História Geral

A fotografia como prova documental da robustez dos vegetaristas, vegetarianos e frugívoros

Fátima Vieira

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Citação: Fátima Vieira, " A fotografia como prova documental da robustez dos vegetaristas, vegetarianos e frugívoros", E-topia: Revista Electrónica de Estudos sobre a Utopia, n.º 5 (2006). ISSN 1645-958X.

<http://www.letras.up.pt/upi/utopiasportuguesas/revista/index.htm>


1. O círculo de vegetaristas do Porto

Nas duas primeiras décadas do século XX registou-se, na cidade do Porto, uma movimentação a favor do vegetarismo. Distinguiu-se como líder desse movimento Ângelo Jorge, autor da utopia frugívora Irmânia, recentemente reeditada por José Eduardo Reis no âmbito da Colecção Biblioteca das Utopias, da Editora Quasi. Mas também médicos de renome e individualidades da burguesia portuense aderiram ao regime vegetarista. Neste quadro, foi fundada a Sociedade Vegetariana de Portugal, responsável pela criação da Biblioteca Vegetariana”, destinada à propaganda naturista e à divulgação do vegetarismo, da educação física, da higiene e cura naturais; foi também criado o Instituto e Cultura Vital, com instalações na R. Nova de S. Crispim, “no higiénico local do monte das Antas”.

Mais do que um mero regime alimentar, o vegetarismo era então apresentado como a solução para os problemas da fome, da falta de higiene e da saúde pública, traduzindo também uma atitude moral. No Instituto de Cultura Vital providenciava-se a cura através de banhos de luz, ar, sol, água e compressas; e Ângelo Jorge, a quem fora confiada a direcção do Instituto, pregava os princípios naturistas de Louis Kuhne, autor de um programa encarado simultaneamente como filosófico e científico.

Os livros sobre o vegetarismo publicados nesta época no Porto cumprem diferentes funções. Encontramos, em primeiro lugar, os livros de intenção meramente pedagógica, como O Naturismo, assinado pelo Dr. Amílcar de Souza e publicado pela editora da Sociedade Vegetariana em 1912, onde a ênfase é posta em questões pragmáticas. Nesse volume, o autor descreve o sistema naturista e dá conselhos práticos sobre formas de cozinhar vegetais, bem como “conselhos higiénicos”.

O Vegetarismo e a Physiologia Alimentar, escrito pelo Dr. Henri Collière e publicado em Portugal em 1911, numa tradução de Ângelo Jorge, cumpre uma função diferente, de índole mais militante; na verdade, apesar da sua óbvia dimensão pedagógica, esta obra visa captar adeptos suscitando a repulsa ela carne. No livro, a carne é apresentada como um alimento tóxico e excitante, cuja digestão engendra venenos, descrevendo-se mesmo minuciosamente o seu processo de putrefacção microbiana no intestino (Collière, 1912: 77-85). A obra assume objectivos explicitamente didácticos ao traçar o quadro em que se inscrevem diferentes regimes alimentares anti-carnívoros: o fructarismo (exclusivamente à base de frutos crus), o vegetalismo (que admite o princípio da preparação dos alimentos, desde que sejam de origem vegetal; corresponde ao regime alimentar a que vulgarmente chamamos vegetariano) e o vegetarismo (que inclui, para além dos vegetais, também os ovos, o leite e os seus derivados). Apresenta ainda tabelas com informação nutricional de vários vegetais e frutos, numa tentativa de demonstrar que são suficientes para a alimentação humana (cf. Idem, 114-127). No final do livro, é feita a ponte para um outro tipo de atitude, característica aliás do vegetarismo engajado de Ângelo Jorge, quando Collière afirma que a questão do vegetarismo é uma “questão social em primeiro plano, porque o vegetarismo em conjuncto não só é possível e applicavel na pratica, mas até susceptível, o que é deveras importante, de contribuir para a vinda duma éra de maior prosperidade e de melhor justiça” (idem, 159).

O terceiro tipo de livros sobre o vegetarismo, fazendo claramente associar este regime alimentar a uma preocupação social, é amplamente ilustrado pela palestra que o Dr. Jaime de Magalhães Lima proferiu no Ateneu Comercial do Porto, a 14 de Junho de 1912. O título da palestra, entretanto vertida em livro, O Vegetarismo e a Moralidade das raças, permite-nos compreender a forma como o vegetarismo foi apresentado à sociedade burguesa portuense, nos meios culturais mais ricos (de que o Ateneu Comercial era um dos melhores exemplos) como uma autêntica filosofia de vida.

Por fim, temos a atitude de Ângelo Jorge, sempre empenhada, chegando mesmo a atingir alguns extremismos. Depois de um percurso de árdua divulgação do vegetarismo, apresentando o pensamento e naturistas europeus de renome e traduzindo as suas obras, Ângelo Jorge chegou a um ponto em que, restringindo ainda mais os princípios dietéticos, defende a necessidade de o homem regressar às origens e se afirmar como era então: um frugívoro. É esta a posição que encontramos em A Questão Social e a Nova Sciencia de Curar, publicado em 1912, onde Ângelo Jorge promete a cura para todas as doenças, talvez numa tentativa de se iludir a si próprio, já que, como resulta óbvio da leitura do artigo assinado por Iza Luso Barbosa publicado neste número de E-topia, o utopista portuense terá vivido atormentado pelo espectro de uma doença que acabaria por provocar a sua morte precoce. Subscrevendo a ideia de que "há só uma Doença no corpo humano: a infracção á Lei Natural” e de que o princípio curativo das doenças poderá ser encontrado na própria Natureza, Ângelo Jorge considera a Medicina uma “sciencia illogica”, na medida em que tenta curar com “venenos espantosos” (Jorge 1912: X.XI). O regime alimentar à base de frutos é mesmo apresentado pelo autor como sendo capaz de assegurar um desenvolvimento harmonioso da raça humana. Num discurso que denota laivos de uma crença eugenista, Ângelo Jorge afirma que “até defeitos physicos, como a gibosidade, poderão ser corrigidos” e que o regime que recomenda no seu livro, a ser aplicado, “faria desta raça de rachiticos, disformes, deselegantes, uma raça de homens e de mulheres fortes, sãos, lindos, harmoniosos” (idem, p. 19).

Mas como o título do livro deixa entrever, as preocupações não são apenas com a cura física de doenças. Na obra, Ângelo Jorge explora também as possíveis vertentes da acção do fructarismo como motor de transformação social. Como ele explica, a sua “nova ciência de curar” justifica-se sob o ponto de vista moral, pois aconselha a abstenção completa de bebidas excitantes e alcoólicas; justifica-se também sob o ponto de vista económico, já que, comendo os homens apenas aquilo que é necessário à sua subsistência, e estando a comida à disposição de todos, deixaria de haver fome no mundo; fomentaria também a Arte e a Literatura, que são o reflexo mental de um povo – uma sociedade de frugívoros seria uma sociedade de artistas; seria útil ainda do ponto de vista da educação, contribuindo para uma educação integral dos indivíduos; finalmente, seria importante no que respeita à difusão do “livrepensamento”, nomeadamente ao direito que os indivíduos têm de se recusarem a vacinar, escapando assim à “charlatanice médica”.

Ângelo Jorge considera pois que se os homens voltarem a ser frugívoros a questão social será resolvida; e em Irmânia, a utopia inventada pelo autor, ele tenta provar o seu ponto de vista, colocando em confronto os males da civilização moderna, carnívora por excelência, com a beleza, o pacifismo, a sageza e a vida fácil dos frugivoros.

2. A fotografia como prova documental

Independentemente das variações no regime alimentar anti-carnívoro, todos as obras referidas têm um elemento em comum: incluem fotografias de indivíduos que se alimentam de acordo com os regimes alimentares descritos. Receosos de que a mensagem relativa às vantagens daqueles regimes alimentares não passasse, os autores procuraram ilustrar a teoria com provas documentais, neste caso fotografias de crianças saudáveis, jovens em franco desenvolvimento, homens bem constituídos e idosos com ar rijo.

A secção de “Documento” deste número de E-topia é constituída por essas fotografias. Cada fotografia é precedida por um slide identificando a obra de onde foi retirada. Note-se que por vezes são os próprios autores que posam para a fotografia; é o caso do Dr. Jaime de Magalhães Lima, vegetariano há 16 anos, como se lê na legenda do retrato (slide 3); é igualmente o caso do Dr. Amílcar de Souza, que apresenta o seu físico invejável, vestindo apenas uns calções (slide 4). Outras vezes encontramos fotografias de crianças ligadas aos autores por laços de parentesco, como é o caso de Armanda-Júlia Jorge (slide 8), ilha do utopista portuense, educada desde a nascença segundo os princípios avançados em A Nova ciencia de Curar; vaticina-lhe o autor uma vida sem doenças e apresenta-a como a prova viva da eficácia da teoria naturista.

Nas fotografias apresentadas na secção de “Documento” encontram-se ainda dois elementos de uma família de frugívoros que residia em Lisboa: Asvild Wiborg (slide 6), cujo vigor dos seus 11 anos comprova a teoria de que a vacina da varíola não é necessária; e Mlle. Milda Wiborg (slide 10), uma jovem sorridente de 16 anos, apresentada como “a mulher mais saudável de Portugal” – e também uma desportista nata, invulgarmente inteligente e culta. Os benefícios do fructarismo são assim expostos como sendo de ordem física mas também intelectual.

Seria sem dúvida interessante averiguarmos se os jovens representados nos retratos escaparam efectivamente à doença, como profetizavam os defensores daqueles regimes alimentares. A falta de dados concretos tem sido contudo um obstáculo à investigação que temos feito sobre este círculo de vegetarianos, como explica Iza Luso Barbosa no seu artigo sobre Ângelo Jorge.

Referências
Collière, Dr. Henri (1911), O Vegetarianismo e a Physiologia Alimentar, tradução de Ângelo Jorge, Porto,
Sociedade Vegetariana de Portugal.
Jorge, Ângelo (1912), A Questão Social e a Nova Sciencia de Curar, Biblioteca Vegetariana, vol. IV,
Porto, Sociedade Vegetariana de Portugal Editora.
Lima, Dr. Jaime de Magalhães (1912), 0 Vegetarismo e a Moralidade das raças, Notável Conferência
realisada no ATENEU COMERCIAL DO PORTO em 14 de Junho de 1912, Biblioteca Vegetariana, vol.
IX, Porto, Sociedade Vegetariana de Portugal Editora.
Souza, Dr. Amílcar de (1912), O Naturismo, Biblioteca Vegetariana, Porto, Sociedade Vegetariana
Editora.
Viaud-Bruant (1912), Vivamos de Fructos, tradução prefaciada pelo Dr. Amílcar de Souza, Biblioteca
Vegetariana, vol. 1, Porto, Sociedade Vegetariana de Portugal Editora.