Escultores, ceramistas

Beatrice Wood

16/03/1998 – Beatrice Wood, que inspirou o diretor James Cameron a criar Rose – a narradora sobrevivente do Titanic – morreu sábado, aos 105 anos. A artista, que se tornou famosa pela postura anticonformista, também inspirou o diretor François Truffaut, que adaptou Jules e Jim pensando nela.

Beatrice Wood Beatrice Wood
Beatrice Wood Beatrice Wood
  Beatrice Wood
"Young at Heart" ©
Photo by Jill Sattle

 “Titanic” e Realismo:

     A primeira medida tomada por James Cameron com o objetivo de dar “veracidade” à sua obra cinematográfica, mesmo que essa obra, antes de mais nada, seja classificada como “de ficção”: em setembro de 1995, Cameron faz 12 mergulhos na região dos destroços do navio, em Halifax, costa leste do Canadá, a bordo do submergível Mir 1; desce a 4.126 metros de profundidade e, munido de uma câmera especial, capta impressionantes detalhes do navio.(6)

      Com tal medida, Cameron faz lembrar aqueles autores dos chamados “romances experimentais” do Realismo-Naturalismo, que, antes de escreverem suas obras, iam viver nos meios que serviriam de espaço e conviver com os tipos humanos que seriam virtuais personagens dessas obras, como Émile Zola, que foi morar numa vila de mineiros de carvão no norte da França para escrever sua obra-prima, “Germinal”, e o maior naturalista brasileiro, Aluísio de Azevedo, que experimentou de perto a vida num cortiço para escrever sua também obra-prima homônima, “O Cortiço”.

      Captadas as imagens dos destroços e tendo acesso aos projetos originais e fotografias da embarcação, Cameron preocupa-se em fazer uma réplica exata, detalhada e esmerada do navio (por dentro e por fora) e do local do naufrágio, sem contar com a caracterização impecável da época em que tudo aconteceu. Pela primeira vez, o espectador tem a reprodução exata dos cristais, das porcelanas, dos tapetes Aubusson, etc, enfim do extremo luxo com que o navio foi equipado na primeira classe. Não menos verdadeira é a reprodução da simplicidade das cabinas de 2ª e 3ª classes do navio. O mesmo pode-se dizer das roupas femininas e masculinas e dos impecáveis chapéus. A reprodução do tamanho do navio, garboso e imponente, tomando conta do oceano, é igualmente impressionante.

      Dando continuidade ao “tom realista” do filme, Cameron o introduz com uma narrativa no tempo presente; aproveitando as cenas captadas em seus mergulhos, as seqüências iniciais são centradas na figura do pesquisador Brock Lovett, que vai até o local do acidente em busca de um diamante de 56 quilates, o “Coração do Oceano”. Nessa introdução, Cameron recupera o enredo científico, atual, a respeito do Titanic (conforme 1.3).

      O “realismo” da obra tem seu clímax, não obstante, nas cenas do naufrágio: Cameron manda construir um tanque de 64 milhões de litros de água e uma réplica da fachada externa do navio e, através de cálculos precisos de engenheiros hidráulicos, com eles planeja cuidadosamente cada passo que culmina com a quebra ao meio e o afundamento do navio; resultado: numa experiência inédita, o espectador “vive” o drama das personagens graças à reprodução dos elementos visuais e sonoros e da duração exata  do acidente, principalmente quando a escuridão do local reproduzido na tela mistura-se com a escuridão do cinema e quando o estrondoso som do navio partindo-se ao meio é ouvido pela platéia. Em suma: Cameron consegue passar para o espectador todas as “sensações” vividas pelas personagens dessa primeira narrativa (introdução do filme), que, por sua vez,  é baseada nas pesquisas científicas realizadas a partir de 1985 (novamente, conforme 1.3).

      Em se falando de personagens, elas também reproduzem os tipos sociais que compuseram o famoso transatlântico. Ainda na introdução, a personagem cientista Brock Lovett mostra, através de um documentário (também quase idêntico aos documentários científicos frutos das expedições no local do desastre), objetos resgatados do fundo do oceano pertencentes aos passageiros do Titanic. Ao se reconhecer num desenho em que serviu de modelo , em que está nua aos dezessete anos e com o colar “coração do oceano” ao pescoço, desenho este encontrado dentro de uma pasta de couro que estava dentro de um cofre resgatado por Brock Lovett em sua expedição, uma senhora de 102 anos, sobrevivente do naufrágio, vai ao encontro do cientista para lhe relatar o acidente e,  através de  “flashbacks”, acaba contando também a história de amor que ela viveu nos quatro dias da famosa viagem: ela chama-se Rose DeWitt Bukater e, fazendo o seu relato, é muito parecida com Eva Hart, Marjorie N. Robb, Edith Brown Haisman, Ruth Becker Blanchard e Millvina Dean, sobreviventes que deram seus depoimentos no documentário “Titanic: a tragédia contada pelos sobreviventes” (7). Em matéria da “Folha da Tarde” sobre o filme (8), consta que Cameron ganhou inspiração para criar Rose e a história de amor por ela protagonizada  a partir do relato de uma sobrevivente ainda viva: Beatrice Wood. A seguir, a história de amor de Rose.

Topa Topa in Clouds
"Topa Topa in Clouds"
Photo by Janat Dundas

http://www.beatricewood.com/