Soja: tesouro ou tesoura?

1– Europa exporta seus problemas

Eu estou novamente a caminho do Brasil, para o lançamento da versão em português de Legal! Otimismo – Realidade – Esperança. Durante a espera nos aeroportos, reli Nieuwe spijswetten. Over voedsel en verantwoordelijkheid [Novas leis alimentares. Sobre alimentação e responsabilidade], de Louise O. Fresco (1). Ela fala sobre “pensadores sombrios” e “aqueles que buscam a luz” que, junto com “as pessoas solidárias” se opõem – com justiça, mas às vezes de modo um tanto ingênuo e nostálgico – ao agronegócio internacional. Para o meu gosto, a autora é demasiado otimista sobre o uso e as perspectivas maravilhosas da agricultura industrial e da engenharia genética. Ela também compartilha a opinião do agronegócio brasileiro e de muitos dos elaboradores de políticas do Brasil de que o Cerrado é uma área inútil. “O consumo de carne já não é tão problemático”, diz ela, “porque houve redução do desmatamento na Amazônia. O Cerrado é o ideal para a alimentação animal e carne.” Muitos movimentos brasileiros discordam totalmente dessa concepção. Eu mesmo abomino esse ponto de vista que, atualmente, destrói a biodiversidade do Cerrado, mas consigo apreciar muito de sua busca pela integração. A partir de diferentes perspectivas ela tenta entender a realidade complexa. Além disso, ela está dividida entre otimismo e pessimismo. A esperança é a sua missão.

Todos rumam para Luanda

O trajeto da viagem é Lisboa-Brasília-Cuiabá. Uma fila no aeroporto de Lisboa me colocou inesperadamente na tradição de emigração europeia ou “exportação de seus próprios problemas”. Cerca de 23% da população espanhola está, atualmente, desempregada; 50% dos jovens. Em Portugal, a “Crise do Euro” é um pouco menos acentuada do que no país vizinho e da que reina no pária chamado Grécia. No entanto, a fila leva para o avião que vai para Luanda, capital de Angola. Dois voos diários levam uma quantidade marcante de jovens para a ex-colônia portuguesa. Luanda, alternando com Tóquio, é atualmente a cidade mais cara do mundo para se viver. É o resultado dos expatriados atraídos pela loucura de petróleo do país.

Nos últimos meses, a imprensa relatava regularmente que muitos jovens gregos, portugueses e espanhóis com nível superior estavam emigrando para a Bélgica e outros países paradisíacos ao norte. Por exemplo, o VDAB [Serviço Belga de Colocação de Trabalhadores, semelhante ao SINE no Brasil] está buscando ativamente 3 mil jovens engenheiros em Portugal. Isso porque já não encontram engenheiros na Bélgica, mas também, provavelmente, porque esses jovens gênios desempregados aceitam trabalhar por salários mais baixos. A Alemanha também busca ativamente engenheiros e enfermeiros em Portugal e Espanha. Portugueses são desejados pela Bélgica e pela Alemanha, mas a maioria ainda vai para as ex-colônias. O Brasil, como um país emergente otimista, está em evidência, mas outros países de língua portuguesa, como Angola e até Moçambique, estão entre os destinos favoritos.

Mundo estranho: estima-se que cerca de 60 mil brasileiros vivem na Bélgica. A maioria, “sem documentação”. As mulheres trabalham como domésticas, geralmente “seguras” atrás das paredes e por salários baixos (na informalidade). Muitos homens brasileiros estão empregados no setor de construção, muitos deles são pagos informalmente ou recebem salários muito baixos (2). Engenheiros portugueses são atraídos para a Bélgica, enquanto os cérebros jovens da Bélgica estão deixando o país em números cada vez maiores. Os graduados têm fácil acesso aos Estados Unidos, Canadá e Austrália. As universidades americanas distribuem deliberadamente bolsas de estudo aos nossos melhores estudantes. A crise na Europa ajuda a acelerar o êxodo. Em 2000, 13.296 jovens belgas emigraram permanentemente. Em 2010, já eram 16.759 jovens, entre 15 a 29 anos. Será que isso não se tornará uma implacável fuga ou circulação de cérebros? Os jovens estão adquirindo mais mobilidade graças aos diversos programas de intercâmbio? As pessoas também podem retornar, permitindo o intercâmbio de conhecimento e enriquecendo a sociedade. Os governos podem reagir a esses desenvolvimentos de modo positivo.

Tráfico humano

Os jovens emigrantes em busca de trabalho e de uma nova vida dão continuidade a uma longa tradição de emigração. Já são cinco séculos [fugindo] de: pogroms [intolerância religiosa], fome, guerras de todos os tipos, duas guerras mundiais, ditaduras de esquerda e de direita, desemprego e, ainda, deportação de desocupados e condenados e busca de aventuras e lugares exóticos. O auge do êxodo de milhões de europeus ocorreu nos séculos XIX e XX: a combinação de fome por causa, entre outros, da doença da batata e o advento do navio a vapor, que tornava mais fácil o deslocamento para as Américas do Norte e do Sul. Muitos se tornaram vítimas de tráfico de seres humanos (3). Nada de novo sob o sol. Na nossa rua, em Bruxelas, há dezenas de prostitutas búlgaras e romenas. Muitas são vítimas do tráfico humano moderno.

Na Páscoa, a presidenta Dilma Rousseff foi hóspede na Casa Branca. Ela expôs ao presidente Obama que “os países ricos, com as desvalorizações de suas moedas, estão exportando a crise para os países emergentes”. Ela pôs o dedo na ferida, muito embora a visão também seja um tanto simplista. O agressivo estímulo às exportações do Brasil & companhia também deve ter sua participação na crise mundial. De qualquer modo, a crítica feita pela presidenta é manchete nos jornais de hoje. Eu mesmo também vou sentir isso na pele, nestas semanas, porque o euro está realmente muito fraco em relação ao forte real brasileiro.

Democratização de geladeiras, carros e carne

Em Brasília, o emigrante europeu é recepcionado com a informação de que: “O tráfico de animais e plantas silvestres é um crime federal”. Além disso, os alto-falantes repetem a cada dez minutos: “O Ministério da Agricultura proíbe a importação de alimentos de origem animal ou vegetal sem registro sanitário ou fitossanitário, ainda que sejam para consumo próprio”. Uma questão de proteger seu próprio rebanho contra a disseminação de quaisquer vírus, inerente à explosão global de carne.

Ou, ainda, um anúncio chamativo de 100% de “energia limpa”, com a logomarca do Governo Federal e com o slogan: “Brasil, país rico é país sem pobreza”. É claramente propaganda do governo, porque a população está cansada das numerosas hidrelétricas planejadas. A resistência à barragem de Belo Monte, no Pará, continua particularmente intensa.

Nos últimos oito anos, o governo conseguiu de fato fazer com que dezenas de milhões de brasileiros saíssem de condições miseráveis para a classe média baixa. País rico é país sem pobreza. Pela primeira vez, essas famílias adentram, confiantes, o paraíso dos consumidores e compram geladeira, carro e outros símbolos de riqueza. E elas merecem. É ligeiramente comparável àquilo que aconteceu na Bélgica após a Expo ‘58. Afinal, por que eles não “poderiam” se, há décadas, nós reivindicamos isso como um direito natural na Europa? Mas a Terra tem os seus limites. Como é que nós todos vamos lidar com isso nas próximas décadas? Os brasileiros são “apenas” cerca de 203 milhões de pessoas. Eles podem receber algumas dezenas de milhares de europeus desesperados e desempregados! Já a Ásia é outro assunto. Os chineses, 1,4 bilhões de pessoas, também estão na expectativa de ter uma geladeira, um carro e de consumir muita proteína animal.

Dentro de dez anos haverá mais indianos do que chineses. Eles também devem descer da bicicleta e entrar no carro. Eles também deixam sua posição vegetariana acalentada durante séculos e adentram o paraíso do McDonald’s. Na geladeira, haverá carne, ainda que em menor quantidade do que na Europa e na América. O consumo per capita será menor, mas coletivamente maior, porque quando se trata de Ásia estamos falando de vários bilhões de pessoas: 54% da população mundial, comprimidos em um continente. Como é que vamos administrar a democratização do modo ocidental de vida?

Rio+20

Em junho, no Rio de Janeiro, os membros das Nações Unidas voltam a se reunir em torno dessa questão. Vinte anos depois da Rio-92[1], o evento mundial histórico sobre a situação do nosso planeta. A aposta da Rio+20[2]: será que, com a economia “verde”, teremos mais do mesmo ou finalmente perceberão a gravidade da situação global? De qualquer modo, o governo brasileiro acredita está tendo um bom desempenho e que tem as melhores credenciais para receber essa conferência sobre “desenvolvimento sustentável”. Trinta e nove movimentos ambientalistas brasileiros não têm tanta certeza. Recentemente, eles escreveram uma carta aberta na qual denunciam o desenvolvimento altamente não sustentável em seu país. Estou curioso acerca do que vou ouvir sobre isso nas próximas semanas. Será que há vida em torno do novo fetiche da indústria: a “economia verde”? Será essa a nova roupagem do “Consenso de Washington” (4) da década de 1980? Como é que estudantes brasileiros, agricultores, ativistas enxergam o Rio, 20 anos mais tarde? E o Brasil, que possui 20% de toda a água doce do mundo, 60% da água doce prontamente disponível? O Brasil, que ainda tem/tinha 34% do estoque das florestas tropicais do mundo. O Brasil, que detém 30% de toda a fauna e a flora do mundo. A biodiversidade e as florestas estão desaparecendo rapidamente. Como estará na “Rio+40”?

Tudo isso promete. Chego aqui no Brasil como uma página em branco. A “esponja-em-mim” faz com que eu, imediatamente, pegue meu notebook. Será que eu devo, mais uma vez, usar as crônicas para instigar meus leitores?

Brasília, 10 de abril de 2012.

(1) Louise O. Fresco, Nieuwe spijswetten. Over voedsel en verantwoordelijkheid [Novas leis dietéticas. Sobre alimentação e responsabilidade] (Amsterdã: Bert Bakker, 2009, quarta edição).

(2) Consulte o capítulo 1, Você nasceu para voar, em Brasil-Europa em fragmentos? (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2010).

(3) Consulte: Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2006).

(4) Consulte o artigo revelador A economia verde é o novo Consenso de Washington? (http://globaltransition2012.org; http://www.sustainabilityleadersnetwork.org/2012/03/from-limits-to-growth-to-life-beyond-growth). Sobre a diferença entre “economia verde” e “economia ecológica”, consulte Andere landbouw? Andere economie! Ecologische economie als fundament voor een duurzame landbouw [Outra agricultura? Outra economia! Economia ecológica como uma base para uma agricultura sustentável] (Bruxelas: Wervel, 2012).


[1]

             Nota da tradutora: Refere-se à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada na cidade do Rio de Janeiro em 1992, também conhecida como Eco-92 ou Cimeira da Terra.

[2]           Nota da tradutora: Refere-se à Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (CNUDS), realizada na cidade do Rio de Janeiro em 2012.