Soja: tesouro ou tesoura?

2 Instituto para a vida

Cuiabá, capital do Mato Grosso. Mato Grosso, o estado onde o Cerrado, a Amazônia e a maior reserva de aves do mundo – o Pantanal – se encontram.

Mato Grosso, que há várias décadas é o estado do grande desmatamento e do assim chamado “milagre da soja”. É por isso que eu não queria vir aqui, mas há cinco anos sou convidado por várias instâncias para auxiliar no fortalecimento do “outro lado do Mato Grosso”.

Globalização da terra

Tomemos, por exemplo, o Instituto Centro de Vida (ICV). À primeira vista, achei que fosse um movimento antiaborto. Mas não, a expressão “em defesa da vida” é amplamente utilizada pelas ONGs e pelos movimentos sociais brasileiros. Para eles, ela abrange tudo: o planeta, os diversos ecossistemas habitados pelo homem… Para o ICV (1), começa pelo muito maltratado Mato Grosso. Um movimento contra o aborto planetário, por assim dizer.

O ICV surgiu em 1991, um ano após Wervel. É um dos movimentos ambientais mais antigos no Brasil. No início da década de 1990 a “globalização da terra” já ocorria de modo descontrolado. Os sulistas incendiavam o Cerrado e a Amazônia. Eles repetem o que ocorreu na década de 1970 do século XX, no Paraná: colocar fogo em tudo e, imediatamente em seguida, semear soja. Os sulistas são os invasores e os “desenvolvedores” da Região Sul: gaúchos, principalmente pessoas vindas do Paraná que têm pais ou avós no estado mais ao sul, o Rio Grande do Sul. Estes, por sua vez, são descendentes de italianos, alemães, poloneses, ucranianos e, vez por outra, um holandês com espírito missionário. Especialmente no norte de Mato Grosso, mas também em Rondônia, Tocantins e Piauí está cheio de paranaenses com sobrenomes italianos e alemães. Eles não ficam muito satisfeitos com intromissões europeias, ainda que suas próprias raízes se encontrem no lado europeu do oceano.

Um crescimento de 10% ao ano

O ICV começou de modo muito idealista e radical em sua oposição aos estragos causados por barragens. Como o Mato Grosso se tornou o campeão em desmatamento, eles se afincaram cada vez mais na denúncia das consequências devastadoras dessa globalização perversa.

Em 2006, começaram a trabalhar com o Imazon, que desenvolveu um sistema para detectar desmatamento: o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD). Por volta dessa época, eles também começaram a divulgar mensalmente o desmatamento. Este já era detectado há algum tempo pelo Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), mas não era divulgado (2). Graças à pressão do ICV, agora isso acontece há muitos anos.

Alguns números: de 1996 até 2005 foram desmatados mais de 1 milhão de hectares/ano na Amazônia e no Cerrado de Mato Grosso juntos. Posteriormente, esse número passou para 100 mil hectares. Até 2006, houve um crescimento anual de 10% de soja e de gado. De 2006 a 2010, houve uma estagnação. A partir de 2011, o desmatamento passou a acelerar. Para o período 2010-2020 é esperado um aumento de 70% de soja (1,7 milhões de hectares para essa leguminosa) e uma duplicação da pecuária. O agronegócio afirma que vai realizar essas metas nas terras disponíveis. Atualmente existem 26 milhões de hectares com, aproximadamente, uma cabeça de gado por hectare. Isso seria duplicado com dois animais por hectare. A engorda confinada também está aumentando drasticamente, mas não a de gado no pasto, o que, em nossa região, já ocorre há um bom tempo. No Brasil, o estado de Goiás é, atualmente, o campeão da engorda confinada.

Portanto: não haverá mais desmatamento… mas é preciso ver para crer. Será que vão plantar os 1,7 milhões de hectares de soja adicionais como um segundo estrato, como se fosse permacultura? A permacultura, que é uma tentativa louvável de imitar o ecossistema, pratica a “agricultura-em-estratos” e sem entrada de energia: uma mistura de várias plantas terrestres, arbustos, árvores, animais, água.

Campeão dos agrotóxicos “responsáveis”

O ICV não consegue ignorar essa terrível realidade de destruição. Por isso, eles precisam se equilibrar entre o exercício da influência nos círculos de quem organiza tais estragos e o onipresente e imperativo greenwashing[1]. Atualmente, todos querem oferecer soja “sustentável” e “verde”, enquanto os jatos de agrotóxicos saindo dos aviões continuam a aumentar. O Brasil é o maior “consumidor” de agrotóxicos e, em 2010, despejou 983 milhões de litros sobre as lavouras. Também nessa área o Mato Grosso está em primeiro lugar: 132 milhões de litros. Tomemos, por exemplo, o município de Lucas do Rio Verde, que é frequentemente utilizado como exemplo de “boas práticas”. Seria uma comunidade que pratica a sustentabilidade. A população é de cerca de 37 mil pessoas. Em 2010, foram plantados cerca de 420 mil hectares de soja, milho e algodão. O consumo de veneno chegou a 5,1 milhões de litros. O professor Pignati estudou, com sua equipe da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, o que isso acarreta para a população local, especialmente para crianças e mulheres grávidas.

Deve ficar claro que a revelação desses dados não é apreciada. Os líderes sindicais e pesquisadores que mostram esse outro lado do paraíso da soja são extremamente pressionados. É que eles pedem o fim da pulverização aérea e, também, que sejam colocados na “lista negra” daqui os produtos que são proibidos na Europa. Um pedido urgente pelo fim da política de subsídios para o uso desses agrotóxicos.

É nessa realidade que trabalha a Mesa-Redonda da Soja Responsável [Round Table on Responsable Soy – RTRS]. Uma mesa-redonda na qual empresas como Monsanto e Unilever, junto a fazendeiros, à indústria de ração (incluindo a nossa Bemefa belga), ao WWF e a várias ONGs holandesas tentam desenvolver critérios para “soja socialmente responsável”. O ICV não participou como membro da mesa, mas tem compartilhado sua experiência há vários anos, na esperança de que isso resultasse efetivamente em alguma melhora. Atualmente eles esperam para ver o que acontece. Nesse meio tempo, parece que muitos produtores de soja de Mato Grosso abandonaram a Mesa-Redonda. Os governos na Europa – incluindo o nosso próprio governo belga – aproveitam cada oportunidade para se vangloriar desses fluxos de ração “responsáveis” e clamam, quase em desespero, que existem ONGs que apoiam isso. Isso se encaixa perfeitamente na preservação dos interesses de exportação de carne.

Municípios verdes

Minha suspeita é despertada pela colaboração do ICV no surgimento de “municípios verdes”. Está na moda ser “verde”. O encontro Rio+20, em junho, também está bastante ocupado por “economia verde”. É mais do mesmo, com um molho verde?

Em 2008, o governo federal fez uma lista de municípios nos quais a situação no campo da sustentabilidade é crítica. Nessa “lista negra” constam 43 municípios, dos quais (de novo) 22 se localizam em Mato Grosso. Um dos problemas é que os limites de muitas empresas na região amazônica são desconhecidos. Consequência: “ninguém sabe nada do desmatamento”.

O governo adota critérios. Se os municípios dessa lista estiverem em conformidade, eles podem ser retirados da lista e isso é bem importante, porque há sanções. Menos subsídios, por exemplo.

Um dos critérios é que as terras sejam cadastradas: Cadastro Ambiental Rural (CAR). Para sair da “lista negra”, 80% das terras precisam estar cadastradas. Por isso existe, no Mato Grosso, o projeto “Mato Grosso Legal”: a legalização das áreas que foram ilegalmente desmatadas antes de 2007. O fato de eu estar aqui, na turnê de lançamento do meu novo livro, Legal! (3), é uma divertida coincidência (legal!). Com um sorriso, o ilegal é legalizado.

Após o CAR, 6 mil nascentes poderão ser resgatadas. Cerca de 1 milhão de hectares em torno dessas nascentes e rios poderão ser recuperados. Parece bom, ainda que seja uma arte não ser sugado por essa grande máquina de greenwashing. Afinal, aquilo que foi desmatado ilegalmente está sendo legalizado tornando possível, portanto, plantar despreocupadamente soja socialmente responsável em terras públicas que foram usurpadas injustamente.

O ICV não se ocupa apenas da realidade dos latifundiários. Com os assentamentos de pequenos agricultores e de agricultores familiares eles fortalecem a tendência de expansão da agroecologia.

O ICV é um dos nossos parceiros na luta por uma agricultura socialmente justa e ecologicamente responsável – contanto que, em ambos os lados do Atlântico, continuemos críticos em relação ao significado de “responsável”. Afinal, Wervel significa, por extenso: “grupo de trabalho por uma agricultura justa e responsável”.

Cuiabá, 11 de abril de 2012.

P.S.: No aeroporto de Cuiabá, moças encantadoras tentam me vender um cartão Visa. Um Mastercard não é suficiente. Visa é melhor nesse novo El Dorado. No balcão do check-in há um grande outdoor da “Colonizadora Sinop” (www.gruposinop.com.br), como a nova metrópole do Mato Grosso. Sinop, uma cidade que gira em torno da soja e um projeto dos paranaenses. No mapa em torno de Sinop dá para ver que o norte do Mato Grosso de fato foi e é colonizado por paranaenses: Paranaíta, Novo Horizonte do Norte, Ipiranga do Norte, Nova Maringá, Boa Esperança do Norte, Terra Nova do Norte…

Na sala de espera há uma grande foto com um campo de soja que parece infinito. Ela mostra os agricultores sendo atualizados por extensionistas sobre os benefícios do novo futuro: “FMC: Fazendo Mais pelo Campo”. A gente enxerga no campo o seu desenvolvimento.

(1) Veja: www.icv.org.br

(2) Veja: www.obt.inpe.br/deter.

(3) Legal! Otimismo – Realidade – Esperança (Curitiba: Gráfica Popular /Cefuria, 2012).


[1]

                 Nota da tradutora: Greenwashing [literalmente, “lavagem ecológica”, por analogia com “lavagem de dinheiro”] é um termo utilizado para designar um procedimento de marketing utilizado por uma organização (empresa, governo etc.) com o objetivo de dar à opinião pública uma imagem ecologicamente responsável dos seus serviços ou produtos, ou mesmo da própria organização. Nesse caso, a organização tem, porém, uma atuação contrária aos interesses e bens ambientais (Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Greenwashing; consultada em: 10/4/2013).