, que formaram um comitê e estudaram a dieta vegetariana, tem um parecer de que a dieta vegetariana é perfeitamente saudável e apresenta benefícios para a saúde, na prevenção e na cura de doenças. Esse é um parecer científico. Além disso, eles acrescentaram recentemente que todo profissional tem obrigação de estimular as pessoas que querem se tornar vegetarianas, porque reconhecem que essa prática traz enormes benefícios para a saúde.

IHU On-Line - O governo brasileiro tem alguma sensibilidade com esse tipo de discussão?
Marly Winckler - Absolutamente. Pelo contrário, Lula transformou a Granja do Torto  em uma churrascaria. Ele fez uma reforma enorme para ficar mais adequada ao consumo de carne. Não tem sensibilidade para isso. Essa é uma atitude bastante incoerente da parte dele, porque a bandeira do seu governo foi o Fome Zero. Não sei se vai continuar sendo, pois não ouvi falar mais nada a respeito disso. Se quisermos também dar comida para todos, a carne não é o melhor caminho. Se fôssemos reprisar essa dieta padrão ocidental para todos, o Planeta não seria suficiente. Precisaríamos de dois a três planetas a mais. Quem está preocupado em dar alimento para todos, não pode ter a carne no centro do prato. Quem vai ficar de fora? Os mais excluídos. Então, essa é uma dieta antiética também sob esse aspecto. Não acredito que seja de má fé, mas é um viés conflituoso muito grande que um presidente e um partido proponham uma campanha de fome zero e não levem em conta esse aspecto tão importante.

IHU On-Line - Em algumas sociedades ocidentais, como a gaúcha e outras, a carne tem quase um papel cultural...
Marly Winckler - Exatamente, muito forte. Quem não quiser mudar, continue. Mas eu penso que quem diz querer um mundo melhor, tem que construí-lo. Esse mundo que temos é fruto da nossa ação. Ele não caiu do céu por descuido, e nós não estamos sujeitos a ele sem fazer nada. Quem quer um mundo melhor também é obrigado eticamente a promover mudanças nas suas atitudes. Essa é uma delas. Não tenho a menor dúvida de que não poderemos avançar muito como humanidade se não mudarmos a nossa dieta.

IHU On-Line - Poderia falar um pouco sobre a feira “Veg cultural” que houve no Congresso?
Marly Winckler - A nossa proposta é de estimular que empresas comecem a produzir produtos que possamos consumir com consciência. Estimulamos esse consumo ético, de respeito aos alimentos, aos animais, de respeito humano, porque não existe uma coisa sem a outra. O que estimulamos é que os produtos sejam feitos totalmente sem nada de origem animal. Tanto produtos de vestuário, como de higiene e limpeza, estão pesadamente calcados em produtos de origem animal. Por exemplo, quase todos os sabonetes e xampus que circulam no mercado têm sebo animal.

IHU On-Line - Como o consumidor sabe disso?
Marly Winckler – É preciso desconstruir aquilo que consumimos, ver a origem, a procedência do alimento. Com relação à carne, precisamos conferir a procedência do bife, de onde veio. Essa carne faz parte do corpo de um animal. É importante saber como ele foi criado e abatido.

IHU On-Line - Isso é mais difícil de reconhecer em produtos de limpeza e cosméticos?
Marly Winckler - É mais difícil porque é cuidadosamente escondido. Ninguém gostaria de esfregar sebo no corpo. Se a pessoa soubesse que o sabonete contém sebo, ficaria até um pouco resistente. Eu, por exemplo, compro sabonete sem sebo animal e quando não tenho a chance de usar esse produto, quando estou em um hotel, e tenho que usar o sabonete que há lá, tenho a sensação de estar me sujando, fica uma coisa “grudenta” no corpo. As pessoas se acostumam com tudo. Não porque não existam essências naturais e vegetais maravilhosas. Acontece que a indústria precisa aproveitar todos os produtos que são gerados da morte do animal. A carne é um dos cinqüenta e tantos produtos que o boi gera. Do boi, além da carne, tudo é aproveitado, o sangue, o couro, os ossos, os chifres.

IHU On-Line – A senhora traduziu o livro de Peter Singer, Libertação Animal. Quais as repercussões dessa obra, no Brasil?
Marly Winckler – Peter Singer é um marco da libertação animal, movimento que nasceu a partir da publicação do seu livro Animal liberation (New York: Harper Collins, 2002), em 1973. Ele capta esses momentos da história, conseguindo verbalizar aquilo que muita gente estava sentindo, mas que ninguém tinha encontrado o “click” para isso, não tinha despertado para essa mudança na maneira de criar os animais. Singer descreveu todo esse processo. Ele iniciou um movimento de grupos organizados que querem a libertação dos animais. No nosso Congresso, houve a criação do Instituto Abolicionista, que visa justamente a abolição dos últimos escravos, que são os animais.

IHU On-Line – O que seria a moda ética e compassiva?
Marly Winckler - É um desfile que organizamos para o Congresso, também para estimular o desenvolvimento dessa moda. A moda é um mundo de muita vaidade e superficialidade. No entanto, como precisamos nos vestir, pois não podemos andar nus por aí, queremos trabalhar com essa moda, mas com um conceito de respeito aos animais, mostrando que é perfeitamente possível nos vestirmos sem nada de materiais de origem animal, nem pele, nem seda, nem lã, nem couro. Organizamos isso com escolas de moda. Esse evento aconteceu em parceria com a Escola de Moda da UDESC (Universidade Estadual de Santa Catarina). No Congresso Mundial, trabalhamos com um conceito mais amplo, o veg-fashion. Além das escolas, convidamos empresas que trabalham com esse conceito para participar. (Fonte: www.unisinos.br/ihu)


   

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